Gente do Meio

Dorothy Stang, voz da floresta

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Silvestre Gorgulho


Bandidos calam mais uma voz da floresta
Dorothy Stang é assassinada no Travessão do Santana,
município de Anapu – Pará


A notícia ecoou pelo mundo a fora e ricocheteou dentro do governo como uma bala não tão perdida assim. Era uma morte anunciada. A missionária americana Dorothy Stang, 73 anos, foi assassinada a tiros, na manhã do dia 12 de fevereiro, no Travessão do Santana, município de Anapu, no Pará, 16 anos depois da morte de Chico Mendes. O crime aconteceu quando irmã Dorothy, como era conhecida, seguia para o Projeto de Desenvolvimento Sustentado (PDS) Esperança, junto com mais companheiros. Neste mesmo sábado de 12 de fevereiro, o “New York Times”, publicava uma reportagem do correspondente Larry Rohter, criticando o governo Lula por ceder à pressão dos madeireiros e liberar planos de manejo suspensos pelo Ibama, dizendo que, segundo grupos
ambientalistas, a decisão só “incentivaria o desmando numa região já conhecida como violenta”. Era uma morte anunciada no Pará, em Brasília e em Nova York. “Dorothy colocou a sua força, sua energia, sua espiritualidade em serviço. O projeto dela não era outro a não ser o serviço de samaritana”, disse Dom Tomás Balduíno. “A irmã foi uma semente e esta semente está multiplicada neles”. O corpo da irmã Dorothy Stang foi sepultado na tarde de terça-feira (15) em Anapu.


Dorothy Stang, o Anjo da Floresta
“Dorothy Stang teve seu corpo
plantado e não sepultado. É semente.”


Dorothy Stang era uma missionária amada e odiada. Para os pobres e os oprimidos ela era uma verdadeira santa. Para os madeireiros, os grileiros de terra e os contrabandistas de mogno ela era o satanás.
– Sou uma velha. Recebo muitas ameaças de morte. Mas os pistoleiros não vão ter coragem de matar uma velha como eu.


A missionária Dorothy Stang subestimou a ação dos madeireiros e a coragem dos pistoleiros. Há mais de 30 anos, ela vivia na região da Transamazônica, onde dedicou mais da metade de sua vida a defender os direitos de trabalhadores rurais contra os interesses dos grileiros da região. Desde 1972, ela trabalhava com as comunidades rurais pelo direito à terra e por um desenvolvimento sem destruição da floresta.


– Sei que eles querem me matar, mas não vou fugir. Meu lugar é aqui, ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas por gente que se considera poderosa.


Nos últimos 12 meses, o Ministério Público enviou 10 representações sobre ameaças contra irmã Dorothy para o Secretário Especial de Defesa Social, Manoel Santino Nascimento. Pedia medidas para garantir a integridade física dos ameaçados. Para Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia do Greenpeace, mesmo sabendo dos riscos que ela corria, o governo do Pará não tomou uma medida para garantir sua segurança. “É inaceitável que os marginais continuem imperando na Amazônia, silenciando a voz daqueles que defendem a preservação e os povos da floresta contra os interesses de grileiros, madeireiros e fazendeiros que operam ilegalmente na região” alertou o militante do Greenpeace.


Mas, tranqüila como se continuasse morando em sua terra natal, nos Estados Unidos, a irmã Dorothy continuava trabalhando intensamente na tentativa de minimizar os conflitos fundiários dentro de um verdadeiro barril de pólvora que é a região de Anapu. Por buscar a justiça social e por defender os mais fracos, ela era sempre acusada pelos grileiros de instigar a violência no município. As ameaças de morte continuavam. Sua luta pela preservação da Amazônia não parava. Chegou a fazer denúncias pela participação de policiais civis e militares na expulsão de trabalhadores a mando de fazendeiros e grileiros da região.
– Nosso povo anda angustiado com a demora do Incra na marcação dos lotes. Os fazendeiros e os madeireiros estão com vários pistoleiros espalhados por aí, que invadem lotes, apontam armas e ameaçam matar o nosso povo, tudo na frente de crianças.


