Entrevistas

Carlos Alberto Rosito: esgoto é o desafio do momento

Os três grandes problemas do saneamento no Brasil são: primeiro: gestão; segundo: gestão; terceiro: gestão

O saneamento no Brasil e na América Latina constitui uma parcela muito importante na carreira profissional de Carlos Alberto Rosito. Logo depois de formado em 1965, Rosito passou a atuar neste setor. Seu primeiro emprego foi na Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN). Em 1969, ingressou na Companhia Metalúrgica Barbará, atual Saint Gobain Canalização, onde está até hoje, como Conselheiro. Rosito é o sexto brasileiro a ocupar a presidência da Associação Interamericana de Engenharia Sanitária. Nesta entrevista, Rosito fala sobre o panorama do saneamento básico e sobre os desafios e soluções para alcançar os objetivos de desenvolvimento do milênio para o setor. A meta é reduzir pela metade, até 2015, o percentual de pessoas que em 1990 não tinham acesso à água e ao manejo adequado dos resíduos líquidos e sólidos. As PPPs – Parcerias Público-Privadas para investimentos no setor de saneamento básico podem ser uma esperança. Carlos Alberto Rosito explica por quê.



Carlos Alberto Rosito: dois bilhões e 600 milhões de pessoas, hoje, não contam com nenhuma  espécie de esgotamento sanitário


 


 


 


Carlos Alberto Rosito–ENTREVISTA 


Como foi sua eleição para presidir a Associação Interamericana de Engenharia Sanitária – AIDIS, entre 2008 e 2010?
Carlos Alberto Rosito – Bem, dediquei toda minha vida profissional ao setor de saneamento. Em fevereiro de 2006, estava participando de uma reunião em Brasília, juntamente com o atual presidente da ABES (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária), José Aurélio Boranga e o com ex-presidente Antonio César Costa e Silva, quando eles me perguntaram se eu aceitaria ser o candidato brasileiro à presidência da AIDIS para o período 2008-2010.
É bom lembrar que ao longo dos seus quase 60 anos de existência, a AIDIS já teve cinco presidentes brasileiros.  Seria a hora de reivindicar para o Brasil a presidência da entidade.  O convite do Boranga e do César veio numa hora em que teria mais disponibilidade para esse tipo de atividade. Alem disto, sempre foram parte muito relevante de minha vida profissional o saneamento básico e as duas associações relacionadas com o convite: a AIDIS, na qual eu já vinha exercendo uma vice desde 2002, e a ABES – o Capítulo Brasileiro da AIDIS, da qual era associado desde 1967 e onde havia desempenhado funções de Membro do Conselho Diretor.


 E a resposta foi imediata?
Rosito – Não! Ainda refleti por umas 24 horas. Mas acabei aceitando o desafio. A prioridade, já identificada por Boranga e César ao me formularem o convite, constituía-se na necessidade de modernizar a entidade, com ênfase no aspecto comunicação, tanto interna quanto externa.
A eleição seria em Novembro de 2006 durante o XXX Congresso Interamericano da AIDIS, em Punta del Este, no Uruguai.
Apoiado pelo presidente Boranga e pelo Antônio César, estabeleci uma série de contatos com colegas sanitaristas de relevo na América Latina, com o objetivo de definir um programa de ação. Fixamos assim as prioridades do candidato, primeiramente, que viriam a se transformar em prioridades do presidente eleito. Fui eleito por unanimidade.


E qual era o programa de ação?
Rosito – Elas se baseiam em três pontos.
O  primeiro é a modernização da AIDIS com ênfase na comunicação, tanto interna quanto externa.
O segundo é a realização de um novo diagnóstico da atual AIDIS e com base neste estudo a elaboração de um novo plano estratégico – AIDIS 2025, que nos forneça uma visão e objetivos de longo prazo para a  AIDIS.
E o terceiro é o lançamento em toda a América Latina de uma grande campanha pela Universalização até 2025 dos serviços de água, esgoto e resíduos sólidos. E isto fixando ainda uma meta intermediária, até 2015, que é transformação  em realidade dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, para o setor de água e saneamento.
 
Por que América Latina está tão atrasada no fornecimento de serviços de saneamento?
Rosito – Estamos realmente ainda muito longe daquilo que desejamos, ou seja, a universalização até 2025. Mas posso afirmar que nossa situação é melhor do que a de uma grande parte do mundo em desenvolvimento e subdesenvolvido.
Se você vai aos grandes encontros mundiais da Água, como o Foro Mundial da Água (o último em Março 2006 no México e próximo em Março de 2009 em Istambul) ou a Semana Mundial da Água de Estocolmo, você encontra colegas da África e da Ásia e constata que a nossa situação, é bem menos dramática do que a de muitos deles.


Qual a percentagem de pessoas no mundo que não têm estes serviços?
Rosito – Um bilhão de pessoas no mundo atual ou 17% da população mundial, principalmente na África ao sul do Saara e em partes da Ásia, ainda não possuem acesso permanente a uma água de boa qualidade, disponível em até 1500 metros da residência ou até trinta minutos de caminhada. Dois bilhões e 600 milhões de contemporâneos nossos no mundo atual não contam com nenhuma espécie de esgotamento sanitário.
O conceito no Brasil e na América Latina já não é esse. Quando dizemos que desejamos universalizar o abastecimento permanente de água com qualidade, estamos falando, aqui no Brasil e em geral na América Latina, em conexão domiciliar e instalações hidráulicas no interior de cada domicílio.


Carlos Alberto Rosito–ENTREVISTA 


Rios e mares são soluções fáceis para o descarte de esgoto e de resíduos sólidos


 


 


 


 


 


Como é a evolução destes serviços na América Latina?
Rosito – A evolução da cobertura do abastecimento de água na América Latina evoluiu significativamente nas últimas décadas. Se em 1960 entre os 209 milhões da população total da época, apenas 69 milhões dos latino-americanos dispunham de abastecimento de água, ou 33% do total, em 2000 já éramos 420 milhões os abastecidos, ou 85% da população total de 497 milhões. Dos 77 milhões ainda sem abastecimento, em 2000, 51 milhões estavam na Zona Rural e 26 milhões nas cidades (7% da população urbana de 400 milhões).
 Mas a qualidade deste abastecimento, entretanto, ainda deixa muito a desejar: O abastecimento através de conexão domiciliar atingia apenas 73%  da população; 60% dos sistemas apresentavam intermitência ; a vigilância da qualidade da água era incipiente em muitos sistemas; e a regulação dos serviços ainda muito reduzida. A cidade do Recife é um exemplo disto: há décadas o fornecimento de água não é continuo. Existe a cobertura, mas ela não é permanente.


