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Fascínio e ilusão: Dia do Índio

Artigo publicado no Jornal de Brasília, em 19 de abril de 1995, na página de Opinião

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Silvestre Gorgulho


Hoje, o homem branco comemora o Dia do Índio. Qual o significado desta comemoração? Será, verdadeiramente, um dia especial em que a sociedade procura valorizar os primeiros habitantes desta terra, anunciando aos quatro ventos que é hora de respeitar seus direitos constitucionais? Ou será, simples-mente, pela dor de consciência, pelo remorso, pelas discriminações, pelas agressões e pelas omissões do todo-poderoso homem branco contra o acuado homem índio?


Por um motivo ou outro, hoje 19 de abril, comemora-se o Dia do Índio. É uma oportunidade para que todos possamos estudar e entender um pouco da História do Brasil, conhecer mais desta nação de 270 mil índios, divididos em 519 reservas, 200 tribos e falando cerca de 160 línguas diferentes.


Para se ter uma idéia da complexidade da questão indígena, estudiosos acham que ainda existam no Brasil cerca de 24 grupos indígenas totalmente isolados, sem nenhum tipo de contato. A Funai confirma a metade desse número. Na época do descobrimento, estima-se, havia em terras brasileiras cerca de 2 milhões de índios.


Quem tem razão é o mestre Antônio Callado: “Os índios nos fascinam porque são anteriores ao tempo”. Pensando bem, é a pura verdade. Tudo o que é anterior ai tempo fascina a gente: Adão e Eva os dinossauros, os faraós, Bíblia…


Quando Cristóvão Colombo aportou em terras americanas, aqui já estavam os índios. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil com suas 10 naus e três caravelas. aqui já estavam os índios.


Que saga fantástica desse povo, dessa gente, desses guerreiros’ que são anteriores ao tempo?
E esse fascínio tem um misto de deslumbramento e de oportunismo. Na primeira missa rezada em solo brasileiro por frei Henrique de Coimbra, no Ilhéu de Coroa Vermelha, em Porto Seguro, os catolicíssimos portugueses tinham percebido uma coisa importante: os índios, pela primeira vez, poderiam ser usados como marketing. Esse sagrado momento, registrado em cartas e pintura, levaria o Reino a financiar novas expedições. Afinal, para o mundo cristão, o momento não era só de descobrir riquezas, mas, também, ge salvar almas.


As cores, a terra, as crenças. a madeira, o saber da floresta, os co-lares, tudo isso é motivo de inveja, de fascínio e de cobiça. Usados na manipulação de garimpos e de madeira, ludibriados por posseiros e fazendeiros, fotografados ao lado de candidatos para marketing eleitoral, estudados para melhor conhecimento da vida e do homem e conquistados com mais de 60 grupos de missionários, o índio tem seu nome exposto para o bem e para o mal. Onde quer que estejam, nu na floresta ou de calça Lee na Praça dos Três Poderes, eles continuam sendo a referência maior de uma cultura e de um país. E um país é feito de gente.


O índio do pantanal sul-mato-grossense, Marcos Terena, funda-dor da União das Nações Indígenas, foi muito feliz ao lembrar que “as diferenças entre nossas origens e nossos costumes devem ser fatores para grande celebração da pluralidade étnica e cultural do Brasil e jamais razão para discriminação”.


Anteriores ao tempo e exóticos no comportamento, os índios sempre fascinarão o homem branco. Sempre? Bem, se em 1500 eram cerca de 2 milhões e hoje não passam de 270 mil, chegará o dia em que não mais existirão. Aí, sim, podemos dizer como Julles Petit-Senn: “O que o tempo traz de fascínio não vale, com certeza, o que leva de ilusões”.


 

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QUANDO RENÉ BURRI CHOROU POR UMA FOTO

A HISTÓRIA DE UMA FOTO EMOCIONANTE

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Antes da inauguração de Brasília, com o Palácio do Planalto prontinho, lindo de morrer, um pedreiro que trabalhou no Palácio, aproveitou para levar sua família para ver sua obra prima. Ele sabia que não poderia estar com sua família (e nem ele próprio) na inauguração.
Era um domingo. René Burri passando ali na Praça dos 3 Poderes, viu aquela família simples (com roupa de ir à Missa) apreciando demoradamente o Palácio do Planalto. Não teve dúvidas. Burri desceu do Jeep e fez essas duas fotos abaixo.
Gostaria que os 22,1 membros deste MEMÓRIA lessem o que René Burri deixou registrado em seu livro BRASÍLIA (Editora Scheidegger & Spiess):
“Para mim Brasília era uma utopia que se transformou em realidade. Era uma cidade que saiu do nada em poucos anos. Existe uma foto no meu livro…ela mostra uma família que chega ao final. Eu tive de chorar quando vi essa imagem. Eram os chamados “candangos”, não? Ele chegou com um machado e chapéu de palha e, no final, quando o trabalho estava pronto, levou a mulher e os filhos com suas melhores roupas para ver o seu trabalho. E depois era a inauguração e esse pessoal teve de partir.”
O grande fotógrafo René Burri pertenceu à geração de fotógrafos que deu sua contribuição para a afirmação da fotografia jornalística e documental como meio de expressão independente e de caráter autoral.
Viajou o mundo. Retratou inúmeras personalidades importantes da História do século 20. Mas não se esqueceu de caminhar pelas ruas, essa fonte inesgotável de surpresas da vida cotidiana.
Ele começou a fotografar aos 13 anos, quando o primeiro ministro do Reino Unido Winston Churchill desfilava pela cidade. Formou-se em fotografia na faculdade de arte de Zurique.
FOTOS:
1 e 2) As duas FOTOS que René Burri tirou da família.
2) Foto do interior do Palácio do Planalto em construção.
3) A inauguração de Brasília, JK acena para o povo na Praça dos 3 Poderes.

