Reportagens

Artistas negras discutem impacto colonial na Temporada França-Brasil

Residência artística em Salvador será espaço de troca e resgate

 

Mariana Tokarnia* – Repórter da Agência Brasil

 

“Imaginem, nesse mundo em que a gente vive, se tirar o samba, tirar a salsa, tirar o jazz, tirar o hip-hop, tirar o funk. Será que a gente ainda estaria aqui?”. É com esse exercício, de pensar um mundo onde os ritmos e danças criados por pessoas negras não existem, que a coreógrafa e artista visual Ana Pi começa a explicar a um grupo de jornalistas o espetáculo Atomic Joy ─ em português, Alegria atômica. “Imagina se a gente tivesse decidido não dançar”.

No Brasil, a maior parte da população é negra ─ 55,5% se declararam pretos ou pardos no último Censo, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E é também a população que mais sofre violências, já que ser uma pessoa negra no Brasil faz você enfrentar um risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra, segundo o Atlas da Violência.

Como enfatizado por Ana Pi, é também a população negra a responsável por grande parte da produção cultural, tanto no Brasil, como no mundo. O espetáculo idealizado por Ana busca, ao mesmo tempo, a alegria e a batalha, a guerra e a miudeza das vibrações, por meio das diversas danças de rua. A obra, que conta com oito dançarinos, faz parte da programação da Temporada França-Brasil.

>> Confira os destaques da programação da Temporada da França no Brasil

Brasília (DF), 30/06/2025 - “Imagina se a gente tivesse decidido não dançar”, artistas investigam impactos da colonização africana .
Foto: Ana PI/Divulgação
A coreógrafa e artista visual Ana Pi nasceu em Belo Horizonte e mora na França há 14 anos  Ana PI/Divulgação

Ana Pi nasceu em Belo Horizonte, foi criada na capital mineira e em Salvador e mora na França há 14 anos. Ela é pedagoga, bailarina, pesquisadora das danças urbanas e reconhecida internacionalmente pelo trabalho com imagem e coreografia. Atomic Joy é o seu trabalho mais recente.

“Em Paris, a diversidade de danças de rua é muito importante. Há muitos séculos que Paris é Paris e, para das danças de rua, Paris também é Paris. É a cidade que acolhe a maior batalha do mundo. Não é à toa que breakdance passou a ser disciplina esportiva, com toda a complexidade que isso carrega, quando a cidade sediou os Jogos Olímpicos”, diz.

Não há dados oficiais de quantas pessoas negras vivem na França, mas a estimativa é que o país tenha a maior população negra da Europa, com mais de 60% de todos os europeus negros vivendo na França. De acordo com o Inquérito sobre Minorias e Discriminação na União Europeia, da Agência da União Europeia para direitos fundamentais (FRA), 29% das pessoas negras entrevistadas no país disseram ter sofrido discriminação nos 12 meses anteriores à pesquisa, e 48%, nos 5 anos anteriores.

A França foi responsável pela colonização de, pelo menos, 20 países africanos. Além disso, o país europeu ainda mantém o que chama de territórios ultramarinos, que incluem Guadalupe, Martinica e Guiana Francesa, na América Latina, cujas populações são, em grande parte, negras.

Centro e periferias

Foi na França, nos centros e nas periferias, nas áreas urbanas e rurais, que Ana Pi aprofundou, em diversas viagens, a própria pesquisa e o contato com as danças de rua.

“Essas danças, na verdade, são ferramentas de comunicação ancestrais que vêm passando por um processo de sofisticação ao redor do mundo, unindo as pessoas ao redor do mundo”, diz.

Ana Pi se propõe a trazer para os teatros tanto dançarinos quanto danças moldadas pelas ruas, evidenciando que a arte não está apenas nos espaços formais, mas em cada esquina, em cada quebrada.

Segundo a artista, espetáculo Atomic Joy fala também de batalhas. Batalhas individuais, coletivas e também batalhas de dança, tão comuns quando se trata das danças de rua. “É um lugar de encontro que parece uma competição, mas, na verdade, é uma troca de informação num grande nível de exigência”, define.

