Entrevistas

Monica Gorgulho – Desafio das drogas

Drogas: problemas e soluções

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Maio de 2008


Mônica Gorgulho fala sobre o desafio das drogas, seus problemas e soluções
Mônica Gorgulho explica que diferentes drogas provocam diferentes resultados, em diferentes pessoas e em diferentes momentos da vida.



Silvestre Gorgulho


Mônica Gorgulho faz uma revolução silenciosa no Brasil. Aliás, nem tão silenciosa assim, pois sua tese dá o que falar. Para esta psicóloga clínica, Mestre em Psicologia Social, ex-colaboradora do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes, fica muito mais caro para a sociedade combater a droga e o tráfico do que ter uma tolerância assistida para com os dependentes. Mônica Gorgulho é Diretora Executiva da International Harm Reduction Association, representante do Conselho Federal de Psicologia junto ao Conselho Nacional Anti-Drogas e fundadora e coordenadora da Dínamo – ONG que se preocupa com a informação responsável sobre drogas e afins. Sua tese é tão simples quanto polêmica: se não é possível livrar os homens da droga, é melhor, então, que os homens aprendam a conviver com elas. Como? Simplesmente ensinando os usuários a usar essas substâncias com o máximo de segurança possível. E educando os dependentes a buscar o máximo de controle sobre sua patologia.





“É importante garantir todo o espaço necessário para que o adolescente se expresse. Só então, junto com ele, se buscará uma solução. Cada um, isoladamente, não é capaz de encontrar a melhor solução”. Mônica Gorgulho




MÔNICA GORGULHO – ENTREVISTA 


Toda substância que altera as funções orgânicas ou psíquicas de alguém é considerada psicoativa. Se for para o bem, com acompanhamento médico, é remédio. Se for para o mal, é droga. Em entrevista exclusiva, a psicóloga Mônica Gorgulho diz que diferentes drogas provocam diferentes resultados, em diferentes pessoas, em diferentes momentos da vida. E explica como pais e professores devem agir com filhos e alunos que entraram no mundo da droga. Para Mônica, no Brasil fatos e dados são interpretados de forma muito particular por aqueles que defendem uma postura conservadora. “A verdade –  diz ela –  é que fica muito mais caro para a sociedade combater a droga e o tráfico do que ter uma tolerância assistida para com os dependentes”.


 


Folha do Meio – Gostaria que você fizesse, para começar, um ranking das drogas pelo mal que fazem às pessoas. Qual é a pior e qual a tolerável?
Mônica Gorgulho – Bom, devemos começar lembrando uma coisa importante: qualquer substância psicoativa, chamada de SPA (*1) pode ser mais ou menos maléfica para diferentes pessoas ou em diferentes momentos da vida de um mesmo indivíduo.
Outra coisa: depende de alterações momentâneas nas características básicas de uma mesma substância, ou seja, grau de pureza, possível adulteração etc. Assim, considerando tudo isto, podemos entender que qualquer droga pode ocupar, em um dado momento, o posto de maior ou menor periculosidade para um indivíduo. Vale destacar que o maior ou menor risco nada tem a ver com legalidade ou ilegalidade de uma droga.


FMA – Mas não existe o conceito de droga mais leve ou mais pesada…
Mônica – É verdade, durante algum tempo se costumou referir-se a algumas drogas como leves, por exemplo, a maconha, haxixe. E a outras, como pesadas, como a cocaína e heroína.
Hoje já não se usa mais essa terminologia. É certo, porém, que o consumo de maconha, no geral, preocupa menos os especialistas do que o uso de crack ou ácido. Essa postura é fruto de observação sobre os resultados provocados nos consumidores de uma ou outra substância. Daí, a tendência atual de se considerar a maconha como uma droga de consumo tolerável, mas que necessitaria, caso fosse legalizada, da mesma atenção que deveríamos conceder ao consumo de álcool, por exemplo.    


FMA – País rico ou país pobre. Família rica ou família pobre. Por que é tão difícil para todos lidar com a questão droga no que diz respeito ao combate e à educação?
Mônica – Porque o consumo de SPAs está relacionado a um dos aspectos mais subjetivos da condição humana.
Há algumas décadas, quando o consumo de SPAs definidas como ilícitas começou a crescer, ainda se podia falar do consumo de drogas como um comportamento rebelde ou de contestação. Essa não é mais a realidade atual. Hoje cada indivíduo pode apresentar uma justificativa diferente para consumir drogas. Inclusive, porque hoje, as substâncias também são muitas e se multiplicam a cada dia.
Se na década de 60 falávamos de drogas naturais, hoje existe um mercado enorme para drogas sintéticas, aquelas manipuladas em laboratórios.
Então, as abordagens necessárias são também inúmeras. Nós continuamos falando de “combate”, como se fosse possível combater às drogas.
Na verdade, o que se pode tentar é batalhar por uma vida melhor para cada indivíduo, de modo que as pessoas possam prescindir de uma substância alteradora de seu estado de consciência. Nossa tarefa, como profissionais, como psicólogos, não é erradicar a presença de SPAs das vidas das pessoas.
O ser humano sempre usou e sempre buscará usar drogas naturais
ou sintéticas para ajudá-lo a suportar a sua própria fragilidade.



FMA – Como assim?
Mônica – Em primeiro lugar, não devemos apontar toda nossa munição para a abstinência. Simplesmente porque isso não é possível para a espécie humana. O ser humano sempre usou e sempre vai buscar usar drogas naturais ou sintéticas para ajudá-lo a suportar sua própria fragilidade. 
É bom lembrar que nem toda pessoa que se relaciona com substâncias proibidas tem ou terá problemas relativos a esta prática. E mais: temos que entender que o contrário de dependência é independência e não, abstinência.
Temos que entender bem esta lição para depois pensar em alternativas, verdadeiramente eficazes, para a diminuição do abuso de drogas e da patologia das dependências. Como? Por meio de uma educação consciente para a autonomia e responsabilidade do indivíduo.


FMA – Em relação à orientação, qual a maior dificuldade encontrada pelos pais, em casa, e pelos professores?
Mônica – O que vemos, em geral, é uma tentativa de enquadrar o adolescente a um padrão previamente estabelecido. Geralmente, este padrão favorece os adultos, ou seja, os pais e professores.
Somente a partir do compromisso desses educadores com a formação plena do adolescente, por meio da oferta de um espaço seguro para seu crescimento físico, emocional, em que possa exercer de fato sua cidadania, é que os adultos passarão a ser considerados merecedores do respeito deles ou dignos de sua confiança.
É uma tarefa muito delicada acompanhar a travessia de um adolescente para a vida adulta.


FMA – Existe uma orientação básica ou uma dica importante tanto para os pais ou professores que têm um problema pela frente com filhos ou alunos?
Mônica – Olha, o melhor mesmo é escutá-los. Dialogar com eles. Buscar, honestamente, entender o que o adolescente está tentando dizer, para então ajudá-lo a expressar o conflito contido naquele problema ora apresentado. Não se deve sentir segurança total sobre o conhecimento do processo pelo qual o adolescente passa. É bom lembrar que essa é uma vivência única para cada indivíduo, assim como foi também para você, pai ou professor.


FMA – Existe uma diretriz básica a seguir?
Mônica – É importante não confundir as diretrizes básicas do que é chamado de “processo normal da adolescência” com toda e qualquer experiência que aquele indivíduo em formação pode estar experimentando.
Os dependentes, sobretudo na adolescência, carecem de um sentido de identidade com o qual se sintam confortável. Ao se adiantar ao que o adolescente pode estar tentando anunciar, nada se faz além de reforçar sua ferida básica, ao negar-lhe um espaço de expressão próprio e pessoal.
É importante garantir todo o espaço necessário para que o adolescente se expresse. Só então, junto com ele, se buscará uma solução. A experiência mostra que cada um, isoladamente, não é capaz de encontrar.


FMA – Uma autoridade para entrar numa favela, tem que pedir licença ao tráfico. Favela virou sinônimo de comércio e disputa de pontos de drogas e seus moradores confundidos com criminosos. Há solução?
Mônica – Há, desde que as pessoas aceitem esse fenômeno com o menor preconceito possível. Em primeiro lugar, há que se entender que o comércio de substâncias ilícitas representa uma das maiores economias do mercado do mundo. Assim, não há como desconsiderar o apelo econômico dessa atividade. Ela exerce uma atração sobre todo e qualquer indivíduo que busque um ganho financeiro suficiente para atender suas expectativas materiais e sociais.
As populações menos atendidas socialmente, em geral estabelecidas em modelos habitacionais menos organizados e menos protegidos pelos governos, como são as favelas, buscam suas próprias formas de organização, de geração de riqueza e de atenção às suas mais variadas necessidades. O comércio de drogas é uma dessas formas.
Existem outros, por exemplo, o comércio clandestino de armas e de animais. Ficaríamos mais próximos da realidade se entendêssemos as favelas como ponto de sobrevivência. Ou como sinônimo de alternativa ao abandono material, ético e social a que a maioria dos brasileiros se encontra. Ficaríamos mais próximos da realidade se entendêssemos as favelas como sinônimo de alternativas ao abandono material, ético e social a que a maioria dos brasileiros se encontra.



