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A primeira paisagem cultural do Ceará

Integrar a lista estadual é um passo para fortalecer a candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade. Proposta será enviada ainda este ano.

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A Chapada do Araripe é um acidente geográfico e sítio paleontológico localizado na divisa dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. A chapada abriga uma floresta nacional, uma área de proteção ambiental e um geoparque.

 

A Chapada do Araripe deve ser o primeiro lugar reconhecido como Paisagem Cultural do Ceará, pelo Estado. Um projeto será enviado à Assembleia Legislativa pelo governador Camilo Santana, onde será apreciado pelos deputados, que cria esse reconhecimento. A iniciativa pioneira é uma estratégia para encorpar sua candidatura como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A iniciativa começou em agosto de 2019 com o Seminário Chapada do Araripe Patrimônio da Humanidade, realizada em Nova Olinda. Dali, foi lançado o comitê intersetorial, que deu início aos trabalhos técnicos, formado por representantes da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), da Universidade Regional do Cariri (Urca), do sistema Fecomércio, da Fundação Casa Grande, do Geopark Araripe, entre outros.

 

A Chapada do Araripe: levantamentos iniciais mapearam bens em 29 municípios, naturais e culturais

 

INCLUSÃO NA LISTA NACIONAL

Em fevereiro do ano passado, este grupo enviou um ofício junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) solicitando que seja apreciada a inclusão na lista nacional.

Entre os locais que já foram alçados como Patrimônio Cultural e Natural do Brasil e que também foram reconhecidas pela Unesco estão a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, o Centro Histórico de Olinda, Pernambuco, o Centro Histórico de Salvador, Bahia, o Plano Piloto de Brasília, no Distrito Federal, o Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, a cidade do Rio de Janeiro, Paraty e Ilha Grande, que inclui parcelas do território dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Com apoio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), um projeto na ordem de R$ 700 mil para elaboração do dossiê exigido pela Unesco, foi iniciado em agosto do ano passado. O trabalho é realizado por 12 pesquisadores.

29 MUNICÍPIOS, NATURAIS E CULTURAIS

“Os levantamentos iniciais mapearam bens em 29 municípios, naturais e culturais. Portanto, temos alguns dados bastante relevantes”, ressalta o professor Patrício Melo, que lidera a pesquisa com apoio técnico da pesquisadora Conceição Lopes, da Universidade de Coimbra, em Portugal.

 

 

Os grupos de reisado catalogados em Juazeiro do Norte entram como importante elemento cultural presente na Chapada do Araripe.

Entre os dados coletados estão, por exemplo, os 22 grupos de reisado catalogados em Juazeiro do Norte. Do ponto de vista do patrimônio natural, também foi feito um levantamento tal como dos sítios arqueológicos. “Tem uma grande quantidade em municípios com proteção tímida, com Abaiara e Brejo Santo. Um patrimônio também representativo em cidades como Farias Brito e Caririaçu”, completa o pesquisador. A primeira versão deverá ficar pronta ainda neste mês e será apresentada como base para receber a chancela a nível estadual, até agosto deste ano.

O secretário de Cultura do Estado, Fabiano Piúba, acredita que este reconhecimento a nível local é um degrau importante para a inclusão na lista do Iphan. Já a candidatura junto à Unesco, depende de uma indicação do Brasil, através do próprio órgão. Inclusive, uma visita de técnicos do Instituto ao Cariri estava prevista para março e abril do ano passado, mas por causa da pandemia da covid-19, teve que ser adiada.

Em fevereiro deste ano, um novo pedido foi enviado à Brasília, mas sem retorno, até agora. Nele, a Secult pede novas visitas técnicas e encontros virtuais. “Ainda estamos aguardando a resposta”, explica Piúba.

NOVO SEMINÁRIO NO SEGUNDO SEMESTRE

O Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (Coepa) convocou audiência pública para apresentar a primeira versão do dossiê. No segundo semestre deste ano, está previsto para acontecer um novo seminário, onde serão comunicados às instituições e à população os avanços da candidatura até agora. “Até para que possam se apropriar da discussão”, reforça Patrício.

A ideia é que neste segundo ano de trabalho, os pesquisadores se dediquem a corrigir eventuais apontamentos da primeira versão do dossiê e discutam o planejamento da gestão da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade. A apresentação formal junto à Unesco está prevista para 2023.