No espetáculo, Ana Pi quer falar da alegria, mas uma alegria, como ela mesma diz, amoral, afinal, “quem faz maldade por aí está muito alegre também, né? Então, dentro dessa tensão do que é alegria, tem a palavra resistência”, diz.

Já o atômico, que vem inicialmente para associar a alegria à guerra, a uma bomba atômica, depois, ao longo do processo criativo ganha outros contornos. “Quando a gente vai diminuindo, diminuindo, até ficar bem pequenininho, esse é o atômico também. A palavra átomo veio para trazer para a alegria uma dimensão menos bombástica, mas mais ínfima, mais tênue, mais frágil, mais simples, pequena e humilde”.

Da França para o Brasil

Se foi na França que Ana Pi encontrou semelhanças com o Brasil e aprofundou as próprias pesquisas, foi no Brasil que a escultora e artista multidisciplinar francesa Beya Gille Gacha encontrou mais informações sobre as próprias origens. Ela nasceu em Paris, a mãe é do Camarões, e o pai, francês. Gacha faz parte do projeto Oceano Negro, que promoverá, entre outras ações, uma residência artística em Salvador, como parte da Temporada França-Brasil.

Gacha conta que conheceu o Brasil também em uma residência artística, em Itaparica, na Bahia, promovida pelo Instituto Sacatar. A residência a marcou profundamente. Ela diz que viveu ali um cuidado que a permitiu voltar a criar, a inventar novas peças e ter um espaço para se reinventar e se reimaginar.

Durante a residência, ela sonhou com dois continentes que se aproximavam, e Camarões estava no meio. Sentiu que era para a cidade de origem da mãe que precisava ir. Até então, não tinha entendido por que. Um tempo depois, em uma conversa, em uma exposição, quando contava a experiência no Brasil, perguntaram se ela conhecia o Porto de Bimbia. Ela não conhecia, mas entendeu que precisava fazer uma visita. O porto, nos Camarões, foi ponto de partida de muitos africanos escravizados para a Europa e Américas.

“Hoje, é um pouco difícil o acesso. Cheguei na frente de painéis, onde havia anotado alguns lugares de ‘expedição de seres humanos’. E estava escrito Brasil, Brasil, Brasil [Como destino das viagens que deixaram o porto com pessoas escravizadas]. Eu caí sentada”, conta. Ela entendeu, então, a ligação que tinha com o Brasil.

Segundo a artista, existe uma amnésia de ambos os lados: os descendentes de africanos, tanto os que foram levados quanto os que ficaram em África, desconhecem as próprias origens.

“Existe uma amnésia dos dois lados, que é muito violenta que foi imposta às pessoas deportadas e também uma amnésia nos Camarões. Ninguém sabe que pessoas dos Camarões foram embora [traficadas como escravizadas]”, diz.

Camarões reúne povos de mais de 200 etnias. Desde os anos 1470, a região foi ocupada por portugueses, alemães, ingleses e franceses. Apenas em 1961 conquistou a independência, unificando a porção francesa e a inglesa. Com tantos povos unidos em um país por acordos europeus, é difícil saber ao certo a própria origem. Praticante de vudu, religião originalmente africana, Gacha conta que encontrou no Brasil elementos dela que não via mais em Camarões.

Gacha é uma das artistas de Little Africa Village, espaço de arte contemporânea criado e formado por mulheres afrodescendentes, localizado no bairro de cultura africana Pequena África, em Paris. É reconhecida internacionalmente, e seus trabalhos fazem parte das coleções do Banco Mundial e do Museu Nacional Smithsonian de Arte Africana, em Washington, nos Estados Unidos.

 

Brasília (DF), 30/06/2025 - “Imagina se a gente tivesse decidido não dançar”, artistas investigam impactos da colonização africana .
Foto: Atomic Joy/Ana Pi/Divulgação
Espetáculo Atomic Joy, de Ana Pi Atomic Joy/Ana Pi/Divulgação

Oceano Negro

Com o projeto Oceano Negro, no segundo semestre deste ano, ela volta a Itaparica. Dessa vez, promovendo ela mesma uma residência artística voltada para mulheres, junto com outras artistas. Por dois meses, elas ficarão imersas em trocas entre si e com o ambiente.

