“Tive o privilégio de viver os Anos Dourados.
Tínhamos que correr atrás do Brasil.
O presidente JK, com sua energia e sua ousadia,
conseguiu substituir o hábito do sofrimento pela pedagogia do prazer.
O brasileiro passou a ter autoestima”.
Cacá Diegue
Em 22 de agosto de 1976, o Brasil dormiu um domingo triste. Acordou em sobressaltos. A notícia de que um Opala metálico, atravessou a pista e bateu de frente com uma carreta com placa de Orleans-SC, pegou os brasileiros de surpresa. Um pesadelo. Entre os ferros retorcidos estavam os corpos do ex-presidente JK e de seu fiel motorista Geraldo Ribeiro. Lá se vão 45 anos de um acidente sempre mal explicado, mesmo porque nem perícia foi feita.
Se hoje lamentamos sua partida, quando ainda tinha muito a oferecer ao Brasil, no próximo dia 12 de setembro temos que celebrar uma data de vida: os 119 anos de nascimento do ex-presidente.
Cada um é curador de sua própria história, da história de sua família e de sua pátria. Na minha curadoria pessoal, gosto de dividir a História do Brasil em três grandes momentos: o Descobrimento, a vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 e o governo do presidente Juscelino Kubitschek.
JK, a seu modo, sacudiu a vida administrativa, política e cultural do Brasil. Seu governo plantou hidroelétricas, plantou estradas, plantou bom humor e plantou compromissos: cumpriu todas as 31 metas prometidas durante sua campanha à Presidência. JK plantou indústria automobilística e plantou magnanimidade, perdoando revoltosos e inimigos políticos. JK plantou Brasília. O Brasil colheu um novo País.
O Centro-Oeste não produzia nem um grão de soja em 1970. Hoje é responsável por 48,3% da produção nacional. A soja avançou sobre novas fronteiras e levou junto a cultura do milho. A produção de milho na região – antes de Brasília – era inferior a 9%. Atualmente representa 54,36% da safra nacional. Essas duas culturas levaram uma promissora cultura empreendedora em outros setores: pecuária, frutas, café, arroz, feijão, trigo. Centenas de pequenos povoados nasceram no vazio do Cerrado e transformaram-se, nestes últimos 61 anos, em cidades de pequeno, médio e grande porte com excelentes índices de IDH. Na Era JK, o Brasil colheu efervescência cultural. O Brasil colheu a primeira Copa do Mundo, colheu Bossa Nova, Cinema Novo. Colheu alegria. O povo brasileiro colheu o sentimento de que é capaz construir o que parece impossível.
JK plantou Democracia. E o Brasil colheu Paz!
Carlos Lacerda, o grande líder a UDN, quando soube da morte de JK fez uma declaração enfática: “Fiz muitos discursos contra Brasília e contra JK. Celebram-no, hoje, por ter feito Brasília. Mas há que celebrá-lo muito mais por ter demonstrado aos brasileiros que a Democracia é possível. E, desde que possível, indispensável. Ele disse, certa vez, que Deus o privara do sentimento do medo. Poderia ter acrescentado que também o privou da capacidade de invejar e de odiar”.
O ex-presidente JK foi um construtor de sonhos. No poder foi exemplo de empreendedorismo e generosidade. Fora do poder, foi exemplo de luta pela Democracia. E, no exílio, foi um brasileiro que só pensava em Brasil, usando até seu prestígio internacional para exaltar sua pátria e trazer investimentos para seu país.
JK não merecia tanta injustiça. Mas sua grande popularidade e sua pretensão de voltar à presidência em 1965 (JK 65) impuseram-lhe uma perseguição implacável do regime militar. Os anos passaram. JK virou unanimidade. Como bem lembra o historiador e jornalista Élio Gáspari, “Hoje, todos os políticos brasileiros querem ser um JK quando crescerem. Um dia, talvez, algum consiga. Desde que aprenda uma lição: JK jamais disse uma má palavra dos brasileiros ou do Brasil. Foi um visionário que acreditou em ambos”.
Juscelino faleceu em 22 agosto de 1976, mas seu sofrimento começou dia 8 de junho de 1964, quando teve cassado seu mandato de senador por Goiás. Em 13 de junho, JK partiu para o exílio. Declarou: “Deixo o Brasil porque esta é a melhor forma de exprimir meu protesto contra a violência política e moral”.
Durante mil dias ficou exilado. Em Paris, tinha uma cozinheira que não deixava esquecer suas origens: dona Diamantina. Mas mesmo tendo Diamantina tão perto, não se sentia nada feliz e muito menos à vontade: “Não posso deixar de confessar que viver fora do meu País, sem saber quando será possível o regresso, é o castigo mais cruel imposto a um homem que só pensa no Brasil”.
Relembrar e resgatar um pouco das histórias e dos sofrimentos pelos quais JK passou é também um exercício de Democracia e lição de vida. É mais uma homenagem ao maior dos Presidentes da República do Brasil.
À nova geração, o escritor Josué Montello explica: “JK foi o que soube ser na hora solar de sua grandeza: homem do povo, expressão do povo, sentimento e alma do povo brasileiro”.
Médico, democrata, magnânimo, realizador, seresteiro e sonhador, JK teve que passar por muitas provações antes de virar nacionalmente admirado, exaltado e imitado como empreendedor e político do bem. Valeu, Presidente JK.
Obrigado, JK!