Reportagens

Esporte e meio ambiente

A Copa do Mundo do Gol Verde

Silvestre Gorgulho,
de Brasília

A grande indústria da saúde,
do prazer e da paz chama-se esporte. O grande
formador do caráter, da disciplina,
da cooperação e da coragem chama-se
esporte. A grande força da educação
chama-se prática esportiva, pois desenvolve
o corpo, a mente e alimenta o espírito
de solidariedade, de respeito e de valores
éticos. O esporte favorece a consciência
do bem para o indivíduo e para o grupo.
A competição sadia e o esforço
para ultrapassar limites molduram corpo e
espírito.

Nesse partilhar emoções,
o esporte favorece as relações
entre os povos e é um do mais fortes
instrumentos para fortalecer o civismo. Em
suma, o esporte significa a inclusão
social, promoção da qualidade
de vida e do meio ambiente. Por isso, a prática
esportiva tem forte relação
com o desenvolvimento sustentável.
Não só na condução
dos eventos e na organização
dos jogos, mas também na gestão
dos recursos materiais. Se muitos esportes
precisam de água pura para suas promoções,
todos não podem prescindir de ar puro
e de ambiente saudável para o bom desempenho
dos atletas e a feliz participação
dos torcedores. E mais: a prática esportiva
não pode nunca ser motivo de violência
ou fonte de poluição.
E há outro dado fundamental. O esporte
é uma alavanca econômica fortíssima.
Além do segmento turismo, o esporte
envolve muitos recursos na produção
de equipamentos esportivos, no marketing de
vendas, na construção de quadras
e de estádios e nos direitos de imagem
e de transmissão.

Por fazer ídolos – por
sua exposição permanente em
todas modalidades de mídia – e por
ter poderosos patrocinadores, o esporte não
é só uma atividade econômico-financeira
de primeira grandeza, é também
um gerador de conceitos e um fermento de civilidade
e de conscientização ecológica.
Tanto a nível de atletas e torcedores,
em particular, como da população,
em geral. Pelo esporte todas as comunidades
e nações podem construir uma
sociedade mais justa, mais saudável,
mais alegre e mais equilibrada.

Não existe nenhuma outra
atividade no mundo que tenha mais implicação
na economia, no social, na política,
na promoção de bens de consumo
e até na segurança do que o
esporte. Para se ter uma idéia desta
força, é no esporte que as indústrias
do mal (cigarro e bebidas alcoólicas)
vão buscar parcerias para “encantar”
seus produtos. É no esporte dos mais
variados que estas indústrias gostam
de plantar, pelo marketing, a força
do belo, do forte, do alegre e do prazer.

Em tempo da Copa do Mundo, quando
bilhões de pessoas se postam para torcer
fanaticamente pela seleção de
seu país ou para ver o mais importante
torneio de futebol do planeta, vale a pena
estudar a relação e a força
do esporte com a gestão sustentável.
A Alemanha montou para a 18a Copa do Mundo
um evento de grandes proporções,
mas que gere pouca poluição
e que seja ecologicamente correto na produção,
na organização e no consumo.
Esse é um programa que nasceu ainda
na década de 90 e se chama Gol Verde!
Nomeou até um embaixador especial,
em parceria com a Fifa, para o gerenciamento
sustentável da Copa: o ambientalista
Klaus Toepfer.

O que é o Gol
Verde

A Copa da Alemanha implantou o programa Gol
Verde [Green Goal] que vai marcar posição
em quatro áreas: água, lixo,
energia e mobilidade. Jogada de craque. O
Gol Verde fará do evento, a Copa do
Meio Ambiente. São 32 seleções,
com cores variadas nos uniformes e bandeiras,
mas todas ostentando uma mesma cor nos seus
objetivos: o verde de desenvolvimento sustentável.
“Essa é uma Copa do Mundo que
quer ter não apenas um, mas vários
campeões ambientais”, explica
o Diretor da Divisão de Comunicação
e Informação Pública
do Pnuma, Eric Falt. “Pela primeira
vez os cuidados com o meio ambiente terão
prioridade máxima nessa competição,
com objetivos claros e mensuráveis,
e esperamos que a iniciativa deixe um legado”.
Todo o time do Gol Verde, capitaneado por
Klaus Toepfer, quer neutralizar todas as 100
mil toneladas de dióxido de carbono
geradas pelo sistema de transportes, construção
e manutenção dos estádios
da Alemanha. E, também, pela presença
dos mais de 3,2 milhões de espectadores.

Ingresso: estádio
e transporte

Eric Falt explica que como parte de um plano
sólido de preservação
ambiental, quem comprar os ingressos para
qualquer uma das partidas nos 12 estádios
da Copa poderá usá-los para
ter acesso gratuito ao local do jogo por meio
dos transportes públicos durante 24h,
de acordo com o plano de ingresso Kombi. O
acordo de ingressos Kombi irá custar
cerca de 2 milhões de Euros ao Comitê
de organização da Copa, mas
deverá evitar a emissão de vários
gases causadores do efeito estufa ao reduzir
o uso de veículos particulares.

Energia elétrica
Outras táticas, como a de economizar
energia elétrica, estão centradas
nas atividades dos estádios. Por exemplo,
sistemas de gerenciamento de energia de última
geração foram instalados no
estádio de Munique e devem promover
uma redução de 20% no consumo
de energia todos os dias, sejam eles dias
de jogo ou não.

