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Construindo a Paz
Nobel tem seis categorias anuais: Paz, Física, Química, Medicina, Literatura e Economia
Construir a paz é saber liderar um grupo, deixando de culpar os outros, para assumir as responsabilidades que provocam mudança. O conceito de paz implica na ausência de violência. Implica em luta pelo respeito à justiça social, econômica e religiosa, aos direitos humanos e às conquistas que buscam mitigar a pobreza, a fome e as desigualdades. Sem comida não há paz. O símbolo mundial da paz e o maior líder pacifista da história moderna não foi contemplado com o Prêmio Nobel da Paz. Sim, precursor da filosofia “Satyagraha” ou “Verdade-Firmeza”, o indiano Mahatma Gandhi, que conseguiu a independência da Índia em 1947, não recebeu essa honra. O fato diminui a premiação? Não! Mas mostra que também ela sofre por interesses políticos dos mais diversos.

Em 10 de dezembro de 1901 houve a primeira entrega oficial do Prêmio Nobel da Paz, criado por Alfred Nobel. Como entender que um fabricante de armas criou o maior prêmio de reconhecimento por iniciativas que visem a paz? Vale lembrar: no final da vida, Alfred Nobel (1833-1896) sentiu-se incomodado pelo uso feito de seu invento: a dinamite. Paradoxalmente, graças a sua revolucionária invenção, milhões de pessoas no mundo morreram pelas bombas e outros artifícios de guerra. Mas, a história mostra que essa nunca foi a intenção de Alfred Nobel. Ele ganhou fortunas, mas perdeu as esperanças quando o homem fez de sua invenção uma máquina de matar. Ao morrer, fez o testamento destinando sua fortuna para a “The Nobel Foundation”, que incentivaria aqueles que alcançassem avanços de “grande benefício para a humanidade”.
COMO FUNCIONA A ESCOLHA DOS PREMIADOS
A escolha do Prêmio Nobel funciona assim. Existem seis categorias do prêmio: Paz, Física, Química, Medicina, Literatura e Economia. Cada categoria tem seu próprio comitê especializado. Esse comitê tem a missão de solicitar, receber e analisar indicações de candidatos feitas por professores, cientistas e acadêmicos. Cada ano são centenas de indicações. Cada comitê escolhe os finalistas obedecendo seus próprios métodos.
Por que não há Prêmio Nobel para a Matemática? Bem, essa é uma boa história. A Matemática ficou de fora. Apesar de extensas especulações, não se sabe com certeza o porquê dessa omissão. E para matemática não ficar fora do movimento dos grandes e prestigiados prêmios, matemáticos de várias partes do mundo, no congresso mundial de matemática de 1924 em Toronto, no Canadá, decidiram criar duas medalhas de ouro para reconhecer o mérito dos matemáticos que se destacarem.
E O PRÊMIO NOBEL DE MATEMÁTICA?
As especulações do porquê que Alfred Nobel não deixou um prêmio para a Matemática são muitas. A mais comum, embora não tão bem fundamentada, é por ele ter se decepcionado com uma mulher com a qual tinha uma relação amorosa séria. Segundo especulações, ela o rejeitou por um outro sueco, o famoso matemático Gosta Mittag-Leffler. Alfred não sublimou essa perda.
E por que o Nobel da Paz é concedido em Oslo, na Noruega? Esta e outra questão que desperta curiosidade e que ganha asas no mundo das especulações. De fato, Alfred Nobel deixou explícito que o Prêmio da Paz deveria ser entregue em Oslo e não em Estocolmo. Segundo Turill Johansen, ex-secretária da Fundação Nobel, ninguém sabe a verdadeira razão. Mas especula-se que na época, a Noruega pertencia à Suécia e Alfredo parecia gostar dessa união. Então preferiu deixar por escrito, em 1895, seu desejo de que o parlamento norueguês selecionasse o comitê responsável pelo Nobel da Paz.