 

As famosas fontes naturais em Barbalha

 

 

PAISAGEM CULTURAL DO CEARÁ

“A escolha por 2023 é por várias questões. A primeira, que para ser viável, precisa estar na lista nacional. Acreditamos que, até lá, seja tempo suficiente para ser apreciado junto ao Iphan, que no primeiro momento ficou entusiasmado com a documentação que apresentamos. Isso deixou a equipe otimista”, lembra o professor da URCA.

Caso a candidatura da Chapada do Araripe não seja aprovada, Patrício acredita que o reconhecimento estadual, pela consequente a criação do projeto de Paisagem Cultural do Ceará, de forma pioneira, já traz benefícios. “A cultura e a Chapada já são reconhecidas pela comunidade local e científica. Mas a construção do dossiê criou uma agenda de proteção deste patrimônio”.

DEFINIÇÃO de PATRIMÔNIO CULTURAL

A Unesco define o Patrimônio Cultural e Natural em três classificações: Paisagem Associativa, Paisagem Evolutiva Relíquia Fóssil e a Paisagem Evolutiva Viva. No caso da Chapada do Araripe, ela se enquadrará nesta última, que aponta a “co-relação entre homem e natureza”.

“A perspectiva é conectar a existência da cultura com os povos que por aqui viveram pelo patrimônio natural, rios, florestas. Evolutiva viva porque essa passagem humana criou um sistema de cultura que tem manifestações no território através da arqueologia, interpretação mística dos fósseis”, explica Patrício.

Na interpretação dos pesquisadores, os resquícios da cultura ancestral estão preservados, mesmo no século XXI. Um exemplo está na manifestação da banda cabaçal dos irmãos Aniceto. “A dança representa um caboclo tentando domar um enxame de abelha. Isso faz com que a paisagem vá evoluindo”.

Um dos idealizadores da candidatura, Alemberg Quindins, que ao lado da arqueóloga Rosiane Limaverde criou a Fundação Casa Grande, de forma filosófica, acredita que a Chapada do Araripe reúne o território do “Kariri com K”, reforça de forma enfática, em referência à nação indígena que viveu na região. “A federalização do Brasil transformou a Chapada do Araripe de uma mesa para um muro, que separou a cultura que vive no entorno. Mas sempre existiu um povo envolto desse oásis que aqui proporcionava”, compreende.

LUIZ GONZAGA E LAMPIÃO X PADRE CÍCERO E PATATIVA DO ASSARÉ.

Como um lugar que compreende o Ceará, Pernambuco e Piauí e tem no seu entorno a Paraíba, Alemberg acredita que “o que foi politicamente dividido, culturalmente nunca foi”, enxerga. De um lado, Luiz Gonzaga e Lampião, do outro, o Padre Cícero e Patativa do Assaré.

“A Chapada é o epicentro deste território. Dela, nasce a Bacia do Araripe, em que estão sítios arqueológicos e paleontológico. Em sua borda, tem todos os valores, como a Pedra do Reino. Isso é muito interessante. Quantos nordestinos vem ao Juazeiro? Em todo lugar você vê uma estátua do Padre Cícero. Com os romeiros, se carregam as lendas da Batateira, da Mãe D’água. A Chapada é um resumo do Nordeste”, define.

O QUE ESSE RECONHECIMENTO REPRESENTA?

“O reconhecimento do Cariri como patrimônio cultural aqui, nós já temos. O que estamos ofertando é o reconhecimento para o mundo, para a humanidade”, acredita o titular da Secult. Fabiano Piúba ilustra que a inserção do território junto à Unesco traz quatro principais fomentos: político, ambiental, turístico e educativo. “Cria uma agenda de desenvolvimento, porque temos que apresentar um plano de gestão”, completa.

A política da cultura seria beneficiada pelo fomento das artes e tradições populares. “Cultura é economia. Gera riqueza. Essa manifestação cultural ajuda o desenvolvimento das pessoas”, reforça. Do ponto de vista ambiental, o plano de gestão estimularia a preservação das riquezas naturais, como as fontes naturais e a Floresta Nacional do Araripe.

“A Chapada é um livro deitado que conta a história do mundo a partir da paleontologia, da arqueologia”

 

Araripe na língua tupi significa “lugar das araras”. Sua riqueza natural é tamanha que a chapada abraça os biomas Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado. O Sistema Fecomércio Ceará, pelo SESC, incentiva e apoia o projeto da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade.