E no caso do esgotamento sanitário?
Rosito – No caso do esgotamento sanitário a situação na América Latina é pior do que a da água. Apenas 49% da população total é servida por sistema de coleta de esgotos e outros 31% utilizam-se do sistema de fossas sépticas, válido tecnicamente para populações esparsas e em zonas rurais, mas totalmente inadequado para as nossas grandes concentrações urbanas. Em 2000, América Latina tinha 103 milhões sem saneamento básico (86% dos esgotos coletados ainda sem tratamento), o que contribuía dramaticamente para a morte de 77.600 crianças por ano devido a diarréia – doença de origem hídrica, ou seja, 213 mortes de crianças por dia, ou 9 por hora.


E a questão dos resíduos sólidos?
Rosito – No manejo dos Resíduos Sólidos Urbanos nosso desafio também é imenso: dos 400 milhões de habitantes urbanos da América Latina em 2000, ou 80% da população total da região na época, que geravam aproximadamente 360 mil toneladas diárias de lixo (em torno de 900 gramas/ hab/dia), apenas 81% dispunham de serviço de coleta, gerando aproximadamente 300 mil toneladas diárias de lixo coletado.  Pior ainda: apenas 23% do lixo coletado contavam com uma destinação final adequada em aterros sanitários, dignos desta denominação. Nada menos do que 230 mil toneladas por dia eram depositadas indiscriminadamente no meio ambiente, no melhor dos casos com um controle precário.
 
Por que tal situação?
Rosito – Falta de gestão, principalmente, e deficiências igualmente no que respeita aos marcos regulatórios e à comunicação social.
Com uma melhoria destes três fatores – gestão, regulação e comunicação – será muito mais fácil solucionar a equação político-social-econômico-financeira que permita realizar os investimentos necessários para chegar à universalização.


E quanto vai custar?
Rosito – Aproximadamente 5 bilhões de dólares por ano no Brasil, até 2025; ou  14 bilhões de dólares por ano em toda a América Latina, no mesmo período. Isso em uma primeira estimativa grosseira com base no caso brasileiro.
 
Vamos voltar ao caso de Recife, que parece muito grave. De quem é a responsabilidade?
Rosito – A responsabilidade maior é da autoridade local. Quem tem a responsabilidade direta pelo abastecimento de água no Recife é a Compensa que é a Companhia Estadual de Saneamento de Pernambuco, por delegação do município.
A Prefeitura do Recife tem, constitucionalmente, a responsabilidade de fornecer um serviço de qualidade e essa concessão foi dada à Compensa, já há algumas décadas. Temos de admitir que a responsabilidade da municipalidade, de um lado, como poder concedente, e da empresa estadual, de outro, como concessionária do serviço público, não vem sendo cumprida satisfatoriamente e deixa muito a desejar.


Tem solução?
Rosito –  Tem. E a solução adequada parece equacionada. Tenho grande esperança de que nos próximos dois ou três anos a situação se altere radicalmente para melhor. Um novo projeto de abastecimento de água – Sistema Pirapama- está em fase de implantação. Parte relevante dos investimentos já foi feita, e a barragem, de ótima qualidade, está concluída. O desafio atual é o de implantar as adutoras de água bruta da barragem do Pirapama  até a Estação de Tratamento de Água, construir a própria ETA e levar a água tratada até a cidade do Recife, distribuindo-a aos domicílios. 
 
E o que fazer para avançar mais rapidamente nesta questão na América Latina?
Rosito – Uma das mais notáveis características da América Latina é a desigualdade social. Se analisamos o aspecto político-social da região, deparamo-nos com países e cidades desiguais. Você encontra o primeiríssimo mundo em cada um dos nossos países e cidades e você também encontra a África Sub Saariana e a Ásia paupérrima, convivendo ombro a ombro em muitas das nossas nações e cidades da região. Por vezes, até mesmo em alguns dos bairros de nossas maiores metrópoles, se encontra lado a lado o luxo e a miséria. Esta é uma característica nossa e de certa forma abrange os serviços públicos, principalmente de abastecimento de água, coleta de esgoto e manejo dos resíduos sólidos.


Mas o que fazer?
Rosito –  Temos de investir muito e rapidamente em gestão, aprimorando a qualidade dos recursos humanos utilizados pelas concessionárias dos serviços e aproveitando oportunidades de melhorias como nas perdas de água e na eficiência energética de nossos sistemas de águas e de esgotos. Os marcos regulatórios, e entre eles a regulação adequada dos serviços por agências reguladoras com competência técnica e independência administrativa e financeira, também constituem desafios importantes na maioria dos países da região, com uma exceção que serve de alento – o Chile.


Quando o senhor fala em comunicação social, o que quer dizer?
Rosito – Este é um tema importantíssimo. Em matéria de comunicação social temos muito a fazer para levar à sociedade em geral o nosso diagnóstico e a nossa solução de especialistas para um setor tão importante da saúde pública. A sociedade como um todo tem que comprar a idéia e as soluções. Toda ação política forte, todo compromisso político forte nasce por pressão da sociedade.


Por que existe tanta disparidade entre as regiões no Brasil?
Rosito – Porque são vários brasis. Se você olhar para o Brasil, enquanto todas as regiões têm mais de 90% de cobertura urbana de abastecimento de água, o Norte tem apenas 65%. Enquanto o sudeste tem mais de 50% de coleta de esgoto nas cidades, no Norte você tem menos de 20%.
Temos seis grandes problemas no saneamento: primeiro: gestão. Segundo: gestão. Terceiro: gestão. Quarto: comunicação social. Quinto: regulação. Sexto: solucionar a equação político-social-econômico e financeira para fazer investimentos.


E por que isso?
Rosito – É que nestes Estados mais pobres existe uma maior dificuldade de gestão.
O problema financeiro é grande, mas o principal obstáculo é a gestão. Eu costumo dizer que temos seis grandes problemas no saneamento brasileiro e Latino Americano em geral: primeiro: gestão, segundo: gestão, terceiro: gestão, quarto: comunicação social; quinto: regulação; e sexto: a solução da equação político – social – econômico e financeiro para fazer os investimentos e melhorias para levar serviços qualificados de água, coleta e tratamento de esgotos sanitários urbanos e manejo de resíduos sólidos a todos no menor tempo possível.