Reuso de água
Além disso, o gramado do Olympiastadion
entre outros estádios será irrigado
por um sistema especial que capta a água
da chuva, e mictórios sem água
nos banheiros masculinos serão utilizados
em diversos locais selecionados.

Reutilizar
Com a questão de evitar o desperdício
como prioridade, os organizadores apresentaram
o “Copo da Copa” reutilizável.
Os espectadores farão um depósito
caução de um Euro pelo copo
que utilizarem e poderão adquirir um
só copo em cada evento.
Hoje também foi anunciado que 300 voluntários,
treinados para educar os espectadores sobre
os objetivos do Gol Verde, estarão
em cada um dos 12 estádios.

Conscientização
Uma brochura sobre o Gol Verde, com os logotipos
das organizações que apóiam
a iniciativa, que inclui o Pnuma, o Ministério
do Meio Ambiente, DBU, FIFA, Deutsche Telekom,
Plastics Europe, Coca Cola, Deutsche Bahn,
EnBW and Total, já está disponível
em estações de trem e metrô
nas 12 cidades que abrigarão o torneio.
A brochura, elemento chave para a conscientização
do público, foi enviada nessa semana
para 25.000 jornalistas em todo o mundo.
“Impactos ambientais, inclusive aqueles
que causam aumento das taxas de mudanças
climáticas, estão sendo cada
vez mais levados em consideração
em eventos esportivos. O movimento olímpico,
do qual o Pnuma é parceiro atuante,
já é um desses caminhos”,
disse o porta-voz do Pnuma.
“O Comitê Organizador da Copa do
Mundo tem sido veemente na busca das mesmas
considerações para o futebol.
Nós fomos encorajados tanto por seus
planos quanto por seu entusiasmo e esperamos
ansiosamente trabalhar com o comitê
e com a Fifa, bem como esperamos atingir resultados
sólidos, confiáveis e aparentes
em áreas como eficiência energética,
cuidado com o desperdício e economia
de água”, salientou Eric Falt.

Pnuma

Klaus Toepfer, o embaixador-artilheiro
do Gol Verde da Copa

Klaus
Toepfer –
ENTREVISTA

Silvestre Gorgulho
Um craque ambiental entrou em campo para
gerenciar o programa do Gol Verde. É
Klaus Toepfer, ex-ministro da Alemanha, ex-
diretor executivo do Pnuma e hoje o Embaixador
do Gol Verde na Copa do Mundo. Com exclusividade,Toepfer
falou à
Folha do Meio.

Folha do Meio – Como
começou esta história de se
fazer a Copa do Mundo Verde?
Klaus Toepfer –
A idéia nasceu
no inicio da década de 90, quando a
Federação Alemã de Futebol
começou a pensar em sediar a Copa do
Mundo de 2006. Questões ambientais
ainda não faziam parte da lista de
deveres da FIFA relacionada aos estádios.
No entanto, o Comitê Organizador Local
sentiu a necessidade de incluir estas questões
em todos os planos desde o começo.

FMA – Como o senhor
está encarando este desafio de ser
o Embaixador Verde da Copa do Mundo?
Klaus Toepfer –
À medida que
a Copa do Mundo se aproxima, o interesse nos
objetivos e atividades do Green Goal começa
a decolar. Temos uma grande entrevista coletiva
(26 de maio) marcada em Berlim com a lenda
do futebol alemão Franz Beckenbauer.
Estou certo que isso vai impulsionar o programa
Gol Verde e elevar o papel do Embaixador.

É bom lembrar que um dos desafios é
trazer algum realismo para as expectativas
públicas do Gol Verde. Quando se estabele
um projeto desse tipo, sempre haverá
aqueles que dizem “Não é
o suficiente, por que você não
vai mais além?!” E isso é
bom, nós precisamos ser pressionados
pela opinião pública e pelas
ONGs. Sabemos que estamos inovando. Essa é
a primeira Copa em que o meio ambiente faz
parte da agenda. Acho que podemos aprender
com a Copa da Alemanha para que futuras Copas
do Mundo se tornem mais verdes.

FMA – O senhor jogou
futebol?
Klaus Toepfer –
Como qualquer garoto
que cresce em ambientes não privilegiados,
jogar bola com os amigos foi um dos poucos
esportes acessíveis e disponíveis.
Joguei até meus 26 anos, quando perdi
contato com meu clube amador, localizado perto
de Hanover. Quando criança, joguei
de ala, pela direita. E era bastante ágil.
Com o tempo, passei a jogar no meio de campo
pela direita. Finalmente acabei jogando na
lateral direita, onde espero ter sido uma
boa barreira.

FMA – Quais seriam os
principais impactos ambientais em relação
ao esporte, em geral, e ao futebol, em particular?
Klaus Toepfer –
Alguns dos principais
impactos ambientais vêm na fase de projeto
e nas construções.
É vital levar em consideração
nessa fase a acústica ambiental como
energia solar ativa e passiva, reaproveitamento
da água, boas linhas de transporte
público etc. Se apenas no final das
obras for levado em conta tudo isso, os custos
vão ser muito mais elevados. Também
é importante que novas estruturas sejam
erguidas em locais apropriados, com vistas
ao uso sustentável pós-evento.
A operação de grandes estruturas
também pode consumir enorme quantidade
de eletricidade e isso contribui para a emissão
de gases de efeito estufa. Também vale
citar a grande quantidade de lixo gerada tanto
na construção como durante os
eventos.
Os grandes torneios de futebol, em termos
ambientais, têm os mesmos desafios das
Olimpíadas.