FMA – Você defende uma estratégia diferente que é justamente a Redução de Danos, ou seja, uma tolerância assistida. Como funciona isto?
Mônica – Primeiro, vamos entender bem o que significa esta proposta. A Redução de Danos, comumente chamada de RD, teve início da década de 80. Foi uma resposta de saúde pública à epidemia da Aids e Hepatite C que se alastrava em alguns países da Europa. Atingia o que se costuma chamar de “grupos de risco”, entre eles os usuários de drogas injetáveis. Ao se perceber a impossibilidade de algumas pessoas em interromper o uso de drogas, foram defendidas medidas para que, ao quadro de consumo de SPAs, não se sobrepusessem problemas relacionados a outras esferas da saúde como a infecção pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ou ainda, a doenças transmitidas pelo compartilhamento de apetrechos utilizados no uso injetável de drogas.
Esta prática já havia sido experimentada na década de 20, quando o médico inglês, Humphrey Rolleston, defendeu o tratamento da dependência de heroína, muito comum na Inglaterra naqueles tempos.


FMA – E como funcionava?
Mônica – Funcionava com a administração de doses controladas da própria substância. Tanto a Inglaterra como a Holanda propuseram um acompanhamento do uso controlado de drogas injetáveis. Com isso, procurava-se estimular o contato entre os UDIs (usuários de drogas injetáveis) e agentes governamentais de saúde. Era uma forma de garantir o máximo de atenção possível aos agravos da prática do uso de drogas, sem a preocupação primordial de se interromper o próprio uso. 
Assim, de uma preocupação focada no controle da epidemia de Aids, a Redução de Danos acabou disseminando o debate mundial sobre a necessidade de se rediscutir a política internacional de drogas, chamada de proibicionista.


FMA – Proibicionista?
Mônica – Sim, o nome proibicionista nasceu na Convenção de 1961 das Nações Unidas que vetou qualquer padrão de consumo das substâncias definidas como ilegais. A RD se apresentou, então, como uma alternativa, justamente por reconhecer que a abordagem praticada nas últimas décadas, desde a Convenção de 61, produzia mais problemas e agravos à saúde e ao bem-estar social dos usuários de drogas do que o próprio consumo das substâncias proscritas.


FMA – E quais as principais medidas na política de Redução de Danos?
Mônica – A RD defende a diminuição dos riscos associados ao consumo de substâncias psicoativas, tanto para o indivíduo quanto para o grupo social onde ele se insere. São quatro pontos fundamentais:
1 – Usos não injetáveis são defendidos onde o uso injetável é a norma;
2 – Drogas menos danosas são estimuladas em lugar daquelas de maior risco para diferentes indivíduos;
3 – Quantidades menores são preferíveis às maiores;
4 – Usos em locais seguros, controlados por equipes de saúde, são preferíveis a usos feitos em locais públicos, sem qualquer controle.


FMA – Essa tolerância assistida não estimularia mais o uso de drogas?
Mônica – A prática da RD, pela polêmica que suscita, acabou sendo uma das abordagens mais estudadas dentre os modelos de atenção aos usuários de drogas.
Em nenhum estudo, conduzido por organizações particulares ou por agências das Nações Unidas, foi detectado qualquer aumento do uso problemático de substâncias psicoativas. Um aumento nos usos recreativos ou ocasionais, ambos não problemáticos, pode até ser observado em alguns casos, mas em nenhum deles, essa situação reverteu para um aumento do consumo problemático ou sistemático de qualquer droga considerada ilícita.


FMA – Como vai este programa no mundo e também no Brasil? Tem apoio? Quais os obstáculos que encontra?
Mônica – A proposta da RD tem encontrado cada vez mais apoio tanto dentro quanto fora do Brasil. A entrada de agências das Nações Unidas como a OMS (Organização Mundial de Saúde)por exemplo, na defesa dessa abordagem selou, definitivamente, seu lugar entre as medidas de atenção a usuários e dependentes químicos defendidas e praticadas no mundo todo.
Existem, no entanto, países ou localidades que ainda tentam diminuir a influência da Redução de Danos no rol de estratégias de saúde pública adotadas no enfrentamento desse fenômeno.


FMA – Você tem explicação para isto?
Mônica – Entendemos essa resistência como expressão da dificuldade que algumas nações ainda apresentam em oferecer um espaço verdadeiramente democrático de direitos aos seus cidadãos.


FMA – Mas não é o caso dos Estados Unidos?
Mônica – No caso dos Estados Unidos é porque eles ainda defendem a guerra total às drogas como política pública. Isto apesar de um resultado bastante duvidoso que essa abordagem oferece para um encaminhamento eficaz da questão e da evidente interferência que essa prática representa nos direitos dos cidadãos estadunidenses. 
Países asiáticos, como a Tailândia, também tentam resistir à inexorabilidade dessa prática como alternativa aos métodos punitivos praticados, como regra, até o final do século passado.
Mas, cada vez mais, a pressão de organismos internacionais, da Human Rights Watch (Organização de Defesa dos Direitos), além de organizações nacionais, acaba por limitar as restrições que esses países tentam impor, fazendo da Redução de Danos uma realidade já praticada em todo o mundo.


FMA – Qual é o grande mal das drogas?
Mônica – É a perda do controle da pessoa sobre elas. É a inversão dos papéis a que se submetem pessoas que abusam ou dependem de substâncias psicoativas. Não é a pessoa que controla a substância consumida e nem a quantidade, o tipo e o momento. É a droga que acaba por controlar toda a vida da pessoa.


FMA – Mas isso acaba não sendo privilégio somente das drogas…
Mônica – É verdade. Hoje vivemos sociedades que estimulam e favorecem a perda da autonomia pessoal em várias situações. Por exemplo, quando confundem espaços físico e emocional públicos com privados. Quando definem os significados que as vidas todas devem perseguir. E quando tentam conformar todos os indivíduos em modelos estabelecidos, segundo normas de mercado. A enorme exposição a que se submetem muitos indivíduos, a impossibilidade de encontrar um significado em experiências particulares, únicas e pessoais, a necessidade de preencher um espaço interno com significados externos, tudo isso faz com que, sem perceber, as pessoas acabem por procurar refúgio nas drogas, na comida, no sexo, no trabalho, no jogo.
Por isso, mais uma vez, o antônimo de uso problemático de drogas não é a abstinência, mas sim, a independência, a autonomia, a personificação de buscas e projetos que trarão significado verdadeiro para a vida de cada um.




Nunca foi possível ao ser humano prescindir de substâncias que modifiquem seu estado de consciência.




 


Mônica Gorgulho lembra aos pais que os profissionais são excelentes assessores, mas não sabem tudo sobre os filhos dos outros e nem sobre a relação de uma família.


 


FMA – Em relação às drogas, em geral, uns usuários são mais tolerantes que outros?
Mônica – Sim, existe uma máxima da Redução de Danos que é reconhecer que diferentes substâncias provocam diferentes resultados, em diferentes pessoas, em diferentes momentos da vida.
Esse é o resumo de toda a complexidade e plasticidade que o consumo de substâncias psicoativas apresenta.


FMA – É difícil para as crianças entender porque algumas drogas são ilegais e outras não…
Mônica – É verdade. É a sociedade que define o que é ser legal ou não. Aí existem as questões culturais, religiosas, políticas e econômicas. No fim do século XIX, o uso do ópio era considerado elegante. Mesmo nos EUA, usava-se essa substância em ocasiões sociais, assim como, hoje, fuma-se charuto ou bebe-se vinho.
 Não existe uma situação de tal forma específica que justifique a ilegalidade de uma substância. Isso é uma construção social. A verdade é que existem alguns estudos que mostram interesses econômicos em transformar algumas drogas e substâncias em ilegais.


FMA – Há, no mundo, várias experiências nesta questão. Os EUA gastam bilhões de dólares para combater o tráfico. A Holanda já tem uma política de tolerância. Ainda não deu para os especialistas tirarem uma conclusão?
Mônica – Talvez, a conclusão possa ser retirada das respostas anteriores. Não existirá nunca um modelo único que atenda a todas as necessidades de diferentes indivíduos, em diferentes países, em diferentes realidades.  Entendemos que uma política de drogas eficaz seria aquela que contemplasse quatro pilares básicos: a repressão, a prevenção, o tratamento e a Redução de Danos.
Só assim, um país poderia dizer que busca, verdadeiramente, uma resposta eficaz para os problemas de abuso e dependência de drogas de seus cidadãos.


FMA – O Brasil está no caminho certo no combate às drogas?
Mônica – Para falar a verdade, o Brasil tem tentado encontrar o melhor caminho para a questão do uso e abuso de drogas, dentro de nossa cultura. Tem havido revisões na legislação que recebem aprovação e críticas de especialistas das diferentes áreas envolvidas nesse debate.
Algumas resoluções são claramente acertadas. Por exemplo, a defesa de penas diferentes daquelas que focalizam somente a privação de liberdade, como prender usuários e dependentes.
 No âmbito da saúde, a criação dos Centros de Atenção Psico-social para pessoas com problemas de consumo de álcool e outras drogas é uma conquista importante.
Acho bom salientar que tanto a Secretaria Nacional Anti-drogas quanto o Ministério da Saúde divulgam muito pouco essas conquistas. Isto priva o público em geral de uma compreensão mais correta tanto do fenômeno em si – como a produção, comércio e consumo de substâncias psicoativas –  quanto das medidas defendidas em nossas políticas públicas.


