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DUAS CURIOSIDADES SOBRE LÉRY
1) O QUE TEM A VER A BASÍLICA DE SÃO PEDRO COM A VIAGEM DE JEAN DE LÉRY? 2) NO MAR É COMO EM TERRA: VALE A LEI DO MAIS FORTE QUE DOMINA O MAIS FRACO.
Naturalistas Viajantes – JEAN DE LÉRY – Parte 19
“Uma vez em terra, caminhei ao longo da Avenida Rio Branco,
onde uma vez existiram as aldeias tupinambás;
no meu bolso havia aquele breviário do antropólogo, Jean de Léry.
Ele chegou ao Rio 378 anos antes, quase no mesmo dia”.
Claude Lévi-Strauss em ‘Tristes Trópicos’, ao chegar ao Rio de Janeiro em 1934.
Jean de Léry (Lamargelle-França 1534 – L’Isle, Suíça 1611) entrou de gaiato no navio. Para nossa sorte. Acreditou na balela do poderoso Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571) e embarcou em um dos navios franceses que vieram colonizar a porção Antártica da França. O relato que o artesão e futuro pastor calvinista deixou aos brasileiros é precioso e deveria ser leitura obrigatória em nossas escolas. Com a mesma competência, trabalhava o couro e as palavras. Os sapatos e botas que saíram de suas mãos não mais existem, mas suas aventuras e observações estão eternizadas em um livro que deve ser obrigatório em qualquer biblioteca.
Lévi-Strauss assim se refere a Léry: “A leitura de Léry me ajuda a escapar de meu século, a retomar contato com o que eu chamaria de ‘sobre-realidade’, não aquele de que falam os surrealistas, mas uma realidade ainda mais real do que aquela que testemunhei. Léry viu coisas que não têm preço, porque era a primeira vez que eram vistas e porque foi a quatrocentos anos”.
O QUE TEM A VER A BASÍLICA DE SÃO PEDRO COM O BRASIL?
Essa é uma história interessante e verdadeira. Que sequência de eventos poderia associar a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma pelo papa Leão X, nos primórdios do século XVI, com a vinda de Léry para o Brasil? Simples assim: Leão X encarregou um padre católico para arrecadar fundos para a reforma da basílica com a venda de indulgências na Alemanha. Indulgências são o perdão parcial ou total dos pecados. O mote do padre encarregado das vendas era: “Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do Purgatório”.
Martinho Lutero (1483-1546), monge católico e teólogo alemão, se revolta com a comercialização do que acredita ser um atributo divino, rompe formalmente sua obediência às leis papais e propõe a reforma religiosa.
O humanista francês João Calvino (1509-1564) adere à Igreja Reformada ou Protestantismo e leva além o conceito. O oportunista Villegaignon percebe nos conflitos religiosos deflagrados a oportunidade de colonizar sua sonhada França Antártica. O nobre francês Gaspar de Coligny acredita na proposta e solicita a Genebra religiosos reformados para preparar terreno ao que seria o reduto de milhares de protestantes perseguidos na Europa. E do grupo, quem faz parte Justamente um estudante de teologia chamado Jean de Léry, “que, tanto pela vontade de servir a Deus, como curioso de ver terras novas, me decidi a fazer parte da comitiva do poderoso Nicolas Durand de Villegaignon em direção ao Rio de Janeiro”.

ORIGINAIS DO LIVRO DE LÉRY
Não foi preciso muito esforço dos portugueses para colocar fim ao empreendimento. As tensões internas e a inconstância de Villegaignon praticamente volatizaram a possibilidade da Cidade Maravilhosa e a Cidade Luz coexistirem nos trópicos. Mas isso seria covardia com o resto do mundo! Talvez assim Lévi-Strauss não achasse os trópicos tão tristes.
Por pouco o livro de Léry não chega até nós. Solícito aos amigos que viam a importância de seu depoimento, Léry coordena suas anotações, escreve um documento e encaminha para publicação. O desastrado portador perde os originais e Léry refaz de memória o livro, que é novamente perdido em meio aos conflitos religiosos. Um nobre francês, que desconhecemos o nome e a quem devemos eterna gratidão, não se conforma e investe seu prestígio para reencontrar o primeiro original, que é então publicado com 20 anos de atraso.
Há vários séculos o livro de Léry coleciona leitores de prestígio como os pensadores Michel de Montaigne (1533-1592), que se inspira em um trecho em seus ‘Ensaios’, e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
Nos capítulos iniciais, Léry descreve “do motivo que nos levou a empreender tão penosa viagem”. Relata a partida das três naus da Normandia em novembro de 1556 e as ações de pirataria e covardia dos marinheiros franceses: “Neste primeiro encontro vi que no mar é como em terra: o mais forte domina e dá leis ao mais fraco”.