“É um projeto que foi gerado com a ideia de que raramente temos os espaços de criação que são valorizados e apresentados como espaços de cuidado. Eles são necessários aos artistas. Fala-se pouco das residências, não se sabe para que servem as residências de artistas. A residência serve para renascer, criar, descobrir. Dependendo da residência, permite também a concentração”, diz.

A artista brasileira Fabiana Ex-Souza, que vive em Paris desde 2010, também faz parte do grupo de artistas de Little Africa Village que irá promover a residência artística. Segundo ela, o encontro entre pessoas de diferentes origens, no Brasil, poderá criar muitas conexões.

“O Brasil funciona para muitos da diáspora quase como um santuário, porque dentro dessa nossa luta, a gente a gente preservou muita coisa que na África, em si, foi sendo perdida pelas histórias das colonizações que foram acontecendo sucessivamente. Então, o Brasil conservou muito dessa África”, diz.

Ela complementa: “Tem essa coisa de ir para África para encontrar, mas também tem uma coisa da África que vem para a gente para se encontrar. Então, eu acho que esse Oceano Negro mesmo é um local de encontro. Principalmente para nós todas, vai ser esse local de encontro, onde cada prática vai tentar se aliar e tentar criar essas novas formas de conjurar novos locais de experiência sensível para o mundo”.

Em busca da própria história, ela acrescentou o Ex no sobrenome. Fabiana conta que o nome Souza, de origem portuguesa, provavelmente veio até a família dela por conta da escravidão. As pessoas escravizadas que chegavam ao Brasil recebiam novos nomes e eram obrigadas a deixar a própria história para trás.

Ao mesmo tempo que queria assumir o controle sobre a própria trajetória, Fabiana não queria romper o vínculo com aqueles que vieram antes dela e que carregaram também o Souza.

“O Ex foi uma maneira, para mim, de criar um espaço entre esse nome que eu recebi, que eu herdei dessa colonização do Brasil, e uma maneira de começar a pensar esse espaço como um espaço de descolonização mental, espiritual, sem necessariamente mudá-lo”, diz.

Temporada França-Brasil

A temporada 2025 foi acordada em 2023, pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron. O objetivo é fortalecer a relação bilateral entre os dois países, principalmente por meio da cultura. No primeiro semestre deste ano, ocorreu a Temporada Brasil-França, ou seja, a programação brasileira em solo francês. Agora, no segundo semestre, é a vez da Temporada França-Brasil, elaborada pela França.

Os temas prioritários da temporada são: a diversidade de sociedades e diálogo com África; democracia e Estado de direito; e clima e transição ecológica. A programação, que ocorre de agosto a dezembro, será distribuída entre 15 cidades brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Salvador, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Campinas, São Luís, Teresina, João Pessoa e Macapá.

Entre os dias 17 e 24 de maio, a Agência Brasil esteve em Paris para conhecer um pouco da programação, a convite do Instituto Francês, vinculado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da França, responsável pela programação do segundo semestre.

*A repórter viajou à Paris a convite do Instituto Francês.

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reportagens

Rádio Nacional terá programação especial em homenagem ao Dia das Mães

Programas Natureza Viva e Ponto de Encontro vão ao ar no domingo (10)

Publicado

em

Por

 

EBC

 

Rádio Nacional apresenta, neste domingo (10), uma programação especial em homenagem ao Dia das Mães. Das 9h às 10h, o Natureza Viva, apresentado e produzido por Mara Régia, celebra a maternidade com uma homenagem às árvores, consideradas “mães da floresta”. Em seguida, das 10h às 12h, o Ponto de Encontro, apresentado por Pedro Pontes, abre espaço para mensagens, recados e homenagens de ouvintes às mães. As edições serão transmitidas na Rádio Nacional da Amazônia (11.780KHz e 6.180KHz OC), Rádio Nacional do Alto Solimões (FM 96,1 MHz), Rádio Nacional de Brasília (AM 980 Khz) e emissoras parceiras.

