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Fim da estiagem no Pantanal

A subida das águas vai estender-se até julho de 2006


Em Corumbá (acima), o rio Paraguai
dá indicativo de que iniciou
a fase de enchente.


Duas imagens características
deste ecossistema: as vitórias-régias,
que reinam em águas pantaneiras
e o Tuiuiu, ave-símbolo da
região.

Silvestre Gorgulho,
de Brasília
Os cientistas sabem e os pantaneiros também.
O Pantanal é um ecossistema de exuberância
única, cuja biodiversidade é
regida pela alternância de períodos
de cheia e seca. É uma região
onde se misturam flora e fauna da região
amazônica e do cerrado. Maior planície
inundada do mundo, com 140 mil km quadrados,
no Pantanal a vida se renova entre uma cheia
e outra. Tudo isto faz do Pantanal Matogrossense,
um santuário ecológico no coração
do Brasil. A Embrapa acaba de anunciar que
após um período de nove meses
registrando níveis abaixo dos índices
históricos, as águas do rio
Paraguai, em Ladário-MS, voltam a atingir
a normalidade. O rio Paraguai é o principal
dreno coletor das águas do Pantanal
e planaltos adjacentes. Isto significa o início
de uma nova fase de vida na região.

Os pesquisadores da Embrapa
Pantanal (Corumbá, MS) acompanham a
retomada da subida das águas do rio
Paraguai, que registrou o menor nível
das últimas três décadas.
O pesquisador e hidrólogo Sérgio
Galdino, explica que, desde que a régua
Ladarense atingiu o seu menor valor dos últimos
32 anos (1974 a 2005), que foi de 88 centímetros,
ocorrido nos dias 8 e 9 de novembro, o rio
Paraguai vêem subindo em média
1 centímetro ao dia. A elevação
é um forte indicativo que o rio iniciou
a sua fase de enchente. “A subida das
águas vai estender-se até os
meses de junho e julho de 2006”, informa
Galdino.
“A cheia de 2006 será muito importante,
pois se o nível máximo na régua
de Ladário, for inferior a 4 metros,
o Pantanal iniciará um novo ciclo de
seca. Caso contrário, ou seja se o
pico da cheia de 2006 for igual ou superior
a 4 metros, então o Pantanal continuará
vivenciando o seu mais longo e intenso ciclo
de cheia, que se tem registro, iniciado em
1974”, salienta o hidrólogo da
Embrapa.
A partir de ste mês, a Embrapa Pantanal
divulga as suas previsões iniciais
sobre a intensidade da cheia de 2006, por
intermédio do método probabilístico,
desenvolvido por pesquisadores da Unidade.
Os interessados em acompanhar o comportamento
do Rio Paraguai e Cuiabá, no Pantanal,
com antecedência de até quatro
semanas, podem acessar as previsões
semanais da CPRM:
http://www.cprm.gov.br/rehi/pdf/prev.pdf.

Desmatamento na Bacia
do rio Paraguai compromete Pantanal

26 mil km² da vegetação
(quase metade da Bacia) já foram transformados
em áreas de pastagem e cultivo


Segundo a CI Brasil, dentro de uns 45
anos a vegetação original
do Pantanal pode desaparecer

O que acontece com a Amazônia,
se repete no Pantanal matogrossense: desmatamentos,
queimadas, assoreamento de rios e a degradação
do solo estão comprometendo terrivelmente
a planície pantaneira. Um levantamento
feito pela Ong Conservação Internacional
(CI-Brasil) mostra que 45% da área
total da Bacia e 17% da cobertura vegetal
original do Pantanal já foram destruídos.
Sempre com o mesmo objetivo: abertura de áreas
de pastagem e cultivo de grãos. Segundo
o relatório, se mantido o ritmo atual
de desmatamento ou troca de pastagens nativas
para a introdução de espécies
exóticas – mais produtivas ao gado
-, dentro de aproximadamente 45 anos a vegetação
original do Pantanal terá desaparecido
completamente.