FMA – Por que a implementação dos avanços já obtidos são tão lentos?
Mônica – Justamente por isto. Vou mais longe, diria até impossíveis. Infelizmente, interpretações muito particulares são feitas sobre dados e fatos por aqueles que defendem uma postura mais conservadora, de modo a manipular a percepção pública sobre esse fenômeno. Diante da falta de uma melhor compreensão, a opinião pública se vê diante de alternativas baseadas em falsos dilemas, atrasando medidas já implementadas em outros países, como a verdadeira descriminalização do uso da cannabis (2*), por exemplo.  


FMA – Uma mensagem para pais que têm este problema em casa?
Mônica – Não acreditem que outras pessoas fora de casa, por mais especialidades que possam ser, saberão melhor do que os pais em resolver qualquer problema referente ao consumo de substâncias psicoativas.  Profissionais são excelentes assessores, mas não sabem tudo sobre os filhos dos outros e nem sobre a relação de uma família.
Usos problemáticos de drogas, geralmente estão relacionados a um sentimento de confusão por parte dos adolescentes. Os pais devem ser os maiores responsáveis em ajudar os filhos a entenderem a fase que enfrentam.
Pode ser trabalhoso, assustador ou, ainda, desafiador. Mas, uma vez conseguido, a vitória será duradoura e fará com que pais e filhos passem a ser verdadeiros companheiros nessa aventura que é a vida.


FMA – E para professores que tem este problema na escola?
Mônica – Não tentem se afastar do problema, livrando-se do adolescente. Muitas vezes, a escola é o único lugar onde o jovem encontra um pouco de diálogo e informação. Aproximem-se mais de seus alunos. Busquem entender o que eles estão tentando dizer e ofereçam alternativas que faltam na vida deles. Sejam compatíveis com a realidade da instituição escolar.


FMA – Há possibilidade do mundo viver sem as drogas?
Mônica – Não acredito. Nunca foi possível ao ser humano prescindir de substâncias que modifiquem seu estado de consciência. Saber-se finito, ter inteligência suficiente para entender a imensidão do que não entendemos é condição muito angustiante, mesmo para os mais brilhantes dos Homens. Porque, apesar de sermos dos animais do planeta os mais fantásticos, somos humanos, demasiado humanos, como já disse Nietzsche.


 



* Uso não-médico de substâncias psicoativas
**  % de usuários que se tornam dependentes
*** Idade do primeiro uso, em anos


GLOSSÁRIO


(*1) Substância psicoativa (SPA) são drogas psicotrópicas que alteram o funcionamento temporário do sistema nervoso do indivíduo. São exemplos de substância psicoativa a maconha, o álcool, a cocaína, LSD etc. Uma substância psicoativa pode ser usada como remédio, ou seja,  com fins terapêuticos para solucionar um problema de saúde, com acompanhamento médico. Mas pode ser utilizada de forma indevida como droga, veneno ou tóxico.


(*2) Cannabis é o gênero botânico de algumas plantas, das quais a mais famosa é a cannabis sativa, da qual se produz o haxixe e a maconha. Cannabis é uma droga que está no centro do debate europeu. Na década de 1960, o seu consumo se tornou praticamente sinônimo de uma crescente contra-cultura juvenil. Historicamente, na Europa são comuns três formas principais de cannabis: a resina de cannabis, a cannabis herbácea e, menos frequente, o óleo de cannabis.


SUMMARY


Legalization of drugs: solution or problem


Mônica Gorgulho  INTERVIEW


Mônica Gorgulho is conducting a silent revolution in Brazil – but not quite so silent since everyone seems to be talking about her.  Clinical psychologist, holding a Masters in social psychology, former associate to the Drug Treatment and Guidance Program (Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de S. Paulo) member of the Executive Board of Directors of the International Harm Reduction Association, representative on the Federal Psychology Counsel and the National Anti-drug Counsel and founder and coordinator of the NGO, Dínamo, Mônica Gorgulho has said that it is much more expensive for society to combat drug use and traffic than to provide assisted tolerance for drug addicts.  The theory is as simple as it is controversial:  if it is not possible to free people from drugs, it would then be better for people to learn to live with them.


Marijuana For a long time drugs such as marijuana and hashish for example were referred to as light drugs, while others such as cocaine and heroine were deemed heavy.  Today this terminology is no longer used much.  However, the use of marijuana, in general, certainly concerns specialists less than the use of crack or acid.  This stance is the result of observations of the effects on consumers of one or another substance.  Thus, the current trend is to regard marijuana as a tolerable drug, but which would require, if legalized, the same attention that we should give the consumption of alcohol.         
Dependency or abstinence  We should not aim all our weapons toward abstinence, simply because a lifetime without using any psychoactive substance is not possible for human beings to achieve. People have always used and will always try to use natural or synthetic drugs to help them prop up their own fragile existence.  It also should be remembered that not everyone who uses prohibited substances has or will have drug use related problems.  Moreover, we need to understand that the opposite of dependence is independence and not abstinence. We need to learn this lesson well so that we can afterward think about truly effective alternatives to decrease drug abuse and the pathology of dependency.  How? This can be achieved by means of conscientious education for autonomy and responsibility of the individual.
Parent and teacher guidanceThe best way is to listen to them. Talk with them.  Honestly seek to understand what adolescents are trying to say, to help them express the conflict inherent to the problem being discussed.  I would say that you should not feel completely secure about the process through which adolescents go.  It is good to remember that this is a unique experience for each person, just as it was for the parent or the teacher. It is important not to confuse the basic guidelines for the so-called “normal adolescent process” with this or any other experience that individual in the growing process may be undergoing.  Drug dependents, especially when they are adolescents need to have a feeling of identity, with which they feel comfortable. If you try to explain the  problem the adolescent may be trying to convey, you are doing nothing more than stressing  the underlying pain and denying the child space for his own personal expression. It is important to assure all the space that an adolescent may need to express him/herself. Only then, together with the child, can you find a solution. Experience has shown that they are unable to find a solution on their own. 
   Favelas and drug trafficking Sales of drugs reflect one of the largest economies of the world market.  Therefore, the economic attraction of this activity should not be disregarded.  It casts a lure to any and all persons who are seeking enough financial gain to meet their material and social expectations. Populations whose social needs are the least fulfilled, in general those living in types of housing that are the least organized and protected by the governments, such as the favelas, endeavor to establish their own forms of organization and means to generate wealth and attention to their wide range of needs.  The drug trade is one way to accomplish this.  There are other means such as for example, the sale of illegal weapons and animals. We would be much closer to reality if we understood favelas from a survival point of view or as a synonym to the alternative to abandoning the material, ethical and social values which the majority of Brazilians already have.
  Harm Reduction – Harm Reduction, commonly referred to as HR, began in the 1980s, in response to the public health AIDS and Hepatitis C epidemic which had spread throughout some countries in Europe.  It afflicted those referred to as “risk groups,” including drug users who shoot up.  In view of the impossibility of some persons to give up drug use, measures were implemented so that the outlook of SPA consumption did not add to the problems related to other health areas such as HIV infection and other sexually transmitted diseases, as well as diseases transmitted by the use of shared drug paraphernalia used to inject them.    
   Measures for Harm Reduction HR defends the decrease in risks related to the consumption of psycho-active substances, in relation to individuals as well as the social group in which they are placed.  There are four fundamental points involved: 1 –  Use of non-injection drugs are defended when the use of injection drugs is the norm; 2 – Less harmful drugs are encouraged instead of those that pose a higher risk to different individuals;  3 – Smaller quantities are preferable to larger ones;  4 –  Use in safe locations, controlled by health workers are preferable to use conducted in public locations which offer no controls.
  The biggest threat of drugs – This is the loss of the person’s control of them.  It is contrary to the role that subjects persons who abuse or depend on psycho-active substances.  It is not the person who controls the substance used or the quantity, type or timing.  It is the drug that ends up controlling the person’s entire life.
   Policy model – There has never been one single model that meets all the needs of different individuals, in different countries and in different realities.  We believe that an effective drug policy would be one that included law enforcement, prevention, drug free oriented treatment and Harm Reduction.  Only then can a country state  that it has truly sought an effective response to the problems of drug use and dependency of its citizens.
Message to parents – Do not believe that other people outside the home, regardless of how specialized they may be, know more than the parents about solving any problem in relation to the consumption of psycho-active substances.  Professionals are excellent advisors, but do not know everything about a certain family’s children or about that family relationships.
Message to teachers – Do not try to distance yourselves from the problem or the adolescent.  Often the school is the only place that a young person has to find a little dialogue and information.  Get closer to your students.  Try to understand what they are attempting to say and offer them alternatives.
A world without drugs Do not believe it. It has never been possible for human beings to dispense with substances that modify their state of consciousness.  It is agonizing to know that we are finite and are intelligent enough to understand the immensity of what we do not understand, even for the most brilliant of us.  Although we are one of the most fantastic animals on the planet, we are overmuch human, as Nietzsche says. 


