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“Não há espaço para ser neutro”, diz Bispo da Diocese Anglicana de Brasília

Com uma agenda progressista, chefe da denominação religiosa defende engajamento político dos cristãos. Segundo ele, o Evangelho preconiza ação do fiel. Sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, afirma: “Não devemos ter medo do amor”

 

(crédito: Diocese Anglicana de Brasília)

Diferentemente de outras denominações cristãs, a Igreja Anglicana do Brasil tem levantado pautas políticas notoriamente progressistas, como o casamento homoafetivo, liberado pela igreja em 2018, e a questão envolvendo a demarcação de terras indígenas e reforma agrária. Um dos instrumentos utilizados pela Diocese Anglicana de Brasília é o podcast “Radar Direitos Humanos”, no qual aborda esses temas, trazendo também entrevistas com personalidades específicas para falar sobre cada assunto. Um dos idealizadores e colaboradores do programa é o Bispo Maurício Andrade, que concedeu entrevista ao Correio e falou sobre qual o objetivo de apresentar assuntos políticos aos fiéis.

Por que fazer um podcast da igreja Anglicana do Brasil?

O podcast ‘Radar Direitos Humanos’ integra um projeto mais amplo da Diocese Anglicana Brasília, que é o projeto Advoca-se. A Diocese Anglicana de Brasília está fazendo essa iniciativa desde 2021. Com o apoio de alguns parceiros internacionais, estamos fazendo uma articulação de presença nos espaços de pressão política em Brasília. A finalidade da igreja é ter uma presença nos meios de decisões políticas, causar alguma influência e ter uma presença de testemunho para a justiça e para a verdade. Em junho, nós tratamos sobre a questão LGBTQIA , que era o mês da inclusividade. Temos tratado de temas como a questão da violência contra mulheres, a transformação social. Nós queremos colocar para conhecimento da sociedade.

Em quais causas a Igreja Anglicana do Brasil, ou a Diocese de Brasília, atuam?

Temos o pressuposto de que a missão da Igreja Anglicana não é somente pregar. Não é somente proclamar o evangelho. Mas é também ter ações concretas. A missão da igreja se constrói em cinco grandes ênfases: a proclamação do evangelho, porque toda igreja tem que anunciar; a questão de preparar, treinar as pessoas que se tornam anglicanas; na terceira questão, trabalhar em amor e solidariedade para todas as pessoas; na quarta, a gente diz que a gente precisa lutar pela transformação das estruturas injustas da sociedade, construindo cultura de reconciliação e de paz. E na quinta, a gente diz que a missão da igreja é também zelar pela criação, ou seja, é a questão do meio ambiente.

O que são essas estruturas injustas que o senhor menciona?

É toda essa situação que a gente vive em um país como o Brasil hoje de desigualdades. A desigualdade social e a vulnerabilização das pessoas. Eu não digo que as pessoas estão em situação de vulnerabilidade, elas estão sendo vulnerabilizadas pelo sistema que fortalece as relações de desigualdade. Quando a gente fala de lutar por transformar as estruturas injustas da sociedade, a gente está envolvido no Grito dos Excluídos, por exemplo. Há outra situação muito forte nesse país, que é a questão da demarcação das terras indígenas.

O senhor acha que o verdadeiro cristão deve ser engajado na política e nas causas sociais?

Exatamente. Essa é a nossa ênfase. Porque o Evangelho de Jesus cobra ações. Jesus Cristo foi uma pessoa marginalizada. Jesus Cristo esteve com as pessoas marginalizadas. Jesus Cristo lutou contra o poder do estado de Herodes. Jesus Cristo esteve no espaço de estar com aquelas pessoas que estavam à margem da sociedade. Então o Evangelho de Jesus Cristo exige de nós compromisso e ação. A Igreja Anglicana é conhecida mundialmente por conta, entre outras razões, da fala de um arcebispo na África do Sul. Estou falando do bispo Desmond Tutu, que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1985. Ele dizia que, se o cristão tomar parte, não há espaço para ficar neutro. Quando a gente fica neutro, a gente está tomando a posição do opressor.