Não esquece um fato curioso que testemunha e faz questão de registrar. A dança da ‘selha’, que é uma espécie de gamela: “Contarei ainda uma coisa notável. Durante essa tempestade que durou quatro dias, o nosso cozinheiro pusera pela manhã toucinho numa selha de madeira para dessalgar; veio uma rabanada de onda e lançou a selha ao mar, à distância de um tiro de dardo; outra vaga, porém, vinda em sentido contrário, trouxe outra vez a vasilha ao convés, sem que no ir e vir se entornasse o conteúdo, o que nos restituiu o jantar que havia ido por água abaixo…”
“VIAGEM À TERRA DO BRASIL’
O livro ‘Viagem à Terra do Brasil’, escrito por Léry, consta do catálogo da Editora Itatiaia, de Belo Horizonte. Léry anota um ‘Colóquio de Entrada ou Chegada ao Brasil, entre a Gente do País Chamada Tupinambá e Tupiniquim, em Linguagem Brasílica e Francesa’, seguido de observações gramaticais, restaurado, traduzido e anotado pelo filólogo paulistano Plínio Ayrosa (1895-1961). O professor Ayrosa, ex-professor de Etnografia e dialeto tupi-guarani da USP, considerava de enorme interesse e importância esse colóquio, que é apresentado como o capítulo final do livro.
Em 1564 Léry foi nomeado ministro religioso. Durante os conflitos religiosos que ocorreram na França, a pequena cidade de Sancerre se manteve fiel à Igreja Reformada e foi sitiada pelos católicos, em 1573. Léry encontrava-se na cidade e sua experiência mostrou-se útil. Ensinou os guardas a usarem as redes brasileira, que permitiam o repouso sem abandonar as armas e mostrou aos sitiados como atenuar a fome mediante o cozimento do couro de seus calçados. Em seu livro, Léry ainda afirma que “embora a fome sofrida durante o sítio de Sancerre, em 1573, deva ser colocada entre as mais terríveis de que jamais se ouviu falar, como se pode ver em minha narrativa impressa, não foi ela tão rigorosa como a de que aqui se trata: pois em Sancerre não só não nos faltou água nem vinho, como ainda sempre tivemos algumas raízes, ervas silvestres, rebentos de videiras e outras coisas que a terra dá. (…) Devo declarar agora que se viesse a ser assediado em defesa de uma boa causa jamais me renderia pela fome, enquanto houvesse cabeções de couro de búfalo, vestes de camurça ou outras coisas em que exista suco ou umidade”.
Após os eventos de Sancerre, Léry se exilou na Suíça e morreu em Berna em 1611, aos 77 anos.
PRÓXIMA EDIÇÃO 379 – OUTUBRO DE 2025 – PARTE FINAL.
CONCLUSÃO E FINAL DA VIDA DE JEAN DE LÉRY – “Para cúmulo de misérias, ao chegarmos a Nantes tivemos os sentidos transtornados por completo e passamos quase oito dias com o ouvido ao duro e a vista tão ruim, que pensei ficar surdo e cego. Todavia, excelentes médicos e notáveis personalidades que continuamente nos visitavam, com tanto cuidado nos trataram que, quanto a mim, cerca de um mês mais tarde já tinha a vista e o ouvido perfeitos. O recado de Léry era simples: Se alguém queria ver selvageria, não era preciso sair da Europa. E concluía dizendo que, não fora o que chamava de “traição de Villegaignon”, o Brasil teria sido seu lar para sempre.
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ESCÂNDALO NO PARQUE
ONG criada pela chefe do Parque Nacional Serra da Capivara recebeu mais de um milhão entre emendas parlamentares e convênios públicos
OLHO GORDO NO PARQUE SERRA DA CAPIVARA
A crise que abala a justiça brasileira parece se repetir com a mesma intensidade e impunidade no interior do Piauí, um dos estados mais pobres do país. No escândalo nacional que envolve “supremos do Supremo”, surge o caso Vocaro. No escândalo piauiense, surge o caso “Olho d’Água” que envolve a chefe do Parque Nacional Serra da Capivara, Marian Helen Rodrigues. Sua ONG, Instituto Olho D’Água, foi beneficiada, nos últimos anos, por meio de emendas parlamentares e outros mecanismos, com repasses de mais de um milhão de reais.

A chefe do Parque Nacional Serra da Capivara, Marian Rodrigues, num claro conflito de interesses, é também a representante da ONG `Instituto Olho D’’Agua`. Na foto, Marian na Câmara dos Vereadores de Coronel José Dias.
A ONG Instituto Olho D’Água, do pequeno município de Coronel José Dias, criada pela atual chefe da Serra da Capivara, recebeu mais de R$ 1 milhão por meio de convênios federais, leis de incentivo à cultura, editais públicos e emendas parlamentares.