Sem gestão não há solução?
Rosito –  Isso mesmo. Sem gestão não há solução. E a verdade é que a gestão é ainda, em média, muito deficiente no Brasil. Mas já temos alguns bons exemplos de que é possível chegar a uma boa gestão.


Tem alguns exemplos?
Rosito – Bons exemplos que devem servir de paradigma são empresas regionais como Sabesp, Copasa, Sanepar, Embasa e Saneatins. E  municipais como Sanasa de Campinas, Dmae de Porto Alegre, Águas de Limeira e Águas de Niterói.


Existem perdas de água
tratada?

Rosito – Temos em média perdas de faturamento – físicas e aparentes – nos sistemas brasileiros de distribuição de água de aproximadamente 40%. Isto quer dizer que 40% da água que você produz não são faturados. Ou se perdem fisicamente por falta de medição ou por medição deficiente através de hidrômetros que já não possuem precisão para medir corretamente, cuja manutenção e renovação não foram adequados. Ou se trata de água consumida e não faturada, por motivo de furtos de água em diversos setores.
Não só em favelas e regiões  não urbanizadas, mas também em setores comerciais e residências de alto padrão. Isso varia de cidade para cidade, mas na média desses 40% de água produzida e não faturada no Brasil, poderíamos estimar que 20% correspondem às perdas físicas e os outros 20% são  perdas aparentes.


Existe um exemplo no mundo de uma gestão de excelência?
Rosito – Existe sim. Um dos melhores sistemas do mundo no que respeita ao controle de perdas é o da cidade-estado de Cingapura que perde apenas 4% da água produzida. Cingapura importa da Malásia 80% da água que consome. Os 20% restantes são provenientes da dessalinização da água do mar. Para eles vale muito a pena lutar contra a perda física, mas mesmo assim não conseguiram  baixar dos 4%.
Outro exemplo é Tóquio, que tem todas as canalizações de distribuição metálicas, e com ramais domiciliares em aço inoxidável, perde 5%. Na Europa as perdas totais giram em torno de 10%, alguns paises chegam a 8%. No Brasil, a média é de 40% mas temos os exemplos de Águas de Limeira abaixo dos 20%.




Cingapura tem uma perda de 4%. Tóquio tem uma perda de 5%. A Europa tem uma perda média de 10%.  A perda no Brasil vai a 40%.




E o papel da população nessa questão?
Rosito – É um ponto importante: a comunicação com a população, a conscientização da população de que ela pode e deve exigir uma gestão adequada e transparente destes serviços públicos, são de importância fundamental. Considerando apenas e tão somente o aspecto gestão, temos muito a fazer e grandes oportunidades para progredir.
 
E sobre a cobertura da coleta de esgotos?
Rosito –  Sobre a cobertura da coleta de esgotos, partimos em 1990 de uma cobertura a 56 milhões de habitantes que representavam 39% da população, e a meta 2015 é de estender a cobertura a 140 milhões de habitantes, representando 70% da população. Em 2004, pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) estávamos com apenas 87 milhões de habitantes, ou 48% da população cobertos pela coleta de esgotos. Não tenho dados tão atualizados quanto à América Latina, mas  creio que, na média, não devem diferir muito do nosso caso brasileiro. O maior desafio atual é o setor de esgotamento sanitário.
 
E a participação do setor privado?
Rosito – O importante a meu ver é que o serviço seja bem gerido e com total transparência, independentemente de ser o operador do mesmo público ou privado.
Creio que uma maior participação do setor privado, como existe em outros setores da infra-estrutura brasileira, poderá auxiliar em dois aspectos: melhoria da gestão, que é o grande desafio do saneamento no Brasil, e aporte de recursos financeiros.
A exemplo do que acontece em outros setores da infra-estrutura, como transporte, telecomunicações e energia, a participação do setor privado pode ser útil inclusive em PPPs – Parcerias Público-Privadas, que já são um sucesso em alguns dos setores citados e que estão agora chegando ao saneamento. Exemplos das primeiras PPPs no saneamento estamos tendo na Bahia, entre a Embasa e um grupo privado baiano e na Sabesp para a ampliação do abastecimento de água na região Leste da cidade de São Paulo.


As circunstâncias são mais ou menos as mesmas para os vários setores?
Rosito – Não. O caso do saneamento é diferente do da energia elétrica, das telecomunicações e do petróleo & gás, porque no saneamento é o poder municipal pulverizado que tem, constitucionalmente, a responsabilidade pela água, pelo esgoto urbano, e pela coleta e a destinação final do lixo. Nas telecomunicações e na energia elétrica é ao governo federal que cabe  planejar, executar e decidir.
 
Isso pode afetar as cidades de porte médio?
Rosito –  A urbanização foi explosiva nas últimas décadas. No Brasil, em 1960, éramos 55% no campo e 45% nas cidades. Em 1970, tínhamos 55% nas cidades e 45% no campo. O Brasil nos últimos 37 anos colocou nada menos do que 90 milhões de novos brasileiros em cidades. Somos hoje cerca de 140 milhões de brasileiros nas cidades, contra apenas 50 milhões em 1970.Isso equivale a colocar a população de uma Alemanha unificada em cidades. Como ampliar a cobertura de habitação, escola, hospital, água, esgoto, manejo de resíduos sólidos, sem falar em segurança pública, para a população de uma Alemanha unificada em tão somente 37 anos? Ainda mais se consideramos que os recursos do Brasil são os de um país que ainda não é totalmente desenvolvido…
 
Este é um motivo para a deterioração dos centros urbanos?
Rosito – Evidente. São Paulo, há 108 anos, era a quarta cidade brasileira em população.
Hoje é a segunda do mundo juntamente com a cidade do México, só superada por Tóquio. Mesmo assim, São Paulo conseguiu passar em menos de 40 anos, de um déficit de cobertura de água de 30% em 1970, para uma cobertura universal de 100% de água, sem rodízio e com água de qualidade nos dias de hoje.
Há que melhorar a cobertura da coleta e o tratamento de esgoto na grande São Paulo, como também é o caso na nossa segunda metrópole – o Rio de Janeiro. Basta olhar a belíssima baía da Guanabara, nas imediações da Ilha do Fundão, para que nos apercebamos com tristeza de um ambiente totalmente deteriorado e abandonado. Em grande parte pela falência de nossas instituições.