PRÊMIO NOBEL DA PAZ
O Prêmio Nobel da Paz é o mais famoso, mais prestigiado e o mais conceituado de todos. Tem uma história de 121 anos. Hoje é a comenda mais valorizada da História, tanto que a simples indicação ao Nobel da Paz já é um título de distinção. A premiação, concedida por méritos, já foi dada 817 vezes a indivíduos e 23, a organizações. Pouquíssimos ganharam mais de uma vez – no total, foram 813 pessoas e 20 entidades.
O Brasil nunca teve um Prêmio Nobel. E não é por falta de trabalho. (Ver outras três matérias nesta edição BRASIL E O PRÊMIO NOBEL). Mas neste lacar, a Argentina ganha do Brasil de 5 a zero. O país mais premiado com o Nobel é os Estados Unidos.
E o Brasil? Ah! O Brasil ainda reclama muito de nenhum de seus cidadãos ter recebido essa indicação. Daí, a importância do ato registrado neste mês de janeiro em Oslo, na Noruega. Em nome da paz foi protocolado no Conselho Norueguês do Nobel (The Norwegian Nobel Committee), o nome do ex-ministro Alysson Paolinelli para o Nobel 2021. A indicação partiu de entidades brasileiras, capitaneados pelo Diretor da ESALQ – Escola Superior Agricultura Luiz de Queiroz, professor Durval Dourado Neto, pela USP – Universidade de São Paulo, e pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, professor e coordenador do Centro de Agronegócio na Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas e Embaixador Especial da FAO para as Cooperativas.
Vale lembrar o próprio professor Alysson Paolinelli: “sem comida não há paz. Sem paz não há harmonia nem desenvolvimento social e econômico”.
JORGE HENRIQUE CARTAXO
Especial para o Correio
“O presidente JK que trouxe meu pai para construir esta cidade. Eu vim junto com meu pai. JK será eterno porque mudou a minha família, mudou o Brasil, e eu tenho que agradecer aqui ao meu amado presidente. Custe o que custar!”
O pequeno e emocionado discurso do policial militar que rompeu as mãos dadas — para acalentar suas palavras — com as mais de duas dezenas de companheiros que cercavam, em proteção, o túmulo ainda aberto de Juscelino Kubitschek no Campo da Esperança foi a última e inesperada saudação ao fundador de Brasília antes que o corpo do grande estadista fosse guardado e entregue ao silêncio eterno, no longínquo 23 de agosto de 1976. A noite escura abraçava o cemitério de Brasília apinhado de candangos que, numa algaravia comovente, entre a tristeza, a revolta e a saudade, pranteavam o último adeus a JK. Todos seguiam as luzes difusas das câmeras de TV que se dirigiam ao jazigo, em busca do último registro da lamentável e indesejada cena histórica.
O jornalista Silvestre Gorgulho, à época assessor do então ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, estava na Catedral de Brasília naquela tarde melancólica, quando o esquife com o corpo de JK deixou o nosso primeiro templo e seria acondicionado sobre um carro do Corpo de Bombeiros. Num átimo, os candangos em multidão — cerca de 300 mil — apoderaram-se do corpo de Juscelino e o levaram de mão em mão, de braço em braço, de ombro em ombro, até o cemitério. Nos longos oito quilômetros que separam a Catedral do Campo da Esperança, parte percorrida pela Esplanada e parte pela W3 Sul, os candangos cantaram Peixe Vivo — a música preferida de JK — e o Hino Nacional, clamaram por Juscelino, silenciaram em preces e espargiram lágrimas de saudades e dor.
“Não houve honras oficiais, nem salões ou palácios da cidade que ele fez construir. Apenas a casa de Deus, as ruas e as orações candangas”, lembra Silvestre Gorgulho, que acompanhou o cortejo da Catedral até o Campo da Esperança e presenciou toda a cerimônia. Essas cenas estão contadas, com vantagens, no livro De Casaca e Chuteiras — A Era dos Grandes Dribles na Política, Cultura e História / 1956 — 1977 / Brasília-JK-Pelé, um brinde de Gorgulho a Brasília.