 

OPÇÃO DE TURISMO SUSTENTÁVEL

Outra e importante alternativa é o turismo. “Mas não um turismo convencional. Um turismo sustentável e cultural. Turismo que vão oferecer experiências. Conhecer e se reconhecer. Valorar a experiência de pertencimento ou de descoberta”, adverte o secretário.

Neste trabalho, entra um circuito que vai desde os bens culturais como o Centro Cultural do Cariri, que está sendo construído no Crato, ao Mirante do Cruzeiro em Barbalha, onde foi instalado o teleférico. Por último, vem a educação patrimonial. “A gente só se preserva quando a gente educa. É um projeto que as pessoas, os municípios, estarão dentro do plano de gestão. Nele, ações que estimulem a preservação, a reeducação”, completa.

A candidatura também vai discutir o desenvolvimento de regiões do entorno, em especial o Pernambuco, mas também pensando em cidades do Piauí e Paraíba. “Para nós, o patrimônio tem que ofertar inclusão e distribuição de renda. Do que adianta criar um patrimônio que só quem tem condições de visitar são os ricos.

As populações têm que ser inclusas, capacitadas. Os valores do lugar sejam sublinhados, apoiados, para quando se tonar patrimônio da humanidade, elas serem as primeiras beneficiadas”, acredita Alemberg Quindins.

 

 

 

 

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DÁ-LHE PETER DRUCKER: O LUXO DE CORRER RISCOS E O LUXO DE NÃO CORRER RISCOS

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Ouvi falar de Peter Drucker (1909-2005), pai da administração moderna, e fui conferir alguns de seus 42 livros publicados. Tão importante quanto, vale muito a leitura dos oito livros que foram publicados sobre seu trabalho e suas ideias. Os livros de Peter Drucker influenciaram muitos empreendedores. Dois confessaram beber na fonte de Peter Druck: Henry Ford (fundador da Ford Motor Company) que utilizou o primeiro best-seller de 1946 o “Concept of the Corporation” para reconstruir sua fábrica no pós guerra, e Bill Gates (o fundador da Microsoft).

 

 

A ideia de capital humano, que reconhece a importância dos funcionários para uma organização, é apenas um dos legados de Peter Drucker. Observador e visionário, Drucker ficou conhecido como o pai da administração moderna, ampliando a perspectiva da sociedade sobre o papel essencial das pessoas para o sucesso de qualquer empresa.

 

 

Uma história importante: quando presidente da General Motors, Alfred Sloan pediu a Drucker para fazer um estudo sobre a GM, que era na época a maior empresa do mundo. Drucker, que levou um ano e meio para finalizar o estudo, propôs algumas mudanças. Ele pregava a autogestão em vez da linha de montagem. Também criticava aspectos econômicos e humanos. Dizia que a linha se movia np ritmo do operário mais lento e assim os mais rápidos se tornavam improdutivos e frustrados. A GM recusou adotar suas ideias. Mas os japoneses não só as aceitaram como as implementaram. E deu no que deu. Nos anos 70, os japoneses tomaram a dianteira do setor.

 

 

VIDA E OBRA DE DRUCKER

Drucker nasceu em Viena, na Áustria, mas foi viver e trabalhar nos EUA, onde plantou os pilares de uma gestão de sucesso.

Peter Ferdinand Drucker explica que o sucesso de uma empresa está nesta mudança de mentalidade: por causa do conhecimento, há cada vez mais trabalhadores externos, temporários ou com dedicação parcial, pois a concentração do negócio inteiro dentro da empresa não funciona mais.

 

DEZ frases de Peter Drucker que gostei muito e vale a pena meditar, diante desta brutal incompetência do governo de plantão:

 

  1. – “O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito”.

 

  1. – “Uma pessoa jamais deve ser elevada à condição de líder, se ela foca nas outras pessoas os pontos fracos, ao invés dos pontos fortes”.

 

  1. – “Os elefantes demoram a se adaptar, já as baratas sobrevivem em qualquer ambiente”.

 

  1. – “A meta do marketing é conhecer e entender o consumidor tão bem, que o produto ou serviço se molde a ele e se venda sozinho”.

 

  1. – “Existem dois tipos de riscos: Aqueles que não podemos nos dar ao luxo de correr e aqueles que não podemos nos dar ao luxo de não correr”.

 

  1. – “Gerenciamento é substituir músculos por pensamentos, folclore e superstição por conhecimento, e força por cooperação”.

