As 14 lições do Festival dos bois de Parintins dadas pelo Caprichoso, que cantou “Amazônia, o solo sagrado” , e pelo Garantido, com a “Terra, a grande maloca”
Silvestre Gorgulho, de Brasília
O planeta boi está dentro do planeta água. E os dois compõem o cenário mais belo, mais grandioso e mais místico da região amazônica. No 41º Festival Folclórico de Parintins, o meio ambiente foi o tema principal dentro e fora do bumbódromo. Na arena, o boi azul Caprichoso se apresentou cantando as belezas e a magia da “Amazônia, solo sagrado”. E o vermelho Garantido vibrou com a terceira vitória seguida envolvendo torcida e turistas numa mensagem que parece esquecida: “Terra, a grande Maloca”. Fora do palco, como informa Marco Simões, diretor de Comunicação da Coca-Cola, “o meio ambiente continuou sendo valorizado através de iniciativas e gestões de sustentabilidade: lançamento de programa de reciclagem, coleta seletiva do lixo e fortalecimento de um programa educacional para resgatar a dignidade de desempregados e moradores de rua”. O Festival dos bois-bumbá Caprichoso e Garantido é hoje uma forte manifestação de beleza popular. Os três dias de festa, sempre no final de junho, mais do que uma referência no calendário turístico brasileiro, é uma anavilhana de lições. São lições de vida que eu fui ver e comprovar. Quantas cidades e quantas empresas brasileiras poderiam fazer o mesmo? Deixo aqui registrado as 14 lições que tirei e aprendi durante o 41º Festival de Parintins.
 O bumbódromo é o palco onde se desenvolve uma verdadeira ópera popular ao ar livre |
Encontro da Arte com a Cidadania As 14 lições do Festival dos bois de Parintins dadas pelo Caprichoso, que cantou “Amazônia, o solo sagrado” , e pelo Garantido, com a “Terra, a grande maloca”
“Para o Bumbá Garantido o tema indígena não é modismo ou obrigação. É, sim, um compromisso. Queremos mostrar ao Brasil e ao mundo a exuberância e a pujança da vida na floresta, do povo indígena e dos caboclos amazônicos. A tribo Parintintins deu nome à cidade e a miscigenação das raças originou o caboclo. A beleza da cultura indígena, seus causos, lendas e rituais são a matéria-prima para a teatralização do espetáculo”.
“Em Parintins, funcionam projetos como o Sistema Agroflorestal em Várzea, Projeto Pé-de-Pincha e Sistema de Gestão Ambiental, entre outros, que auxiliam a comunidade e ribeirinhos com palestras, capacitação de voluntários e desenvolvimento do ecoturismo. Além de ajudar na subsistência das comunidades, os projetos mantêm os recursos da fauna e flora mais abundantes. Assim preservamos o meio ambiente”. Vicente Nunes de Matos, presidente do Boi Garantido
“Com a arte, reconstruímos nossa história, criamos o belo e educamos nossa comunidade. Retratamos a crença e a fé, símbolos que conduzem o homem independente de raça, cor ou situação social. A temática indígena é o retrato do que somos e temos, o espelho do que conduz o imaginário amazônida. Assim mesclamos o ontem e o hoje”.
“A melhoria da qualidade de vida se faz por meio da educação, da geração de emprego e renda. Desenvolvemos um projeto com crianças entre 7 e 17 anos chamado “Resgate Cultura e Cidadania”, através da Fundação Boi Caprichoso – Escola de Artes Irmão Miguel de Pascalle. Nesse sentido trabalhamos os conceitos e práticas de preservação ambiental e cultural”. Carmona de Oliveira Filho – presidente do Boi Caprichos
As 14 lições do Festival de Parintins
01 – Lição de estética: o festival de Parintins é sinônimo de arte, de engenhosidade, de superação de limites e de boa música. É uma verdadeira ópera popular ao ar livre que conta histórias da floresta e de seus mitos.
02 – Lição de ética: a disputa na arena e nas ruas é um hino à tolerância. Dois bois que fazem das cores e dos cantos uma luta de vida ou morte. É uma disputa ferrenha, grandiosa e alucinante. São contrários, que se respeitam. Um boi não vive sem o outro.