FMA – Como o Pnuma,
o governo alemão, a Fifa e os organizadores
da Copa vão agir para conseguir incorporar
as questões ambientais na preparação
e execução de cada jogo?
Klaus Toepfer –
Com a aproximação
da Copa, o Comitê Organizador está
contente em dizer que o clima de equilíbrio
ambiental para todo o torneio foi alcançado
pela primeira vez na história das Copas
do Mundo da FIFA. É essencial que se
alcance todos objetivos que foram estabelecidos:
redução de 20% de energia nos
estádios, 20% de uso de água
e 20% de lixo.
O Comitê Organizador vai trabalhar de
perto e em conjunto com os estádios,
com o governo alemão, com a FIFA, com
as várias industrias e parceiros de
negócios, e com a UNEP para alcançar
esses objetivos e para comunicar todos os
esforços ao público.
Quanto às seleções, como
da Alemanha e do Brasil, houve um acordo para
que os jogadores e comissão técnica
usem o trem para as viagens, sempre que for
possível.

FMA – E em relação
aos torcedores nos estádios?
Klaus Toepfer –
Folhetos do Gol Verde
estão sendo distribuídos aos
torcedores nas estações de trens
para que eles conheçam nossas metas.
Há também o incentivo ao uso
dos transportes públicos. Temos um
ingresso chamado Kombi. Como parte dos planos
de transportes ambientalmente corretos, torcedores
que adquirirem esses tickets para qualquer
um dos jogos, terão acesso livre ao
transporte público por 24 horas.
O compromisso do “ticket Kombi”,
isoladamente, vai custar ao Comitê de
Organização cerca de 2 milhões
de Euros. Mas vai diminuir as grandes quantidade
de gases de efeito estufa, por reduzir o uso
de carros particulares. Nós esperamos
que um em cada dois torcedores usem o transporte
público.
Quanto ao lixo, os organizadores introduziram
o re-utilizável “Copo da Copa”.
Os torcedores vão pagar 1 Euro pelo
copo, que vai ser o único vendido e
usado para as bebidas nos campos.
Haverá também 300 voluntários,
treinados para educar os torcedores em relação
aos objetivos do programa Gol Verde. Eles
vão estar distribuídos em cada
um dos 12 estádios.
Um filmete vai ser apresentado antes de cada
partida. Esse filme tem como alvo não
só torcedores, mas também os
jogadores durante seus exercícios de
aquecimento. O filme a ser apresentado pela
primeira vez, em Berlim, na semana que vem,
tem o slogan “Campeões Mundiais
pelo Meio Ambiente – Estamos Trabalhando
Nisso”.

FMA – E haverá
um programa específico para trabalhar
a mídia, os jornalistas e até
os patrocinadores da Copa?
Klaus Toepfer –
Essa semana 25 mil
folhetos do Gol Verde vão ser entregues
aos jornalistas do mundo inteiro. Apesar da
grande conferência de imprensa acontecer
na semana que vem, o programa vem distribuindo
e atualizando as notícias regularmente.

FMA – Como é
ser a primeira Copa “climaticamente neutra”?
Klaus Toepfer –
O esquema do Clima
Neutro vai compensar todas as 100 mil toneladas
de dióxido de carbono geradas, na Alemanha,
a partir de transportes, construção
e manutenção dos estádios,
além de 3.2 milhões de torcedores
esperados. Parte dessas emissões será
compensada por projetos de carbono como a
plantação de árvores
e produção de energia limpa
em países em desenvolvimento.

FMA – Que mensagem o
senhor acha que vai ficar para os bilhões
de torcedores que verão a Copa?
Klaus Toepfer –
Espero que os torcedores
desta Copa lembrem-se do evento como um fantástico
espetáculo responsavelmente organizado
e também, que se levou muito em conta
as questões ambientais. Que as futuras
Copas demandem medidas ambientais mais fortes
ainda.

FMA – Agora, só
para nós aqui: quais seleções
vão fazer o final da Copa?
Klaus Toepfer –
Que pergunta! Meu
coração espera que a Alemanha
chegue lá. Mas, não será
surpresa se o outro for esse mágico
time do Brasil.

summary

Klaus Toepfer –
INTERVIEW
Klaus Toepfer is the former Executive
Director of the United Nations Environment
Programme (UNEP) and Green Goal Ambassador
for the FIFA World Football (Soccer) Cup

The Idea
The idea was born in the early 90’s when the
German Football Federation first thought about
bidding for the 2006 FIFA World Cup. Environmental
questions were not a part of the FIFA booklet
of duties that is binding for the stadiums,
but the Local Organizing Committee felt a
need to include this issue in the overall
plans from the very start.

The challenges
As the 2006 FIFA World Cup gets ever closer
to kick off, the interest in the aims and
activities of the Green Goal are really beginning
to take off. We have a big press conference
scheduled in Berlin (26 May) with German football
legend Franz Beckenbauer.
I am sure that this will propel Green Goal
and the role of the Ambassador to increasing
heights. Let me add that one of the challenges
is to bring some realism to the public expectations
of the Green Goal. When you establish such
a project there will always be those who say
“It is not enough, why do you not go
further?” And that is good, we need to
be pressed by the public and by NGOs. But,
you know, we are really breaking new ground
here. This is the first World Cup where environment
is being put firmly on the agenda.
I think we can learn from the event in Germany
so that future World Cups become ever greener.