Carlos Alberto Rosito: “Os recursos para investimento são importantes, mas a gestão eficaz é tão importante
quanto eles”,


 


SUMMARY


Basic sanitation


SEWAGE:  CURRENT CHALLENGE


Carlos Alberto Rosito – INTERVIEW


Basic sanitation in Brazil and Latin America comprises an important part of Carlos
Alberto Rosito?s professional life.  After graduating in 1965, Rosito began working in this sector.  His first job was with the Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN). However, in 1969, he joined   Saint Gobain Canalização formerly Companhia Metalúrgica Barbará, where he continues until today as a Board Member.  Rosito is the sixth Brazilian to hold the position of president of the Interamerican Sanitary Engineering Association.  Rosita discusses the basic sanitation scenario in this interview and challenges and
solutions to reach the millennium development objectives in the sector.


Sanitation in Latin America – We are truly very far from our desired goal, i.e., universalization by 2025.  However, on the other hand I can state that our situation is better than off than a large part of the developing world or in underdeveloped countries.  If you visit the major world Water events, such as the World Water Forum (the most recent one was held in March 2006 in Mexico and the next one is scheduled for 2009 in Istanbul) or the World Water Week in Stockholm, you will encounter colleagues from Africa and Asia and see that our situation is much less dramatic than in many of these countries.


World basic sanitation – One billion people in the world today or 17% of the world population, especially in Africa or southern Sahara and parts of Asia still have no permanent access to good quality water available within at least 1500 meters of their residence or 30 minutes away on foot.  There are 2.6 billion people in the world nowadays who do not have any type of sanitary sewage system whatsoever.
The concept in Brazil and Latin America is different. When we say that we want to universalize permanent quality water supply we are referring to here in Brazil and in general in Latin American to household hookups and running water inside each home.


Evolution in Latin America – Progress in terms of water supply extension in Latin American has been remarkable in the last few decades.  In 1960, only 69 million Latin Americans out of the total population of 208 million at that time has water supply, i.e., 33% of the total.  However, in 2000, 420 million has access to water, or 85% of the total population of 497 million.  Out of the 77 million who did not yet have access in 2000, 51 million lived in Rural Areas and 26 million in the cities (7% of the urban 400 million population). 
Nevertheless, the quality of this water supply still leaves a lot to be desired. Domestic water connections can be found in only 73% of the population; 60% of the systems work intermittently; and inspection of the water quality was only just beginning in many systems and regulation of services is still very low.  
The city of Recife is an example of this.  Water supply has not been continuous for decades there.  It is available but not on a permanent basis.


Sanitary sewage – In relation to sanitary waste, the situation is worse than that of water.  Only 49% of the total population is served by a collective sewage system while another 31% uses a septic pool system, technically valid for scattered populations and in rural areas but completely inadequate for our large urban centers.
Latin America in 2000 had 103 million who had no basic sanitation (86% of sewage collected is still untreated), which has contributed dramatically toward the death of 77,600 children this year owed to diarrhea caused by unclean water, i.e., 213 children die per day or nine per hour


Solid waste – In relation to Solid Urban Waste management we also have our work cut our for us:  of the 400 million urban dwellers in Latin American in 2000, or 80% of the total population in the region at that time produced roughly 360,000tons of waste per day (nearly 900 grams per inhabitant/day) only 81% had access to public trash collection services, generating approximately 300,000 tons of trash collected daily.  Even worse is the fact that only 23% of trash collected was disposed of in appropriate sanitary waste dumps.    Not less than 230,000 tons per day were indiscriminately dumped into the environment or under the best of circumstances in locations under precarious controls.


Reasons – Basically this is owed mainly to a lack of management as well as failures in relation to regulatory controls and social communications.  If these three factors – management, regulations and communications were improved, it would be much easier to solve the political/social/economic/financial equation to enable the necessary investments to be made to achieve universalization.


Costs – This requires approximately US$ 5 billion in Brazil through 2025 or US$ 14 billion per year for all of Latin America for the same period and this is the first rough estimate based on the situation in Brazil.

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Entrevistas

Brasília é Parte da União’, Declara Carlos Velloso em Discussão sobre o FCDF

Magistrado Enfatiza Importância do FCDF e Defende Corte de Privilégios

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Carlos Velloso: “Segurança pública é ponto sensível, sobretudo em Brasília” – (crédito: Divulgação)

 

O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso emitiu, sem custo, um parecer jurídico ao Governo do Distrito Federal (GDF) em que sustenta as peculiaridades de Brasília como uma unidade da Federação que é extensão da União e dela sempre será dependente para manter a qualidade administrativa, de seus moradores e daqueles que passam por aqui a serviço. O fundamento, segundo o ministro aposentado, está na própria Constituição Federal que estabelece caber à União organizar e manter a segurança pública da capital.

Para Velloso, antes de pensar em reduzir repasses por meio do Fundo Constitucional (FCDF), como está em discussão na Câmara dos Deputados, em projeto de lei de autoria do líder do governo, José Guimarães (PT-CE), o Executivo deveria cortar privilégios, como isenções e incentivos fiscais bilionários, além de emendas parlamentares ao Orçamento. Para o magistrado que vive em Brasília, a qualidade dos serviços, especialmente de segurança pública, é fundamental para a manutenção da capital. Ele ressalta — sem citar descoberta pela Polícia Federal de plano para assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, com vistas a um golpe de Estado — que autoridades públicas têm sido alvo de ameaças de todo tipo.

O ministro afirma não acreditar que haja uma espécie de retaliação federal ao DF pelo episódio de 8 de janeiro de 2023, mas, se houver, a saída não é destruir os serviços de segurança. “Convém acentuar que segurança pública é ponto sensível, sobretudo em Brasília. Se há desgosto, é colocar as cartas na mesa e debater com as autoridades locais as falhas que teriam ocorrido, a fim de aperfeiçoar o sistema de segurança pública e não colaborar para o pior”, afirma.

Qual foi o fundamento para a criação do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF)?

O fundamento está na Constituição Federal, que estabelece que cabe à União organizar e manter a Polícia Civil, Militar e o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, bem como prestar assistência financeira ao DF para a execução de serviços públicos, por meio de fundo próprio (CF, art. 21, XIV). O Fundo foi instituído pela Lei 10.633, de 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso, que compreendeu que o DF é, na realidade, uma extensão da União. Brasília, que em termos de desenvolvimento econômico, mudou a cara do Brasil, e isso devemos ao presidente Juscelino Kubitschek, é o cartão-postal do Brasil. Aqui estão os poderes da República, as representações diplomáticas. E Brasília, tal qual Washington, DC, é uma cidade administrativa. Não é um polo industrial. É cidade planejada para uma população de no máximo um milhão de habitantes, que hoje passa de dois milhões. Muitos brasileiros querem viver aqui, porque Brasília tem qualidade de vida inigualável. E tem o que nenhuma cidade desse porte tem, que é boa segurança pública. Aqui, como proclamou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, no Congresso Nacional, podemos andar na rua sem maiores preocupações, o que não acontece no Rio e São Paulo e na maioria das demais capitais dos estados.

