Palestra e Discursos

Intenção e Gesto

(Discurso pronunciado por Silvestre Gorgulho
por ocasião da entrega do Prêmio Qualidade Verde
para a Folha do Meio Ambiente, em 29 de setembro de 1998, em Brasília)

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Meus amigos,


O mundo está cheio de intenções.


Aliás, está cheio de boas intenções. Mas o mundo está carente de gestos.


Gostaria de ler para os senhores um editorial da Folha do Meio Ambiente, que tem uma importância histórica: foi escrito há onze anos. Na primeira página da primeira edição do primeiro jornal. E o título era justamente INTENÇÃO E GESTO. Ei-lo:


n O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é o detentor da inscrição número 2 nos arquivos do Tombamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ostenta, ainda, a condição de primeiro Jardim Botânico das Américas. E, oportuno lembrar, reúne o mais rico acervo florístico dos trópicos.


n Vizinho da quarta maior rede de comunicação do mundo, ancorado bem no coração da Cidade Maravilhosa, o mais tradicional centro cultural do País, visitado por todas as personalidades mundiais que aportam no Brasil, e, principalmente, guarnecido por um dos mais atuantes e incisivos exércitos de “Verdes” deste hemisfério, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro exibe, com justiça, a aura de um Santuário. A mística do exemplo.


n Pois bem, o exemplo se desmistifica e o Santuário se conspurca. No Jardim Botânico, as majestáticas palmeiras imperiais escondem um câncer: um riacho, que nasce límpido nas matas do Parque Nacional da Tijuca e que, cristalino, adentra os limites do Jardim, ali se polui, indo desaguar poucos metros fora dos seus limites, na Lagoa Rodrigo de Freitas, com sua carga de culpa e frustração. Poluído que está por esgotos da rua Pacheco Leão e por mais de três mil invasores, habitantes de 530 residências que intrusamente se instalaram ao longo dos últimos anos, mercê da negligência do Poder Público e do beneplácito de parte da sociedade e dos políticos, no mínimo equivocados.


n As contradições do Jardim Botânico do Rio são praticamente as mesmas de toda a questão ambiental no Brasil. São as mesmas contradições que afetam os Parques Nacionais, as Estações Ecológicas, as Áreas de Preservação, as Reservas Nacionais. E as lições que elas encerram estão aí para serem debulhadas e aprendidas por todos nós.


n É preciso cessar a prática de dois pesos e duas medidas, que conduz a um imobilismo danoso ao exercício democrático. Não é admissível que a sociedade delegue ao Executivo a missão de zelar pelo patrimônio ecológico e cultural e esta mesma sociedade – através de seu braço político – impeça esta missão em nome de uma filantropia imediatista e eleitoreira, que favorece a bem poucos.


n Num País de dimensões continentais, de fantásticos recursos naturais e humanos, não se pode aceitar que a solução de problemas sociais localizados se dê através da criação e manutenção de uma dificuldade política que contamina a ação do poder público. Perderemos todos.


n Cumpre, pois, a toda a sociedade e às instituições que ela mesmo erigiu e a quem confiou poder específico, resolver estas contradições.


E o texto termina: A vitória está em que se reduza a dura distância entre INTENÇÃO E GESTO.


Pois bem, esta terrível situação impera ainda hoje, com mais invasões e mais poluição no Jardim Botânico do Rio. E quantas situações idênticas à do Jardim Botânico do Rio de Janeiro nós temos por aí? Aqui, mesmo, em Brasília e por este Brasil a fora?


Vejam bem, está aí a Lei contra os Crimes Ambientais conspurcada por interesses vários. Estão aí as queimadas, as biopiratarias, os esgotos que teimam em chegar brutos, sem nenhum tipo de tratamento, ao rios que vão dar de beber as cidades seguintes, numa cascata de sujeira e abandono. Estão aí os interesses pessoais e de indústrias que buscam apenas o lucro.


É hora de estabelecer um convívio permanente, salutar, com a correta e consciente utilização dos recursos naturais. É hora de fazer e de seguir regras claras que considerem e respeitem a disponibilidade e vulnerabilidade da Natureza.


Felizmente, algumas luzes se acendem nesta escuridão: o próprio Prêmio Qualidade Verde criado pela Secretaria de Meio Ambiente do DF, como os trabalhos específicos que são aqui hoje premiados feitos pela SKOL, pela CAESB, pelo SESI e pelo Edgar Hiroshi são luzes. E são gestos. Grandes e eloqüentes gestos. Gestos que falam, que mostram, que despertam e, principalmente, gestos que ensinam uma verdade: ninguém deve deixar de fazer por só poder fazer muito pouco.


