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A nova cara de Brasília: conheça quem se destaca e faz o nome da cidade
A capital federal, que já projetou artistas como Renato Russo e Patrícia Pillar, agora vive a ascensão de outras personalidades que se tornaram relevantes no quadradinho e fora dele
Adriana Izel, da Agência Brasília | Edição: Vinicius Nader
Há mais de seis décadas, quando Juscelino Kubitschek sonhou com a construção de uma capital no centro do país, o presidente vislumbrou um caminho para a descoberta de um novo Brasil. Prestes a completar 63 anos, Brasília renova a cada geração esse desejo de JK ao criar uma cultura própria que pouco a pouco ultrapassa as barreiras do quadradinho.
A cidade que já projetou nomes como Renato Russo, Cássia Eller, Patrícia Pillar, Welder Rodrigues, Alexandro Carlo, Dinho Ouro Preto e tantos outros vive um novo momento, com uma leva de artistas e personalidades que representam Brasília para além do Distrito Federal.
A Agência Brasília conversou com alguns desses nomes para saber o que Brasília representa para eles e o quanto a capital federal os inspira. Confira.
Inspiração visual

Nos últimos anos, o branco tão característico da arquitetura de Brasília foi se transformando em um mural para artistas visuais. Entre tantos grafiteiros que vão deixando a arte pelas ruas, está a designer gráfica Camilla Siren, conhecida por trabalhos com paleta de cores bem saturada e colorida em que a figura feminina é o foco.
Já são quase nove anos que ela se dedica a projetos pelas ruas do DF. “Enxergo a cidade como um laboratório cheio de possibilidades. A arquitetura me inspira, com suas formas orgânicas, concreto e branco que quase brilham como uma tela. A minha imaginação fica a mil pensando no tanto de cores que meu coração gostaria de colocar nesses monumentos, mas, ao mesmo tempo, é esse mesmo branco brilhante que me permite respirar e me inspirar a criar”, filosofa.
É essa inspiração que ela também leva para os murais que faz em outros estados e países. “Busco sempre pintar algo que faça referência a Brasília, o degradê do nosso pôr-do-sol, as linhas orgânicas e limpas da nossa arquitetura, elementos dos azulejos e até a nossa flora. É notório como são elementos e cores muitos singulares”, afirma.

Traços contemporâneos
São os traços modernistas de Oscar Niemeyer e a funcionalidade do urbanismo de Brasília que inspiram a designer e fundadora da marca brasiliense Miti Shoes, Natália Miti. “Essas influências da cidade dão o tom do meu desenho e dos aspectos de versatilidade dos nossos produtos”, explica. Fundada em 2012, hoje a marca trabalha com calçados, acessórios e roupas.
Apesar de ser paulista, Natália tem o coração brasiliense, já que Brasília foi o local onde a marca nasceu e criou seu DNA. Para ela, a cidade significa muito mais do que um sonho de Juscelino: “Brasília é fruto de um projeto multidisciplinar executado com excelência”.
Com mais de uma década de existência, a etiqueta ganhou o Brasil e o mundo levando características da cidade nos produtos. “Gosto de poder transmitir um pouco do legado dos atributos da cidade e espalhar funcionalidade e contemporaneidade para além das fronteiras do nosso quadradinho”, defende.
Batuque candango

Nascida e criada em Sobradinho e com a carreira impulsionada pelo movimento cultural do Boi de Seu Teodoro, por meio do qual foi apresentada à percussão, a musicista Larissa Umaytá acabou de rodar o país ao lado do grupo brasiliense de pagode Menos é Mais. A experiência é só mais uma entre as tantas da artista, que já tocou com Ellen Oléria, Hamilton de Holanda, Teresa Cristina, Dilsinho e Luedji Luna e praticamente todos os nomes que ainda estão na cena brasiliense, como Letícia Fialho, Dhi Ribeiro e Teresa Lopes.
Para Larissa, Brasília é um espaço-escola de conexão entre culturas. “Acho que a cidade influencia no meu trabalho pela capacidade que tem de se comunicar com diversas linguagens. Isso me faz querer mergulhar de cabeça na vivência, na música, na cultura e no ritmo dos outros”, diz a artista, que passeia pelos estilos da música popular brasileira.