Como a CI-Brasil chegou a estas
conclusões? Simples: os cientistas
analisaram imagens de satélite e compararam
a proporção da área que
ainda tem vegetação nativa em
relação à área
que já teve sua cobertura vegetal original
suprimida. Constataram que a agropecuária
e as carvoarias são os principais fatores
de risco à conservação
da Bacia do Alto Rio Paraguai, de significativa
importância para a drenagem hidrográfica
central do continente sul-americano.
A Bacia do Alto Rio Paraguai possui cerca
600.000 Km², que se estendem pela América
do Sul, dos quais 363.442 Km² estão
em território brasileiro. As nascentes
dos rios da BAP ocupam uma área de
215.813 Km² localizadas nos planaltos
do seu entorno e representam 59% da área
da Bacia. A destruição do Pantanal
parece não levar em consideração
o fato de o Pantanal, que ocupa 41% da área
da Bacia, ser considerado a maior área
úmida do mundo, declarada Patrimônio
Nacional pela Constituição Brasileira
de 1988, com sítios de relevante importância
internacional pela Convenção
de Áreas Úmidas RAMSAR e áreas
de Reserva da Biosfera estabelecidas pela
Unesco em 2000.

A estatística
da destruição

Os números constam do relatório
“Estimativa de perda da área natural
da Bacia do Alto Paraguai e Pantanal Brasileiro”,
produzido pelo programa Pantanal da CI-Brasil.
A situação da área analisada
é bastante crítica, pois até
2004 cerca de 44% dessa área teve sua
vegetação original completamente
descaracterizada. Dos 87 municípios
incluídos na BAP (34 no Mato Grosso
do Suk e 53 no Mato Grosso), 59 apresentaram
mais da metade de seus respectivos territórios
com a cobertura vegetal alterada, em contraste
com 28 municípios que (ainda) apresentam
entre 12% e 49% de suas áreas suprimidas.
O problema se intensifica em 22 municípios
que desmataram mais de 80% de suas áreas,
dos quais 19 tiveram áreas suprimidas
de vegetação original superiores
a 90% de seus territórios.
“É extremamente importante conservar
as áreas de entorno da planície
pantaneira, pois ali estão as nascentes
dos rios que constituem o Pantanal. Essas
localidades contribuem para o povoamento silvestre
e constituem refúgios para a fauna
nos períodos desfavoráveis,
abrigando espécies que se deslocam
para evitar as enchentes e os extremos climáticos”,
explica Sandro Menezes, gerente do Programa
Pantanal da CI-Brasil.
Até 2004, a destruição
da vegetação nativa no Pantanal
representava cerca de 17% de sua área
original, totalizando aproximadamente 25.750
km². O estado de Mato Grosso do Sul é
responsável por 11% desse índice,
enquanto no Mato Grosso, a taxa foi de 6%.
Houve, na realidade, um aumento significativo.
O desmate entre 1990-2000 na planície
pantaneira aumentou em uma taxa de 0,46% por
ano. O número subiu para 2,3%, considerando
o período 2000-2004.

MT expede 1.218 licenças
de desmatamento no Pantanal

O estudo fez ainda um levantamento
das licenças de desmatamento emitidas
pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente
do estado de MS, entre janeiro de 2002 e setembro
de 2004. Ao todo, foram expedidas 1.218 licenças,
totalizando uma área de 250.700 hectares.
Os municípios com as maiores áreas
licenciadas foram Corumbá, Porto Murtinho
e Aquidauana, localizados integralmente na
planície pantaneira. Também
é preocupante o fato de municípios
com altos percentuais desmatados, como é
o caso de Camapuã, figurarem entre
aqueles que tiveram as maiores áreas
licenciadas para supressão da vegetação.
O cruzamento desses dados com informações
do IBGE indicam que o alto índice de
devastação não se reflete
no aumento do IDH – índice de desenvolvimento
humano – e tampouco no incremento das atividades
ditas produtivas.