 

 
 

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Entrevistas

MARCOS TERENA

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De filho pródigo à liderança internacional, o índio, piloto e cacique Marcos Terena, tornou-se um líder respeitado e o ponto de equilíbrio entre autoridades brancas e os povos indígenas.

O índio, piloto e cacique Marcos Terena é uma liderança respeitada internacionalmente e o ponto de equilíbrio autoridades brancas e os povos indígenas. Terena tem uma de luta, de diálogos e de fé.
Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se” dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo.
Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio. Escreveu ele ao JB:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.” 
E Terena continua sua carta:
“Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.” 
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. “Expliquei – diz ele – e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”. Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição! Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz.
E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”. 
Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 66 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro – é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.
CINCO BRANCOS E CINCO ÍNDIOS DE VALOR
1 – CINCO HOMENS BRANCOS QUE SOUBERAM OU SABEM VALORIZAR A CULTURA INDIGENISTA?
TERENA – O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.
2 – QUAIS OS CINCO ÍNDIOS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA?
TERENA – Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Txucarramãe, Cacique Quitéria Pankararue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.
3 – A POLÍTICA É UMA ARMA PARA SE FAZER JUSTIÇA OU UM CAMINHO MAIS FÁCIL PARA ENCOBRIR INJUSTIÇAS?
TERENA – O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. Mas a única participação que tivemos foi do Deputado Mario Juruna, eleito pelo voto do RJ. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira “assembleia do povo brasileiro” e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos e poderosos.
POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE
4 – NAS SUAS CONTAS, QUAL A POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE NO BRASIL?
TERENA –  Já fomos mais de 5 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 530 mil em aldeias, e depois dos eventos nacionais e internacionais de afirmação outros 500 mil em centros urbanos, com mais de 300 sociedades e 200 línguas vivas em todo o Brasil.
5 – AS MISSÕES RELIGIOSAS QUE ATUAM NAS ÁREAS INDÍGENAS SÃO BOAS OU RUINS?
TERENA – As missões religiosas sempre foram a parte a abençoar os primeiros contatos com os indígenas. Elas foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores e sem almas por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim pois sempre respeitamos de forma sagrado o Grande Espírito.
6 – OS ÍNDIOS JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA OS PORTUGUESES (MOTIVO DE FINANCIAMENTO DE NOVAS EXPEDIÇÕES, POIS O MUNDO CATÓLICO TINHA QUE SALVAR ALMAS) JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA CANTORES DE ROCK, PARA ONGS, PARA CANDIDATOS E PARA GOVERNOS. ÍNDIO É UM BOM MARKETING?
TERENA – Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de joias, de produtos de beleza, de comida e medicina alternativas. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.
7 – QUEM PENSA GRANDE E QUEM PENSA PEQUENO NA FUNAI?
TERENA – Os índios pensam de forma ampla porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai foram passivos, paternalistas e incompetentes para a promoção dos valores indígenas e da própria instituição como empoderamento étnico, institucional e fonte de respostas para o País e para o mundo.
SONHO: DEMARCAÇÃO E CÁTEDRA ÍNDÍGENA
8 – JURUNA FOI UM LÍDER ELEITO PELO HOMEM BRANCO. VALEU, PARA OS ÍNDIOS, ESSA EXPERIÊNCIA PARLAMENTAR?
TERENA – A lembrança de Mário Juruna é um marco na história dos Povos Indígenas. Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, sendo respeitado pelas autoridades brasileiras por sua forma de ser, mas como Parlamentar não foi bem assim. Houve falta de assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição por exemplo, para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje…
9 – QUAL O GRANDE SONHO DA FAMÍLIA INDIGENISTA PARA O ANO 2020?
TERENA – A demarcação de todas as terras. Cumprir a Constituição e não rasgá-la como querem alguns parlamentares como a bancada ruralista; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; criar uma Cátedra Indígena com um perfil de Universidade Intercultural, e transformar a Funai num Ministério do Índio, e inovar nas relações com os poderes públicos, nomeando indígenas para esses cargos, pois eles existem.
10 – RELIGIÃO: O HOMEM BRANCO NÃO RESOLVEU SEUS PROBLEMAS COM A RELIGIÃO QUE TEM, MAS ACHA QUE DEVE LEVAR SUA RELIGIÃO PARA OS ÍNDIOS. O QUE ACHA DISSO?
TERENA – Os índios creem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.
11 – O QUE O ÍNDIO ESPERA DA CIVILIZAÇÃO, DO HOMEM BRANCO DE HOJE?
TERENA – Na verdade, agora estamos mais especializados em assuntos do branco, percebemos uma grande carência de metas e ideais que não dependem apenas de dinheiro ou poder. A sociedade do novo Milênio se perdeu entre as novas tecnologias e está gerando uma sociedade sem velhos e jovens, onde a Mulher por ser Mulher, poderá ser o equilíbrio, a tábua de salvação dos valores sociais, interétnicos, econômicos e religiosos. Um governo que defende o armamento de sua sociedade não está a favor do bem estar de seu Povo e sim dos interesses das indústrias de armas e guerras. O índio brasileiro não aceita ser parte da pobreza, mas quer mostrar que podemos ajudar, contribuir, mas dentro de um respeito mútuo.
“POSSO SER O QUE VOCÊ É, SEM DEIXAR DE SER QUEM SOU!”
12 – SUA LUTA É PROVAR QUE A DIFERENÇA CULTURAL É FATOR DE DISCRIMINAÇÃO QUANDO DEVERIA SER FATOR DE UNIÃO PELA PLURALIDADE ÉTNICA. VOCÊ CONSEGUE PASSAR ESSA MENSAGEM?
TERENA – Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar sem qualquer apoio ou cotas, e mesmo com a discriminação poder chegar a fazer um curso de aviadores na FAB. Aprendi muito com os valores militares. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram essa oportunidade. Muitos cansados, desiludidos voltaram para suas Aldeias para formar um novo espírito de lideranças tradicionais, religiosas e políticas. Mas no novo Milênio é impossível aceitar quaisquer argumentos que nos isolem das oportunidades, por isso quando começamos o movimento indígena nos anos 80, buscamos aliados para trocas de ideias dos nossos valores e da sociedade como um todo, organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, da SBPC, envolvendo artistas e personalidades – tudo isso ajudou a sermos melhores compreendidos. Ajudou-nos a levar uma nova mensagem aos brasileiros: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”
CULTURA FORTE, MAS ECONOMIA FORTE
13 – OS ÍNDIOS PARECIS SÃO HOJE GRANDE PRODUTORES RURAIS. FAZEM DUAS SAFRAS POR ANO DE SOJA, MILHO, GIRASSOL E OUTROS PRODUTOS. TRÊS MIL ÍNDIOS FAZEM MAIS DE R$ 50 MILHÕES COM O AGRONEGÓCIO. TEM ÍNDIO PILOTO DE COLHEITADEIRA, AGRÔNOMO E TEM ÍNDIO ESPECIALISTA EM MERCADO. FUNAI E IBAMA CRIAM TODAS AS DIFICULDADES BUROCRÁTICAS A ELES. O QUE VOCÊ ACHA DISSO?
TERENA – Temos que olhar com desconfiança tudo que é mágico. Se todos os agricultores fossem plantar soja para ficarem ricos, não haveria pobreza e fazendeiros endividados com bancos e credores. Teríamos condições de plantar soja, mas também seguir os princípios indígenas de gerar a segurança alimentar familiar. O Agronegócio não funciona assim. Por outro lado, os irmãos indígenas estão se empenhando em fazer a sua parte, que é demonstrar sua inteligência no manejo com a terra e sua força de trabalho. Ainda não sabemos como foram feitos os acordos financeiros das partes envolvidas.
14 – VOCÊ ACHA QUE O GOVERNO ESTÁ MEIO INDECISO?
TERENA – O Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro tem demonstrado sua contradição interna. Alguns assessores de alto nível emitem sons de discriminação histórica e até de ódio. Então como acreditar fielmente que esse Ministério é um aliado. Seria um marketing ou seria a reformulação do Anhanguera quando mentiu para os antigos donos dessas terras, ao ameaçar por fogo em todos os rios, ao acender um fogo com aguardente? O mais estranho é que os órgãos de fiscalização e controle e defesa dos povos indígenas como a FUNAI e o IBAMA, estão sendo descontruídos como tais, mas felizmente isso não acontece com o Ministério Público Federal, que certamente dará um norte nos encaminhamentos futuro.
De toda forma, sempre defendo a livre determinação dos Povos Indígenas, a começar pela demarcação territorial, com cultura forte, mas economia forte também.
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Entrevistas

Fernando Henrique Cardoso – Entrevista sobre Meio Ambiente e Cidadania

Meio ambiente, desenvolvimento e cidadania, segundo o presidente FHC

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Fernando Henrique Cardoso (@FHC) | Twitter

Progresso sem meio ambiente é estéril

Para Fernando Henrique Cardoso, é facinante como o direito a um meio ambiente saudável passou a fazer parte do conceito de cidadania

Silvestre Gorgulho, de Brasília


O Presidente recebeu o jornalista Silvestre Gorgulho no Palácio do Planalto

” Cada vez mais, as pessoas se dão conta de que sem a adequada proteção ambiental, o próprio processo de desenvolvimento corre o risco de se tornar estéril.”