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300 quilos de lixo são retirados de rio da Amazônia em mutirão

Lançado em setembro de 2021, o programa já mobilizou mais de 600 voluntários e retirou 15,5 toneladas de resíduos dos rios brasileiros

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QUALIDADE AMBIENTAL URBANA

 

Foto: Zack/MMA

 

O dia chuvoso não desanimou os mais de 80 voluntários que participaram do mutirão para recolher resíduos do rio Tapajós, em Santarém (PA). Na sexta ação do programa Rios+ Limpos, do Ministério do Meio Ambiente, foram recolhidos quase 300 quilos de lixo na região de Alter do Chão. O local é famoso pelas praias paradisíacas formadas ao redor do rio e recebe grande quantidade de turistas.

Grupos de voluntários se dividiram a pé e de barco, percorrendo 5 quilômetros de área, e encontraram muito material deixado por quem visita o local. “Garrafas, plásticos, papel, tampas de metal, enfim, uma série de produtos, que não tinham que estar na praia do rio. Então, a mensagem que a gente deixa para todos os turistas e banhistas é: quando vier ao rio, leve seu lixo com você e descarte de forma adequada, contribuindo assim para que a gente tenha rios mais limpos”, destacou o secretário de Qualidade Ambiental do MMA, André França, que também participou do mutirão.

Todo o material recolhido passou por uma triagem e os recicláveis foram destinados às cooperativas de catadores da região. A ação, realizada no mês de dezembro, contou com a parceria da prefeitura de Santarém, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, além de Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Cooperativa de Reciclagem de Santarém (Coopresan), Grupo de Defesa da Amazônia (GDA) e a Universidade da Amazônia (Unama).

O programa “Rios +Limpos” foi lançado pelo Ministério do Meio Ambiente em setembro de 2021. Em apenas quatro meses, seis mutirões foram realizados com a mobilização de mais de 650 voluntários. Foram retiradas 15,5 toneladas de lixo de importantes rios brasileiros, com destaque para ação no Pantanal, que retirou de uma só vez 10 toneladas de resíduos de rios da região. O programa faz parte da Agenda Ambiental Urbana e tem o objetivo de incentivar ações de despoluição dos rios, limpeza e coleta de lixo, além da implementação de sistemas de tratamento adequado.

 

 

 

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Calor acumulado em oceanos bate novos recordes em 2021, alerta estudo

Foi o sexto ano consecutivo de recordes

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O calor acumulado nos oceanos bateu novos recordes pelo sexto ano consecutivo, mostra pesquisa com dados até 2021, publicada hoje (11) na revista científica Advances in Atmospheric Sciences.

Os 23 autores do trabalho, de 14 institutos de vários países, alertam que as temperaturas no mar bateram recordes pelo sexto ano consecutivo. Lembram que são resultados do fim do primeiro ano da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030).

O relatório resume dois conjuntos de dados internacionais, do Instituto de Física Atmosférica (IAP, na sigla original), da Academia Chinesa de Ciências, e dos centros nacionais de Informação Ambiental, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla original), dos Estados Unidos (EUA), que analisam observações sobre o calor nos oceanos e seu impacto desde a década de 50.

O aquecimento dos oceanos “está aumentando incessantemente, em nível global, e este é um indicador primário da mudança climática induzida pela humanidade”, disse um dos autores do documento, Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Investigação Atmosférica do Colorado.

No último ano, os estimaram que os primeiros 2 mil metros de profundidade em todos os oceanos absorveram mais 14 zettajoules de energia sob a forma de calor do que em 2020, o equivalente a 145 vezes a produção mundial de eletricidade em 2020.

Toda a energia que os seres humanos utilizam no mundo em um ano é cerca de metade de um zettajoule (um zettajoule é um joule, unidade para medir energia, seguido de 21 zeros).

Além de calor, os oceanos absorvem atualmente entre 20% e 30% das emissões de dióxido de carbono produzidas pela humanidade, levando à acidificação das águas, disse Lijing Cheng (IAP), acrescentando que “o aquecimento dos reduz a eficiência da absorção de carbono e deixa mais dióxido de carbono no ar”.

Os cientistas também avaliaram o papel de diferentes variações naturais, como as fases de aquecimento e arrefecimento conhecidas como El Niño e La Niña, que afetam grandemente as mudanças de temperatura regionais.

Segundo Lijing Cheng, as análises regionais mostram que o forte e significativo aquecimento dos oceanos, desde o fim dos anos 50, ocorre em todos os lugares e que as ondas de calor marinhas regionais têm enormes impactos na vida marinha.

De acordo com Lijing Cheng, o estudo mostra também que o padrão de aquecimento dos oceanos é resultado de mudanças na composição atmosférica relacionadas com a atividade humana.

“À medida que os oceanos aquecem, a água expande-se e o nível do mar sobe. Os oceanos mais quentes também sobrecarregam os sistemas climáticos, criando tempestades e furacões mais poderosos, bem como aumentando a precipitação e o risco de inundações”, alertou.

 

 

 

 

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