Proteção, impacto e
ameaças

Apenas 2,9 % da Bacia e 4,5% da área
da planície pantaneira estão
protegidos por algum tipo de Unidade de Conservação
de Proteção Integral (UCPI)
e Reservas Particulares do Patrimônio
Natural (RPPN). Em toda a área da BAP
apenas 10.596 Km² encontram-se protegidos
em 19 UCPI e em 34 reservas. Na área
de planície que abrange os dois Estados,
são somente cinco UCPI públicas
e 16 RPPN, totalizando 6.757,99 km².
No Mato Grosso do Sul, existe apenas uma unidade
de conservação pública
na planície pantaneira que é
o Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro,
ainda a ser implementada e que protegerá
0,5% do Pantanal sul-mato-grossense.
O impacto imediato dessa situação
é a degradação do solo,
o comprometimento dos processos hidrológicos
que determinam os ciclos de cheia e seca,
em grande parte responsáveis por toda
a riqueza biológica da região
e a perda de biodiversidade, pois recursos
como abrigo, alimento e locais de reprodução
oferecidos pelas florestas e demais tipos
de vegetação às espécies
animais não estarão mais disponíveis.
Um exemplo é a arara-azul, espécie
ameaçada de extinção,
que depende da árvore chamada popularmente
de manduvi (Sterculia apetala – Sterculiaceae),
para abrigo e reprodução. Apesar
de todos os esforços de conservação
empreendidos na região do Pantanal,
sem a disponibilidade dessa árvore
a arara-azul está fadada a desaparecer
da natureza.

Recomendações
A Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso
do Sul e o próprio Ibama admitem limitações
de estrutura e funcionários para fiscalizar
as ações. E se por um lado o
Ministério do Meio Ambiente trabalha
para que o percentual de áreas protegidas
no Pantanal e Cerrado aumente, o Ministério
da Agricultura trabalha com uma perspectiva
de utilização de aproximadamente
100 milhões de hectares adicionais
para a expansão da agricultura, o que
certamente vai acelerar o processo de desmatamento
na BAP e no Pantanal.
O relatório recomenda algumas ações
para reverter a situação atual,
como o alinhamento da atuação
das diferentes esferas do poder público
(municipal, estadual e federal); revisão
da legislação vigente referente
às áreas de proteção
permanente e reservas legais para a região
da Bacia do Alto rio Paraguai; integração
nas políticas de conservação
e uso dos recursos naturais entre os estados
de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; maior
esforço do poder público no
sentido de avaliar profundamente o licenciamento
e a fiscalização de novos empreendimentos
que provoquem impactos sobre a região
da Bacia do Alto rio Paraguai e a implementação
de um amplo programa de restauração
ambiental nas áreas já degradadas
e que estejam em discordância com a
legislação vigente, atribuindo
aos responsáveis pela degradação
o ônus de custear este processo.

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Ação educativa em bares orienta contra direção após consumo de álcool

Com o projeto Rolê Consciente, o Detran promove intervenções artísticas sobre os riscos de beber e dirigir; iniciativa acontece nesta sexta, na Asa Norte

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em

 

Agência Brasília* I Edição: Débora Cronemberger

 

Na noite desta sexta-feira (29), acontece mais uma edição do projeto Rolê Consciente do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF). A ação educativa percorre bares e restaurantes levando conscientização ao público para não dirigir, se beber. A ação de hoje ocorre na Asa Norte, de 18h às 21h.

Equipes do Detran percorrem bares e restaurantes para alertar sobre os riscos de dirigir após consumir bebida alcoólica | Foto: Divulgação/Detran

O Rolê Consciente é uma ação que envolve intervenções artísticas com bonecos, MCs do trânsito com suas rimas e, também, um papo sério com a entrega de material educativo e palestras dos professores de trânsito do Detran-DF. Toda a ação é voltada ao tema sobre os efeitos do álcool no organismo, orientações de segurança quanto à utilização de celular ao volante, a importância do respeito à velocidade máxima das vias, faixa de pedestre, respeito aos ciclistas e muito mais.

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, dirigir após o consumo de álcool é infração gravíssima, com multa no valor de R$ 2.934,70 e suspensão do direito de dirigir por um ano. O Rolê Consciente acontece às quintas e sextas-feiras e, a partir de outubro, será aos sábados e domingos também.

*Com informações do Detran

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Parceria visa fortalecer o esporte inclusivo no DF

Secretarias de Esporte e Lazer e da Pessoa com Deficiência vão elaborar ações para ampliar o acesso das pessoas com deficiência à prática esportiva em todas as suas esferas e em todas as faixas etárias

Publicado

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Agência Brasília* | Edição: Igor Silveira

 

A Secretaria de Esporte e Lazer (SEL-DF) e a Secretaria da Pessoa com Deficiência (SEPD-DF) se uniram para potencializar o paradesporto e esporte inclusivo no DF. As ações serão efetivadas por meio do Programa de Esporte Inclusivo.