O governo fala em ajuste fiscal e mira o fundo que mantém a capital do Brasil. Daria para começar cortando privilégios reais?

Sim. Privilégios devem ser eliminados. Leiam recente artigo de Everardo Maciel (ex-secretário da Receita Federal), em que ele, dos mais lúcidos comentaristas do sistema fiscal e tributário, aborda o tema com mestria. Há muito que cortar de privilégios que custam caro ao contribuinte. O Congresso poderia colaborar com as emendas ao orçamento, emendas que os jornais vêm denunciando há mais de dois anos. E atenção para as isenções e os incentivos fiscais, que somam bilhões. Enfim, é preciso cortar gastos, gastos que o governo fez, e que é necessário cortar, mas sabendo cortar. O ministro (Fernando) Haddad (da Fazenda) tem adquirido cabelos brancos nessa luta, tendo contra ele gente do próprio partido. É uma pena.

Por que esse embate contra Brasília, na sua opinião?

Não vejo nada mais que uma escolha equivocada. O governo afirma que a segurança pública é preocupação do governo. E vão cortar gastos em detrimento justamente da segurança pública da cidade que é cartão postal da República? Ora, começar a preocupar-se com a segurança pública adotando medida que vem atrapalhar o que está funcionando bem? E mais, a União deve prestar assistência financeira ao DF para a execução de serviços públicos de saúde e educação. O corte vem em detrimento também desses serviços essenciais cuja prestação é obrigatória, está na Constituição.

A correção do FCDF por variação da receita líquida guardaria analogia com o FPE e o FPM, que são financiados por percentuais de tributos federais, e nessa hipótese alterar o critério poderia ser visto como violação do pacto federativo, que integra cláusula pétrea constitucional?

Perfeito. Aliás, em entrevista recente, o ex-presidente Michel Temer abordou o tema, ele que sempre foi professor de direito constitucional. O DF integra o sistema federativo, quer dizer, o DF é uma unidade federada. O corte no Fundo Constitucional do DF abala o sistema que o legislador, cumprindo a disposição constitucional, instituiu. Atenta-se, assim, contra a forma federativa de Estado, que constitui cláusula pétrea (CF, art. 60, § 4º, I), porque atenta-se contra a autonomia administrativa e política do DF, que nada seria sem a autonomia financeira, ou que não passaria, com o corte, de unidade federativa simplesmente nominal.

Se for uma violação, caberia uma ação direta de inconstitucionalidade, caso a proposta venha a ser aprovada?

Sim, claro que caberia uma ação direta de inconstitucionalidade.

O ex-presidente Temer, constitucionalista como o senhor, e Everardo Maciel consideram um erro a proposta do ministro Haddad de corte do FCDF. O senhor se juntará a eles para defender essa causa?

Estou de acordo com Temer e com Everardo Maciel, pelos quais tenho admiração. Acrescento que o DF tem bons advogados públicos, a Procuradoria Jurídica do DF é das melhores do Brasil. E partidos políticos certamente que cuidariam do tema. Em assunto semelhante forneci, há alguns anos, parecer jurídico à Procuradoria do DF, por solicitação do governo de então. A condição que impus para fornecer o parecer é que ele seria sem custos, isto é, gratuito. Assim procedi como forma de agradecer ao DF a qualidade de vida que o os habitantes do DF têm desfrutado.

Mudar a forma de cálculo da correção do FCDF agora será uma porta aberta para a instabilidade nos repasses?

Antes da Lei 10.633, de 2002, o DF dependia, para se manter, de repasses com interferência política. Numa palavra, o DF ficava com o pires na mão a depender da boa vontade da política e do governo federal.

Acredita que esse movimento seja uma retaliação política?

Acredito que não. Como mencionei. Trata-se apenas de uma decisão que pode ter sido tomada até com intenção boa, mas que é equivocada, a meu ver.

Por qual motivo? Acha que Brasília tem algum privilégio?

Se se entendeu que Brasília goza de privilégio, é porque não se pensou, por exemplo, que Brasília constitui cartão-postal da República. Conforme mencionei, Brasília sedia os poderes da República e as embaixadas dos países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas. Brasília não é um polo industrial. Brasília é uma cidade administrativa, repito. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 são demonstrativos de que Brasília precisa de órgãos mantenedores da segurança pública dos melhores. O ministro Ricardo Lewandowski (da Justiça) elogiou, no Congresso, os órgãos da Segurança Pública de Brasília. Convém acentuar que segurança pública é ponto sensível, sobretudo em Brasília. Se há desgosto, é colocar as cartas na mesa e debater com as autoridades locais as falhas que teriam ocorrido, a fim de aperfeiçoar o sistema de segurança pública e não colaborar para o pior. Mas eu penso que terá ocorrido simplesmente decisão equivocada.

Brasília tem sido assolada, nos últimos tempos, por ameaças golpistas e terroristas, bem como pela incursão de facções do crime organizado. Como a redução do FCDF poderia impactar, negativamente, esse cenário potencialmente explosivo?

Acrescento que há autoridades públicas, em Brasília, sob ameaças de todo tipo. Felizmente, já não sou autoridade pública. Falo como cidadão, como jurista. Fazer cortes justamente no Fundo Constitucional que financia a segurança pública do DF, é claro que vai resultar em enfraquecimento das forças de segurança. Considero fundamental a segurança de autoridades públicas, tanto quanto dos cidadãos que vivem em Brasília, e não somente dos que aqui vivem, mas dos brasileiros de modo geral, porque Brasília recebe brasileiros de todos os rincões do Brasil. Brasília é o centro do poder e Brasília é dos brasileiros. E deve ser considerada, ademais, a prestação dos demais serviços, saúde, educação, dentre outros (CF, art. 21, XIV).

A proposta do governo federal argumenta que usar os mesmos critérios para contemplar o DF e os outros Estados seria estabelecer a justiça federativa. Mas é possível desconsiderar o fato de Brasília ser a capital do Brasil?