Mas diversas igrejas atuam politicamente…

É muito interessante porque, quando em algumas igrejas, as pessoas se envolvem na política pela direita, ou por quem está no governo, isso não é problema. Agora, quando as pessoas fazem oposição ao governo ou estão lutando por transformar sociedades injustas, algumas igrejas dizem que nisso não podem se envolver. Nós entendemos que não há espaço para neutralidade, há espaço para denúncia ao profetismo e para transformação. É por isso que estar no meio da política não está fora do Evangelho. Não estou falando de partidos políticos; estou falando de política no sentido lato da palavra, de fazer políticas que geram transformação para a sociedade.

A democracia corre perigo no Brasil?

Estamos vivendo um dos tempos mais difíceis dos últimos anos. Quando a gente recorda a carta em defesa da democracia de 1977, e reedita-se uma carta pela democracia em 2022, significa que nós e os movimentos populares e movimentos sociais estão preocupados com o momento político que a gente vive. Eu assinei a carta de 2022 porque entendemos que devemos defender a democracia, e a democracia é a única forma de termos uma ação que gere e que construa mais igualdade. A democracia no Brasil está vivendo um momento de tensão, e esse momento de tensão tem que ser fortalecido por reações públicas, jurídicas e concretas, como tem sido feito atualmente no Brasil. Mas acredito que prevalecerá a democracia, o senso político que esse país tem construído nos últimos 30 anos.

Recentemente o arcebispo de Canterbury, Justin Welby, declarou a validade de relações sexuais homoafetivas e também disse que é muito difícil assegurar a unidade da igreja Anglicana. Qual a sua opinião sobre o primeiro tema? E há uma divisão entre anglicanos?

O acolhimento das pessoas do mesmo sexo e a bênção, o casamento das pessoas do mesmo sexo, têm sido um diálogo desde 1988. No fim de 2018, a Igreja Anglicana do Brasil aprovou nas suas normas a autorização para o casamento de pessoas do mesmo sexo. Temos a convicção de que nós não estamos, com isso, fazendo nenhuma coisa extraordinária. Estamos, digo mais uma vez, fazendo o que o Evangelho nos diz. O Evangelho nos diz que Jesus Cristo é amor. O Evangelho nos diz que o amor tem que ser incondicional. O Evangelho diz que, através da Primeira Carta de João, que o perfeito amor lança fora todo o medo. Nós não precisamos e não devemos ter medo do amor. Nós precisamos acolher as pessoas que amam verdadeiramente umas às outras. E por isso que no Brasil, aqui na Diocese de Brasília, nós temos reafirmado esta experiência de acolhimento a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual. Todas as pessoas são bem-vindas, porque esta é mensagem do Evangelho.

E quanto às declarações do arcebispo de Canterbury?

De fato, esse é um tema que tem separado muitas das igrejas ao redor da comunhão anglicana. Porque o que acontece é que a comunhão anglicana não é uma federação de igrejas. Justin Welby é o arcebispo de Canterbury, mas ele não é o ‘papa’ da Igreja Anglicana. Ele não tem jurisdição sobre nenhuma outra igreja. A Igreja Anglicana está presente em 165 países. São 42 províncias, assim como o Brasil é uma província, e todas elas são autônomas entre si. A comunhão anglicana é uma família e por isso que o nome é comunhão. Não é federação. Porque não somos uma federação de igrejas, onde todos precisam ter as mesmas decisões comuns. Não. A comunhão anglicana é uma família de igrejas onde cada unidade, cada província é uma igreja ligada à comunhão. Então, por exemplo, uma decisão que acontece na igreja nos Estados Unidos, ela não tem reflexo para o Brasil. Cada uma precisa tomar suas decisões. Na Igreja Anglicana, nós temos que compreender a diversidade. Somos uma comunhão de igrejas diversas em diferentes contextos, em diferentes realidades, em diferentes momentos. Você não pode comparar a cultura e a realidade social, político-cultural do Brasil com a Uganda. Uganda tem uma lei que diz que homossexualidade é crime. Então você tem que entender que eles têm essa compreensão e eles deveriam compreender que nós também temos outra. Porque o importante para mim, eu sempre digo, que o importante é compreender e aceitar. Que quem é diferente de mim é somente diferente. Não é errado. É diferente. Então esse, para mim, é um princípio para a gente continuar mantendo a construção da unidade, mas que, como disse o arcebispo na conferência, a unidade tem se estremecido por conta desse tema da questão da sexualidade humana.