I played football (soccer Like
any small boy growing up in a less than privileged
background, kicking a ball around with friends
was one of the few sports available and affordable.
I played regularly until about aged 26 when
I lost touch with my amateur club based in
a small village not too far from Hanover.
As a child, I played on the right wing and
I was pretty fast. As the years progressed
I switched first to right midfield and then
finely right defense where I hope I was pretty
tough and impregnable!

Environmental impacts
Some of the main environmental impacts come
in the design and construction phase. It is
vital that environmentally sound design, like
passive and active solar, water recycling,
good public transport links and so on, is
factored in at the outset. Otherwise it can
become much more expensive if added in at
the end. It is also important that new structures
are sensitively sited and that there is an
eye on their sustainable use post the event
they were built and designed for.
The operation of massive structures and buildings
can also consume huge amounts of electricity
and this adds to greenhouse gas emissions.
There are also the large quantities of waste
generated both in the construction phase and
when large numbers of crowds are gathering
to watch events or a match.
I think big football tournaments are really
no different in terms of environmental challenges
than say the Olympics.

Partners
As we’re approaching the tournament, the Local
Organizing Committee is happy to say that
climate neutrality for the overall tournament
has been achieved – a first in FIFA World
Cup history. Now it’s vitally important to
reach the goals that were set for the stadiums
– 20% less energy in the stadiums, 20% less
water use, 20 % less trash The Local Organizing
Committee will work in close cooperation with
the stadiums, the German government, FIFA,
the various industry and business partners
and UNEP to reach these goals and to communicate
all efforts to the public.
In terms of the teams, some like Germany and
Brazil, have committed themselves to using
the train as much as possible for traveling
to venues.

Cup of the Cup
Our Green Goal brochure is being made available
to fans at train stations so they know our
aims. Other measures include encouraging fans
to travel by public transport. We have a thing
called a Kombi ticket. As part of an environmentally
sound transport plan, fans purchasing tickets
for the matches in the 12 World Cup venues
will be able to use them for free access to
local public transportation during 24h, as
part of the Kombi ticket scheme.
The Kombi ticket commitment alone will cost
the World Cup 2006 Organizing Committee some
two million Euros, but should save large amounts
of greenhouse gases by reducing private car
use.
Indeed we hope every second fan will arrive
and depart from matches on public transport.
With the issue of waste avoidance foremost
on their minds, the organizers have also introduced
the reusable “Cup of the Cup”. Fans
will pay a deposit of one Euro for the cup
which will be the only one sold and used for
drinks at the grounds. There will also be
300 volunteers, trained to educate fans about
the aims and objectives of Green Goal, located
inside each of the 12 stadia.

Journalists
This week 25,000 of the Green Goal brochures
are being delivered to journalists world-wide
and, apart from next week’s big press conference,
Green Goal has been issuing regular press
releases and updates.

Climate Neutral
The Climate Neutral scheme will offset all
100,000 tonnes of carbon dioxide generated
within Germany by transportation, construction
and maintenance of the stadia, and the presence
of 3.2 million expected spectators.
Part of these emissions will be offset by
carbon friendly projects like tree planting
and clean energy schemes, in developing countries.

Future Word Cups
I hope the fans watching the 2006 FIFA World
Cup will remember the event as a fantastic
spectacle that was well and responsibly organized
and that part of that responsibility extended
to the environment in meaningful and verifiable
ways. And that fans at future World Cups will
demand ever stronger environmental measures.

Final Match
What a question!! My heart hopes for Germany
to be there and my head tells me that, not
surprisingly, the other team will be the wizards
from Brazil!!

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Histórias inspiradoras de mulheres que superaram o câncer de colo do útero

Se detectada a tempo, doença tem chances altas de cura, sinalizam especialistas

Publicado

em

 

Agência Brasília* | Edição: Chico Neto

 

A professora do ensino fundamental Sabatha Borges, 41, ia ao médico regularmente e fazia exames ginecológicos com frequência, pois sempre teve o sonho de ser mãe. Aos 39 anos, grávida, sofreu um aborto espontâneo e precisou fazer a retirada do saco gestacional, procedimento que detectou um câncer de colo do útero em fase inicial.

Após um aborto espontâneo, Sabatha Borges (na foto, com o marido e a filha, Ilke), teve um câncer detectado, tratou-se, passou por uma cirurgia e conseguiu engravidar novamente | Fotos: Divulgação/Agência Saúde

“Para mim, foi um grande baque”, conta. “A gente nunca imagina isso. Eu me senti sem chão. Já estava muito triste por ter perdido meu filho, e ainda receber essa notícia… Foi muito doloroso”.

“Faixa etária de 25 a 64 anos tem a maior ocorrência das lesões de alto grau, passíveis de serem tratadas para que não evoluam para o câncer”Sônia Gallina, médica

Após uma cirurgia difícil em setembro de 2021, quando Sabatha teve parte de seu útero retirado, os médicos fizeram de tudo para manter uma estrutura que permitisse a ela engravidar de novo. Oito meses mais tarde, isso aconteceu naturalmente. E, depois de uma gestação sem sustos, nasceu sua filha Ilke. Hoje curada, Sabatha faz o controle anual e sonha ter outros filhos.

“Nunca tive sintomas e sempre me cuidei”, relata. “Além disso, os médicos da Secretaria de Saúde foram um grande apoio. Tive o suporte e o acompanhamento da doutora Sônia Maria Ferri Gallina e do doutor Fernando Henrique Batista da Mota, do Hospital Regional de Ceilândia. Eles me disseram que meu sonho de ser mãe ainda seria possível.”