O especial do Natureza Viva terá entrevista com Jota Barbosa, fotógrafo, produtor cultural e que realiza visitas guiadas na cidade de Afuá, na Ilha do Marajó, no Pará. Ele vai falar sobre uma sumaúma que chama a atenção pelo porte e pela importância simbólica para quem visita a região. A árvore tem uma altura comparada à do maior prédio da capital do Amapá e é apelidada de “Muralha da Amazônia”, com aproximadamente 60 metros de altura e raízes expostas de grande porte.

A programação também contará com a participação do cantor e compositor Nilson Chaves, que vai apresentar um repertório musical em homenagem às mães da Amazônia. O especial reúne ainda outras vozes ligadas à natureza e à defesa ambiental, entre elas Antônia Oliveira, que vive em Carlinda, em Mato Grosso, no assentamento denominado Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS).

Na sequência, o Ponto de Encontro reforça a tradição de interação com o público. A atração recebe mensagens de ouvintes que desejam prestar homenagens, retomar contatos ou simplesmente enviar uma saudação especial às mães. Os interessados poderão participar pelo WhatsApp da Rádio Nacional da Amazônia, no número (61) 99674-1568, pelo contato direto com o estúdio da Rádio Nacional, no telefone (61) 3799-5470, ou ainda pela Ouvidoria da EBC.

>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

No ar de segunda a domingo, das 10h às 12h, o Ponto de Encontro reúne recados, músicas e histórias compartilhadas pelos ouvintes. Ao longo da trajetória, o programa já registrou relatos de reencontros, novas amizades, casamentos e mensagens que aproximam pessoas em diferentes regiões do país.

Sobre a Rádio Nacional

A emissora pública faz 90 anos em 2026. A marca está na história do país e conta, atualmente, com oito emissoras próprias, em diferentes regiões do Brasil: Rádio Nacional do Rio de JaneiroRádio Nacional de São Paulo, Rádio Nacional de Brasília AM e FMRádio Nacional do RecifeRádio Nacional de São LuísRádio Nacional da Amazônia e Rádio Nacional do Alto Solimões.

Serviço

Natureza Viva Especial – Dia das Mães
Domingo (10), a partir das 9h, no horário de Brasília (DF), nas seguintes emissoras: Rádio Nacional da Amazônia (11.780KHz e 6.180KHz OC), Rádio Nacional do Alto Solimões (FM 96,1 MHz), Rádio Nacional de Brasília (AM 980 Khz) e parceiras.

Ponto de Encontro Especial – Dia das Mães
Domingo (10), a partir das 10h, no horário de Brasília (DF), nas seguintes emissoras: Rádio Nacional da Amazônia (11.780KHz e 6.180KHz OC), Rádio Nacional do Alto Solimões (FM 96,1 MHz), Rádio Nacional de Brasília (AM 980 Khz) e parceiras.

Rádio Nacional na internet e nas redes sociais

Site: https://radios.ebc.com.br 
Instagram: https://www.instagram.com/radionacionalbr 
Spotify: https://open.spotify.com/user/vpj3k8ogjwf1nkv4nap3tlruv
YouTube: http://youtube.com/radionacionalbr 
Facebook: https://www.facebook.com/radionacionalbr 
Threads: https://www.threads.com/@radionacionalbr
Streaming: https://aovivo.ebc.com.br/embed-audio.html?emissora=radio-nacional-do-rio-de-janeiro

WhatsApp Nacional

– Rádio Nacional FM: (61) 99989-1201
– Rádio Nacional AM: (61) 99674-1536
– Rádio Nacional da Amazônia: (61) 99674-1568
– Rádio Nacional do Rio de Janeiro: (21) 97119-9966