Apenas há equívoco na interpretação fiscalista. Realizar a igualdade está justamente, e busco em Ruy Barbosa a lição sempre atual, implica tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades. Há um pequeno grande livro de um jurista notável, Celso Antônio Bandeira de Melo, “O conteúdo jurídico do princípio da igualdade”, que explica bem a matéria. Ora, parece que demos as razões por que o DF deve ser tratado da forma como é tratado. O constituinte originário deu-lhe forma de unidade federativa e os meios de subsistência como tal. Pode-se até discordar da autonomia política do DF, mas o certo é que assim manda a Constituição que seja observado e há de ser cumprido. Brasília é uma cidade administrativa com características próprias. Nessa situação, a população está contente, porque Brasília ainda tem a melhor qualidade de vida das grandes cidades brasileiras. Houve um tempo em que as pessoas aqui chegavam com a intenção de retornar e retornavam. Hoje, as pessoas querem viver em Brasília. Servidores públicos se aposentam e aqui ficam. Os parlamentares têm que sair nos fins de semana para visitar as suas bases, justifica-se. O importante é o povo ter voz para pugnar por serviços públicos cada vez melhores. Para isto, Brasília tem uma Câmara Distrital, onde os brasilenses estão representados e o governador é também eleito pelo povo de Brasília.

Não existe um certo desconhecido e leviandade em retirar recursos de um fundo estabelecido na Constituição a cada dificuldade de ajuste fiscal, colocando sob ameaça permanente o FCDF?

Eu penso que há simplesmente decisão equivocada. O ministro Haddad precisa ter ao seu lado um assessor jurídico versado no direito constitucional administrativo. Hoje, com a constitucionalização do direito, a Constituição, o livrinho do presidente Dutra — quem se lembra do livrinho do Dutra? — tem que estar sempre à mão do administrador público.

Não é contraditório um governo que tem como lema reduzir as desigualdades sociais tomar uma medida que agravará as referidas desigualdades sociais na terceira maior metrópole do país?

Por tudo que disse acima, creio que já deixei claro o que acho. Encerro a entrevista louvando o Correio Braziliense, que pugna pelo direito e pelos interesses dos brasilenses. E termino com uma expressão do Lucas, meu neto adolescente. Valeu!

 

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CUBATÃO: Entrevista com Celma do Carmo de Souza Pinto

Em entrevista à Folha do Meio, Celma do Carmo de Souza Pinto fala sobre a paisagem de Cubatão e a história de uma cidade estigmatizada pela poluição.

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Historiadora, pesquisadora, Doutora em Teoria, História e Crítica, pela Universidade de Brasília, Celma de Souza Pinto é profunda conhecedora da realidade do patrimônio industrial e da paisagem cultural brasileira. Celma do Souza é autora de três livros sobre a memória da industrialização na Baixada Santista: “Anilinas” – “Meu lugar no mundo: Cubatão” – “Cubatão, história de uma cidade industrial” e uma dissertação de mestrado “A construção da paisagem industrial de Cubatão – o caso da Companhia Fabril e da Usina Henry Borden”. É ex-servidora da Prefeitura Municipal de Cubatão e trabalhou por mais de 10 anos no IPHAN Sede, em Brasília. Atualmente dirige o Instituto Base no desenvolvimento de projetos culturais.  Para Celma de Souza, mais do que resgatar a impactante história do desenvolvimento industrial de Cubatão é abrir possibilidades para novos olhares sobre a paisagem do município.

CELMA DO CARMO DE SOUZA PINTO – ENTREVISTA

“Somos humanos e a vida humana é inseparável da história, da natureza, do patrimônio. O reconhecimento da paisagem de Cubatão como bem cultural abre novas possibilidades de conhecimento, de projetos educacionais, de lazer e da percepção da memória social. Vivemos dentro ou junto às paisagens”.

 

FOLHA DO MEIO – Cubatão era símbolo de poluição. Cidade estigmatizado pela poluição e com um dos maiores parques industriais do Brasil. Qual a relação com as paisagens culturais?

CELMA – Cubatão está inserido em um território com as marcas de eventos históricos desde o início da ocupação portuguesa pela sua localização entre o litoral e o Planalto Paulista. A partir de princípios de fins do século XIX, o município testemunha a evolução técnica e tecnológica do País, em suas obras de infraestrutura viária fabris e industriais. Isso somado, é claro, ao ambiente natural no qual se destacam a Serra do Mar, a Mata Atlântica e os manguezais típicos da região costeira. Por isso, Cubatão, além de ter um dos maiores parques industriais do Brasil abriga monumentos históricos como a Calçada do Lorena, o Caminho do Mar, antigos testemunhos fabris, de infraestrutura e várias reservas ambientais como o Parque Estadual da Serra do Mar. Todos esses elementos compõem e influenciam, direta ou indiretamente, a vida dos moradores do município, configurando uma paisagem cultural.

 

FMA – Sim, a paisagem é emblemática, o esforço de despoluição foi grande, mas Cubatão já tem esse reconhecimento?

CELMA – Verdade, a paisagem de Cubatão é uma das mais emblemáticas do Brasil pela imbricação de todos esses elementos somados aos problemas ambientais que manteve a atenção. Mas ainda não tem o reconhecimento que merece no âmbito cultural. Minha pesquisa “O (In)visível patrimônio da industrialização – reconhecimento de paisagens em Cubatão”, procura rever essa paisagem, considerando seus paradoxos, defendendo a urgência de iniciativas para sua valorização e reconhecimento também pelos seus relevantes aspectos históricos, culturais, paisagísticos e até afetivos.

Celma de Souza Pinto: Paisagem industrial em Cubatão-SP: o caso da companhia fabril e da usina Henry Borden.

 

FMA – Mas, você poderia explicar melhor o que é uma paisagem cultural?

CELMA – O termo advém da geografia a partir da evolução dos estudos e da compreensão da noção de paisagem, que remonta ao século XIV no Ocidente. A Unesco, em 1994, inseriu a categoria de paisagem cultural em sua relação de bens culturais passíveis de serem declarados como Patrimônio Mundial. Paisagens culturais são as que foram afetadas, construídas ou resultantes do desenvolvimento humano e da sua ação e relação com a natureza. Como atualmente todo o planeta, e até o espaço sideral, é marcado pela ação humana, as paisagens culturais têm uma variedade muito grande. Tanto podem abarcar grandes territórios, quanto pequenas parcelas territoriais, como áreas industriais, locais de notável beleza, fazendas, jardins e outros. Isso abriu possibilidade para o reconhecimento e valorização também das paisagens industriais, como a de Cubatão, no campo do patrimônio cultural.

FMA – Quais os critérios para reconhecimento de uma paisagem cultural?