A ginecologista Sônia Gallina, do Hospital de Base, lembra que os exames preventivos sempre são importantes: “Se diagnosticado precocemente, o câncer apresenta uma alta taxa de cura e se o tratamento for iniciado logo após o diagnóstico, aumenta a sobrevida e as chances de cura da paciente”.

O Mês da Mulher é marcado também pelo Dia Mundial da Prevenção do Câncer de Colo do Útero, celebrado neste domingo (26).

“Não tenham medo de investigar algo incomum por conta do resultado. Idade não é regra, e o autocuidado salvou minha vida”Sabatha Borges, professora

Conselhos

Terceiro tumor maligno mais frequente na população feminina (com exceção do câncer de pele não melanoma) e a quarta causa da morte de mulheres por câncer no país, o câncer de colo do útero é um problema de saúde pública no Brasil. Apesar de ser uma doença frequente, as lesões iniciais podem ser identificadas pelo teste de Papanicolau e, quando tratadas, evitam o surgimento da doença.

Sabatha aconselha mulheres mais jovens: “Conheçam-se, façam seus exames, como a citologia cervical. Não tenham medo de investigar algo incomum por conta do resultado. Sua vida e sua saúde são o que importa. O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura. Idade não é regra, e o autocuidado salvou minha vida”.

Histórico familiar

Especialistas alertam que o histórico familiar é um indicativo para começar a prevenção o quanto antes. Dois ou mais parentes de primeiro grau (mães, irmãs ou filhas) ou de segundo (neta, avó, tia, sobrinha, meia-irmã) com câncer de útero, mama e/ou de ovário já indicam alto risco de surgimento da doença.

Mislene Dantas (à esquerda) teve câncer de colo de útero e um tumor no rim, mas venceu tudo com o tratamento: “Eu me sinto renascida, começando tudo de novo”

É o caso da dona de casa Mislene Dantas, 44. Em 2019, sua mãe teve câncer na bexiga. Um ano antes, Mislene apresentou um sangramento e descobriu que estava com câncer de colo do útero. “O câncer já estava em estado avançado”, lembra. “Tive que começar um tratamento rápido de quimioterapia e radioterapia. Todo o meu tratamento foi no HRT [Hospital Regional de Taguatinga]”. Ainda abalada com a notícia, ela também descobriu um tumor no rim. “Foi literalmente uma bomba na família. Veio tudo de uma vez, eu achei que não ia conseguir. Tive realmente medo de morrer”. Já a mãe de Mislene não sobreviveu.

Mãe de Camila, 24, e Thaynara, 26, Mislene esteve em tratamento durante cinco anos, com radioterapia, quimioterapia e braquiterapia. Hoje curada, faz acompanhamento anual pelo SUS. “Eu me sinto renascida, começando tudo de novo. Sempre que volto ao HRT para repetir os exames, fico com medo, mas neste ano a equipe de médicos me disse que estamos na reta final, que depois desses exames vou estar totalmente liberada. Isso quer dizer que não tenho mais sinal de câncer.”

Mislene agora sonha em voltar a estudar e ajudar pessoas que passam pela mesma situação: “Quero fazer psicologia, tenho muitos sonhos. Pretendo ajudar pessoas e fazer tudo que eu sempre quis. Eu tive uma segunda chance”.

Prevenção

O exame de Papanicolau deve ser feito pelas mulheres ou qualquer pessoa com colo do útero, na faixa etária de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Isso inclui homens trans e pessoas não binárias designadas mulher ao nascer.

“Essa faixa etária tem a maior ocorrência das lesões de alto grau, passíveis de serem tratadas para que não evoluam para o câncer”, aponta a ginecologista Sônia Gallina. “Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a incidência deste câncer aumenta nas mulheres entre 30 e 39 anos de idade e atinge seu pico na quinta ou sexta década de vida.”

A vacina contra o HPV é uma das principais formas de prevenir a doença. Está disponível gratuitamente pelo SUS, sendo destinada a meninas e meninos de 9 a 14 anos. A eficácia do imunizante chega a prevenir até 70% dos cânceres de colo de útero e 90% das verrugas genitais.

Outra orientação é o uso do preservativo em todas as relações sexuais, atitude que favorece a diminuição do risco de contágio do vírus. As consultas médicas, bem como os exames preventivos periódicos, também são fundamentais para o diagnóstico de qualquer alteração na saúde.

*Com informações da Secretaria de Saúde

 

 

 

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Especialistas dizem que produzir trabalho decente no Brasil é desafio

Resgate de trabalhadores em condição degradante tem aumentado

Publicado

em

 

Produzir trabalho decente no Brasil é desafiador, mas caminho necessário para o enfrentamento ao trabalho análogo ao escravo. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil em meio a repercussões do grande número de casos de resgate de trabalhadores nessas condições nos últimos meses.

Para o procurador do Ministério Público do Trabalho em Alagoas (MPT-AL) e coordenador regional de Combate ao Trabalho Escravo, Tiago Muniz Cavalcanti, o enfrentamento dessas situações se faz em duas vertentes: a repressiva e a preventiva.

“Quando falamos em prevenção, existem duas formas, a prevenção primária é quando o crime ainda não ocorreu. A secundária é quando o crime já ocorreu e precisamos acolher essa vítima, reverter os fatores de vulnerabilidade e reincluí-la no trabalho digno, para que não volte a ser novamente vítima do trabalho escravo. A vertente preventiva, tanto primária quanto secundária, é o nosso grande gargalo”, explicou.