Primeiro recado
No dia 17 de fevereiro de 1976, o jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, fez uma visita ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, no Rio de Janeiro. “Juscelino, trago um recado do Armando. Militares pretendem coisas dramáticas contra a sua vida”, teria dito Roberto Marinho a um apreensivo, mas sempre sereno JK. Armando Falcão, então ministro da Justiça do governo Geisel, havia sido também ministro da Justiça entre 1956 e a inauguração de Brasília, em 1960. Na foto clássica de JK com Jango e Israel Pinheiro entrando no Palácio do Planalto no final da tarde daquele histórico 21 de abril de 1960, igualmente de casaca, ao lado de Jango, estava lá ele, Armando Falcão.
No sábado, 7 de agosto daquele mesmo ano, uma “notícia” se espalharia pelo país: Juscelino teria morrido num acidente automobilístico na estrada Rio-São Paulo. A imprensa se mobilizou. Dona Sarah foi procurada no Rio. Recluso na sua Fazendinha, em Luziânia, Juscelino foi surpreendido pela visita de uma dezena de fotógrafos e jornalistas movidos pela pauta tenebrosa e, de certo modo, premonitória. Apreensiva, Vera Brant se deslocou de Brasília até Luziânia para conversar com JK. “Juscelino, acho que jogaram esse alarme falso para avaliar que tipo de emoção causaria no país a sua morte. Cuidado, que vão te matar”, vaticinou Vera ao abraçar o amigo ainda perplexo com o vasto ruído.
O desmentido viria na noite do dia seguinte, no programa Fantástico, da TV Globo. A vontade de tirar a vida de JK não era nova na ditadura militar. Em junho de 1968, um grande atentado foi abortado no país. O caso Para-Sar (tropa especial de elite da Aeronáutica especializada em busca, salvamento e operações especiais) foi um plano arquitetado pelo então brigadeiro João Paulo Burnier. As vítimas finais seriam os principais líderes civis do país perseguidos pelo golpe de 1964: Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Dom Hélder Câmara e mais 40 militantes da oposição. Jango estava no exílio.
A primeira fase da operação terrorista consistia em realizar uma série de atentados a bomba tendo como alvo empresas norte-americanas, como o Citibank e a Sears, além da explosão de um gasômetro na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Os crimes seriam atribuídos aos movimentos de esquerda. Estabelecido o caos, os líderes civis seriam sequestrados e mortos. O capitão Sérgio Miranda de Carvalho (um cavalheiro conhecido pela tropa como Sérgio Macaco), convocado para coordenar a operação terrorista, recusou-se a praticar os atos ilegais e denunciou o horror aos seus superiores. A violência pública proposta por Burnier mergulharia nos porões — tortura, sequestros e mortes — com o AI-5, em dezembro de 1968.
Em janeiro de 1971, o assassinato do ex-deputado federal Rubens Paiva no DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, sinalizou a fase do terror da ditadura militar. Somente em 1974, com a vitória do MDB nas eleições gerais de novembro, os limites do autoritarismo assumiriam contornos mais visíveis. É bem verdade que, em agosto de 1974 — cinco meses após a sua posse como presidente da República, em março —, o general Ernesto Geisel, num encontro com os dirigentes da Arena — partido político que dava sustentação simbólica e congressual à ditadura —, anunciou a famosa proposta de distensão política, por ele chamada de “lenta, gradual e segura”.
Como a história republicana assinala, os quartéis nunca foram exatamente harmônicos, disciplinados, amigos das leis e da legitimidade. No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto nas dependências do II Exército de São Paulo, que abrigava o temido DOI-CODI. Herzog havia se apresentado voluntariamente ao general Eduardo D’Ávila Mello no dia 24 daquele mesmo outubro. Em janeiro de 1976, três meses após a morte de Vladimir Herzog, no mesmo II Exército, ainda sob o comando do general D’Ávila, seria morto o operário e sindicalista Manoel Fiel Filho.