 

  1. – “Tudo que pode ser medido pode ser melhorado”.

 

  1. – “O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito´.

 

  1. – “A má organização é outra causa comum da perda de tempo. O seu sintoma é um excesso de reuniões”.

 

  1. – “Quanto menos dados precisarmos, melhor a informação”.

 

 

PETER DRUCKER E BRASÍLIA

Peter Drucker conhecia bem o Brasil. Além dos seminários e conferências, ele tinha admiração especial por um brasileiros e duas empresas brasileiras. As empresas: a Embraer e a Petrobras. E o brasileiro era ninguém menos do que o ex-presidente Juscelino Kubitschek. O ex-presidente e fundador da Embraer lembra em seus escritos: “Drucker era fascinado pela história da Embraer e de como um país em desenvolvimento, como o Brasil, pôde desenvolver uma indústria de ponta que veio a competir com as nações mais industrializadas do mundo neste complexo segmento do mercado”.

Da mesma forma, Peter Drucker considerava extraordinário o desenvolvimento da Petrobrás e seu potencial energético.

No final dos anos 50, Peter Drucker visitou o Brasil e esteve com o presidente JK. Ele não só apoiou a decisão de construir Brasília, como numa entrevista deixou sua opinião sobre a transferência da capital do litoral para o Planalto Central: “A construção de Brasília foi o acontecimento mais importante no país contemporâneo. Brasília criou um Brasil diferente, voltado para seu interior”.

Otimista com o futuro brasileiro, ele afirmou não concordar com a visão (mais em voga em fins dos anos 90) de que o Brasil havia fracassado em sua ânsia de se tornar uma nação desenvolvida. “Conheço os tremendos problemas brasileiros, mas houve enorme progresso, tanto social como econômico, mas, principalmente, psicológico no aumento da autoestima”.

 

 

 

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FLORES NOSSA DE CADA DIA Para não dizer que não falei das flores

O Brasil produz 8% da produção mundial de flores. São mais de 15 mil hectares, movimentando cerca de R$ 15 bilhões.

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As flores transformam uma casa em lar. Vale para o agronegócio e vale para o país A capacidade de sedução das flores é fundamental para a reprodução e a sobrevivência da planta. As flores são belas e perfumadas para seduzir seus polinizadores: insetos, aves e morcegos. Até os humanos são atraídos pelo perfume e pela beleza das flores, capazes de um verdadeiro encantamento. Eles seguiram o exemplo dos vegetais. Em sinal de afeto, amor e paixão, oferecem flores. Para seduzir, perfumam-se com fragrâncias e aromas retirados das flores.

Diversos papiros do Egito antigo atestam a fabricação de perfumes e unguentos aromáticos a partir de lírios e várias flores. São muitas menções a perfumes na Bíblia. É emblemático o gesto da mulher rompendo um vaso de alabastro, repleto de perfume de nardo, lá das proximidades do Himalaia, e derramando-o sobre Jesus, ungindo-o da cabeça aos pés (Mt 26,7). No passado, os perfumes eram extraídos de rosas, jasmins, lírios, laranjeiras e outras flores através do vapor, da fumaça. Daí a origem latina da palavra: per fumum, “pelo fumo”, pela fumaça, pelo vapor. E por meio de borrifadas vaporizadas, per fumum, as fragrâncias ainda se espalham no corpo humano e no ambiente.

 

 

Qual é o aroma que traz paz, conforto e prazer ao coração? No passado, os perfumes eram extraídos de rosas, jasmins, lírios, laranjeiras e outras flores através do vapor, da fumaça. Daí a origem latina da palavra: per fumum, “pelo fumo”, pela fumaça, pelo vapor.

 

 

HISTÓRIA DA QUÍMICA DE PERFUMES
O Livro da Química de Perfumes e Destilados, escrito pelo químico árabe Alquindi no século 9, apresenta centenas de receitas de óleos de fragrâncias, águas aromáticas ou imitações para drogas caras, além de mais de uma centena de métodos e receitas para a perfumaria. Essa presença árabe segue no nome de instrumentos da produção de perfumes, como alambique. No século 10, o médico e químico persa Avicena sistematizou a extração de óleos de flores pela destilação. Seus ingredientes e sua tecnologia da destilação marcaram a perfumaria ocidental até hoje.
A produção de flores é uma das obras-primas praticadas por pequenos agricultores. No Censo Agropecuário do IBGE de 2017, dos 5 milhões de estabelecimentos agropecuários recenseados no Brasil, 12.000 declaram ser floricultores ‘lato sensu’ (flores, folhagens, mudas, sementes…), presentes em quase metade dos municípios brasileiros (mapa 1).