Em 1983, o professor Fernando Henrique Cardoso deixou cátedra e livros para assumir uma cadeira no Senado na vaga de Franco Montoro, eleito governador de São Paulo. Dois anos depois, o então senador Fernando Henrique viu fracassar seu primeiro grande teste eleitoral: em 85 perdeu a prefeitura de São Paulo para o ex-presidente Jânio Quadros. Mas, FHC não voltou para a sala de aula. Se recompôs e enfrentou o desafio político. Em 1986 deixou de lado muitas posições teóricas e, no rastro do sucesso do Plano Cruzado, conquistou uma cadeira no Senado. Aí iniciou uma trajetória política de vitórias. O intelectual de sucesso fora e dentro do Brasil deu lugar ao político de sucesso dentro e fora do Brasil. Caso raro! São vocações antagônicas, por isso é difícil alguém se adaptar à função de intelectual e político. Como o professor e escritor Fernando Henrique Cardoso conseguiu? Esse é um dos segredos que FHC vai contar aos leitores da Folha do Meio. Bem, os outros segredos são vários. Uns dizem respeito às derrotas, vitórias, avanços e marcha-rés sobre preservação da natureza e melhoria da qualidade de vida no Brasil. Outros são mais particulares. Por exemplo, por que em nenhum de seus 24 livros o professor e intelectual reconhecido internacionalmente tratou explicitamente da questão mais importante deste final de século: a relação do homem com o meio ambiente?

Folha do Meio – Presidente, nada mais global do que o meio ambiente…

FHCNão há como fazer uma fronteira política ou geográfica quando o assunto é ambiente. Não adianta um país aperfeiçoar suas leis ambientais, se os países vizinhos não fizerem o mesmo.

FMA – O meio ambiente pode mudar os acordos comerciais entre as nações?

FHCCada vez mais ganha terreno no cenário internacional a convicção de que os acordos comerciais entre as nações devem levar em conta a interação entre a formulação das políticas de desenvolvimento e o meio ambiente. Isso porque as preocupações ambientais afetam, potencialmente, as políticas de desenvolvimento e os fluxos comerciais globais. A incorporação da perspectiva do desenvolvimento sustentável permite a consideração conjunta do meio ambiente, da economia e do bem-estar humano nas questões comerciais. E isso constitui um degrau qualificativo nos debates regionais e internacionais. O meio ambiente está surgindo como um objetivo chave nessas relações, conceito compartilhado pelo Gatt, pelo Nafta e pelo Tratado de Maastricht, entre outros. O Brasil tem defendido a posição de que as iniciativas ambientais na área de comércio devem, contudo, constituir obstáculo adicionais aos fluxos de comércio dos países em desenvolvimento. Isso no sentido de que o combate à pobreza é o vetor essencial para o desenvolvimento sustentável.

FMA – E como o senhor vê a relação do Brasil com os outros países do Mercosul por ser a legislação brasileira ambientalmente mais avançada?
FHCTem um subgrupo de trabalho de Meio Ambiente do Mercosul estudando o problema. E tem buscado, a partir de realidades bastantes distintas, os ordenamentos legais nacionais para otimizar os níveis de qualidade ambiental nos países que integram o Mercosul. Nesse sentido, os princípios do desenvolvimento sustentável têm sido a base para todo o processo de cooperação entre os quatros países do bloco, influenciando as agendas negociadas e ajudando a superar as diferenças entre os países. Para ser eficiente, a política ambiental precisa tratar de questões que ultrapassam em muito o Ministério do Meio Ambiente. Expansão urbana, assentamentos fundiários, saúde, ciência e tecnologia, agricultura, energia e até relações exteriores têm ações na área ambiental.

FMA – O governo, isolando as ações no Ministério do Meio Ambiente, não está longe de fazer uma política ambiental pública preventiva? E com isso a questão ambiental não fica só na retórica?
FHC –
A formulação da Política Nacional do Meio Ambiente está a cargo do Conama. Ou seja, pelo Conama toda a sociedade participa da elaboração da política ambiental brasileira. E para ampliar ainda mais a Política Nacional de Meio Ambiente foi instituído o Sisnama. Daí temos a interação com todos os atores envolvidos nas questões mais diversas do interesse nacional. A política ambiental do governo é, portanto, objeto de um amplo processo que se caracteriza pelo diálogo, pela negociação e pela conciliação dos interesses em jogo. Levantamentos do INESC sobre a execução orçamentária nos primeiros cinco meses do ano indicam que os programas executados pelo Ministério do Meio Ambiente tiveram gastos efetivos de apenas 0,63% do total orçado. Programas como o Piloto de Proteção às Florestas Tropicais até agora não receberam um centavo.

FMA – O senhor não acha que o meio ambiente está pagando caro para garantir as metas de redução do déficit público?

FHCO PPG-7 já gastou este ano 13,4 milhões de dólares nos seus programas já aprovados. Um novo desenho deste programa foi aprovado recentemente, em Paris, trazendo para o governo brasileiro, por intermédio do Ministério do Meio Ambiente, a liderança do programa. O desembolso de recursos para os programas do PPG-7 deverá ser bastante agilizado nos próximos meses.

FMANo Congresso há uma preocupação com o que alguns parlamentares chamam de ameaça de desmonte do Ibama. As superintendências estaduais já foram extintas e está havendo muita nomeação política. Maior temor: afrouxamento na fiscalização. Faz sentido?

FHCCom a reestruturação aprovada agora em maio, o Ibama passou a ter uma nova estrutura que reforçou o seu papel de órgão responsável pela execução e fiscalização da política ambiental. A partir de agora, cabe ao Ibama executar as políticas nacionais de meio ambiente relativas à preservação, conservação, fiscalização e de controle do uso sustentável dos recursos ambientais. Além disso, o Ibama também apóia o ministério na execução da Política Nacional de Recursos Hídricos e desenvolve ações supletivas de competência da União na área ambiental. As mudanças feitas visavam, justamente, dar maior agilidade ao Ibama para cumprir seu novo papel. Vamos reforçar as atividades nas pontas, enxugando a estrutura central. No lugar das 27 superintendências extintas serão criados 90 escritórios de múltipla ação, com pelo menos uma unidade em cada estado. Também serão criadas oito coordenações regionais. Assim, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste terão, cada uma, duas coordenações do Ibama. As regiões Sul e Sudeste uma cada.

“Um dos aspectos mais fascinantes é a maneira como o direito a um meio ambiente saudável passou a fazer parte do conceito, mesmo, de cidadania, transformando-se em elemento central do que tenho chamado de radicalização da democracia.”

FMA – Será mesmo criada a Agência Nacional de Água?
FHC Sim. A Agência Nacional de Água (ANA) será criada para tornar as ações no campo da gestão dos recursos hídricos mais ágeis. A ANA será uma autarquia especial dotada de uma estrutura flexível, com autonomia orçamentária e financeira. A criação da ANA, em estudo pelo Ministério do Meio Ambiente sob orientação da Casa Civil da Presidência, é também uma conseqüência das definições estabelecidas no contexto da reforma do aparelho do Estado. A futura agência vai atuar na implementação dos instrumentos da política de recursos hídricos, sucedendo a secretaria de Recursos Hídricos nesta tarefa. Na Secretaria permanecerão as funções de formulação da política para o setor.

FMA – Presidente, há alguma justificativa na demora de mais de um ano para a regulamentação de uma lei que marcou seu governo: a Lei da Natureza ou a Lei contra os Crimes Ambientais? O processo já passou por todas as instâncias e está há algum tempo no Gabinete Civil. O que falta para a regulamentação?

FHC – Primeiro, cumpre destacar que a Lei 9.605/98 já está sendo aplicada no que diz respeito às sanções penais, que não implicam em regulamentação. Por outro lado, as sanções administrativas pecuniárias estão pendentes desse instrumento, o que, no entanto, não invalida a sua aplicação. Há, inclusive, a possibilidade da remessa dos autos de infração ao Ministério Público para que, como Curador do Meio Ambiente, adote as providências no âmbito de suas competências. Mas há, efetivamente, demora na publicação do decreto de regulamentação. Entretanto, todas as sanções administrativas estavam dispersas em vários atos normativos, como por exemplo, portarias e instruções normativas e havia necessidade de que esses atos fossem consolidados e sistematizados, o que coube ao Ibama fazer. Essa proposta foi então encaminhada ao Ministério do Meio Ambiente para revisão final. Nesse momento, a proposta do Ibama, previamente consolidada, foi objeto de consulta pública, via Internet. Após as sugestões recebidas terem sido analisadas e incorporadas, a proposta final de decreto foi encaminhada à Casa Civil, que se manifestou contrária a proposta, quanto a forma. Não tendo, entretanto, apreciado o mérito. Com base nessa análise, a proposta foi devolvida ao Ministério do Meio Ambiente que, neste momento, está estudando e revendo a forma de apresentação. O empenho do governo é grande nesse sentido, para que a regulamentação esteja disponível no menor prazo possível e a lei possa alcançar sua eficácia plenamente.