Saiba como sintonizar a Rádio Nacional

Brasília: FM 96,1 MHz e AM 980 Khz
Rio de Janeiro: FM 87,1 MHz e AM 1130 kHz
São Paulo: FM 87,1 MHz
Recife: FM 87,1 MHz
São Luís: FM 93,7 MHz
Amazônia: 11.780KHz e 6.180KHz OC
Alto Solimões: FM 96,1 MHz
Celular – App Rádios EBC para Android e iOS

Continue Lendo

Reportagens

Dia da Mulher Sambista será celebrado em sessão solene na CLDF

Responsável pela iniciativa, a deputada Doutora Jane (Republicanos) destacou a importância da data como forma de reconhecimento

Publicado

em

Por

 

Foto: Andressa Anholete / Arquivo Pessoal

Dona Ivone Lara se apresentou pela última vez em Brasília em 14 de setembro de 2015, durante o projeto Flores em Vida que homenageou grandes nomes do samba

Na próxima sexta-feira (8), às 19h, o Plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) recebe sessão solene em homenagem ao Dia da Mulher Sambista. A data, comemorada oficialmente no dia 13 de abril, marca o nascimento de Yvonne Lara da Costa (1922–2018), conhecida como Dona Ivone Lara, considerada uma das principais referências do samba no Brasil.

Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo no carnaval carioca, em 1965, e integrou a ala de compositores da escola de samba Império Serrano. Responsável pela iniciativa, a deputada Doutora Jane (Republicanos) destacou a importância da data como forma de reconhecimento da mulher como “força artística, resistência histórica e contribuição para a identidade cultural” no Distrito Federal e no Brasil.

 

Foto: Andressa Anholete / Agência CLDF

“Trata-se de homenagem justa a mulheres que, com talento, sensibilidade e coragem, mantêm viva uma tradição que celebra memória, ancestralidade, pertencimento e alegria popular”, afirmou.

A sessão poderá ser acompanhada pela TV Câmara Distrital, nos canais 9.3 (aberto), 11 da NET/Claro e 9 da Vivo, além do canal oficial da CLDF no YouTube.

 

 

Ágata Vaz (sob supervisão de Noelle Oliveira)

Continue Lendo

Reportagens

Turismo arrecada mais de R$ 90 milhões em 2025 e impulsiona o desenvolvimento de Brasília

No Dia Nacional do Turismo, capital federal registra crescimento acima da média nacional, conquista reconhecimento no turismo de negócios e fortalece setores como eventos, hotelaria, gastronomia e cultura com geração de emprego e renda

Publicado

em

Por

 

Por

Agência Brasília* | Edição: Paulo Soares

 

O turismo é hoje um dos pilares da economia do Distrito Federal, movimentando uma ampla cadeia produtiva que envolve hotelaria, gastronomia, transporte, comércio e eventos. Em 2025, o setor arrecadou mais de R$ 90 milhões em Imposto sobre Serviços (ISS), refletindo sua importância direta na geração de receitas e no fortalecimento da economia local.

Além disso, o turismo é um importante gerador de empregos. De acordo com dados da Embratur, em 2025 foram registradas 59.786 admissões e 56.480 desligamentos, resultando em um saldo positivo de 3.306 novos postos de trabalho no setor. O impacto vai ainda além: estimativas da Organização Mundial do Turismo e do World Travel & Tourism Council indicam que, para cada emprego direto gerado no turismo, entre 1,5 e 2 empregos indiretos ou induzidos também são criados, ampliando significativamente o alcance do setor na economia.

O crescimento do turismo em Brasília também chama atenção. Em 2025, a capital registrou um aumento de 62% no número de turistas internacionais, bem acima da média nacional de 37%, alcançando a marca recorde de cerca de 110 mil visitantes estrangeiros. Entre os principais países emissores estão Estados Unidos, Portugal, Argentina, Peru e Panamá. No turismo doméstico, mais de 1,1 milhão de visitantes passaram pelo DF, vindos principalmente de estados como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro.