A SEL-DF tem trabalhado para fomentar a visibilidade e valorização do paradesporto na cidade. Para isso, a pasta vem realizando eventos com o objetivo de dar celeridade ao acesso das pessoas com deficiência à prática esportiva em todas as suas esferas e em todas as faixas etárias.

As secretarias já trabalhavam de forma conjunta em ações pontuais, com o apoio aos paratletas por meio dos programas Compete Brasília e Bolsa Atleta, além das atividades oferecidas nos Centros Olímpicos e Paralímpicos | Foto: Divulgação/SEL-DF

O secretário Julio Cesar Ribeiro explica que uma das principais prioridades da pasta tem sido criar ações para dar visibilidade ao paradesporto. “A valorização e o investimento no paradesporto são fundamentais para construir uma comunidade mais inclusiva, onde cada cidadão, independentemente de suas habilidades, encontre espaço e oportunidades no universo esportivo do Distrito Federal”, destaca. O esporte é uma ferramenta essencial para a superação de barreiras”, completa Ribeiro.

Para o secretário da Pessoa com Deficiência, Flávio Santos, as duas secretarias poderão estabelecer uma política pública específica e efetiva voltada para atender às pessoas com deficiência nessa área. “As ações já existiam, mas serão ampliadas e melhoradas por meio desse trabalho porque, aí sim, vai ser construído um programa de esporte inclusivo”, afirma.

As pastas já trabalhavam de forma conjunta em ações pontuais, com o apoio aos paratletas por meio dos programas Compete Brasília e Bolsa Atleta, além das atividades oferecidas nos Centros Olímpicos e Paralímpicos. “Eu, como secretário e como atleta, sempre evidenciei a importância do esporte como uma poderosa ferramenta de inclusão”, finaliza Flávio.

Inclusão

Em maio deste ano, o Centro Olímpico e Paralímpico do Gama, recebeu mais de 350 inscrições para o Festival Paralímpico, que, pela primeira vez, ocorreu em Brasília. O evento realizado pela SEL-DF proporcionou aos participantes a inclusão por meio da vivência lúdica nos esportes paralímpicos.

O Campeonato Regional Centro-Oeste de Bocha Paralímpica foi outro marco na capital federal. O evento, que recebeu o apoio inédito da pasta, serviu como etapa classificatória para o Campeonato Brasileiro de Bocha Paralímpica, além de ter proporcionado aos atletas a oportunidade de ter representado suas associações e região em uma competição de nível nacional.

Outro evento que contou com o apoio da pasta foi a etapa regional das Paralimpíadas Escolares, que fomentou a inclusão e o progresso dos jovens atletas com deficiência, reunindo a participação de mais de 900 competidores. Os jogos ocorreram entre os dias 31 de agosto e 1º de setembro.

Outras competições paradesportivas também foram apoiadas pela SEL, como o Brasileiro de Adestramento Paraequestre, Centro-oeste de Handebol de Surdos e o Campeonato Regional de Goalball.

*Com informações da Secretaria de Esporte e Lazer do Distrito Federal (SEL-DF)

 

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Poeta vencedora do Prêmio Jabuti transita do slam à literatura grega

Autora voltou à Estação Guilhermina para lançamento de seu livro

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Foi na praça ao lado da Estação Guilhermina do Metrô, na zona norte paulistana, que Luiza Romão começou a declamar versos em público. Ali, acontece desde 2012, toda última sexta-feira do mês, a batalha de rimas conhecida como Slam da Guilhermina. Agora, dez anos depois desse encontro com a poesia falada, a autora retornou ao espaço para fazer um dos eventos de lançamento de Também Guardamos Pedras Aqui, seu livro que venceu o último Prêmio Jabuti.