Quando alguém chegava para a missionária e pedia para ter mais cautela, ela dizia que cumpria uma missão. Não tinha medo de morrer.
– Prefiro falar de vida, não de morte. Eu acredito em Deus e sei que Ele está comigo. O povo sonha com uma vida melhor com o Projeto de Desenvolvimento Social de Anapu. Não tenho tempo de pensar em coisa ruim. Mas, se eles me matarem, eu gostaria de ser enterrada em Anapu, junto daquele povo humilde. Para mim, nada substitui a alegria de ver o nosso povo feliz.
A irmã Dorothy Stang não sabe se todos os seus sonhos, um dia, serão realizados. Mas, um de seus desejos, já foi atendido: ser enterrada às margens do rio Anapu, afluente do rio Xingu. Na Chácara São Rafael, onde ela desenvolvia um projeto de educação ambiental. No seu túmulo foi plantada uma muda de mogno, árvore símbolo do comércio e da cobiça dos madeireiros na Amazônia.


“O corpo de Dorothy é semente. Não foi enterrado. Foi plantado e dará muitas flores e frutos”, discursou emocionada uma colega de Congressão. Enquanto isso o senador Eduardo Suplicy surpreendia a multidão, cantando em voz alta, a canção de Bob Dylan “Blowying in the Wind” [Soprando ao Vento].
Que os ventos soprem mais tolerância e menos ganância por sobre terras brasileiras. E anunciem um tempo de paz. Muita paz!

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Fernando Pessoa

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Um fingidor que é enigma em Pessoa

Fernando Pessoa é gênio. E sua genialidade não coube apenas num só poeta. Fernando Pessoa são vários. Daí, tantos heterônimos. Nos tempos de África do Sul, alfabetizado em inglês, criou os primeiros heterônimos: Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Criou até um especialista em palavras cruzadas: Alexander Search. Depois vieram os heterônimos que entraram para a história: Alberto Caeiro (ingênuo guardador de rebanho – poeta da natureza) Álvaro de Campos (engenheiro, um poeta de fases e influenciado pelo simbolismo). Ricardo Reis (erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, na literatura e na política). E Bernardo Soares, um tipo especial de semi-heterônimo.Alberto Caeiro era considerado o mestre de Álvaro Campos e de Ricardo Reis. Aliás, do próprio Pessoa. Para o poeta mexicano Octavio Paz (Premio Nobel Literatura 1990) a biografia dos poetas é sua obra. E Pessoa deixou uma fantástica obra. Tinha um viver pacato, mas passou a vida criando outras vidas. “Era o enigma em pessoa”. Comparado a Luiz de Camões, Fernando Pessoa deixou um legado para a Língua Portuguesa como jornalista, publicitário e poeta.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

………

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar…
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

……

“Minha Pátria é a Língua portuguesa”.

……

“Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.”

……

 “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

————————

Saiba Mais

O que é heterônimo, homônimo e pseudônimo?

Heterônimo A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.

Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.

Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguêm como alternativa ao seu nome legal.

 

silvestre@gorgulho.com

dezembro de 2009

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Rodolpho von Ihering: o pai da piscicultura

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Silvestre Gorgulho

Sua origem é alemã e seu nome é o mesmo do avô, um dos mais importantes
juristas alemães do século 18 Rodolpho von Ihering.

Rodolpho von Ihering, o neto brasileiro, nasceu no Rio Grande do Sul, em 17 de julho de 1883, filho do médico e naturalista Herman von Ihering. Bacharel em Ciências e Letras pela Universidade de São Paulo (1901), Rodolpho casou-se com Isabel de Azevedo von Ihering e teve duas filhas: Maria e Dora von Ihering, que escreveu o livro: “Ciência e Beleza nos Sertões do Nordeste”, onde fala da obra e dos trabalhos do pai.

Rodolpho foi criado, praticamente, dentro do laboratório de seu pai, absorvendo o clima favorável ao estudo da natureza. Desde criança tinha interesse em conhecê-la e decifrá-la. Seu pai exerceu uma forte influência em sua formação e uma das grandes decepções de Rodolpho foi quando, na 1ª Guerra Mundial, Herman von Ihering, por sua origem alemã, foi demitido da direção do Museu Paulista, segundo explica o professor Zeferino Vaz “pela mediocridade e pelo falso patriotismo indígena de algumas autoridades”.

Rodolpho dedicou-se de corpo e alma ao estudo da fauna brasileira e à solução dos problemas da piscicultura. Durante 30 anos percorreu o Brasil de ponta a ponta, registrando com rigor científico os nomes dos animais da fauna brasileira, buscando sempre os nomes populares dados aos animais em cada região. Para isto, chegou a aprender o tupi-guarani, a fim de identificar melhor as raízes etimológicas dos nomes dos animais. Nasceu assim uma obra importante: “Dicionário dos Animais do Brasil”, publicada pela Universidade de Brasília.