Esse fluxo de visitantes é atraído por uma diversidade cada vez maior de experiências. Além dos tradicionais cartões-postais do eixo cívico e arquitetônico, como o Congresso Nacional do Brasil e a Catedral Metropolitana de Brasília, a cidade se destaca por opções de lazer e natureza, como o Lago Paranoá e a Ermida Dom Bosco. Novos atrativos também ganham protagonismo, como a Casa de Chá, que já recebeu mais de 250 mil visitantes em pouco mais de um ano, além de rotas turísticas segmentadas, como a Rota do Queijo e circuitos de cicloturismo.

A agenda de eventos é outro motor fundamental do turismo no DF. Em 2025, Brasília recebeu grandes atrações internacionais como Katy Perry, Linkin Park, Imagine Dragons e Guns N’ Roses, além de importantes nomes da música brasileira, como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Thiaguinho. Eventos de grande porte também movimentaram a cidade, como a Supercopa do Brasil de 2026, com público de 71 mil pessoas, e encontros religiosos que reuniram até 80 mil participantes.

A diversificação da oferta turística tem ampliado o potencial do destino, com investimentos em segmentos como ecoturismo, turismo gastronômico, turismo rural e turismo de experiência. A Secretaria de Turismo do Distrito Federal (Setur-DF) disponibiliza, inclusive, rotas segmentadas que conectam visitantes a diferentes vivências no território.

 

A infraestrutura acompanha esse crescimento. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, houve aumento de 8,12% na Receita por Apartamento Ocupado (RevPAR) em 2025. O setor também passa por modernizações importantes, como o projeto de requalificação dos setores Hoteleiros Norte e Sul e a ampliação do Brasília Palace Hotel, ícone da arquitetura modernista projetado por Oscar Niemeyer, que deverá ganhar cerca de 150 novos leitos.

Outro destaque é a conectividade aérea. O Aeroporto Internacional de Brasília está entre os cinco mais importantes do país e foi considerado o segundo aeroporto mais pontual do mundo em sua categoria. Em 2025, mais de 16,7 milhões de passageiros passaram pelo terminal, que conta com voos diretos para destinos como Lisboa, Miami, Buenos Aires, Lima e Santiago, conectando Brasília ao Brasil e ao mundo.

Brasília também conquista reconhecimento nacional pela excelência no turismo. Recentemente, a capital federal foi reconhecida como um dos melhores destinos de negócios do país no prêmio O Melhor do Turismo Brasileiro, promovido pelo jornal Estadão. A cidade conquistou o segundo lugar na categoria “Destino de Negócios”, ao lado de importantes centros urbanos, como São Paulo e Curitiba.

A diversificação da oferta turística tem ampliado o potencial do destino, com investimentos em segmentos como ecoturismo, turismo gastronômico, turismo rural e turismo de experiência

A premiação, realizada em Foz do Iguaçu, reconhece iniciativas e destinos que contribuem para o desenvolvimento e a qualificação do turismo brasileiro. Brasília também teve destaque na categoria “Aeroporto”, com o Aeroporto Internacional de Brasília figurando como o melhor do país, reforçando a infraestrutura estratégica da capital para o turismo de negócios e eventos.

O turismo esportivo também ganha força com a retomada do Autódromo de Brasília. A expectativa é receber 54 eventos, incluindo grandes competições como a Stock Car, ampliando ainda mais o calendário esportivo da capital. Para o secretário de Turismo interino, Bernardo Antunes, o momento é de consolidação e crescimento. “O turismo é uma das grandes forças da nossa economia. Ele gera emprego, movimenta diversos setores e posiciona Brasília como um destino cada vez mais competitivo. Temos investido na diversificação da oferta, na qualificação da infraestrutura e na promoção do destino. Os resultados mostram que estamos no caminho certo, com crescimento acima da média nacional e reconhecimento cada vez maior no cenário internacional”, afirma.

Neste Dia Nacional do Turismo, Brasília celebra não apenas números expressivos, mas um setor que conecta pessoas, transforma realidades e projeta a capital como um destino completo, que une arquitetura, cultura, natureza, eventos e experiências únicas.

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010