Sobre a oportunidade de rodar o Brasil levando o nome de Brasília, ela afirma ser algo que lhe traz satisfação: “Quando eu viajo para algum lugar e digo que sou uma percussionista de Brasília, as pessoas sempre ficam impressionadas. É um verdadeiro orgulho levar a palavra de Brasília para outros lugares. Agora, só acho que Brasília precisa se reconhecer também. Muitas vezes, a gente valoriza tanto a cultura de outro lugar e acaba deixando de lado o que é produzido aqui dentro”.
Produção multicultural

Uma cidade criada a partir de várias culturas, Brasília ostenta até hoje a influência dos outros estados brasileiros. Essa multiculturalidade dá o tom da produção local. É o que explica o comunicador Guilherme Tavares, um dos idealizadores do festival Favela Sounds.
“A produção criativa do DF é uma verdadeira escola de referências, com gente de todo o país fazendo ecoar manifestações de importância ímpar. É esse movimento de troca entre pessoas, sotaques e temperos que faz do DF esse coração de mãe de um país inteiro”, afirma.
Nascido em 2016, o festival já reuniu mais de 20 mil pessoas em Brasília e também tem circulado o mundo compartilhando a experiência das edições, graças ao reconhecimento que a produção local vem ganhando. “Brasília ocupa hoje posição de prestígio diante do mercado de música nacional e global, porque chegou a um volume de projetos e iniciativas de reconhecimento público que realmente impressionam gestores culturais e agentes do mercado em todo o canto. Hoje a cidade faz frente à oferta do eixo dominante [Rio-São Paulo] sob os pontos de vista de inovação, visibilidade e criatividade”, diz Tavares.
Cenário ideal

A escritora Fabiane Guimarães, 31, se mudou para o Distrito Federal quando tinha 17 anos. Vinda de Formosa (GO), apaixonou-se pela cidade e firmou morada por aqui, onde deu os primeiros passos profissionalmente na escrita ao lançar os dois romances: Como se fosse um monstro e Apague a luz se for chorar, obras que a projetaram nacionalmente.
A cidade é apontada por ela como o local em que encontrou a paz necessária para o ofício da escrita. Mais do que isso, Brasília virou os cenários de suas histórias. “Por muito tempo, achei que a literatura não teria lugar para mim, que ninguém gostaria de ler algo que se passasse nessa terra. Mas descobri que essa é a geografia perfeita para minha ficção. Essa foi uma cidade inventada que, às vezes, ainda me parece ser de mentira, mas que também é muito verdadeira e cheia de delicadezas. Viver aqui é uma experiência que abastece minha criatividade”, destaca.
A notoriedade que a autora tem tido fora do DF a faz formular outro desejo como escritora de Brasília: “Meu propósito é sempre trazer outros olhares para a capital, um olhar novo e muito distante do centro político”.
Temperos gastronômicos

Quem vive em Brasília sabe que, ao longo das seis décadas, o quadradinho se expandiu e é representado por todas as 35 regiões administrativas do Distrito Federal. É na Praça da Bíblia em Ceilândia, a cidade mais populosa da capital, que o chef Karl Max mostra a força da gastronomia local oferecendo na rua uma infinidade de pratos que vão de macarrão a churrasco. “A cidade me influencia por ter uma diversidade de temperos, abrindo um leque de possibilidades para criação de novos pratos e cardápios temáticos”, conta.
Atuando hoje em uma tenda, Max foi chef de cozinha do Hotel Nacional por 16 anos e tem no currículo o fato de já ter cozinhado para grandes autoridades – do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao governador Ibaneis Rocha. Mas você pensa que ele quer voltar às cozinhas tradicionais? De jeito nenhum – até porque os próprios políticos vão à praça só para degustar as receitas do chef brasiliense.
“Me orgulho muito quando pessoas de outros estados estão de passagem em Brasília e vêm nos conhecer, apreciar nossos pratos e levá-los consigo na memória e no paladar. É muito gratificante esse reconhecimento, principalmente, quando somos comentados além das fronteiras do Distrito Federal e do nosso país”, ressalta.
