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Programa Acolher Eles e Elas oferece suporte financeiro e emocional a órfãos do feminicídio

Até junho deste ano, 130 filhos de vítimas foram atendidos com o auxílio mensal de um salário mínimo e acompanhamento psicossocial semanal. Desde a criação da política, o GDF já concedeu mais de R$ 800 mil aos beneficiários

 

Por Adriana Izel, da Agência Brasília | Edição: Ígor Silveira

 

“É um apoio que vem para ajudar a família. Não é fácil você ter que formar uma criança que acabou de perder um parente querido de forma trágica. É preciso suporte para que ela não cresça perturbada”. É assim que José*, pai dos adolescentes Maria*, 15 anos, e João*, 12, resume a importância do Programa Acolher Eles e Elas, ofertado pelo Governo do Distrito Federal (GDF) a órfãos de vítimas de feminicídio.

Com a ajuda do programa, José tem trabalhado para proporcionar uma vida menos dolorosa para os filhos. Este é o quarto mês que a política pública chega para a família e cada um dos jovens recebe, por mês, um auxílio no valor de um salário mínimo (R$ 1.412) e tem, uma vez por semana, uma sessão de acompanhamento psicossocial. Segundo ele, os apoios financeiro e mental têm feito a diferença.

O recurso depositado mensalmente no cartão do Programa Acolher Eles e Elas é utilizado para bancar despesas médicas, proporcionar momentos de lazer e investir no futuro, criando um novo roteiro para vidas que, tão cedo, tiveram o percurso alterado de forma trágica | Fotos: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

“A princípio eu não queria que as crianças recebessem o benefício, porque não queria mexer nessa ferida. Mas, vi que era importante e foi a melhor coisa que eu fiz”, afirma José.

Foi a bolsa que realinhou as finanças da família. Após a morte da mãe dos meninos – assassinada pelo companheiro da época há dois anos –, José, que já criava as crianças após o divórcio, se viu em uma situação nunca imaginada: acumulando gastos com psicólogo, psiquiatra e terapeuta para dar o suporte necessário diante da situação vivenciada pelos filhos. “Quando a mãe deles morreu, a mais velha precisou de tratamento. Cheguei a gastar R$ 2,5 mil só para que ela tivesse um laudo psiquiátrico e gastava mais R$ 500 com apenas uma medicação. Então, esse benefício foi muito bom, porque consegui sair do sufoco e agora tenho como pagar as coisas para eles”, diz.

O recurso depositado mensalmente no cartão do Programa Acolher Eles e Elas é utilizado para bancar despesas médicas, proporcionar momentos de lazer e investir no futuro, criando um novo roteiro para vidas que, tão cedo, tiveram o percurso alterado de forma trágica. “É um dinheiro para investir neles. É importante formar uma criança que no futuro não seja uma próxima vítima ou até uma próxima pessoa a cometer um crime. Porque não podemos eliminar isso, porque é uma criança traumatizada. Então quando ela tem apoio e amparo, ela muda sua perspectiva”, avalia José.

Até junho deste ano, o Programa Acolher Eles e Elas já tinha cadastrado e beneficiado 130 filhos de vítimas de feminicídio, quando foram destinados R$ 808.524 em auxílios financeiros. Só em julho, o montante pago pelo Executivo local foi de R$ 183,5 mil

O pai conta que o próprio GDF, por meio da Secretaria da Mulher (SMDF), entrou em contato para oferecer o benefício. Na época, ele até duvidou do programa, mas hoje, com os filhos estabilizados financeiramente e com suporte psicológico, entendeu a importância do projeto. “Óbvio que, para mim, a prevenção do feminicídio é mais importante que o benefício. Ninguém quer isso, mas infelizmente acontece e as famílias precisam de amparo, porque ninguém está preparado para viver isso. Não dá para fugir dos problemas, então é importante este governo ter arrumado essa solução e a gente precisa abraçar a ajuda quando ela vem”, comenta.