03 – Lição de desafio: longe do grande mercado nacional, a 400km de Manaus, numa ilha do rio Amazonas, os artesãos encontram material e tecnologia para surpreender e seduzir turistas nacionais e estrangeiros.
04 – Lição de gestão: é justamente essa força, essa visibilidade e essa união pelo belo que levou o governo e a iniciativa privada a se dar as mãos. Os promotores da festa – governo do Amazonas e Coca-Cola – há décadas plantaram um programa sustentável de organização e valorização do Festival.
05 – Lição de marketing: há mais de uma década os patrocinadores levam formadores de opinião ao bumbódromo de Parintins para assistirem à magia da festa. O Fantástico, da TV Globo, o SBT e a Record estão sempre presentes. Sons e imagens do festival vão para onde nunca se imaginou. Equipes de tevê do Japão, da Europa, da África e da União Soviética já estiveram na ilha e se apaixonaram pela criatividade e ousadia dos artistas de Parintins.
06 – Lição de educação: um dos desafios é incorporar os saberes da cultura popular aos conteúdos escolares, aos programas governamentais e ao esforço de usar a força dos bois na mudança de comportamento da população e dos padrões de produção e de desenvolvimento.
07 – Lição de persistência: o festival nasceu pequeno, pobre e longe de tudo. Em 41 edições, virou a maior referência de cultura popular, de atração turística e de oportunidade de vida para muita gente.
08 – Lição de negócios para fora: os artistas que produzem a toada e a cenografia dos Bois de Parintins foram exportados para o Rio e São Paulo, onde assistem aos famosos carnavalescos na montagem dos carros alegóricos que agora ganham em movimento e expressão. Pequenos shows são levados como amostras a todos os cantos do mundo, gerando renda para artistas parintinenses que encantam platéias por onde passam.
09 – Lição de negócios locais: dezenas de patrocinadores chegam à cidade para divulgar seus produtos. Cada vez mais espaços são transformados em camarotes para acolher turistas. O volume de pessoas que chega a Parintins em barcos regionais aumenta sempre e até uma ponte aérea já foi criada entre Manaus e a ilha durante a festa.
10 – Lição de interiorização da economia: o Festival de Parintins vai moldando a vida da cidade nos outros 362 dias do ano. Virou um destino turístico ao longo do ano. Nos dois últimos anos, doze transatlânticos, com cerca de 2 mil pessoas cada um, fizeram uma parada cultural em Parintins para assistir ao espetáculo extra dos bois Caprichoso e Garantido.
11 – Lição de participação: a coreografia das torcidas, ensaiada durante seis meses, é parte ativa do espetáculo e acontece apenas naquele bumbódromo. É impossível descrever tudo aquilo que se vê na arena e em especial a emoção que se vive diante do conjunto da música, da dança e dos cenários inacreditáveis montados no centro da arena e nas arquibancadas.
12 – Lição de respeito: o bumbódromo é dividido em duas torcidas. Uma se esbanja, faz e acontece, durante a apresentação de seu boi. A outra se cala e assiste. Respeitosamente. E não arreda pé, mesmo que o seu boi já tenha se apresentado.
13 – Lição de retorno comercial: o investimento da Coca-Cola por 12 anos de Festival rendeu à companhia impagáveis páginas na mídia impressa e eletrônica. E mais: uma identidade com o povo e com o evento maior do estado do Amazonas. Na Praia de Botafogo, no Rio, o presidente da Coca-Cola ostenta orgulhoso na sua sala o título de Empresa Benemérita do Município de Parintins. É uma homenagem única a uma empresa que se entregou à magia da festa, a ponto de trocar, durante o festival, a cor do seu próprio logotipo. Talvez o mais valioso do mundo.
14 – Lição socioambiental: a parceria entre governo e iniciativa privada conseguiu, em Parintins, o que poucas cidades brasileiras têm: coleta seletiva do lixo, reciclagem de todo material coletado, formação de uma Associação de Catadores, renda permanente para os associados e busca de dignidade e educação para famílias carentes
silvestre@gorgulho.com |