FMA – Já se foram sete anos deste a realização da RIO-92, a chamada Cúpula da Terra, que discutiu meio ambiente e desenvolvimento. Como o senhor vê a demora de definição para discussões importantes sobre clima, biodiversidade, definição de recursos dos países desenvolvidos para financiar projetos ambientais em países em desenvolvimento?
FHCA RIO-92 deve ser entendida como um marco institucional que trouxe ao debate internacional, de forma integrada, todos os aspectos da ação humana sobre o planeta e o meio ambiente. A Cúpula da Terra definiu uma série de princípios e conceitos no plano internacional, dando ênfase à cooperação, que se traduzia em apoio financeiro, transferência de tecnologia e capacitação técnica, sobretudo para os países em desenvolvimento poderem fazer frente aos desafios ambientais em escala global. Evidentemente, as expectativas foram muito além das reais possibilidades de apoio material dos países desenvolvidos. Mas isso não quer dizer que deixaram de ser realizadas iniciativas relevantes. Na área de mudança do clima, por exemplo, estão sendo reforçados os compromissos dos países desenvolvidos. Não obstante, os resultados de Kioto são relevantes e constituem um passo adiante no processo, sobretudo com a aprovação da proposta brasileira do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Na área da biodiversidade, apesar das dificuldades encontradas, caminha-se para definir espaços claros no que diz respeito à repartição justa e eqüitativa do uso dos recursos genéticos. Esse é um tema de especial importância para o Brasil, pois somos detentores de megabiodiversidade. A esse respeito está em exame no Congresso Nacional a lei de acesso a esses recursos. Na área de desertificação, a Convenção das Nações Unidas de Combate aos Efeitos da Desertificação e da Seca examinará em novembro deste ano, no Recife, o mecanismo financeiro de apoio ao pré-investimento de projetos de combate à desertificação e à seca. Por esses avanços, não se pode dizer que os efeitos derivados da Cúpula da Terra possam ser considerados negligenciáveis.

“A correta atuação política
consiste em recolher as demandas
da sociedade, ordená-las,
definir prioridades e estabelecer rumos de ação.”

FMA – Presidente, a questão ambiental surgiu de maneira explosiva há três décadas. Foi a partir de maio de 68 (o senhor estava no coração das manifestações estudantis, em Paris) que a percepção dos efeitos globais dos grandes desmatamentos, do emprego na energia nuclear, da queima de combustíveis, da formação dos grandes centros urbanos começou a motivar a comunidade científica, os intelectuais e a opinião pública para o problema. Nos seus 24 livros o senhor trata de tudo na relação homem, industrialização, desenvolvimento, democratização, capitalismo, mobilidade social, dominação e dependência. O senhor achava que meio ambiente estava fora da agenda do século?
FHC
Teria sido muita pretensão de minha parte buscar analisar na íntegra a “agenda do século”. Meus escritos acadêmicos, embora abarcando temas complexos como os que você mencionou, têm objetivo menos ambiciosos. Isso não quer dizer, em absoluto, que o meio ambiente não fizesse parte de minhas preocupações. A partir, sobretudo, da Conferência de Estocolmo, em 1972, o assunto realmente entra na agenda internacional, e não poderia ser desconsiderado por qualquer observador atento da evolução das sociedades contemporâneas. Nesse processo, em que os temas ambientais foram adquirindo cada vez mais importância e merecendo maior atenção dos diferentes setores da sociedade, um dos aspectos mais fascinantes é a maneira como o direito a um meio ambiente saudável passou a fazer parte do conceito, mesmo, de cidadania, transformando-se em elemento central do que tenho chamado de “radicalização” da democracia.

FMA – Presidente, é impressionante como o senhor soube se adaptar na função de intelectual e político. Essa dupla vocação raramente andam juntas. Existe algum segredo?
FHC
A dimensão acadêmica é parte essencial de minha formação. Tem, portanto, enorme influência sobre minha atuação como homem público. Haveria muito a dizer sobre a relação entre intelectual e político – muito além da distinção elementar entre teoria e prática, entre conceito e vivência – mas me limitaria a uma questão que considero muito importante. De forma simplificada, pode-se dizer que a correta atuação política consiste em recolher as demandas da sociedade, ordená-las, definir prioridades e estabelecer rumos de ação. Em boa medida, a formação intelectual, embora não se substitua à experiência política, complementa esta última e contribui para uma melhor compreensão daquele leque de demandas, entre as quais se inclui, crescentemente, a proteção ao meio ambiente.

FMA – Nas suas viagens ao exterior, em relação ao meio ambiente, quais as principais observações que o senhor escuta de outros chefes de estado. A Amazônia ainda domina as discussões sobre ecologia no Brasil?
FHC
O tema, sem dúvida, perdeu muito do aspecto de confrontação que teve há alguns anos. Os esforços realizados pelo governo para o desenvolvimento sustentável da região amazônica são reconhecidos internacionalmente, o que torna o diálogo sobre o assunto muito mais fluído e construtivo. Nunca nada me foi dito em termos de cobrança. Ao contrário. A preocupação internacional existe, e é legítima, mas hoje em dia as discussões versam muito mais sobre as formas efetivas de cooperação. A questão das florestas é importante, mas naturalmente é apenas um dos aspectos da ampla agenda internacional sobre meio ambiente.

FMA – Presidente, acaba de ser criada a CPI da Borracha. Qual a solução que o senhor vê para a sobrevivência do seringueiro na Amazônia?
FHC
As populações envolvidas com a atividade extrativista na Amazônia já estão na floresta há muitas gerações. Portanto, trata-se de uma população adaptada ao ecossistema tropical. O governo dará todo o apoio ao setor por meio do programa Amazônia Solidária. Estou empenhado em viabilizar recursos solicitados pelo Ministério do Meio Ambiente para o programa, porque são de alta relevância para a região.

FMA – A questão ambiental envolve respeito à natureza. Mas como levar essa idéia às pessoas que, infelizmente, não respeitam nem seus semelhantes? Será que a sociologia pode explicar esse paradoxo?
FHC
Como disse antes, o direito a um ambiente saudável é, hoje, parte da noção mais ampla de cidadania. Cada vez mais, as pessoas se dão conta de que sem a adequada proteção ambiental, o próprio processo de desenvolvimento corre o risco de se tornar estéril. Há uma grande sabedoria por trás do conceito de “desenvolvimento sustentável”, e isso torna-se mais e mais evidente para todos, tanto no governo quanto na sociedade civil. No que se refere à ação individual – seja em relação ao meio ambiente, seja em relação a outros aspectos importantes da convivência social – o poder público tem, certamente sua responsabilidade na tarefa da conscientização de todos, mas parcela importante desse esforço cabe também às ONGs. A questão ambiental é uma das que mais se prestam ao desenvolvimento de parcerias eficazes entre o governo e a sociedade. É isso que estamos fazendo no Brasil.

FMA – Uma mensagem pelo Dia Mundial do Meio Ambiente.
FHC –
No Dia Mundial do Meio Ambiente devemos ter um momento de reflexão sobre o mundo que vivemos. Um mundo cujos recursos naturais são limitados. Temos compromisso com o futuro. Por isso determinei que o Ministério do Meio Ambiente se empenhe em oferecer alternativas capazes de impulsionar o crescimento econômico, gerar trabalho e, sobretudo, garantir uma melhor qualidade de vida, mantendo e recuperando as nossas riquezas naturais. Queremos, ainda, a participação de todos na formação de uma nova cultura ambiental diferente. Um futuro em que o meio ambiente promova o desenvolvimento sustentável, que assegure um mundo melhor para as atuais e futuras gerações.

GLOSSÁRIO

GATT – É o Acordo Geral de Comércio e Tarifas – Agência pertencente ao sistema da ONU, com sede em Genebra, que promove o livre comércio, organizando normas comuns e eliminando protecionismos. É também uma tribuna para solução de conflitos comerciais entre 123 países associados.NAFTA – É o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, um bloco que engloba EUA, Canadá e México.

TRATADO DE MAASTRICHT – Acordo assinado em 1991, em Maastricht, Holanda, que acelerou o processo de integração econômica e monetária européia. O tratado previu um mercado interno único, com moeda própria – o Euro – e estabeleceu políticas comuns aos países que fazem parte da União Européia.

CONAMA – É o Conselho Nacional do Meio Ambiente, instância colegiada presidida pelo ministro do Meio Ambiente e integrado por representantes dos demais ministérios setoriais, governos dos estados e do DF e das Confederações da Indústria, do Comércio e da Agricultura. Tem poder normativo e poder de solução de conflitos.

SISNAMA – É o Sistema Nacional do Meio Ambiente, é composto por órgãos e entidades da União, dos estados, do DF, dos municípios e pelas fundações instituídas pelo poder público, responsáveis pela proteção e melhoria da qualidade ambiental, tendo como órgão superior o Conama.

LEI 9.605/98 – É a chamada Lei da Natureza ou Lei Contra os Crimes Ambientais, de 12 de fevereiro de 1989. É a lei que define sanções e punições nas áreas criminais, administrativas e reparação de danos para os crimes ambientais.

PPG-7 – É um Programa Piloto de Proteção à Florestas Tropicais, financiado pelos sete países mais industrializados – Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido. Mais de 60% dos recursos são de origem alemã.