Benefício em números

Até junho deste ano, o Programa Acolher Eles e Elas já tinha cadastrado e beneficiado 130 filhos de vítimas de feminicídio, quando foram destinados R$ 808.524 em auxílios financeiros. Só em julho, o montante pago pelo Executivo local foi de R$ 183,5 mil.

“[Com esse benefício] Buscamos garantir que essas crianças e adolescentes tenham acesso às necessidades básicas e a uma vida mais digna. Esse apoio financeiro é um passo crucial para assegurar que eles possam continuar seus estudos e receber o acompanhamento psicológico necessário”, destaca a secretária da Mulher, Giselle Ferreira.

Segundo o Estudo dos Feminicídios Consumados no Distrito Federal, desenvolvido pela Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), a capital federal tem 392 órfãos de vítimas de feminicídios ocorridos entre março de 2015 e junho de 2024. Deste valor, 255 são menores de idade e 137 maiores.

Regulamentado pela Lei nº 7.314/2023 e, posteriormente, pelo Decreto nº 45.256/2023, o programa Acolher Eles e Elas nasceu durante a força-tarefa do GDF de combate ao feminicídio

O objetivo do governo é ampliar o acesso ao programa para atingir a marca de 250 crianças e adolescentes amparadas em 2025. “Reafirmamos nosso compromisso com a proteção e o cuidado desses jovens, reconhecendo a importância de medidas que proporcionem estabilidade e esperança em meio à tragédia”, complementa a titular da pasta.

Acompanhamento diferenciado

As meninas Fátima*, 16 anos, e Sara*, 13, são acolhidas pelo programa do GDF há cinco. Elas perderam a mãe há cinco meses, quando ela foi assassinada por um ex-namorado da época. A morte da matriarca foi um baque para as jovens, que passaram a morar com o pai depois de cinco anos da separação dele com a mãe delas.

“Foi um processo muito difícil para as duas e ainda é. Elas choram e ainda têm esse trauma”, lembra o pai Antônio*. Exatamente por isso ele destaca o papel do auxílio. “As meninas fazem o acompanhamento psicológico pelo programa Direito Delas, da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), que é um tratamento diferenciado e direcionado para o que elas passaram. Elas desabafam muito e sempre saem melhores das sessões”, comenta. “O dinheiro também está sendo superimportante para gente, porque pagamos o plano de saúde delas, os exames, os cursos que elas querem fazer e as coisinhas delas”, completa o patriarca.

Antônio acredita que o programa é uma “ajuda muito bem-vinda”. “Essa é uma coisa que não tem reparo. Não tem um dinheiro que supra a perda que elas tiveram, mas pelo menos está ajudando para que elas tenham uma vida mais saudável e tranquila”, analisa.

Programa

Regulamentado pela Lei nº 7.314/2023, e, posteriormente, pelo Decreto nº 45.256/2023, o programa Acolher Eles e Elas nasceu durante a força-tarefa do GDF de combate ao feminicídio. O benefício é voltado para os órfãos em decorrência de feminicídio residentes do DF por no mínimo dois anos, menores de 18 anos ou até os 21 anos em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Para acessar o auxílio, é necessário apresentar uma documentação específica, incluindo boletim de ocorrência, comprovante de residência, uma declaração atestando o vínculo com o órfão, documentos pessoais do órfão e do responsável, além de uma declaração de vulnerabilidade. As famílias podem entrar em contato pelos telefones (61) 3330-3118 e (61) 3330-3105.