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Alessandro Vieira pede indiciamento do PGR e de ministros do STF
Relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira sugere alterações legais e pede indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal, além do procurador-geral da República
Saulo Cruz/Agência Senado
A CPI do Crime Organizado encerra nesta terça-feira (14), a partir das 14h, as atividades com a leitura e análise do relatório final que contém pedidos de indiciamento por crimes de responsabilidade de três ministros do Supremo Tribunal Federal — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes —, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Emitido após 120 dias de trabalho, o relatório de 220 páginas do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresenta um diagnóstico do funcionamento do crime organizado no Brasil e propõe medidas para combater o avanço da criminalidade.
O modus operandi de facções e milícias em diferentes regiões do país foi o norte inicial para o processo investigatório realizado com o recebimento de 134 documentos, 312 requerimentos e 18 reuniões para oitiva de autoridades como ministro, governadores, magistrados, representantes da segurança pública, policiais, jornalistas, entre outros.
Além de investigar a ocupação territorial por facções, a CPI fez um levantamento dos crimes relacionados às atividades econômicas, à lavagem de dinheiro, e de infiltração no poder público, como no caso do Banco Master.
Para o relator, “o fenômeno da criminalidade organizada no Brasil atingiu um patamar de complexidade e enraizamento que representa uma ameaça concreta à soberania do Estado, à democracia e aos direitos fundamentais da população”.
Banco Master
No relatório, Alessandrio Vieira pede indiciamento dos ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes e do procurador-geral da República Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade e condutas consideradas incompatíveis com o exercício de suas funções.
Os ministros são incluídos no rol dos indiciados por não terem se declarados suspeitos — quando há parcialidade do magistrado por razões subjetivas de ordem pessoal — no julgamento do caso do Banco Master pelo Supremo.
Com relação ao ministro Dias Toffoli, o relatório de Alessandro Vieira aponta que haveria vínculos indiretos do ministro com investigados do Banco Master, o que configura conflito de interesses e interferência nas investigações.
O relator apontou que a empresa Maridt, da qual o ministro Toffoli é sócio, transacionou com o Fundo Arleen, administrado por Fabiano Zettel — cunhado de Daniel Vorcaro e identificado pela Polícia Federal como um dos principais operadores do esquema criminoso investigado.
Segundo o relator, o ministro Alexandre de Moraes também teria atuado em processos para os quais deveria ter se declarado impedido, já que haveria relações financeiras entre a empresa investigada e o escritório de advocacia de sua esposa.
A relação entre a cônjuge do magistrado e o banco é causa objetiva de impedimento, disse o relator: “Trata-se de hipótese de impedimento absoluto, insanável e cognoscível a qualquer tempo, que independe de comprovação de prejuízo ou de influência subjetiva”.
Já o ministro Gilmar Mendes, segundo o senador, teria faltado com decoro por usar de “estratégia articulada de contenção investigatória, executada por magistrado que não detém a relatoria da matéria, em favor de interesses de colega de tribunal”. Ainda, por ter determinado a inutilização de dados, o que comprometeria apurações.
Por fim, o procurador-geral Paulo Gonet entra no rol dos indiciados por omissão. “A renúncia à persecução de crimes de responsabilidade praticados pelos mais altos magistrados do país é a negação radical dessa missão constitucional. Quando o titular da ação penal se omite diante de indícios claros e suficientes, sua conduta deixa de ser exercício de discricionariedade e passa a configurar omissão funcional”, afirmou o relator.
As movimentações bilionárias suspeitas do Banco Master, acompanhadas de crescimento acelerado, impacto relevante no sistema financeiro, com uso de mecanismos sofisticados para ocultação de recursos ilícitos foram destacados no documento pelo relator.
Interferências
Alessandro Vieira afirma no documento que decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal esvaziaram sistematicamente os poderes investigatórios da CPI, criando obstáculos graves ao desenvolvimento dos trabalhos.
