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Sobram vagas na Educação de Jovens e Adultos

Pandemia levou da sala de aula para o mercado de trabalho; para muitos, voltar aos estudos é preciso

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“Retomar esse processo de escolarização tem muito significado, é o resgate da própria história” – Romênia Rezende , diretora do Centro Educacional 2 de Taguatinga

 

“A força é uma decisão. A gente precisa acordar todos os dias e decidir ser forte”. Foi afirmando isso a si mesmo que Edson Silva Santos, 38 anos, conseguiu voltar à sala de aula, em 2019, para concluir o ensino médio, sonho que precisou deixar para trás quando se viu morando na rua e sem apoio da família, que ficou no Maranhão.

Foi na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), o antigo supletivo, que Edson encontrou muito mais do que livros. Ele achou novo sentido para viver. “Eu pensava que precisava só trabalhar para transformar minha vida, mas nada mudava”, conta ele, que pretende cursar psicologia. “Tive depressão, tentei suicídio três vezes. Mas, quando entrei numa sala de aula e ouvi os professores, tudo mudou”.

 

Como Edson, milhares de pessoas abandonam a escola sem concluir os estudos – ou nem os iniciam. “Retomar esse processo de escolarização tem muito significado, é o resgate da própria história”, observa a diretora do Centro Educacional 2 de Taguatinga (Centrão), Romênia Rezende. A unidade é exclusiva para a EJA e oferece a modalidade nos três turnos.

Recomeço

 

Maria Nildes reconstruiu a vida: “Eu queria, apenas, algo para me distrair; comecei na alfabetização e hoje estou terminando o ensino médio”

Foi com a meta de resgatar a própria vida que a professora Marisa Cardoso do Nascimento, 47 anos, retornou aos estudos em 2012, 20 anos depois de largar a sala de aula para ajudar os pais no comércio, casar e cuidar dos filhos. “Com os filhos crescendo, pensei: preciso fazer algo por mim”, lembra. Assim, criou coragem e se matriculou.

Ela conta que o começo foi difícil, pois se deparou com muitos jovens. “Mas me senti acolhida pelos professores, me apaixonei pela modalidade de ensino”, enumera. Gostou tanto que estudou letras, foi aprovada em concurso para a Secretaria de Educação (SEE) e chegou a dar aula no Centrão, onde estudou.

Segundo Romênia, um dos grandes diferenciais da EJA é o acolhimento. “A gente respeita muito o ritmo do estudante”, ressalta. “A modalidade também é diferente do ensino regular. Em um semestre, ele conclui um ano porque trabalhamos os conteúdos significativos de cada disciplina”.

Estudos e trabalho

Para a angolana Emília Antônio, 24, isso fez muita diferença. Morando no Brasil desde 2020, ela chegou ao segundo ano do ensino médio em seu pais de origem e, por aqui, queria concluir o que ficou faltando. “Foi um período difícil, por eu ser estrangeira, mas o brasileiro é muito acolhedor”, avalia. “Agora, quero estudar psicologia e levar para meu país o que aprendi no Brasil”.

O acolhimento também foi importante para a aluna Maria Nildes, 62. Ela, que não sabia nem ler e enfrentou problemas psicológicos com a perda do primeiro marido, encontrou na escola uma forma de vencer. “Eu queria, apenas, algo para me distrair; comecei na alfabetização e hoje estou terminando o ensino médio”, alegra-se.

A EJA é oferecida em 105 escolas públicas das 14 regionais de ensino

Além do reencontro com a própria história, conforme destaca Romênia Rezende, outro fator de transformação está relacionado ao mercado de trabalho. “Abrem-se novas possibilidades – quanto mais qualificada a pessoa está, mais chances ela tem”, observa.

E ela parece ter razão. Tomando como exemplo apenas as vagas disponibilizadas nas agências do trabalhador do DF em 2021, 58,2% exigiam escolaridade completa dos candidatos, a maioria o ensino médio. Quando destacados os dados de pessoas encaminhadas que foram contratadas, o índice sobe para 74,09%.

Reescolarização

Conhecida popularmente como supletivo, a modalidade EJA tem a função social de assegurar a escolarização dos sujeitos que, historicamente, foram excluídos do direito à educação. A EJA é oferecida em 105 escolas públicas das 14 regionais de ensino.

No DF, a modalidade está dividida em três segmentos. O primeiro corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental, o segundo aos anos finais e, no terceiro segmento, conclui-se o ensino médio. Nesses dois últimos anos, a matrícula é feita por disciplina, e o estudante pode se inscrever apenas para as matérias que conseguir cursar naquele momento.

A idade mínima para entrar no primeiro e segundo segmentos é de 15 anos completos. Para cursar o terceiro segmento, a idade mínima é de 18 anos completos.