 

Parte significativa desses floricultores possui uma organização empresarial e tecnológica avançada e intensiva. Atividade competitiva, nessa floricultura moderna estão mais de 8 mil floricultores profissionais. Seus cultivos têm área média de 1,5 hectare, segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura. A área total da floricultura ultrapassa 15 mil hectares. Parece pouco, comparado à de soja ou milho. Não é. A área mundial é da ordem de 190 mil hectares. A brasileira representa cerca de 8%.

PRONAF E OS FLORICULTORES
Além desse grupo, existe uma fração de floricultores, de 3 mil a 4 mil, em escala muito local, menos integrada aos mercados. Segundo pesquisa da Embrapa Territorial, em janeiro de 2022, dos pequenos agricultores com Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), 3.152 declararam-se produtores de flores, além de outras atividades, com expressiva presença no Nordeste e até na Amazônia (mapa 2).

 

No Brasil, aproximadamente 9% das flores e plantas são cultivadas em estufas, 3% sob telados ou sombrite e 88% em campo aberto ou ao ar livre. Das 350 espécies e suas 3 mil cultivares, nativas e exóticas, 30% são flores e folhagens de corte, 39% são plantas e flores de vaso e 31% plantas ornamentais e para paisagismo.

EMPREGOS NA FLORICULTURA
Intensiva em capital e mão de obra, a floricultura emprega, em média, 3,8 trabalhadores por hectare. A cadeia de produção e comercialização envolve diretamente 200 mil pessoas: 50% nas propriedades, 40% no varejo, 4% na distribuição e o restante em atividades complementares. Nas pequenas propriedades, apenas 20% da mão de obra é familiar, os outros 80% são contratados. Boa parte da mão de obra é feminina. As mulheres demonstram maior destreza, habilidade e cuidado no manuseio de flores e plantas. Floriculturas vendem beleza e embelezamento, associados à presença de mulheres nos pontos de venda.

 

 

HOLAMBRA – junção das palavras HOLanda, América e BRAsil – é conhecida como a “Capital Nacional das Flores”, está a 140 km da cidade de São Paulo.

A Lei de Proteção de Cultivares, de 1997, viabilizou a entrada no mercado brasileiro de novos cultivares e lotou as prateleiras de floriculturas e pontos de venda com uma gama ampla de cores e formatos até então desconhecidos dos brasileiros, aumentando a oferta e a diversidade.

FLORES EM VALORES
O valor bruto da produção passou de R$ 0,3 bilhão, em 2004, para R$ 11 bilhões, em 2021. São Paulo responde por praticamente 70% desse valor. O consumo de flores cresceu, no mesmo período, de R$ 15/habitante/ano para cerca de R$ 65 (US$ 12), ainda muito aquém do consumo na Suíça (US$ 174), na Alemanha (US$ 98), na França (US$ 69) e nos EUA (US$ 58).
O faturamento do setor cresce entre 12% e 15% anualmente. São cerca de 600 empresas atacadistas no mercado de flores e mais de 25 mil pontos de venda. Mais da metade do consumo se concentra no Estado de São Paulo e 85% no Sudeste. O mercado nacional absorve 97,5% da produção. Só uma pequena porcentagem é destinada à exportação.
Os principais polos de produção estão no Estado de São Paulo, em Arujá, Atibaia, Holambra e Ibiúna. Outros em Andradas, Barbacena, Munhoz (MG); Nova Friburgo, Petrópolis, Serra da Mantiqueira (RJ); Vale do Caí (RS); Joinville (SC); e Serra da Ibiapaba (CE). Flores e folhagens tropicais são produzidas em localidades no litoral do Nordeste (AL, PE, RN e BA).