“A anulação de quebras de sigilo regularmente aprovadas, a conversão de convocações obrigatórias em meros convites e a concessão reiterada de habeas corpus em favor de investigados produziram um efeito paralisante que comprometeu a capacidade da Comissão de produzir provas. Essa interferência, somada à conduta de ministros que mantiveram relações financeiras e pessoais com investigados, fundamentou os indiciamentos propostos”.
Milícias e facções
De acordo com o relatório, 90 organizações criminosas foram mapeadas pela CPI. Duas são apontadas como de atuação nacional e transnacional e estão presentes em 24 estados e no Distrito Federal.
O texto faz considerações sobre as milícias que atuam no Rio de Janeiro e de facções criminosas como Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP), do Rio de Janeiro, e Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, que atuariam “como verdadeiros para-estados, exercendo domínio territorial sobre comunidades inteiras, impondo regras de convivência, cobrando tributos ilegais e fornecendo serviços que deveriam ser de competência estatal”. Além do tráfego de drogas, essas organizações teriam expandido suas atuações para extorsões e outras atividades econômicas, inclusive de aparência lícita.
O relatório afirma que pelo menos 26% do território nacional estariam sob algum tipo de controle do crime organizado e que 28,5 milhões de brasileiros vivem em áreas com a presença desses criminosos.
Alessandro Vieira apontou que a extensa linha de fronteiras contribui sobremaneira para o crime, “que ameaça cada vez mais a soberania de amplas parcelas do território nacional e coloca em perigo a incolumidade física de nossos cidadãos”.
Corrupção de menores
Homicídios, tráfico de drogas e armas e domínio territorial são alguns dos fatos relacionados ao crime organizado, envolvendo corrupção de menores, com a utilização de crianças e adolescentes para atos ilícitos.
“Essa prática permite compreender que o envolvimento de crianças e adolescentes com o crime organizado não se configura como fenômeno episódico ou desorganizado, mas como parte de uma lógica estruturada de recrutamento e utilização. Sob essa perspectiva, sua participação pode ser analisada como forma de exploração sistemática da força de trabalho, sendo possível enquadrá-la entre as piores formas de trabalho infantil”, afirma o relator.
Lavagem de dinheiro
O documento demonstra ainda que a lavagem de dinheiro é “o mecanismo central de sustentação do crime organizado”, que se beneficia de setores como venda de cigarro, ouro, mercado imobiliário e bebidas, em alinhamento com o uso de fintechs, criptomoedas e fundos de investimento.
“A criminalidade organizada opera com grau de sofisticação empresarial que exige resposta igualmente qualificada do Estado. O caso Master, parcialmente investigado por esta Comissão, ilustra de forma emblemática como o crime organizado pode capturar instâncias do poder público, comprometendo a integridade de instituições que deveriam ser bastiões da legalidade”, expõe o relator.
Propostas legislativas
Relatório apresenta propostas legislativas sobre os seguintes temas:
- modernização de mecanismos de combate às organizações criminosas, a ser apresentado em forma de projeto de lei;
- aprimoramento da detecção e repressão de crimes financeiros, com melhoria na definição de competências entre Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e Banco Central; fortalecimento do Coaf, ampliação da transparência das pessoas jurídicas e dos fundos de investimento, modernização da Lei Antilavagem;
- regulamentação do lobby;
- aperfeiçoamento do controle interno e externo da Administração Pública;
- Marco legal da atividade de inteligência (entre eles o PL 6.423/2025, em análise no Plenário do Senado);
- modernização do sistema socioeducativo e da legislação infracional;
- aprimoramento legislativo das CPIs;
- proposta de Emenda à Constituição (PEC) para “maior rigor ético” no regime jurídico aplicável aos membros dos tribunais superiores.
Intervenção federal
O relatório sugere ainda o fortalecimento das instituições de combate ao crime organizado, a criação do Ministério da Segurança Pública, o desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento da criminalidade, melhorias na fiscalização e controle de armas, mais integração entre as instituições públicas. Também está sendo proposta intervenção federal no Rio de Janeiro.