*Todos os beneficiários do programa e seus respectivos parentes são tratados com nomes fictícios na matéria para preservar a identidade dos jovens, seguindo um pedido das famílias e em cumprimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

 

 

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Circo, música e exposições movimentam a agenda cultural do DF no fim de semana

Programação inclui festival de circo no Espaço Renato Russo, encontro de violeiras na Candangolândia e espetáculos de teatro com entrada gratuita

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Carlos Eduardo Bafutto, da Agência Brasília | Edição: Chico Neto

 

A agenda cultural do Distrito Federal reúne eventos desta quinta (5) até a próxima quarta-feira (11), com atrações gratuitas em diferentes regiões administrativas. A programação inclui o Arranha-Céu — Festival de Circo Atual, no Espaço Cultural Renato Russo, o festival Viola em Canto’s de Mulher, na Candangolândia, e a estreia do espetáculo A Doutora e o Psiconauta, além de exposições e atividades formativas abertas ao público.

Exposição

No Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, o público pode conferir a exposição Escola em Casa: Sentimentos Presenciais, da fotógrafa Zélú, em cartaz até o dia 13 deste mês, no mezanino do local. O trabalho reúne registros feitos entre 2020 e 2025 em escolas e universidades públicas das cinco regiões do país, e investiga as transformações vividas pela educação brasileira durante e após a pandemia de covid-19. O projeto inclui ainda o lançamento do livro homônimo, com 80 fotografias, e uma conversa com a historiadora e arte-educadora Bruna Paz, no último dia da mostra.

♦ Mostra Escola em Casa: Sentimentos Presenciais
→ Visitação: segunda a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 10h às 20h
→ Local: Mezanino do Espaço Cultural Renato Russo – CRS 508, W3 Sul, Bloco A, Loja 72
→ Lançamento do livro e palestra: dia 13, das 19h às 21h.

Circo

Festival Arranha-Céu tem várias atrações para o público, até domingo, no Espaço Cultural Renato Russo e na Cia Miragem | Foto: Divulgação/Lorena Zschabe

Também no Espaço Cultural Renato Russo, outra atração promete sucesso: o Arranha-Céu — Festival de Circo Atual, em cartaz até domingo (8). A iniciativa reúne espetáculos solo, sessão de cinema e atividades formativas que aproximam o público do universo circense. Entre as atrações estão a montagem de Faminta, da atriz e circense Natasha Jascalevich, além de apresentações que exploram diferentes linguagens do circo contemporâneo.

 

♦ Arranha-Céu — Festival de Circo Atual
→ Data: até domingo
→ Locais: Espaço Cultural Renato Russo – CRS 508, W3 Sul, Bloco A, Loja 72; e Cia Miragem – Rua 1, Lote 23, Vila Telebrasília
→ Ingressos e inscrições: site do coletivo Instrumento de Ver.

Violeiras

Entre esta sexta-feira e domingo, a Praça dos Estados, na entrada da Candangolândia, recebe a oitava edição do festival Viola em Canto’s de Mulher. O encontro reúne apresentações musicais, oficinas, rodas de bate-papo, feira de artesanato e gastronomia típica. A programação destaca artistas de diferentes regiões do país e integra as celebrações do Dia Internacional da Mulher.

♦ Viola em Canto’s de Mulher
→ Data: desta sexta a domingo Local: Praça dos Estados – entrada da Candangolândia (DF)
→ Entrada gratuita. Classificação livre.

Nos palcos

A Doutora e o Psiconauta, peça inspirada no trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, aborda a importância da arteterapia nos cuidados com a saúde mental | Foto: Divulgação

O teatro também entra na agenda cultural da semana. No sábado, o espetáculo A Doutora e o Psiconauta abre temporada no Teatro Brasília Shopping. Inspirada na trajetória da psiquiatra Nise da Silveira, a montagem integra o projeto Arte em Engenho e propõe uma reflexão sobre a arteterapia e o papel da criatividade no cuidado em saúde mental.

♦ Espetáculo A Doutora e o Psiconauta
→ Data: sábado, às 20h
→ Local: Teatro Brasília Shopping
→ Entrada franca.

Festival Dulcina

Além da programação voltada ao público, a semana traz uma oportunidade para artistas e grupos de teatro da região.