 

FLORES E A PANDEMIA
Ambiente de trabalho ornado com flores não é mais exclusividade de mulheres. Homens presenteiam e são presenteados com flores
A floricultura sofreu com os lockdowns no início da pandemia: cancelamento de festas, casamentos, batizados, bodas e outros eventos. Houve queda brutal na demanda por decoração com flores de corte (rosas, crisântemos, astromélias, lírios…). O tratamento do consumo de flores como algo supérfluo no início da pandemia foi revertido graças a campanhas intensas dos produtores, sobretudo no varejo, em supermercados e floriculturas.
Pessoas em ‘home office’, confinadas, buscaram maior reconexão com a natureza. Os floristas propuseram opções: da decoração com flores e até no cultivo limitado de plantas ornamentais, para tornar o ambiente de trabalho mais prazeroso e dar maior aconchego e bem-estar às casas. Durante o isolamento, a jardinagem passou a ser praticada nas casas e se tornou um hobby de muitos brasileiros. Isso ampliou e diversificou a demanda. E exigiu novas soluções em buquês, ramalhetes e plantas, além do comércio de vasos, ferramentas, pequenos sistemas de irrigação, estufas e outros. Flores de vaso, orquídeas, suculentas, cactos, antúrios e até bonsais ampliaram as vendas.

 

 

Barbacena, em Minas Gerais, é um importante polo de produção de rosas.

 

 

JARDINAGEM E PLANTAS
Jardinagem e plantas para decoração ajudaram no crescimento do mercado de flores entre 2020 e 2021. E, mesmo com o recuo da COVID, jardins e ambientes com flores ainda se mantêm. Somaram-se a essa demanda, novos hábitos. Ambiente de trabalho ornado com flores não é mais exclusividade de mulheres. Homens presenteiam e são presenteados com flores.
A floricultura e os floristas investiram e inovaram em comunicação e comércio digital. Criaram sites, ampliaram sua inserção em redes sociais, telemarketing e aperfeiçoaram os serviços de delivery. Cresceu a venda no varejo. Floristas já eram pioneiros em entrega de flores em domicílio, mesmo à distância. Agora, ganharam uma escala maior e mais sofisticada.

OS MÊSES DAS FLORES
Após as perdas, as vendas de 2021 superaram as de 2020 e, em alguns segmentos, até de anos anteriores. A demanda cresceu. Maio é um mês das flores, com o Dia das Mães. Junho também, com o Dia dos Namorados. As duas festas somam quase 40% das vendas ao longo do ano. Aqui, o Dia dos Namorados é na véspera da festa de Santo Antônio, e não no dia de São Valentino.
Associar flores, namorados e Santo Antônio é natural. Ele foi um pregador culto e apaixonado, com grande devoção aos pobres. Veneradíssimo no Brasil como o santo dos amores e dos casamentos, ele abre o ciclo das festas juninas. Ao tornar-se monge, ele adotou o nome Antônio ou “flor nova”, anto nous: do grego ánthos “rebento, broto, flor”, presente em antúrio, e da expressão latina novus “novo”. Antônio foi mesmo uma nova floração para o Cristianismo na Europa e um expoente da Ordem dos Franciscanos.

Na floricultura, todo dia se planta e se colhe. A busca da perfeição é absoluta. Não pode haver defeito ou mancha nas flores. Se não, são descartadas. Esse perfeccionismo é associado à sustentabilidade. Nas estufas, se a temperatura sobe demais, o floricultor a resfria, e vice-versa. A água gerada pelos sistemas de refrigeração ou das chuvas é recuperada e utilizada na produção. Cada vez gasta-se menos água por vaso produzido, graças à eficiência dos sistemas de irrigação, à gestão dos melhores horários para irrigar etc. O setor investe muito em energia solar. Teme falta de energia ou um fornecimento de má qualidade, capaz de comprometer seus equipamentos sofisticados.

 

 

Uma frase conhecida dos floristas foi adotada por muitos. As flores transformam uma casa em lar. Vale para o agro e para o país.

 

Em São Paulo, a Feira Internacional de Paisagismo, Jardinagem, Lazer e Floricultura reúne mais de 200 expositores nacionais e internacionais. Outros cartões-postais da floricultura são a Expoflora, em Holambra (SP), e a Festa das Flores de Joinville (SC). Esses eventos técnicos e turísticos reúnem milhares de produtores, fornecedores de equipamentos, insumos e centenas de milhares de visitantes. Como as feiras agropecuárias e as de peão, as festas das flores são vitrines para o consumidor urbano da potencialidade da agropecuária e dos pequenos agricultores tecnificados.

 

Para não dizer que não falei das flores - Revista Oeste

Flor Pink Rose, em Holambra. Foto: Tamy Atamay/Shutterstock

 

Uma frase conhecida dos floristas foi adotada por muitos. As flores transformam uma casa em lar. Vale para o agro e para o país.

 

 

 

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