Caso aprovado, o relatório será encaminhado à Mesa do Senado para as providências cabíveis quanto aos ministros do STF e ao procurador-geral e será remetido ainda ao Ministério Público Federal.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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Educação do campo no DF: audiência aponta déficit de vagas e conflitos territoriais
Debate na CLDF destacou falhas no atendimento à população camponesa, impacto da expansão urbana, precarização do trabalho docente e a necessidade de políticas específicas para orientar o novo PDE
Foto: Felipe Ando/Agência CLDF
A Comissão de Educação e Cultura (CEC) promoveu, nesta segunda-feira (13), um debate sobre a infraestrutura e a concepção pedagógica das escolas do campo no DF. Conforme explicou o presidente da comissão, deputado Gabriel Magno (PT), a reunião ocorre no contexto da criação do novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026–2036), aprovado no Senado Federal em março e encaminhado para sanção presidencial.
O parlamentar destacou que a legislação nacional servirá de base para a elaboração do próximo Plano Distrital de Educação (PDE) e que, por isso, é necessário discutir desde já o modelo de escola do campo que o DF pretende consolidar.
Magno ressaltou que, segundo levantamento do comitê de acompanhamento do PDE, a meta referente à garantia de educação à população do campo no DF não foi atingida. Em 2023, a população camponesa em idade escolar (de 4 a 17 anos) era de 37.870 pessoas, enquanto a oferta de vagas em escolas do campo foi de 25.422. “Isso significa que cerca de um terço dessa população de 4 a 17 anos está fora da escola”, pontuou.
“É preciso que o nosso plano distrital de educação avance para além da universalização e contemple o debate da qualidade, da estrutura e da ampliação das escolas do campo. Eu acredito que seja possível fazer essa mudança no DF”, afirmou o deputado.
A ameaça da expansão urbana
Ao longo da audiência, representantes de movimentos sociais, pesquisadores, gestores escolares e professores ressaltaram que os desafios da educação do campo no DF vão além do déficit de vagas e estão profundamente ligados às disputas territoriais, à precarização do trabalho docente e à ausência de políticas públicas específicas e continuadas.
Um dos pontos centrais do debate foi a relação entre a educação do campo e o ordenamento territorial do Distrito Federal. Segundo os participantes, a expansão urbana e a especulação imobiliária têm descaracterizado territórios historicamente rurais, impactando diretamente as escolas do campo.
Conforme avaliam os especialistas que participaram da reunião, no entendimento da atual gestão, a mudança de classificação de um território de rural para urbano pode fazer com que a escola perca o status de “escola do campo”, mesmo continuando a atender majoritariamente estudantes camponeses. Para os debatedores, essa lógica ignora a identidade pedagógica dessas instituições e fragiliza direitos já consolidados.

A professora da Universidade de Brasília (UnB) Mônica Molina afirmou que a educação do campo não pode ser tratada apenas como uma modalidade administrativa, mas como “parte de um projeto social e territorial”.
Ela lembrou que, no âmbito nacional, houve avanços importantes com a recriação da Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Pronacampo) e com a previsão, no novo PNE, de metas e estratégias específicas para esses povos. No entanto, alertou que o Plano Distrital de Educação ainda não incorporou plenamente esses avanços, especialmente no que diz respeito à formação e à contratação de professores com perfil específico para atuar nas escolas do campo.
Formação específica
Representando o Sindicato dos Professores do DF (Sinpro), Fernando Augusto Batista defendeu a realização de concursos públicos específicos para docentes formados em Licenciatura em Educação do Campo, além do fortalecimento da formação continuada. “Esses profissionais necessitam de uma formação que os capacite para atuar nessas escolas”, afirmou.
Participantes também apontaram que a alta rotatividade de professores temporários compromete a construção de vínculos com as comunidades e inviabiliza projetos pedagógicos de longo prazo, fundamentais para a educação do campo.
Outro tema amplamente debatido foi a infraestrutura. Gestores escolares relataram falta de recursos, estruturas físicas inadequadas e dependência crescente de emendas parlamentares para a manutenção das unidades. Para Gabriel Magno, esse modelo é equivocado e evidencia a omissão do Poder Executivo no financiamento regular da educação.