“Quase pedir a benção”, resume a poeta sobre os sentimentos sobre esse momento que ela enxerga como o fechamento de um ciclo. “Acho que é bastante significativo, fazer isso bem antes de ganhar o mundo, assim, sabe? Antes de ir pro mundão”, comenta a respeito da turnê que se aproxima nos próximos dias. Até janeiro de 2024, a previsão é que Luiza tenha passado pela França, Argentina, México e Alemanha para divulgar o livro premiado, que já tem prontas traduções para o francês e espanhol.

Formada em artes cênicas, Luiza se aproximou da poesia atraída pelo modelo performático do slam, que começou a frequentar em 2013. As batalhas de rimas foram criadas por Marc Smith, nos Estados Unidos, na década de 1980. As competições, que atualmente acontecem em diversas partes do mundo, começaram, segundo a autora, como uma forma de tornar a leitura de poesia mais atraente nos saraus. “Em geral, em noites de cabaré, quando músico ia se apresentar, todo mundo prestava atenção. Quando ia uma pessoa do stand up, todo mundo prestava atenção. Na hora que o poeta ia declamar, era o momento que geral ia no banheiro, comprar cerveja, acender cigarro”, conta.

A performance da poesia falada, que compõe a cena cultural das periferias paulistanas, acabou atraindo Luiza, que tinha vindo em 2010 para a cidade, para estudar na Universidade de São Paulo. “Não estava no meu horizonte de vida virar poeta. Foi através do encontro com as batalhas de slam, com os microfones abertos, com o movimento saraus, que eu comecei a escrever”, lembra.

Uma estética que se relaciona com as temáticas que atravessam a juventude, especialmente a que vive fora dos bairros mais privilegiados. “Uma poesia muito engajada. Uma poesia que pensa o seu tempo histórico, que é fundamentada na dimensão coletiva da palavra. Toda essa partilha da performance”, enumera sobre as razões que a aproximaram dos versos e das rimas.

Atualmente com 31 anos, Luiza tem quatro livros publicados. O Também Guardamos Pedras Aqui é diretamente inspirado no épico grego Ilíada, de autoria atribuída a Homero, que retrata a conquista de Troia.

Veja os principais trechos da entrevista com a autora:

Vamos começar falando um pouco do livro Também Guardamos Pedras Aqui. Queria entender um pouco por que essa opção pela poesia grega e também o que isso significa na sua trajetória.

Eu sou formada em teatro. Tem algo que, de certa forma, eu discuto no livro, talvez de uma maneira não tão direta, que é essa obsessão nossa pelos gregos, que não diz respeito só a mim, Luiza, mas a nossa sociedade que passou por esse processo brutal de colonização e que ainda hoje continua referenciando de maneira tão intensa nos currículos escolares, nas produções culturais, esse imaginário cânone greco-latino. Então, na faculdade de artes cênicas, por exemplo, eu estudei dois anos de Grécia antiga.

Isso é algo que também se verifica nos cursos de letras e em muitos outros cursos. Você estuda tragédia grega. Você estuda comédia grega. Você estuda poética de Aristóteles, O Banquete do Platão. Uma tradição que é tão distante a nós. E, muitas vezes, a gente acaba não olhando para outras tradições e cosmovisões que estão mais próximas. As diferentes tradições latino-americanas andinas, maias e tudo mais ou as tradições africanas.

Quando eu termino [o curso universitário] eu vou fazer EAD, que a escola de artes dramáticas da USP, eu tenho que retomar essa galera [os gregos]. Eu estava lá, lendo pela segunda vez a mesma tradição, e faltava a Ilíada.

Então, eu estava indo viajar, fazer um mochilão pela Bolívia e pelo Chile. Eu falei: ‘Ah, vou pegar a Ilíada. Por que não? [risos]. É pesado, mas, pelo menos, é um volume só’. Meu irmão, Caetano, tinha uma edição que era leve, de papel bem fininho.

Foi onde eu li e fiquei muito chocada. Eu costumo dizer que o Pedras nasce um pouco desse horror a essa narrativa fundante da tradição ocidental, que é narrativa muito violenta. Eu sabia que era a história de uma guerra, que é como é contada, né? Mas, na verdade, não é a história de uma guerra, é a história de um massacre.

O que diferencia uma guerra de um massacre?