MEGABIODIVERSIDADE – Biodiversidade é a variedade de gens, espécies e ecossistemas que fazem parte da biosfera. É a riqueza biológica do planeta. Megabiodiversidade é uma expressão que vem sendo usada para identificar regiões do planeta com alta diversidade biológica.

DESERTIFICAÇÃO – É a transformação de solos férteis em desertos. A ação do homem, como o desmatamento e a agropecuária podem levar à degradação do solo e ao agravamento das secas – princípio mortal da desertificação.

CIDADANIA – É o conjunto amplo de direitos e deveres civis, políticos, sociais, econômicos, ambientais e culturais dos habitantes de um Estado. Designa o fato de um indivíduo gozar dos direitos de um Estado, cumprindo também seus deveres para com este. Não importa qual a função que este indivíduo exerça na sociedade.

KIOTO – Refere-se à Conferência de Kioto, realizada em dezembro de 1997, quando foi assinado um protocolo de mudança climática, que definiu compromissos de redução de gases poluentes dos países desenvolvidos, estabelecendo mecanismos flexíveis de cooperação entre os países, para cumprir metas no sentido de diminuir o efeito estufa.

CÚPULA DA TERRA – É a representação política dos países associados à ONU. A expressão foi usada pela primeira vez por ocasião da RIO-92, quando se reuniu, então, a Cúpula da Terra, ou seja, os 114 chefes de Estado e 175 países representados na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO – Foi a primeira Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, promovida pela ONU, realizada em junho de 1972. Reuniu 110 países. Foi o primeiro grande movimento oficial, respaldado pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que mostrou a necessidade urgente de conciliar meio ambiente com o desenvolvimento, mostrando a nossa responsabilidade com relação às futuras gerações.

RIO-92 – Foi a 2a Conferência Mundial para Meio Ambiente e Desenvolvimento, promovida pela ONU e realizada no Rio de Janeiro, que teve início em 3 de junho de 1992. Foi a maior reunião planetária, pois 175 países se comprometeram com a causa ambiental. Participaram dela 114 chefes de Estado, representantes de praticamente todos os países da Terra, 10 mil jornalistas e mais de 500 mil pessoas representantes de ONGs e etnias diversas.

AMAZÔNIA SOLIDÁRIA – É um programa que tem por objetivo promover à ascensão econômica e social dos seringueiros da Amazônia. Além de vários organismos do governo, atuam nesta parceria o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), o Conselho Nacional de Seringueiros, o Gabinete da senadora Marina Silva (PT/AC) e o Programa Comunidade Solidária, presidido pela Primeira-Dama, professora Ruth Cardoso.

SUMMARY

Environment, Development and Citizenship
According to the President of the Republic

In 1983, the teacher Fernando Henrique Cardoso left behind his books and ivory tower when he accepted the post of senator filling the vacancy left by Franco Montoro, who had been elected governor of São Paulo. Two years later Senator Fernando Henrique experienced the failure of his first real political test, losing the 1983 race for mayor of São Paulo to the ex-president Jânio Quadros. But FHC did not retreat to the classroom. He regathered his forces to take on the political challenge. In 1986 he set aside many theoretical positions, and in the wake of the success of the PIano Cruzado, he gained a seat in the Senate. Thus began a rising trajectory of political victories. The intellectual, successful both in and outside of Brazil, was replaced by the politician, successful both in and outside of Brazil. A rare bird! These are usually mutually exclusive vocations, so it is unusual to find someone so well adapted to both roles of intellect and politician. How has Fernando Henrique Cardoso, writer and professor, achieved this? This is one of the secrets which FHC shares with the readers of the Folha do Meio. Well, there are many other secrets. Some speak of the defeats, victories, advances and retreats in the struggle to preserve nature and improve the quality of life in Brazil. Other secrets are more personal. For example, why none of the intellect professor’s 24 internationally recognized books deals explicitly with the most important question at the end of this century: the relationship between man and his environment.

FMA – Mr. President, there is nothing more global than the environment.

FHC – It is impossible to mark political or even geographic boundaries when the subject is the environment. It does no good for me to take care of my own back yard if my neighbor does not care for his. It does no good for one country to perfect its environmental laws if its neighboring countries do not do the same.

FMA – Is it possible that the environment could affect the international commercial agreements?

FHC –  The conviction that commercial agreements among nations must take into account the interaction between the formulation of development policies and the environment is constantly gaining ground on the international scene. This is because these concerns over the environment have the potential to impact upon the policies of development and the flow of global commerce. The inclusion of the perspectives of sustainable development allows the joint consideration of the environment, the economy and human welfare in commercial affairs. And this constitutes a qualitative step up in regional and international debates. The environment is emerging as a key element in these relationships, as recognized by Gatt, by Nafta, and by the Treaty of Maastricht, among others. Brazil has defended the position, however, that environmental initiatives in the area of commerce should not be allowed to create additional obstacles to the flow of commerce in the developing countries. This in the sense that combating poverty is the essential vector towards sustainable development.

FMA – And how do you see the relationship of Brazil with the other countries of Mercosul since its environmental legislation is more advanced?

FHC: Mercosul has an environmental task force studying the problem. It has been seeking, within the quite different realities and with reference to the nations’ legal structures, to optimize the levels of environmental quality in the countries that comprise Mercosul. In this sense, the principles of sustainable development have been the basis for the entire process of cooperation among the four countries of the block, bearing upon the negotiating agendas and helping to overcome differences between the countries.

FMA – It has been 7 years since RIO-92, the so- called “Earth Summit”, was held to discuss the world’s environment and development. How do you interpret the delays in concluding the important discussions on global climate, biodiversity, and the allocation of resources from the developed countries to finance environmental projects in developing countries?

FHC: RIO-92 should be understood as an important institutional milestone, bringing in an integrated fashion all aspects of human action upon the planet’s environment to the forefront of international discussion. The Earth Summit defined a series of principles and concepts of international scope, emphasizing cooperation, which can be translated as financial support, the transfer of technologies and technical training, especially so that the developing countries can confront the environmental challenges of a global nature. Evidently, expectations were raised far beyond the realistic possibilities for material support from the developed countries. But this is not to say that relevant initiatives have not been undertaken. In the area of global climate change, for example, the commitments made by the developed countries are being reinforced. Nevertheless. the results of the Kyoto Conference art: relevant as a step forward in this process, especially with the approval of the Brazilian proposal for the Mechanism for Clean Development. In the area of biodiversity, in spite of difficulties along the way, we’ve come a long way toward defining clear areas for the ,sake of a just and equitable division in the use of genetic resources. This is an especially important topic for Brazil, for we arc the custodians of a mega biodiversity. In this regard, a law concerning access to these resources is under study in the National Congress. In the area of desertification, the United Nations Convention on Combating the Effects of Desertification and Drought will examine, this November in Recife, the financial mechanisms for giving pre-investment support to projects for combating desertification and drought. With all these advances, it cannot be said that the lasting effects of the Earth Summit have been negligible.

FMA – Mr. President, the environmental question seemed to explode on the scene some three decades ago. It was in May of 1968 (you your-self were at the heart of the student demonstrations, in Paris) that awareness of the global effects of large-scale deforestation, the use of nuclear energy, the burning of fossil fuels, and the formation of large urban centers gained the attention of the scientific community, intellectuals and public opinion. In your 24 books you dealt with every aspect of Man- industrialization, development, democratization, capital- ism, social mobility, dominance and dependence. Do you think that the environment has been left out of the agenda of the Twentieth Century?

FHC: It would be quite pretentious of- me to attempt a complete analysis of the “agenda of the century”‘. My academic writings, though encompasing complex topics such as you have mentioned, had a more modest aim. This is not to ,say, in the least. that the environment has not been one of my concerns. Indeed. ever Since the Stockholm Conference in 1972, tile subject really emerged on the international agenda. and the issue can no longer be dismissed by any attentive observer of the evolution of contemporary societies. In this process, in which environmental themes are taking on greater and greater importance and demanding greater and greater attention from the various sectors of society, one of the most fascinating aspects is the degree to which the right to a healthy environment has become an integral part of the concept of citizenship, becoming thereby a central element of what has been called the “radicalization” of democracy.

FMA – Mr. President, it is impressive how you have been able to adapt to the dual roles of intellectual and politician. These two vocations rarely co-exist. What is your secret?

FHC: The academic dimension was an essential part of my formation. It therefore has an enormous influence on my actions as a public figure. There is much to be said about the relation between the intellectual and the politician- -even more than the basic distinction between theory and practice, between conceptual and the day-to-day realities- but I will limit myself to one question I consider to be very important. To put it simply, it could be said that the correct approach to policy consists of collecting and analyzing society’s demands, then defining priorities and establishing lines of action. To a large measure, an intellectual training, although no substitute for political experience, complements it and contributes to a better comprehension of this array of social demands, among which is included, more and more, the protection of the environment.