CELMA – Os critérios de reconhecimento de uma paisagem cultural variam conforme são estabelecidos pelos documentos de cada país, ou como definidos pela Unesco. No Brasil, por exemplo, a Chancela da Paisagem Cultural Brasileira, estabelecida pela Portaria IPHAN nº 127/2009, define a paisagem como “uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores”. Busca abranger a diversidade de lugares, costumes e paisagens brasileiras. O reconhecimento de uma paisagem cultural perpassa primeiro o Espaço, as pessoas que nele vivem ou interage.

FMA – Paisagem cultural é aquela constituída a partir da interferência humana na natureza…

CELMA – Sim, é o lugar onde se vive, o meio que reflete a interação entre as pessoas e a natureza. É o legado das culturas com o mundo natural, com o tempo: com os eventos do passado, a fruição do presente e as expectativas para o futuro, entre outros. As paisagens culturais são uma narrativa de expressões culturais e de identidade regional para grupos sociais, para comunidades e para a coletividade.

 

FMA – Então, qual a importância da paisagem de Cubatão?

CELMA – Aí que vamos chegar. A paisagem de Cubatão se distingue pelo forte caráter histórico, pela associação com o movimento de ocupação portuguesa desde o século XVII e pela vinculação ao processo industrial e de desenvolvimento técnico paulista e do Brasil, expresso nas vias de transporte já existentes antes da chegada do europeu e das construídas ao longo do tempo. Mas também ostenta um capítulo importante da história ambiental e do operariado brasileiro cuja memória está se perdendo e é parte fundamental da construção da paisagem que não se dá somente no município de Cubatão, mas em outros municípios da Baixada Santista, como Santos.  Enfim, é uma região que ostenta uma paisagem plena de história e, ao mesmo tempo, dotada de uma beleza natural, cênica, ecológica, educacional, contemplativa, de lazer… em suma, um incomparável patrimônio cultural a ser conhecido, divulgado e desfrutado.

 

FMA – Com toda essa importância, por que pouco se fala da paisagem cultural de Cubatão?

CELMA – Não é bem assim. Na verdade, desde a década de 1980, muito se tem falado de Cubatão e da sua paisagem. Sobretudo quando houve uma massiva divulgação na mídia sobre os altos índices de poluição industrial. A partir de 1950, após a construção da Refinaria Presidente Bernardes, até a década de 1970, Cubatão recebeu mais de vinte indústrias de base na área da petroquímica e siderurgia, tornando-se um dos mais importantes complexos industriais do País. Como o Brasil ainda não dispunha de uma legislação ambiental, as indústrias foram instaladas sem o devido cuidado com emissão de poluentes no ar, na água e no solo. Tais consequências nefastas ao meio ambiente e à saúde humana, valeram à cidade a alcunha de Vale da Morte. Mesmo com o trabalho bem-sucedido da Cetesb no controle da poluição ambiental, a imagem negativa de Cubatão ficou no imaginário. Não queremos que essa história seja esquecida, apenas mostrar outros aspectos.

 

FMA – Como é a atual relação dos moradores de Cubatão com a chamada paisagem cultural?

CELMA – Boa questão. Em entrevistas que fiz com moradores de Cubatão, ficou evidente que consideram a paisagem como seu patrimônio cultural. Demonstraram também inquietação com a preservação dos testemunhos da industrialização e da infraestrutura. Eles se preocupam com a natureza, a Serra do Mar, que constitui o envoltório cênico que emoldura a cidade e é o elemento visual mais relevante da região. Mas eles se afligem com o descaso pelos remanescentes de antigas fábricas, pelos antigos caminhos e pela ferrovia. Também evidenciaram que, apesar da carência de políticas de preservação, educacionais, de lazer, entre outros, existe uma relação de identidade com a paisagem local e uma consciência sobre a necessidade de preservação dos testemunhos materiais remanescentes.

 

FMA – Por que é importante o reconhecimento dessa paisagem?

CELMA – Primeiro, porque somos humanos e a vida humana é inseparável da história, da natureza, do patrimônio. O reconhecimento da paisagem como bem cultural abre novas possibilidades de conhecimento, projetos educacionais, lazer e percepção da memória social. Vivemos dentro ou junto às paisagens. Nesse sentido, pode contribuir para que a cidade se torne mais humanizada com melhoria na qualidade de vida, proporcionando um sentido de lugar e de identidade às gerações futuras, assim como propiciar à comunidade uma melhor compreensão sobre o lugar onde vivem e a como buscar uma maior fruição dos testemunhos arquitetônicos e bens tombados da região. Além de possibilitar a novas atividades econômicas ligadas ao potencial histórico e paisagístico que insira a população local.  

A pesquisa de Celma do Carmo, “O (In)visível patrimônio da industrialização – reconhecimento de paisagens em Cubatão”, procura rever essa paisagem, considerando seus paradoxos, defendendo a urgência de iniciativas para sua valorização e reconhecimento também pelos seus relevantes aspectos históricos, culturais, paisagísticos e até afetivos.

 

FMA – Como preservar os elementos arquitetônicos e outros que tornam essa paisagem tão importante?

CELMA – Para isso é imprescindível a atuação séria e isenta dos órgãos de preservação locais e estadual. A preservação do patrimônio cultural exige uma ação conjunta da população com o governo municipal não só no âmbito do patrimônio, mas também para desenvolvimento de projetos de valorização, reabilitação, revitalização ou mesmo requalificação urbana de sítios de valor histórico reconhecidos pela população, como por exemplo, a orla do rio Cubatão, que atravessa a cidade. Ou com a recuperação de locais degradados que remontam à história ferroviária na região. A paisagem pode ser também um meio para criação de mecanismos de reparação que pode incluir também a preservação da memória do trabalhador e fortalecimento da identidade local como museus, centros culturais, projetos educativos, enfim…

 

FMA – Fico imaginando o tamanho desse desafio: Cubatão está entre o maior complexo industrial do Brasil e o maior porto do Brasil?

CELMA – E põe desafio nisso. De fato, como Cubatão situa-se entre um complexo industrial e o Porto de Santos gera um desafio que é conciliar as necessidades de modernização desses setores com as aspirações da população, que almeja o indispensável respeito ao patrimônio cultural e à história. As paisagens estão em constante transformação. Quando relacionadas à indústria isso fica ainda mais evidente, pois a principal característica da indústria é o dinamismo por processos de mudança no modo de produção, de estruturação econômica, entre outros. Por isso é urgente a revisão do atual modelo de desenvolvimento excludente e pautado em projetos que atendem somente às necessidades industriais e portuárias, sem considerar os interesses dos moradores. Não é possível manter o conceito de desenvolvimento da década de 1950 no qual somente a ampliação industrial irá trazer benefícios para a cidade.