A guerra é quando, minimamente, você tem pé de igualdade. Você tem possibilidades reais dos dois lados ganharem. É algo que vai ser disputado na batalha. E, quando você lê a Ilíada, você vê que os troianos nunca tiveram chance de ganhar, porque os deuses eram gregos. Acho que foi a maior indignação para mim, porque isso eu não sabia antes de ler. Mas você tem o tempo inteiro a batalha acontecendo no campo terreno, entre gregos e troianos, e uma batalha acontecendo no plano divino, digamos assim, no Olimpo. Então, você tem os deuses que são pró-troianos e os deuses que são pró-gregos. E tem um momento que tem uma treta gigante, e Zeus [deus do trovão e líder do panteão grego] fala: ‘ninguém intervém na guerra, nenhum dos deuses’. E aí os troianos passam a ganhar a guerra.

Só que aí tem uma coisa que é muito doida, porque a gente tem essa ideia de perfeição atrelada à divindade, no catolicismo. No panteão dos gregos, na mitologia grega, são deuses que estupram, que têm inveja, que trapaceiam. Hera [esposa de Zeus] faz uma trapaça com Zeus. Ela vai até o fundo do oceano, pega um sonífero e Zeus dorme. Aí, ela e Atena [deusa associada a sabedoria] voltam para a guerra, quebram o pacto.

Os deuses são trapaceiros e Ulisses [herói grego] é trapaceiro também, porque é uma trapaça o que ele faz com cavalo. Não é fair play [jogo justo]. Eu acho que tem essa dimensão do massacre. Além de toda a devastação de um povo, das inúmeras formas de aniquilação, de tortura de subjugação, de estupro, de violência que estão no livro, tem isso de que é impossível esse povo ganhar. [Por orientação de Ulisses, os gregos fingem se retirar do campo de batalha e oferecem um cavalo gigante de madeira como presente aos troianos. Porém, uma parte dos soldados gregos se esconde dentro da escultura para, durante a noite, abrir os portões da cidade e provocar a derrota de Troia.]

No poema Homero, você diz que os gregos “foram capazes de” e traz uma lista, que seria de atrocidades, mas que está coberta por uma tarja preta, de censura, para em seguida dizer que, apesar desses horrores, eles, ao menos devolveram o corpo de Heitor, príncipe de Troia, ao contrário do que se fez, muitas vezes na ditadura militar brasileira. Você quer dizer que vivemos horrores maiores do que os troianos?

Isso tem muito a ver com dimensão quase que performativa da minha leitura. Eu estava lendo nessa viagem e passei pelo local onde Che Guevara [guerrilheiro que participou da revolução cubana] foi assassinado, no interior da Bolívia. Inclusive, tinha uma menina lá [parte do grupo], que era Tânia. Eles estavam tentando articular uma revolução comunista no coração da América Latina. A ideia seria sair do coração da Bolívia e se espalhar pelo continente inteiro. Eles são delatados, passam por uma emboscada e são assassinados.

O Che Guevara morre. A cabeça dele fica exposta em uma dessas vilas e o corpo fica desaparecido, por medo de que o local em que ele estivesse enterrado virasse um mausoléu de peregrinação comunista, um lugar de memória. O corpo dele só é encontrado 30 anos depois. Um dos militares disse que ele estava enterrado numa pista de pouso militar. Hoje você tem um museu do Che Guevara nesse local.

Eu queria aprofundar um pouco o uso desse recurso da censura, que aparece em outras partes do livro.

Eu acho que essa questão da censura ou do apagamento de arquivos é algo que também está muito presente quando a gente fala dessa história, dessa imposição de uma história única, dessa construção de um relato produzido pelo poder. Então, desses arquivos que são censurados, apagados e tudo mais.

Também, de certa forma propõe esse jogo com os leitores, da mesma forma que eu estou tentando reconstituir uma história que é muito apagada, vamos tentar reconstituir juntos. Talvez seja exercício imaginativo nosso também.