Segundo ele, é dever do Estado implementar políticas públicas de acesso a direitos sociais, sobretudo trabalho decente, nas comunidades das vítimas em potencial. “O que fazemos diariamente, eu digo Estado, Ministério Público e sociedade civil que combate trabalho escravo, é tentar reverter todos os fatores de vulnerabilidade da população, para que tenhamos o mínimo de exploração. Ou seja, para que a exploração não seja aviltante a ponto de termos que resgatar aqueles trabalhadores de situações que chamamos atualmente de análogas à escrava porque a escravidão já não existe”, disse Cavalcanti.

Na mesma linha, a diretora executiva do Instituto do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (InPacto), Marina Ferro, avalia que o período da pandemia de covid-19 levou ao aumento do desemprego e a oportunidades mais precarizadas de trabalho. “Combater o trabalho escravo é também produzir oportunidade e reduzir a desigualdade. Quanto mais você tem desigualdade social, mais fácil vai ficar de precarizar as situações, quanto mais você tira as pessoas da pobreza, da fome e gera oportunidades dignas, menos isso acontece”.

Para ela, a herança escravocrata no Brasil ainda é muito forte, pois com a abolição da escravidão não houve a inserção social de quem vivia nessa condição. “Por isso, continuamos um país muito desigual, que reproduz muita vulnerabilidade e que não trata o ser humano com dignidade, como um par”, afirmou.

As terceirizações, segundo Marina, também são fatores importantes para a precarização do trabalho. “É fator muito sensível para as empresas se anteciparem, prestar atenção e fazer a devida diligência na sua cadeia. Elas precisam olhar a cadeia produtiva, contratos com terceiros e não se eximir dessa responsabilidade. Então, acho que há um papel do Estado no combate ao trabalho escravo e um papel das empresas, que podem antecipar essa questão e evitar que isso aconteça”.

A legislação brasileira atual classifica como trabalho análogo à escravidão toda atividade forçada ou submetida a jornadas exaustivas, ou ainda desenvolvida sob condições degradantes ou com restrição da locomoção do trabalhador. Também é passível de denúncia qualquer caso em que o funcionário seja vigiado constantemente, de forma ostensiva, por seu patrão.

Outra forma de escravidão contemporânea reconhecida no Brasil é a servidão por dívida, que ocorre quando o trabalhador tem seu deslocamento restrito pelo empregador, sob alegação de que deve liquidar determinada quantia de dinheiro.

O presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), Bob Machado, alertou que, ao longo dos últimos anos, houve redução de orçamento e “redução drástica” do número de auditores fiscais do trabalho. Hoje, o país tem o menor número de auditores fiscais dos últimos 33 anos e cerca de 45% dos cargos estão vagos.

“Isso tem impacto direto no combate ao trabalho escravo, ao trabalho infantil, na inserção de aprendizes no mercado de trabalho, na inserção de pessoas com deficiência, no combate a fraudes trabalhistas, que visam majoritariamente reduzir a remuneração de trabalhadores, e também a busca por ambiente de trabalho mais seguro, visando à redução de acidentes”, disse Machado. Ele destacou outras atribuições dos auditores que visam à criação de trabalho decente.

Na última semana, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, informou que pretende promover concurso para recompor o quadro de fiscais do trabalho.

Aumento de casos

O início de 2023 trouxe novamente à tona casos de trabalhadores em situações análogas à de escravidão. No Rio Grande do Sul, 207 trabalhadores enfrentavam condições de trabalho degradantes nas terras das vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. As empresas assinaram termo de ajuste de conduta com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e se comprometeram a pagar R$ 7 milhões em indenizações.

Trabalho escravo no Brasil
Trabalho escravo no Brasil – Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em Goiás e Minas Gerais, um grupo de 212 trabalhadores que prestava serviço a usinas de álcool e produtores de cana de açúcar foi resgatado, durante operação do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo. Na última sexta-feira (24), mais pessoas foram resgatadas, dessa vez no festival de música Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Em todos esses casos, os trabalhadores eram contratados por uma empresa de prestação de serviços terceirizados que intermediava a mão de obra.

Desde 1995, as fiscalizações e os resgates de trabalhadores são feitos pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, coordenado por auditores fiscais do Trabalho, em parceria com o MPT, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, entre outras instituições.

Os resgates vêm aumentando nos últimos anos. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), até o início de março as autoridades resgataram 523 vítimas de trabalho análogo ao escravo. Em 2022, conforme o Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho, 2.575 trabalhadores foram encontrados em situação de escravidão contemporânea, um terço a mais que em 2021.

O MPT e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) também desenvolveram o Observatório de Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas, com dados e informações sobre políticas de trabalho.

O procurador Tiago Cavalcanti destacou que, de acordo com a organização internacional Walk Free Foundation, em 2014 o Brasil tinha cerca de 150 mil pessoas escravizadas. “Os números mais recentes mostram que a gente tem 370 mil, ou seja, mais do que duplicou o número de pessoas escravas, pessoas que estão, na verdade, aguardando resgate”, disse ele, explicando que a média de resgates é de pouco mais de 2 mil trabalhadores por ano.

Precarização do trabalho

Para Cavalcanti, no mundo capitalista sempre existirá escravidão. “A escravidão, na sua accepção mais pura e fiel, que é a exploração aviltante do ser humano, ou seja, o uso e o descarte de seres humanos, é inerente à nossa sociedade”, afirmou, acrescentando que a solução para o problema passa por uma mudança cultural.