 

 

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Entrevistas

José Carlos Pinheiro Neto – Entrevista sobre o carro e o meio ambiente

Presidente da Anfavea fala sobre a sustentabilidade da indústria automobilística

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A indústria, o automóvel e o meio ambiente

José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da GM e presidente da Anfavea

Silvestre Gorgulho, de Brasília

 

Presidente da Anfavea mostra como as fábricas vão se tornando mais limpas e fala do desafio de continuar fazendo carros que gastem menos energia e sejam menos poluentes:

“Não há problemas tecnológicos com o carro a álcool. O problema é mercadológico. O consumidor brasileiro não reconquistou
a confiança na disponibilidade do álcool
na bomba de combustível”

Veículos com mais de 10 anos respondem por 77% das emissões de poluentes e por 60% dos acidentes com vítimas Há um mês a General Motors inaugurou sua mais nova planta industrial do mundo, em Gravatai-RS, para produção do carro compacto Celta, que acaba de chegar ao mercado. O próprio presidente da República e os centenas de convidados que visitaram a indústria puderam conhecer um complexo automotivo ecologicamente correto, desde sua implantação até sua gestão diária, seguindo as normas ambientais. Como? Minimizando os impactos ambientais, evitando perdas de energia, reduzindo desperdício, coletando os efluentes e dejetos tóxicos, promovendo um saneamento adequado e valorizando a área verde, com a construção até de uma estação ecológica onde foi construída uma escola para educação ambiental. Afinal de contas, é essa a receita para o desenvolvimento sustentável e não foi por outro motivo que, depois da inauguração, o presidente Fernando Henrique lembrou uma frase que disse numa entrevista à Folha do Meio: “Sem a adequada proteção ambiental, o próprio processo de desenvolvimento corre o risco de se tornar estéril”.Enfim, se as indústrias automotivas estão rezando na cartilha da gestão ambiental, o desafio agora é outro. E muito maior: tornar os automóveis menos poluentes, gastando menos energia. O fato é que os maiores danos ao ambiente ocorrem durante o tempo em que o veículo roda, pois durante sua vida útil, um carro gasta 70% de toda a energia e emite 80% de toda poluição envolvidos no processo, desde a fabricação. Mas, enquanto as indústrias pesquisam formas de gastarem menos energia e de seus produtos emitirem menos poluentes, o Brasil sequer regulamentou a lei de inspeção veicular para obrigar a regulagem dos escapamentos. Mais: engavetou a proposta de renovação de frota. É bom lembrar que metade dos 20 milhões de veículos que rodam hoje no Brasil tem mais de 10 anos e – incrível – respondem por mais de 77% das emissões de poluentes na atmosfera. Outro dado assustador: segundo a Anfavea, 60% dos acidentes com vítimas são provocados por veículos com mais de 10 anos.
Para falar como as novas fábricas estão “limpas” , como os carros enfrentam o desafio da poluição e até de renovação de frota, ninguém melhor do que o presidente da Anfavea e vice-presidente da GM, José Carlos Pinheiro Neto.

Uma grande empresa, uma grande planta industrial e um Estado muito politizado ambientalmente. Como foram os antecedentes e as primeiras articulações para a implementação do projeto?
José Carlos P. Neto –
Foi simples, mas não foi fácil. A GM seguiu todo o procedimento legislativo em vigor para a aprovação dos projetos industriais pelos órgãos ambientais. Submetemos às autoridades gaúchas o estudo de impacto ambiental e houve, inclusive, audiência pública para a formulação de perguntas por parte da sociedade. A GM cumpriu todos os quesitos exigidos pela legislação ambiental municipal, estadual e federal.

O que mais chamou a atenção dos executivos da GM quando das conversações e acertos com os órgãos ambientais e com os próprios ambientalistas?
José Carlos –
Não tivemos nenhuma situação inusitada e nem mantivemos contatos diretamente com ambientalistas, ONGs ou entidades privadas. Se houve contato com representantes do setor não-governamental, ele ocorreu anonimamente, no âmbito da audiência pública.

Em relação as muitas outras plantas industriais da GM no mundo inteiro, qual o grande diferencial da nova fábrica de Gravataí?
José Carlos –
O grande diferencial é o processo fabril. Contrariamente às plantas tradicionais, em Gravataí a GM monta subsistemas completos, que são alimentados por um seleto grupo de fornecedores chamados “sistemistas”. No complexo automotivo existem 17 sistemistas.

Meio ambiente caminha numa pista dupla: educação e tecnologia. Como, quando e onde os “pilotos” do board da GM encaram esse desafio?
José Carlos –
A GM tem políticas ambientais internas há mais de 40 anos. É uma empresa ambientalmente consciente, que zela por estar sempre em situação politicamente correta quando o assunto é o que modernamente é conhecido pelo nome de Responsabilidade Social Corporativa. A GM investe centenas de milhões de dólares a cada ano no desenvolvimento de tecnologia ambientalmente mais favorável. Foi o caso, por exemplo, de veículos elétricos, e atualmente, da tecnologia das células de combustível. Ainda para citar a planta de Gravataí, gostaria de salientar que a GM reservou 25% da área do Complexo Automotivo à preservação ambiental. Foi realizado um trabalho ambiental muito importante e operacionalmente complicado: transplantamos mais de 400 árvores da área que foi nivelada para abrigar os prédios industriais para a área de preservação. Foram principalmente figueiras – que são protegidas por lei no Rio Grande – algumas com até 49 ton. de peso. Essa área é uma estação ecológica que recebeu, ainda, mais 25 mil novas plantas e onde foi construída uma escola para educação ambiental.

A GM mostrou que gestão ambiental é quando a preservação do ambiente faz parte do negócio. Como a nova indústria administra a questão dos efluentes?
José Carlos –
Esse é um assunto essencial, hoje, numa planta industrial. Todos efluentes, produtos químicos, pintura, como aliás todos os dejetos, sobras, refugos gerados no processo fabril, são processados de acordo com a mais moderna tecnologia existente no mundo.

Qual a principal lição ambiental que a GM tirou depois da implantação da nova indústria automotiva de Gravataí?
José Carlos –
Não diria que é propriamente uma lição, mas a confirmação de que é possível ter plantas industriais moderníssimas em perfeita harmonia com o meio ambiente e com a expectativas da sociedade quanto à qualidade de vida.

Vamos falar agora de renovação da frota que também tem seu lado ambiental e de qualidade de vida, afinal de contas carro mais novo significa mais segurança e menos dióxido de carbono no ar. Como anda o programa?
José Carlos –
É de lamentar que o programa de Renovação da Frota Nacional de Veículos Automotores, concebido pela Anfavea, encampado por outras associações de classe e pelas organizações sindicais, não tenha sido apoiado pelo governo federal. Esse programa tem um evidente apelo ambiental, à medida que vai retirar de circulação veículos inseguros e poluidores, que seriam, ainda, destinados a modernos centros de reciclagem. Metade da frota em circulação, mais ou menos 10 milhões de veículos, têm os maiores índices de emissão média de monóxido de carbono, devido suas condições tecnológicas. E a própria reciclagem de materiais e componentes dos veículos seria uma importante ajuda para diminuir a poluição. Além de contribuir para dar uma dimensão de escala econômica à atividade da reciclagem.

Combustíveis limpos – esse é o grande desafio ambiental para a indústria automobilística. Como estão os projetos para carros elétricos e para maior agressividade na fabricação de carros a álcool?
José Carlos –
A GM foi a primeira montadora do mundo a produzir um veículo elétrico em série. É o EV1, movido a baterias ácido-chumbo. Atualmente, a tecnologia mais promissora é a da célula a combustível e todos os grandes fabricantes desenvolvem projetos de pesquisa nessa linha, inclusive a GM. Quanto ao álcool… bem, vamos repetir pela enésima vez a história que temos a contar. Em primeiro lugar, não há problemas tecnológicos para o relançamento do carro a álcool. O problema é unicamente mercadológico, porque até hoje o consumidor brasileiro não reconquistou a confiança na disponibilidade do álcool na bomba de combustível. Aliás, há poucas semanas vimos como isso funciona no Brasil. A safra de cana sofreu uma queda de 20% e o combustível ameaçou faltar. Qual foi a solução? O mix do álcool na gasolina baixou para 20%. Não questiono a decisão tomada pelo governo. O problema é a percepção do consumidor, que vê o álcool como combustível “não confiável”. Infelizmente, para a ecologia nacional, não vejo os consumidores fazendo fila para comprar carros a álcool…

Mas, e o carro?
José Carlos –
Bem, como eu disse, não há problemas tecnológicos para produzi-lo. Tanto que a partir de junho deste ano disponibilizamos os Corsa Wind e Wind Sedan 1.0 movidos a álcool. As vendas ainda estão tímidas, mas acredito que deslanchem uma vez que o consumidor se conscientize das vantagens do álcool ao se tratar de motores modernos, de injeção eletrônica. Dentre as vantagens, estão o desempenho superior e o menor custo por km em relação a um motor similar a gasolina. Além do lado ambiental: o álcool não polui e é um combustível renovável, ao contrário dos derivados de petróleo.
Célula de combustível – É um gerador de energia elétrica baseado na reação química de um combustível líquido ou gasoso com o oxigênio. Essa energia irá alimentar um motor elétrico para propulsionar o veículo. As pesquisas estão apontando o hidrogênio como o combustível ideal para a célula. Essas células foram utilizadas pela NASA, a partir de 1965, para produzir a energia elétrica para os sistemas de comunicação e computadores das cápsulas Gemini.

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