Você disse que Ulisses não jogava no fair play [jogo justo]. Tem um texto em que parece que você fala disso, invertendo a condição de herói e vilão, no poema Polifemo [gigante de um olho só que comia pessoas]. “Ninguém te cegou não/ não foi Ulisses/ aquela noite o policial não tinha identificação”

Ulisses, para mim, é um personagem que a gente, enquanto ocidente, vai emular como a inteligência. Primeiro, tudo que a gente sabe das viagens dele [narradas na Odisseia], é ele o que conta. Ou seja, ele pode estar mentindo, ele pode ter inventado tudo. Para mim, é um narrador nada confiável. Principalmente, porque do que a gente sabe, sim, de dados dele, é o personagem que faz o Cavalo de Tróia, que ganha na trapaça.

Então, Polifemo estava lá e, de repente, chegam esses homens, se metem [nos domínios dele] e ainda o cegam. E tem essa que a grande sabedoria do Ulisses é falar: “Eu não sou ninguém”. Então, Polifemo começa a gritar [após ter o olho furado]: “ninguém me cegou”.

Isso também foi uma chave de leitura para o caso do Sergio Silva [fotógrafo que perdeu o olho nas manifestações de 2013] e de vários e várias manifestantes que foram baleados com bala de borracha nos últimos anos, seja no Brasil, seja no Chile, onde a gente teve de fato uma forma sistemática da polícia de dilacerar o globo ocular de muitas pessoas.

E que ninguém cegou essas pessoas. É a mesma situação bastante recorrente quando a gente fala das ações das polícias militares, seja pelo não uso de identificação, seja porque cada vez mais são policiais que estão com balaclava ou com capacete.

Você fala em diversos momentos sobre violência (policial, contra a mulher), que é uma temática muito recorrente nos slams. Como o movimento dos slams atravessa a sua trajetória?

Minha trajetória é completamente atravessada pelo slam. Eu vim do teatro, sou das artes cênicas. Não estava no meu horizonte de vida virar poeta. Foi através do encontro com as batalhas de slam, com os microfones abertos, com o movimento saraus, que eu começo a escrever. Principalmente, por ser uma poesia muito engajada. Uma poesia que pensa o seu tempo histórico, que é fundamentada na dimensão coletiva da palavra. Toda essa partilha da performance é uma forma poética também de encarar esses temas.

slam não dissocia política e poética. É óbvio que é indissociável. Mas tem alguns lugares que se tem ilusões que é possível dissociar disso. Então, eu começo a frequentar em 2013 e continuo, não mais como slammer. Já aposentei as chuteiras faz um tempo. Mas, de vez em quando, fazendo a parte de produção. Fui fazer um mestrado sobre isso.

Em que momento você se aposentou do slam?

Como slammer, é muito normal a gente ter ondas, né? É tipo jogador de futebol, a carreira é curta. A gente vai lá, batalha uma, batalha outra, brinca durante dois ou três anos. É muito normal. Assim, você tem uma renovação da cena muito constante. Então, eu comecei a frequentar em 2013, já tinha tido uma onda antes de mim. Eu sou dessa segunda geração e já estão na sexta geração, agora.

Então, eu fui fazer outras paradas em termos de artista, de criação artística. Mas, ao mesmo tempo, é um lugar que eu gosto muito de estar. Eu continuo frequentando muito nesses últimos anos.

De alguma forma, tentei elaborar bastante a reflexão sobre a cena na dissertação. Acho que é uma forma de agradecer também esses anos todos de trajetória. É um trabalho que é a primeira parte é bastante dedicada a pensar historiografia do slam nos Estados Unidos. Eu traduzi muita coisa que não está disponível em português.

Também analiso quatro poemas da Luz Ribeiro, de Pieta Poeta, do Beto Bellinati e da Ana Roxo. Pensando como que essas questões todas vão para o corpo do poema. Porque, muitas vezes, quando a gente fala de slam, a gente só faz uma abordagem antropológica ou socializante, sendo que a gente está falando de poesia. E eu acho que ler esses poemas também na sua potência estética, o que eles têm de disruptivo, no que eles propõem de linguagem, no que eles contestam em toda uma tradição literária brasileira, isso é muito potente também.

São Paulo SP 29/09/2023 Luiza Romão vencedora do Prêmio Jabuti  2022.  Foto Paulo Pinto/Agência Brasil
São Paulo SP 29/09/2023 Luiza Romão vencedora do Prêmio Jabuti 2022. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil – Paulo Pinto/Agência Brasil

 

Edição: Sabrina Craide

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