 

 

 

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11º Festival Brasília de Cultura Popular vai até sábado (28)

Depois de oito anos, a programação volta à cidade com apresentações de artistas locais e nacionais no Clube do Choro

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Catarina Lima, da Agência Brasília | Edição: Claudio Fernandes

 

A 11ª edição do Festival Brasília de Cultura Popular começou nesta quarta-feira (25) e vai até sábado (28) no Clube do Choro. Ao todo, serão 11 apresentações durante os quatro dias de programação. Além das tradicionais atrações locais, como Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, Tereza Lopes, Orquestra Alada e Chinelo de Couro, renomados artistas nacionais, como Alessandra Leão (PE), Mestre Sapopemba (PB) e Mestre Nico (PE), participam da programação.

A  compositora, cantora e percussionista pernambucana Alessandra Leão se apresentará nesta sexta-feira (27) no Festival Brasília de Cultura Popular | Foto: José de Holanda/Divulgação

O festival é uma celebração da cultura popular. Além dos espetáculos de música e dança, serão formados grupos de discussão para tratar do evento e aproximar artistas, produtores e público.

A última edição do projeto ocorreu em 2015, no Centro Tradicional de Invenção Popular, na sede do grupo Seu Estrelo. Segundo Danielle Freitas, coordenadora geral do evento, a retomada do festival é essencial para a manutenção e difusão da cultura popular do DF. “A retomada do festival tem como tema a Refestança. Queremos fortalecer a importância da celebração”, explicou Danielle. O evento recebeu R$ 200 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para sua execução. Estão envolvidas na realização do projeto 200 pessoas.

O grupo cultural Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro fecha a programação do festival no Clube do Choro, à meia-noite de sábado para domingo | Foto: Mike Sena/Divulgação

“É uma emoção muito grande poder voltar depois de tanto tempo com este festejo que é um símbolo para a cultura do DF. A existência de nossa brasilidade só é possível por causa das festas populares e dessa gente que faz cultura para a alma e não somente para o mercado”, destaca a coordenadora.

Uma das principais atrações do evento é o Calango Voador, uma das figuras mais significativas da mitologia do Cerrado. O réptil alado traz consigo um espetáculo de bonecos gigantes, personagens e figuras em pernas de pau e acrobacias circenses.

Uma das principais atrações do evento é o Calango Voador, uma das figuras mais significativas da mitologia do Cerrado | Foto: Raissa Azeredo/Divulgação

Confira programação completa:
Quarta-feira (25)
9h: Oficina de percussão com Larissa Umaytá;
15h: Oficina de Canto Ancestral com Maryta de Humahuaca;
19h às 21h: Espaço Eco das Tradições com Maryta Hamuhuaca (ARG), Mestre Manoelzinho Salustiano (PE), Danielle Freitas (DF) e Pedro Vasconcellos – diretor dos Comitês de Cultura (Minc).

Quinta-feira (26)
15h: Oficina de Canto Ancestral com Maryta de Humahuaca;
19h às 21h: Espaço Eco das Tradições com Ialorixá Mãe Baiana de Oyá (DF), Tico Magalhães (DF), deputado distrital Fábio Félix e deputado distrital Gabriel Magno.

Sexta-feira (27)
14h: Oficina de dança com Mestre Nico (PE);
19h: Apresentação do Mamulengo Fuzuê (DF);
20h: Sambadeiras de Roda (DF);
21h30: Tereza Lopes (DF);
22h45: Alessandra Leão (PE) e Mestre Sapopemba (AL);
0h: Chegada do Calango Voador com a Orquestra Alada Trovão da Mata (DF).

Sábado (28)
19h: Apresentação Mamulengo Presepada (DF);
20h: Kirá (DF);
21h30: Congadas do Moçambique Santa Efigênia (MG);
22h45: Chinelo de Couro (DF);
0h: Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro (DF) com participação de Mestre Nico (PE) e Gabriel Paes (DF).