Dedicou-se ao estudo de invertebrados, sobretudo os peixes, criando no Brasil o Serviço de Piscicultura. Fez inúmeras experiências para conseguir a fecundação in vitro, de peixes de água doce, com o objetivo de obter alevinos em grande quantidade para o repovoamento de rios, açudes e barragens. Essas experiências eram feitas na represa de Billings (São Paulo) e, em piracema nos rios Mogi-Guaçu (Cachoeira de Emas), Piracicaba- (Salto do Piracicaba) e Tietê (Salto do Itú) e em açudes do Nordeste.

O paraibano José Américo de Almeida, ministro de Getúlio Vargas, foi quem apoiou Rodolpho von Ihering nas suas pesquisas, quando criou e o nomeou diretor da Comissão Técnica de Piscicultura do Nordeste. Em 1934, Ihering criou e desenvolveu o processo artificial de reprodução de peixes, conhecido como hipofisação.

Esse método revolucionário foi tão importante que, mesmo morrendo em 1939, portanto cinco anos após a descoberta, von Ihering viu ser disseminado internacionalmente o novo processo. O reconhecimento por sua obra lhe valeu o título de Pai da Piscicultura brasileira.

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Gente do Meio

Ângelo Machado – Um ecologista com base científica sólida

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Silvestre Gorgulho

Na paixão pelos pequenos animais, na profundidade de sua imensa base científica e na simplicidade de uma vida dedicada ao conhecimento da natureza e na formação acadêmica de toda uma geração de alunos, está o professor Ângelo Barbosa Monteiro Machado.

Ângelo Machado nasceu em Belo Horizonte em 1934, fez graduação e doutorado em medicina pela UFMG, e pós-doutorado na Northwestern University, em Chicago-USA, é casado e tem quatro filhos. Sempre ligado à pesquisa, foi o responsável pela instalação da microscopia eletrônica no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade, e como professor da Escola de Medicina, participou, de maneira notável, dos colegiados de História Natural, Psicologia, Morfologia, Patologia, Anatomia, Entomologia, Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre. Aposentou-se, mas voltou como professor adjunto de zoologia na mesma Universidade.

Ângelo Machado é um ecologista atípico porque tem base científica sólida, não é afoito e nem de ocasião. Sempre esteve trabalhando em prol do conhecimento da natureza, antes do assunto entrar na moda. Depois da reunião de Estocolmo, em 1972, foi um dos acadêmicos que, por intermédio dos estudos que conduzia e sempre publicava, deu suporte e garantiram a mudança de posição do Brasil em relação à temática do meio ambiente e do desenvolvimento. Como consultor, membro de conselhos editoriais e conferencista o professor Ângelo Machado viajou pelo Brasil e exterior, proferindo palestras, participando de mais de 50 congressos científicos, de 11 expedições cientificas para coleta de material zoológico, sendo oito dessas, na região Amazônica.

Querido de seus alunos, foi sempre lembrado como paraninfo, patrono ou homenageado especial dos formandos de Medicina, Psicologia, Ciências Biológicas, Farmácia, Bioquímica ou Odontologia. Também foi homenageado por diversos pesquisadores na descrição de espécies novas de libélulas, borboletas, formigas, percevejos, besouros, pernilongos e até duas variedades de pererecas, a Amphibia alientia. Sua curiosidade em relação aos pequenos animais vem de sua infância, influenciado por seu pai. Virou uma paixão. Seu trabalho não coube mais nos limiteis da academia e junto com alguns amigos, criou a Fundação Biodiversitas, ONG dedicada à conservação da natureza.

Em seu primeiro trabalho de campo, em uma fazenda de propriedade privada, a nova entidade estudou, planejou e fez funcionar a primeira Reserva Particular de Patrimônio Natural, conceito novo que ensejou ao Ibama a regulamentação de mais essa unidade de conservação. Dentre as mais de 150 publicações que resultaram de seu trabalho intelectual, ressaltam-se: a literatura infantil de “O menino e o rio”, adaptado para o teatro em 1992, a aventura Amazônica de “O velho e a montanha” e a mensagem de educação ambiental em “A barba do velho da barba” e “Chapeuzinho vermelho e o lobo-guará”.

Por sua vida dedicada ao estudo e à pesquisa, por seu estilo silencioso e insistente, por sua participação em diversas entidades científicas e conservacionistas, por seu incansável trabalho de retaguarda, oferecendo os subsídios acadêmicos de que tanto carecem os ecologistas militantes, o professor Ângelo Machado é Gente do Meio e, por justiça recebe a homenagem da Folha do Meio Ambiente.

 

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Reportagens

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(61) 98442-1010