Adicionalmente, segundo ele, a agenda de políticas públicas dos governos que se sucederam após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff não favoreceram a população de baixa renda e aumentaram o nível de miserabilidade da população. Por isso, o número de pessoas que se submetem a qualquer trabalho aumentou vertiginosamente.

“Eu poderia citar inúmeros exemplos. Tivemos um estancamento da política de reforma agrária, um aumento da desigualdade social, o aumento das relações autoritárias de poder, ou seja, o coronelismo voltou com força muito maior. Tivemos uma precarização dos níveis de proteção social, ou seja, a legislação trabalhista foi flexibilizada, desregulamentada, a proteção social, da Previdência Social, ela foi flexibilizada. Tivemos o fenômeno da uberização (uso de aplicativos) das relações de trabalho de forma muito intensa, de certo modo fomentado, incentivado pelos últimos governos”, disse o procurador.

Para o secretário de Inspeção do Trabalho do MTE, Luiz Felipe Brandão de Mello, a narrativa do governo anterior, que defendia que “o importante é o trabalho e não só os direitos”, intensificou a precarização do emprego no Brasil. “Então, uma série de fatores juntos que levam a esse quadro. É inacreditável que em pleno 2023 estejamos discutindo o trabalho escravo no Brasil. Isso não é trabalho de uma instituição, mas preocupação que deve ser de toda a sociedade e ter grande mobilização”, destacou.

O presidente do Sinait, Bob Machado, concorda que, associada à cultura da escravatura, a reforma trabalhista e a terceirização irrestrita promovida pelos últimos governos reduziram as condições de trabalho decente. “Nós vivemos um período muito grande de contraposição entre o trabalho e os direitos, o que é direito, o que é emprego. E nesse sentido alguns interpretaram de maneira extrema, reduzindo os trabalhadores à condição análoga de escravos”, observou.

Cadeia produtiva

Segundo Marina Ferro, do InPacto, o setor produtivo precisa de práticas políticas para a prevenção de trabalho escravo nas cadeiras, dedicar recursos e esforços constantes na identificação de riscos. “As empresas precisam se comprometer com a causa e criar procedimentos, ter estrutura interna, ter gestão de riscos sobre aqueles possíveis e até os potenciais que possa vir a ter numa cadeira produtiva.A partir desse mapeamento de riscos inerente a cada setor, você consegue então dedicar esforços, ações para evitar que eles aconteçam”, disse.

Trabalho escravo
Trabalho escravo – Ministério Público do Trabalho – Divulgação

O Instituto do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (InPacto) é apoiado por grandes empresas do país e é uma das respostas institucionais do setor privado do Brasil ao problema. Ele atua na busca de soluções para as cadeias produtivas globais, na prevenção ao trabalho escravo, envolvendo diversos atores e organizações sociais.

Uma das ferramentas criadas pelo instituto é o Índice de Vulnerabilidade InPacto, que permite estabelecer uma escala de risco de trabalho escravo no país, para que as empresas se antecipem na promoção do trabalho decente em seus locais de produção.

“Está ficando cada vez mais claro também, não só pela nossa legislação, mas também para quem exporta, por exemplo, para a União Europeia, há uma legislação de fora que está cada vez mais colocando a questão da devida diligência como algo essencial para os setores produtivos. Então, cada vez mais, as empresas vão ser cobradas pela responsabilidade de fiscalizar toda a sua cadeia, então não vai ter como dizer ‘contratei de um terceiro, não tenho responsabilidade’. O ‘eu não sabia’ não vai mais rolar, a empresa do futuro precisa se precaver”, afirmou Marina.

O agronegócio é o setor econômico mais frequentemente envolvido em casos de trabalho análogo ao escravo. De 1995 a 2022, das 57.772 pessoas resgatadas dessa situação, 29% atuavam na criação de bovinos, 14% no cultivo de cana-de-açúcar e 7% na produção florestal.

Para a especialista, a transformação do agro no Brasil está atrelada à sua produtividade. “Há setores que já demonstram uma mudança, tanto no sentido de trazer a renda para o produtor, mas também de dar boas condições de trabalho. Então, acho que que é preciso uma transformação cultural, principalmente na forma de pensar essa produção, mas também de oferecer condições. Com essa legislação cada vez mais forte, tanto nacional quanto internacional, a questão reputacional, se as empresas não começarem a se antecipar e se adequar, lá na frente a conta chega”.

O procurador do Trabalho, Tiago Cavalcanti, explica que nem todos os beneficiários do trabalho escravo podem ter o dolo (a má-fé) de escravizar, mas a culpa eles têm. “É muito fácil saber que as condições de execução do trabalho são precárias na medida em que o pagamento é muito baixo, à medida que você não tem uma fiscalização correta. As empresas que estão na ponta da cadeia, ou seja, empresas poderosas economicamente, a partir do momento em que elas subcontratam e fecham os olhos, passam a ser responsáveis por aquilo que ocorre na sua cadeia produtiva, principalmente quando a produção ocorre na sua propriedade”, disse, citando como exemplo o caso das vinícolas no Rio Grande do Sul.

Cavalcanti chama de “cegueira deliberada” essa atitude dos setores produtivos. “A identificação é óbvia. Ou seja, é uma cegueira proposital, ela [a empresa] fecha os olhos, finge que não conhece aquela realidade, quando na verdade ela tem todos os elementos para saber que aquilo existe de fato”, explicou.