 

 

 

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Festival Bonecos de Todo Mundo tem inscrições abertas até amanhã (27)

Podem participar desta quinta edição grupos e artistas ligados a esse gênero teatral ou de animação

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Catarina Lima, da Agência Brasília I Edição: Débora Cronemberger

 

Estão abertas até esta sexta-feira (27) as inscrições para a 5ª edição do Bonecos de Todo Mundo, festival que será realizado de 13 a 26 de março no Centro Cultural do Sesi, em Taguatinga, e também no Taguaparque. O formulário de inscrição está disponível nas redes sociais do evento, @bonecosdetodomundo.

A programação inclui espetáculos, oficinas, shows musicais e grupos de discussão, tendo como tema os mitos do cerrado e da construção de Brasília. O projeto é financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) com o valor de R$ 797,2 mil. As apresentações do Bonecos de Todo Mundo serão de quinta a sábado, no Sesi e domingo no Taguaparque. A divulgação dos projetos selecionados será feita em 3 de fevereiro, nas redes sociais do festival.

De acordo com a produtora do evento, Clara Nugale, o festival sempre acontece em Taguatinga e o público é eclético, com muitas crianças e adultos. “Nosso público é o que consome arte”, explicou. A maioria das apresentações são de classificação livre. “Geralmente são histórias do cotidiano, cujos personagens são uma família”, descreveu Clara.

O teatro popular de bonecos é uma brincadeira milenar, presente nos cinco continentes. Cada forma de brincar possui suas peculiaridades e elas convergem em diversas semelhanças. Em muitos países, essa forma de expressão é oficialmente reconhecida como patrimônio cultural. No Brasil, o reconhecimento veio em 2015, quando o Teatro Popular de Bonecos do Nordeste, também chamado mamulengo, foi registrado como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Serviço

5º Bonecos de Todo Mundo – Chamamento para grupos teatrais do DF
Inscrições: até sexta-feira (27), por meio de formulário ou no Instagram do projeto.

 

 

 

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Incêndio na Boate Kiss: 10 anos de tristeza e impunidade

Tragédia com 242 mortos comoveu o país

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incêndio na boate Kiss completa dez anos nesta sexta-feira (27). A tragédia provocou a morte de 242 pessoas, mais de 600 feridos e comove o país até hoje, sem nenhum réu responsabilizado. 

O drama começou por volta de três horas da manhã do dia 27 de janeiro de 2013, quando o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, acendeu um objeto pirotécnico dentro da boate, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

A espuma do teto foi atingida por fagulhas e começou a queimar. A fumaça tóxica fazia as pessoas desmaiarem em segundos. O local estava superlotado, não tinha equipamentos para combater o fogo, nem saídas de emergência suficientes. Morreram pessoas que não conseguiram sair e outras que tinham saído, mas voltaram para ajudar.

O delegado regional de Santa Maria, Sandro Luiz Mainers, contou que o pânico se instalou quando a fumaça se espalhou e a luz caiu. As pessoas não sabiam como fugir.

“E isso fez com que algumas pessoas enganadas por duas placas luminosas que estavam sobre os banheiros da boate corressem na direção dos banheiros e não na direção da porta. Então, houve um fluxo e um contrafluxo. Algumas corriam para o banheiro e outras tentavam correr na direção da porta de entrada. Isso fez com que muitas pessoas morressem porque algumas acabaram sendo derrubadas, algumas caíram”, relatou.

Além da falta de sinalização, quem tentava sair esbarrava nos guarda corpos que serviam para direcionar as pessoas ao caixa da boate, disse o delegado. “E os guarda corpos foram determinantes até porque nós encontramos corpos caídos sobre esses guarda corpos”, afirmou.

Relato

O jornalista Dilan Araújo atuou na cobertura para as rádios da EBC, quando o incêndio aconteceu. Ele disse que os familiares iam a um ginásio da cidade para procurar por informações e fazer o reconhecimento das vítimas.

“E, por isso, de tempos em tempos, a gente ouvia os gritos desconsolados, né? Rompendo aquela atmosfera de silêncio e de tensão, outros familiares tentando consolar aqueles que se encontravam numa emoção. De desespero maior. E tinha também a angústia daqueles que ainda estavam sem notícias”, finalizou.

Edição: Kleber Sampaio

 

 

 

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