O parlamentar criticou os cortes no orçamento da área e alertou que as escolas do campo são ainda mais impactadas pela insuficiência de recursos.“As escolas não pode ser reféns de emendas parlamentares. Não é tarefa do diretor e dos professores pedir dinheiro para deputado, isso [investimento nas escolas] deveria ser a tarefa da secretaria de educação”, afirmou.
A diretora da Escola Classe Córrego do Arrozal, Francineia Soares, apresentou a experiência da unidade na construção do inventário da realidade local, elaborado com a participação direta da comunidade. Segundo ela, o instrumento tem sido fundamental para aproximar a escola das famílias, valorizar os saberes do território e orientar práticas pedagógicas contextualizadas.

Apesar disso, a gestora destacou demandas históricas não atendidas, como a ausência de creches, saneamento básico e outras políticas públicas essenciais nas comunidades atendidas pela escola, que muitas vezes têm na unidade escolar a única presença do Estado. Ela também reforçou a necessidade de incentivo à formação específica para atuação nas escolas do campo: “É fundamental um concurso específico para professores de escola do campo”, destacou.
Adonilton Rodrigues, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), chamou atenção para o fato de que praticamente não há escolas do campo instaladas em assentamentos no DF, o que obriga estudantes a percorrer longas distâncias diariamente. Para ele, esse cenário favorece a evasão escolar, enfraquece os vínculos comunitários e reforça desigualdades históricas de acesso à educação. Rodrigues também observou que o modelo atual de “escola rural” não dialoga com a realidade e o conceito da escola do campo.
Gigliola Mendes, formadora da Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (Eape), avaliou que o DF dispõe de uma política avançada para a educação do campo, mas que ela não vem sendo efetivamente implementada. Segundo a educadora, desde 2017 houve um esvaziamento da formação continuada e da articulação institucional, o que tem levado à perda da identidade das escolas do campo, à padronização indevida e ao desrespeito a instrumentos centrais da modalidade, como o inventário da realidade e a gestão democrática.
Ela também criticou o sucateamento da Eape, a inexistência de critérios obrigatórios de formação para atuar nas escolas do campo e as tentativas de militarização dessas unidades, consideradas incompatíveis com seus princípios pedagógicos. Para Mendes, o novo Plano Distrital de Educação precisa garantir a implementação do que já está previsto em lei. “Educação do campo é direito nosso, dever do Estado e compromisso da comunidade”, destacou.
Encaminhamentos
Ao final da audiência, Gabriel Magno informou que a Comissão de Educação e Cultura irá oficiar a Secretaria de Educação sobre as demandas apresentadas e articular, junto ao Fórum de Educação do Campo do DF, a construção coletiva de propostas a serem incorporadas ao novo Plano Distrital de Educação.
Entre os encaminhamentos sugeridos estão o fortalecimento da escola de formação continuada, a implementação de um Centro de Referência em Educação do Campo no DF — conforme previsto no Pronacampo — e a ampliação do debate público sobre o PDE, com participação efetiva das comunidades escolares e dos movimentos sociais.
Christopher Gama – Agência CLDF de Notícias
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Curso gratuito de panificação e gastronomia tem 50 vagas abertas
Inscrições estarão disponíveis de segunda-feira (13) ao dia 22, no site da Sedet-DF
Por
Agência Brasília* | Edição: Chico Neto
Por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda (Sedet-DF), o Governo do Distrito Federal (GDF) publicou chamamento público para o preenchimento de vagas em qualificação profissional do projeto Pró-Comunidade – Curso de Panificação e Gastronomia.
De acordo com o edital, estão sendo ofertadas 50 vagas para o segundo ciclo da formação, que tem como objetivo capacitar participantes para atuação na área de panificação e gastronomia, ampliando as oportunidades de inserção no mercado de trabalho.
As inscrições serão feitas exclusivamente de forma eletrônica, por meio do portal da Sedet-DF, entre os dias 13 e 22 deste mês. Para participar, basta preencher o formulário online disponível na página.
A iniciativa faz parte do projeto Pró-Comunidade, que busca promover qualificação profissional gratuita à população do Distrito Federal, contribuindo para geração de renda e desenvolvimento econômico local.
*Com informações da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda
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