Instrumentos de repressão

Na vertente da repressão, do combate ao trabalho escravo, o procurador avalia que o Brasil, “até certo ponto”, é modelo em âmbito internacional. “Temos alguns instrumentos importantes, como o Grupo Móvel que deflagra a força tarefa de combate ao trabalho escravo, a lista suja, existem órgãos que lidam de forma boa em relação à repressão, do ponto de vista administrativo, trabalhista e criminal”. Ele lembrou que, recentemente, a Justiça reconheceu a imprescritibilidade do crime trabalho escravo.

Cavalcanti confia que, com o novo governo, “teoricamente mais compromissado com a política de direitos humanos”, esses instrumentos sejam preservados. O procurador contou que a estrutura de combate a esse crime esteve ameaçada, mas conseguiu resistir durante o período pós-impeachment graças à mobilização dos órgãos públicos fiscalizadores e da sociedade civil organizada.

Segundo o procurador, a última grande medida de combate ao trabalho escravo é do governo Dilma, a emenda constitucional que alterou o Artigo 243 da Constituição Federal para prever a expropriação de terra daqueles que escravizam. “É importante ressaltar que não veio o governo do nada e criou esses instrumentos. Temos esses instrumentos porque o Brasil foi demandado em âmbito internacional para que fizesse alguma coisa em face do trabalho escravo”, destacou.

lista suja do trabalho escravo é o cadastro de empresas autuadas pelo Ministério do Trabalho por submeter seus empregados a condições análogas à escravidão. A inclusão do nome do infrator na lista só ocorre após decisão administrativa final. Ela é publicada a cada seis meses e a última foi em outubro do ano passado.

Segundo Marina Ferro, um dos compromissos dentro do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo é que as empresas usem a lista suja para não fazer acordos comerciais com empresas que estejam lá. “Então, a lista suja se tornou um super instrumento para que as empresas conhecessem quem estivesse utilizando mão de obra análoga à escrava e impusessem restrições comerciais a essas pessoas jurídicas. É ferramenta de demonstração. Nenhuma empresa quer estar lá, porque além de ter a consequência monetária, também tem a reputacional. Depois é complicado para as empresas reconstruir”, explicou.

Segundo o secretário de Inspeção do Trabalho do MTE, Luiz Felipe Brandão de Mello, o objetivo do governo é fortalecer a fiscalização para identificar e coibir a exploração criminosa da mão de obra no país. “Temos que fazer uma avaliação, na verdade, para ver realmente o que está acontecendo para essa explosão do número de casos. Em cima disso, teremos que fazer análise para ver haverá redirecionamento das ações. Diferentemente do que já foi, no passado, que era muito concentrado numa determinada região do país, agora está ocorrendo em todas as áreas, então temos que ver como atuar”.

Na última semana, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, também defendeu a revisão de normas de terceirização trabalhista.

Para o presidente do Sinait, Bob Machado, a revisão da reforma trabalhista e da política de terceirização precisa ser feita no âmbito do Congresso Nacional, de maneira ampla, em debate com as entidades da sociedade civil. “Para que possa, a partir daí, resultar em alterações na legislação que visem prioritariamente proteger os trabalhadores, garantir trabalho digno para todos”, destacou.

Canais de denúncias

Bom Jardim de MInas (MG) 05.03.2023 - Operação resgata três trabalhadores em condições análogas à escravidãono Sítio Serra Verde, em Bom Jardim de Minas (MG). Foto: Minstério do Trabalho/Divulgação
Bom Jardim de MInas (MG) 05.03.2023 – Operação resgata três trabalhadores em condições análogas à escravidãono Sítio Serra Verde, em Bom Jardim de Minas (MG). Foto: Minstério do Trabalho/Divulgação – Ministério do Trabalho/Divulgação

As denúncias de trabalho análogo ao escravo podem ser feitas pela população, de forma anônima, por meio de canais como o Disque 100, o site do Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Sistema Ipê, da Auditoria Fiscal do Trabalho.

O procurador do Trabalho, Tiago Cavalcanti, alerta que as denúncias precisam ser fortes e com o máximo de informações possíveis, que levem ao resgate de trabalhadores. Segundo ele, as diligências envolvem diversos órgãos e têm um custo para o Estado.

“Às vezes, as denúncias que chegam são frágeis, ou seja, não têm a localização exata, a identificação do empregador, não diz quais são os fatos que ensejam trabalho escravo, ou seja, o trabalhador tá sem comida, tá dormindo no curral com a vaca, enfim, os fatos que caracterizam o trabalho escravo contemporâneo”, exemplificou. “Então, só fazemos esse tipo de diligência quando a denúncia, de fato, é mais sólida, no sentido de que acreditamos que vai resgatar trabalhadores”, explicou.

Edição: Graça Adjuto

 

EBC

 

 

 

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CPI solicita reunião com ministro Alexandre de Moraes

Foto: Rinaldo Morelli/CLDF

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Os membros da CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa enviaram, nesta sexta-feira (24), ofício ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, solicitando reunião para tratar de questões pertinentes à investigação em curso. De acordo com o presidente da comissão, deputado Chico Vigilante (PT), alguns requerimentos aprovados pela CPI da CLDF têm relação com depoentes ou fatos apurados nos inquéritos em que Moraes é relator.

Os distritais também se colocam à disposição para contribuir com investigação em curso no STF.

 

 

* Com informações da assessoria de imprensa do deputado Chico Vigilante 

Agência CLDF

 

 

 

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