O caso do Piauí parece ser emblemático da postura que atinge nossos representantes públicos. Para assumir o cargo de chefe do Parque Nacional Serra da Capivara, Marian Helen Rodrigues teve que se afastar juridicamente da instituição que ela criou junto com o marido na pequena cidade de Coronel José Dias. No entanto, desde que assumiu o cargo no governo federal, a ONG viu a sua dotação orçamentária crescer exponencialmente: de um orçamento inexistente até o ano de 2019, quando assumiu a função federal, até atingir valores milionários hoje em dia.
Enquanto nos últimos anos o Parque Nacional Serra da Capivara – que é Patrimônio Cultural da Humanidade – recebeu uma única emenda parlamentar no valor de R$ 100 mil para a sua manutenção, o Instituto Olho D’Água assistiu ao seu orçamento ganhar fôlego inédito com o repasse de mais de R$ 1 milhão de reais apenas de convênios e emendas parlamentares, principalmente do senador Marcelo Castro e do seu filho, deputado federal Castro Neto, ambos do MDB.
NOMEAÇÃO POLÍTICA
Marian Helen Rodrigues foi nomeada politicamente em março de 2019 para exercer cargo de confiança no ICMBio, autarquia federal responsável pela gestão das unidades de conservação. Para isso, ela teve que se “afastar” do dia a dia da ONG, mas não é isso que mostram suas redes sociais e inúmeras reportagens em sites e veículos de comunicação. Desde que assumiu o cargo público, o Instituto Olho D’Água teve um crescimento financeiro vertiginoso; basta uma simples pesquisa no Portal da Transparência para confirmar esses dados.
De acordo com os registros de parcerias e dados oficiais publicados pelo Instituto Olho d’Água (IODA) – com sede em Coronel José Dias (PI) – a instituição tem recebido recursos federais provenientes majoritariamente de emendas parlamentares do senador Marcelo Castro, além de editais e termos de fomento vinculados primariamente ao Ministério da Cultura.
VALORES IDENTIFICADOS
Considerando apenas os termos de fomento e instrumentos formalizados nos últimos anos, os valores identificados somam um total de R$ 742.440,00 em repasses de emendas parlamentares federais:
2020: R$ 192.440,00 (Emenda nº 41830001)
2021: R$ 100.000,00 (Emenda nº 41830003)
2022: R$ 150.000,00 (Emenda nº 41830004)
2023: R$ 150.000,00 (Emenda nº 41830002)
2025: R$ 200.000,00 (Termo Fomento nº 981976 – MinC
Paralelamente às emendas, no ano de 2023 o Edital Escolas Livres de Formação em Arte e Cultura aprovou um montante de R$ 500 mil, ou seja, meio milhão de reais, para execução do projeto para “Realização de oficinas, seminários, cursos e capacitações voltados para formação e capacitação cultural em Coronel José Dias (PI)”, visando à consecução de finalidade de interesse público e recíproco que envolve a transferência de recursos financeiros à Organização da Sociedade Civil (OSC), conforme especificações estabelecidas no plano de trabalho.
Além dos recursos direcionados por emendas parlamentares específicas, a instituição também figura em editais de chamamento público e repasses voluntários de âmbito cultural, a exemplo de premiações e editais de escolas livres de formação geridos por pastas federais.
CONFLITO DE INTERESSES
Conforme a imprensa nacional não cansa de divulgar — mas o Piauí se nega a reconhecer -, Marcelo Castro e seu grupo político vivem atolados em conflitos de interesse no dia a dia.
O caso da chefia do Parque Nacional Serra da Capivara é emblemático. Nos próximos anos, por exemplo, Marcelo Castro e seu grupo precisarão de autorização para que as obras da Adutora do Jenipapo possam prosseguir. Como a obra cruza a zona de entorno do Parque Nacional Serra da Capivara e a atual chefe da unidade, Marian Helen Rodrigues, possui estreitas ligações com o grupo político, caberia a ela declarar-se impedida — o que não aconteceu.
Outro episódio recente foi a tentativa tresloucada do prefeito de Coronel José Dias de cobrar uma espécie de pedágio para os turistas acessarem o parque nacional. Victor César de Carvalho, aliado de Marcelo Castro, só interrompeu a cobrança ilegal após uma ação popular questionar o cerceamento ao livre acesso da unidade de conservação.
Mesmo diante de toda a polêmica gerada pela cobrança e dos prejuízos causados ao trade turístico, a chefe do parque não moveu uma palha para impedir o “pedágio” ilegal.
A mesma situação de inoperância já havia ocorrido anos atrás, quando uma grande empresa planejava plantar soja na zona de entorno do parque. Mais uma vez, a representante do ICMBio omitiu-se publicamente. Foi necessária a mobilização de pesquisadores e moradores locais para impedir a consumação de um projeto que já contava, inclusive, com a complacência da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Piauí (SEMAR). Por pouco, o parque — reconhecido como Patrimônio Mundial — não foi atingido pela contaminação típica que grandes projetos agropecuários causam à natureza.
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