As matrículas

Semestralmente, a SEE abre o período de inscrições, por meio de seu site e da Central 156. Porém, lembra a subsecretária de Educação Básica, Solange Foizer, em qualquer tempo o aluno interessado pode fazer a matrícula e já começar a estudar.

“Basta procurar a escola com seus documentos pessoais e histórico escolar”, orienta a gestora. “Entretanto, a falta de documentos comprobatórios de escolaridade não impede a pessoa de ser matriculada. Quando assim, é possível passar por um exame classificatório e, por meio do resultado, ser colocado no segmento que melhor atende, proporcionando, assim, o desenvolvimento de suas potencialidades.”

Ela ressalta que, com a pandemia, a procura pela EJA diminuiu, e agora sobram vagas. “A crise econômica impactou diretamente a modalidade”, aponta. “Nossos estudantes são trabalhadores e, muitas vezes, precisam garantir moradia e sustentar suas famílias”.

A Educação de Jovens e Adultos é organizada em regime semestral ou modular, em segmentos e etapas, com a possibilidade de flexibilização do tempo para cumprimento da carga horária exigida. Com isso, pretende-se evitar novas evasões.

 

 

 

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Canabinoides podem auxiliar no tratamento de doenças neurológicas

É o que mostra pesquisa da Unicamp, publicada hoje

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Estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que o canabinoide, substância que pode ser encontrada em plantas do gênero cannabis, podem auxiliar no tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas. A descoberta foi feita por pesquisadores do Laboratório de Neuroproteômica, do Instituto de Biologia (IB), e publicada hoje (27) na revista European Archives of Psychiatry and Clinical Neurosciences.

“A gente sabe muito sobre o efeito dos canabinoides, endocanabinoides ou sintéticos sobre os neurônios. Estamos aprendendo agora que essas substâncias também atuam sobre as células da glia”, diz Daniel Martins-de-Souza, um dos pesquisadores. Ele explica que o nome glia significa cola em grego, porque, no passado, os pesquisadores achavam que essas células ligavam os neurônios uns nos outros, funcionando apenas como células de suporte.

Nas últimas duas décadas, no entanto, estudos mostraram que elas praticam funções importantes no cérebro. A pesquisa analisou a interação de uma dessas células da glia, chamada oligodendrócito, com os canabinoides. O oligodendrócito é responsável por produzir a bainha de mielina, que faz o “encapamento” dos axônios, que são o meio de comunicação entre os neurônios. “Para o neurônio conseguir conversar com outro por meio de impulsos elétricos, ele precisa de um encapamento no fio, vamos assim dizer”, explica o estudioso, comparando com os fios de um poste de energia elétrica.

Falhas nas células da glia podem causar doenças. “A bainha de mielina é destruída, por exemplo, na esclerose múltipla, eventualmente até na doença de Alzheimer. Então, a bainha de mielina é bastante importante para que o neurônio funcione. A gente sempre teve uma visão muito neurocêntrica, ou seja, muito da importância do neurônio no cérebro, mas ele não vai funcionar bem se as células acessórias dele também não funcionarem, como é o caso do oligodendrócito”, acrescenta Martins-de-Souza.

Com a análise in vitro, os pesquisadores viram que os canabinoides promovem a proliferação dos oligodendrócitos. “Todas as eventuais doenças que têm perda de oligodendrócitos poderiam se beneficiar”, afirma o especialista. Ele destaca que estudos com animais e humanos devem confirmar esses dados. A pesquisa também mostrou que, com os canabinoides, os oligodendrócitos amadurecem melhor. “Isso abre novas avenidas pra gente investigar potenciais tratamentos de doenças.”

Depressão e esquizofrenia são outras doenças que podem se beneficiar dessa descoberta.

O que são canabinoides

Além do canabinoide extraído de plantas do gênero cannabis, o canabidiol, o próprio organismo humano produz a substância, chamada endocanabinoide. “Foi descoberto que os compostos da cannabis se ligam a receptores no cérebro, que passaram a ser conhecidos como receptores canabinoides. O que a gente descobriu a posteriori é que o nosso organismo produz substâncias que interagem com esses mesmos receptores. Tudo isso é chamado de canabinoide”, explica o pesquisador.

O estudo, portanto, utilizou tanto compostos extraídos de plantas do gênero cannabis, como o canabidiol, o endocanabinoide, quanto sintéticos.