Os dois assassinatos atingiram em cheio o governo militar e desafiaram frontalmente o presidente Geisel. O general D’Ávila foi demitido três dias após a morte de Fiel Filho. Na madrugada do dia 14 de abril de 1976, a famosa estilista Zuzu Angel foi esmagada, dentro do próprio carro, na saída do Túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio. Zuzu lutava desesperadamente pelo paradeiro de seu filho, Stuart Angel, preso, torturado e morto pela ditadura em 1971.
No dia 19 de agosto de 1976, uma bomba explodiu na sede da ABI e outro artefato foi desativado na sede da OAB, ambas no Rio. Ainda em 1976, JK seria morto no dia 22 de agosto; o ex-presidente João Goulart morreria em dezembro, também num rastro de suspeitas de atentado. Em maio de 1977 seria a vez de Carlos Lacerda, também em um cenário igualmente suspeito. No dia 12 de outubro de 1977, o presidente Geisel demitiu o então ministro do Exército, general Silvio Frota, um inimigo militante da abertura política e candidato, já em campanha, à sucessão de Geisel. Tornava-se pública a grave crise militar que abalava a ditadura, além da expressiva derrota nas eleições de 1974.
A partir daí, o terror se acentuaria. Dois atentados marcaram a época e se espalham pelo mundo. Em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba explodiu nas mãos da secretária da presidência da OAB, Lyda Monteiro, no Rio, ceifando-lhe a vida. Na noite do dia 30 de abril de 1981, no estacionamento do Centro de Convenções Riocentro, uma bomba explodiu no colo do sargento do Exército Guilherme do Rosário, matando-o, e deixou gravemente ferido o então capitão do Exército Wilson Dias Machado. Naquela noite, Chico Buarque, Gal Costa, Clara Nunes, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Alceu Valença, Beth Carvalho, Moraes Moreira e João Bosco estavam se apresentando para 20 mil pessoas que lotavam o Riocentro. Um “acidente de trabalho” impediu que a tragédia se consumasse. Entre 1978 e 1983, de acordo com relatórios oficiais, a extrema-direita praticou mais de 187 ataques terroristas. Os alvos mais evidentes eram as redações de jornais, as bancas de revistas que vendiam publicações da oposição e as instituições — OAB, ABI… — que se mobilizavam pela redemocratização do país.
Retomando a cena política
Na manhã do dia 20 de agosto de 1976, uma sexta-feira, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcou num avião da Vasp em Brasília com destino a São Paulo. Estavam no aeroporto e no mesmo voo o então senador José Sarney e sua esposa Marly, o ex-senador Franco Montoro e o ex-deputado federal Ulysses Guimarães. O mau tempo em Congonhas obrigou o desvio da aeronave para Viracopos, em Campinas. Durante toda a viagem, Ulysses, Montoro e JK conversaram sobre a conjuntura política do país, que se redesenhava velozmente depois da vitória do MDB nas eleições de 1974. “Hoje está cada vez mais clara a necessidade de normalização da ordem pública. Isso é um desejo de todo o povo brasileiro, à exceção de uns poucos radicais de direita e de esquerda”, disse JK a Ulysses Guimarães em um certo momento daquele último encontro.
Os atentados a bomba que haviam ocorrido na véspera também foram objeto da conversa entre eles. “Tenho sentido uma inquietação crescente nos meios econômicos e bancários com os quais tenho conversado nos últimos tempos”, revelou ainda JK aos dois notáveis interlocutores. O voo inicia o seu procedimento de pouso em Viracopos, naquele final de uma manhã diluviana em São Paulo. Apesar dos temas delicados do diálogo com Ulysses e Montoro, JK não escondia o seu contentamento com a recente retomada da cena pública. No aeroporto havia dado autógrafos. Na decolagem em Brasília, tão logo o avião alcançou a estabilidade dos 10 mil pés, a voz do comandante Sérgio informou: “Tenho o prazer de anunciar que está a bordo o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira”. Os passageiros entoaram aplausos, sinalizando empatia e acolhimento.
Jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne.
Legenda da foto: “Mais de 300 mil pessoas foram dar o último adeus a JK em agosto de 1976.”

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