 

FMA – Mas o IDH de Cubatão é bem alto…

CELMA – É verdade. O IDH de Cubatão é bem alto, se comparado aos outros municípios da Baixada Santista. No entanto, os moradores não estão imunes aos mesmos problemas de seus vizinhos, cujo IDH e arrecadação tributária é perceptivelmente inferior. Donde se vê que o desenvolvimento e o progresso alardeados pela industrialização não se concretizaram. Então, fica claro que ali os efeitos negativos da industrialização se fazem sentir de modo muito mais adverso do que os benefícios.

A superação desses desafios exige, dentre outros, mecanismos de reconhecimento da paisagem, de forma conjunta com as propostas de gestão compartilhada, com apoio de todos os setores envolvidos e do poder público. Sem isso, é possível que em poucos anos a cidade de Cubatão desapareça como local de vida e convivência humana, vindo a se tornar um mero depósito de contêineres ou um grande pátio de estacionamento de caminhões. Não podemos esquecer que ali vivem pessoas.

 

 

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John Elkington: A Vanguarda da Sustentabilidade Empresarial e Global

Explorando a Vida e o Legado do Arquiteto da Tripla Linha de Base e Defensor Incansável da Responsabilidade Corporativa

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Na arena global da sustentabilidade, poucos nomes ressoam com a mesma reverência que o de John Elkington. Conhecido como o arquiteto da “Tripla Linha de Base”, Elkington emergiu como um pioneiro na integração de preocupações ambientais, sociais e financeiras no mundo dos negócios. Sua jornada como defensor incansável de práticas sustentáveis e responsáveis ​​é um testemunho vivo de sua influência e impacto duradouro.

As Raízes da Visão de Elkington

Nascido com uma consciência intrínseca do poder transformador da sustentabilidade, John Elkington começou sua jornada na Universidade de Londres, onde se formou em Economia e Estudos de Engenharia. Desde o início, seu interesse abrangente pelas interseções entre o mundo dos negócios e as questões ambientais e sociais o levou a explorar novos paradigmas de desenvolvimento econômico que priorizassem não apenas o lucro, mas também o bem-estar coletivo.

A Tripla Linha de Base e Seu Legado Duradouro

É inegável que o maior legado de John Elkington é a popularização do conceito de “Tripla Linha de Base”. Sua inovadora abordagem de avaliação de desempenho empresarial não apenas com base em lucros financeiros, mas também em impactos ambientais e sociais, foi revolucionária. Essa estrutura conceitual permitiu que as empresas repensassem suas práticas e redefinissem o sucesso empresarial, levando em consideração não apenas os resultados financeiros, mas também o impacto em comunidades e ecossistemas.

O Compromisso Contínuo com a Mudança Sistêmica

Além de suas contribuições teóricas, Elkington é conhecido por seu compromisso contínuo com a mudança sistêmica. Ele trabalhou incansavelmente para influenciar políticas e práticas corporativas, promovendo a sustentabilidade como um imperativo central para o crescimento econômico e o bem-estar social. Sua atuação como autor prolífico e palestrante renomado ampliou ainda mais o alcance de suas ideias e inspirou uma geração de líderes a repensar o papel das empresas na sociedade.

O Legado Duradouro e o Caminho à Frente

À medida que o mundo enfrenta desafios cada vez mais complexos, o legado de Elkington permanece como um farol de esperança e um lembrete constante de que a sustentabilidade não é apenas uma opção, mas uma necessidade urgente. Sua visão e dedicação incansável continuam a orientar não apenas empresas, mas também formuladores de políticas e defensores da sustentabilidade em direção a um futuro mais equitativo e próspero.

John Elkington personifica a noção de que a sustentabilidade não é apenas um conceito acadêmico, mas uma filosofia de vida e uma abordagem essencial para moldar um mundo mais resiliente e sustentável. Sua jornada continua a inspirar e a moldar a narrativa global da responsabilidade empresarial e do ativismo sustentável.

 

Entrevista

John Elkington: Bem, ao longo das últimas décadas, testemunhamos um crescente reconhecimento da importância da sustentabilidade, tanto a nível empresarial quanto global. As empresas estão percebendo que devem abordar não apenas suas operações, mas também sua cadeia de suprimentos e impacto social. Vemos um movimento contínuo em direção a práticas mais responsáveis e transparentes, mas ainda há muito trabalho a ser feito.

Com certeza. Quais são os principais desafios que você identifica atualmente em termos de implementação de práticas sustentáveis em larga escala?

John Elkington: Um dos principais desafios é a integração da sustentabilidade no cerne dos modelos de negócios. Muitas empresas ainda veem a sustentabilidade como uma iniciativa isolada, em vez de uma parte fundamental de sua estratégia. Além disso, a falta de regulamentações e políticas sólidas em muitas partes do mundo dificulta a adoção generalizada de práticas sustentáveis. Também é fundamental envolver os consumidores e criar uma demanda por produtos e serviços mais sustentáveis.

Concordo plenamente. Considerando o cenário atual, como você visualiza a importância da inovação e da tecnologia na promoção da sustentabilidade?

John Elkington: A inovação e a tecnologia desempenham um papel crucial na transição para práticas mais sustentáveis. Novas tecnologias podem aumentar a eficiência, reduzir desperdícios e permitir o uso mais inteligente dos recursos. Da energia renovável aos avanços na agricultura sustentável e na gestão de resíduos, a tecnologia tem o potencial de impulsionar mudanças positivas significativas. No entanto, é importante garantir que essas inovações sejam acessíveis e amplamente adotadas, especialmente em comunidades com recursos limitados.

Definitivamente. Quais conselhos você daria para os líderes empresariais e os formuladores de políticas que desejam impulsionar práticas mais sustentáveis?

John Elkington: Para os líderes empresariais, eu enfatizaria a importância de incorporar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor, desde a concepção do produto até o descarte responsável. Isso não apenas beneficia o planeta, mas também pode gerar eficiências operacionais e melhorar a reputação da marca. Para os formuladores de políticas, é fundamental criar um ambiente regulatório favorável e incentivar a inovação e o investimento em práticas sustentáveis. Além disso, é crucial promover a conscientização e a educação sobre a importância da sustentabilidade em todas as esferas da sociedade.

 

 

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