 

 

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Em visita à Amazon, governador assegura mais apoio a operadores logísticos

Ibaneis Rocha conheceu o Centro de Distribuição da empresa norte-americana e anunciou assinatura de decreto para facilitar ainda mais o trabalho de outros grupos que queiram se instalar no DF

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Ian Ferraz, da Agência Brasília | Edição: Carolina Lobo

 

O governador Ibaneis Rocha visitou, nesta quinta-feira (26), o Centro de Distribuição da Amazon no Distrito Federal, localizado em Santa Maria. O encontro com funcionários da empresa norte-americana e gestores do governo serviu para tratar sobre infraestrutura, tributação e a presença da Amazon no Brasil e no DF.

GDF vai assinar um decreto para facilitar ainda mais o trabalho de operadores logísticos que queiram se instalar no Distrito Federal

Na ocasião, Ibaneis Rocha conheceu cada detalhe da operação e se reuniu com diretores da empresa. Na reunião ficou definido que o GDF vai assinar um decreto para facilitar ainda mais o trabalho de operadores logísticos que queiram se instalar no Distrito Federal. O texto está sendo alinhado com o secretário de Economia, Itamar Feitosa, que também participou do encontro, bem como com os secretários de Governo, José Humberto Pires, e de Desenvolvimento Econômico, Jesuíno Pereira.

 

“O Distrito Federal tem esse sinal importante. A cidade foi criada a partir do pensamento de Juscelino Kubitschek de ser um grande ponto de interligação do Brasil. Os operadores logísticos vêm para cá no sentido de integração. Nós temos facilidade de distribuição, tanto para o Centro-Oeste como para o Norte e o Nordeste, e a empresa vem só crescendo aqui. Temos dado incentivos às empresas, é um ramo que emprega bastante. E fiquei satisfeito de ver a operação, a organização e o nível de tecnologia desse centro de distribuição”, afirma o governador Ibaneis Rocha.

 

A vinda da Amazon amplia a presença do Distrito Federal como centro logístico nacional, já que a capital tem o único aeroporto brasileiro com duas pistas em operação simultânea, ligado a todas as capitais do país – além de excelente malha rodoviária, mão de obra capacitada e competitividade fiscal.

 

“É muito importante termos empresas como a Amazon e outras de logística aqui no Distrito Federal. Estamos no centro do país, então temos essa capacidade maior de distribuição. Elas geram emprego e renda para famílias do DF e do entorno, e, com a intenção da Amazon de se expandir, mais empregos podem ser gerados e o serviço ampliado para os clientes ”, acrescenta o secretário de Desenvolvimento Econômico.

A Amazon tem 12 centros de distribuição no Brasil. Na capital, iniciou a operação em outubro de 2020, gerando mais de 200 empregos. Segundo a empresa, são feitas 15 mil entregas diariamente no DF.

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Lei muda orientação por cores em hospitais para atender daltônicos

Medida publicada nesta terça-feira (24) no Diário Oficial determina que alas e pulseiras sejam adaptadas para portadores do distúrbio da visão

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Agência Brasília* | Edição: Claudio Fernandes

 

As unidades das redes pública e privada de saúde deverão alterar parcialmente seus sistemas de direcionamento por cores para atender portadoras de daltonismo. É o que determina a Lei nº 7.144, publicada nesta terça-feira (24) no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF).

“Tudo que a gente puder fazer para facilitar a vida das pessoas que tenham quaisquer restrições, faremos. Quanto mais acessível o sistema de saúde estiver, mais inclusivo ele é”Pedro Zancanaro, secretário adjunto de Assistência à Saúde

De acordo com a medida, as unidades de saúde devem adaptar os sistemas de orientação por cores de modo a incluir alguma sinalização numérica ou por outro tipo de código. Assim, as pulseiras de classificação de risco e as alas de atendimento, por exemplo, terão de conter algo além da cor. Isso porque quem é daltônico tem dificuldade de diferenciar certas cores, sobretudo os tons verde e vermelho.

O secretário adjunto de Assistência à Saúde, Pedro Zancanaro, afirma que a Secretaria de Saúde estudará medidas para facilitar a visualização dos pacientes com daltonismo. O gestor destacou que a lei representa uma “medida de acessibilidade”. “Tudo que a gente puder fazer para facilitar a vida das pessoas que tenham quaisquer restrições, faremos. Quanto mais acessível o sistema de saúde estiver, mais inclusivo ele é”, pontuou Zancanaro.

O daltonismo é uma denominação popular para discromatopsia ou discromopsia. Trata-se de distúrbio de visão caracterizada pela ausência total ou parcial de células do tipo cones na retina. A condição é hereditária e genética. Geralmente, a pessoa aprende a conviver com o problema, como cita o secretário adjunto. “Um exemplo clássico que mostra essa adaptação dos daltônicos é eles entenderem os semáforos do trânsito”, conclui.

*Com informações da Secretaria de Saúde

 

 

 

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