O Festival Dulcina abriu inscrições para a seleção oficial de espetáculos do Distrito Federal e da Região Integrada de Desenvolvimento (Ride-DF). A convocatória recebe inscrições até o dia 16, e os trabalhos selecionados integrarão a programação da quarta edição do evento, prevista para maio.

♦ Festival Dulcina – Convocatória DF
→ Inscrições gratuitas até o dia 16 deste mês, neste link. O festival vai de 14 a 23 de maio, no Teatro Sesc Paulo Autran, em Taguatinga.

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Incra inclui 1,6 mil famílias do MA em Programa da Reforma Agrária

Beneficiários ocupam cinco territórios quilombolas no estado

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Agência Brasil

 

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) incluiu 1,6 mil famílias de comunidades quilombolas do Maranhão no Programa Nacional de Reforma Agrária.

decisão está publicada na edição desta sexta-feira (6) do Diário Oficial da União

A medida autoriza o processo de seleção das famílias por meio da Plataforma de Governança Territorial. Por meio da página, ocupantes de assentamentos e de áreas rurais da União passíveis de regularização podem solicitar a titulação pela internet, sem a necessidade de ir a uma unidade do Incra.

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Territórios quilombolas

O Decreto nº 4.887/2003 determina que o Incra é a autarquia competente, na esfera federal, pela titulação dos territórios quilombolas.

Como parte de uma reparação histórica, a política de regularização fundiária de Territórios Quilombolas tem a finalidade de proporcionar vida digna e a continuidade desses grupos étnicos.

Veja a lista das comunidades beneficiadas:

Comunidade Município Número de Famílias
Bonsucesso Mata Roma 1195
Cipoal dos Pretos Codó 32
Mata Virgem Codó 20
Rampa/Alto Alegre/Piqui Vargem Grande 286
Vila Nova Ilha do Cajual Alcântara 79

 

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CLDF vira passarela para celebrar superação de mulheres vítimas de violência

Desfile “Tecidas de Histórias” apresenta, nesta sexta (6), às 17h, na Galeria Espelho d’Água, “modelos” assistidas pelos comitês de proteção à mulher do GDF

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Foto: Mariana Guedes / Divulgação

 

Convidadas especiais ocuparão a passarela, com a intenção de destacar “trajetórias marcadas por coragem e reconstrução”

A Galeria Espelho d’Água da Câmara Legislativa se transformará em passarela. Às 17h desta sexta-feira (6), desfilarão, no local, “modelos” assistidas pelos comitês de proteção à mulher, em grande parte vítimas de violência. O evento, que tem apoio do gabinete da deputada Doutora Jane (MDB), quer celebrar “superação, autoestima e autonomia” e faz parte da programação do Março Mais Mulher, organizado pela Secretaria da Mulher do Distrito Federal.

Intitulado “Tecidas de Histórias”, será “mais que um evento de moda”, segundo o órgão do Governo do Distrito Federal (GDF). Na ocasião, além de mulheres acompanhadas pela pasta, convidadas especiais ocuparão a passarela, “consolidando-se como uma ação estratégica de protagonismo feminino”. A ideia é destacar “trajetórias marcadas por coragem e reconstrução”.

O desfile contará com coleções assinadas pelo estilista Fernando Cardoso e pela Estilosa Boutique, responsáveis pela construção estética e conceitual do evento, que pretende enfatizar “a força e a história” de mulheres atendidas pelos comitês de proteção à mulher.

Política pública recente, o objetivo dos comitês é ampliar a rede de acolhimento e fortalecer a busca ativa de vítimas de violência. A proposta é levar informação, escuta qualificada e orientação com a finalidade de devolver autoestima, visibilidade e dignidade. O atendimento é realizado na própria região onde as mulheres vivem, facilitando, por exemplo, o acesso àquelas que têm medo ou receio de procurar a polícia.

 

 

Agência CLDF

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