Muito grato

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Palestra e Discursos

A fonte jornalística

(Palestra pronunciada pelo jornalista Silvestre Gorgulho durante o encontro INDÚSTRIA E MEIO AMBIENTE para jornalistas especializados em temas ecológicos e ambientais,
na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, em 28 de maio de 2003)

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O que é uma fonte
jornalística?
É justamente
onde nasce a informação. Uma
fonte pode ser qualquer pessoa, documento,
livro, organização ou entidade
que produz uma informação e
a repassa ao jornalista para que seja feita
ou para que seja aprimorada uma notícia.

O jornalista tem vários
objetivos ao procurar uma fonte: ele busca
informes seguros para checar uma informação,
busca dados para credenciar seu trabalho e
busca detalhes para qualificar suas matérias.

E tudo isto com uma finalidade
única: atender a demanda de informação
de cada cidadão e da sociedade em geral,
nos mais variados campos da atividade humana.

Não existe uma cadeira
específica na universidade sobre fontes
de informação e muito menos
uma cadeira só para fonte jornalística
em meio ambiente. E não conheço
nenhum manual específico.

O porquê é simples.

A grande virtude para que um
jornalista se torne um bom profissional de
imprensa é o bom senso. Aliás,
não só na atividade jornalística,
mas em qualquer atividade o bom senso deve
estar em primeiro lugar.

O bom senso, acrescido da experiência
e da boa formação são
os elementos seguros para um trabalho de excelência.

Do lado do jornalista: o tema
pode ser meio ambiente, pode ser política,
pode ser economia, pode ser polícia,
pode ser educação ou esporte.
O comportamento profissional e pessoal do
jornalista com sua fonte vai ser igual. Muda
apenas o assunto.

O que vai estar envolvido nesta
relação é a confiança,
a ética, troca de gentilezas, troca
de informação, civilidade, exercício
de poder e tanta coisa mais que só
o discernimento de cada um vai impor os limites.
Não dá para se fazer um manual
de consciência profissional. É
tudo questão de bom senso.

O mesmo se pode dizer em relação
às fontes. O tema também pode
ser qualquer um e o comportamento profissional
e pessoal da fonte com o jornalista vai ser
igual. Muda apenas o assunto.

Jornalistas e fontes têm
suas responsabilidades.

E vale acrescentar um detalhe
que considero muito importante: a responsabilidade
do jornalista é muito maior do que
a da fonte.

Por vários motivos: primeiro,
porque na grande maioria das vezes as fontes
gostam de ficar no anonimato e aí o
jornalista que assina a matéria tem
que bancar a informação. E no
anonimato a fonte pode muito bem puxar a brasa
para seus interesses profissionais ou pessoais.
Pelo menos pode dar uma versão e usar
de meias verdades que vão ajudar a
ela, a seu grupo político, a sua empresa
ou a sua instituição.

A fonte pode estar ressentida
e usar suas informações –
em ON ou em OFF – também apenas
para denegrir ou tirar vantagens (seja
moral ou financeira)
na publicação
da matéria. Veja bem como a situação
é delicada. Mesmo ressentida, às
vezes, é uma informação
de grande interesse da sociedade e sua publicação
é importante. Os exemplos são
muitos, desde ex-mulheres que denunciaram,
por ressentimento, as negociatas dos anões
do orçamento (deputados da Comissão
Mista do Orçamento que aprovaram emendas
e tiraram proveito financeiro das empreiteiras)
o caso PC Farias (governo Fernando
Collor)
até o caso dos fiscais
do Rio de Janeiro (grupo de fiscais liderados
por Silveirinha que chantageou empresas e
depositaram milhões de dólares
na Suíça)
.

Neste caso o jornalista é
detetive e juiz de uma mesma peça.

Por isso, repito, a responsabilidade
do jornalista
– por ser coadjuvante
e protagonista de uma mesma história
– é muito mais importante do
que a responsabilidade da fonte.

E mais: ele não trabalha
só com dados e conceitos, mas com todos
os significados para onde apontam os dados
e os conceitos. Ao decodificar os dados, ao
editar as imagens, o jornalista acaba por
levar o leitor ou o telespectador a pensar
como ele.

Outra coisa: todo mundo sabe
que a informação produzida vai
muito além do primeiro receptor. Dependendo
do veículo, o efeito multiplicador
é fenomenal.

De tudo que li, que tentei lembrar
da minha experiência de 30 anos de jornalismo,
resolvi resumir tudo sobre fonte e jornalista
num DECÁLOGO.
A Bíblia é a Bíblia porque
tem peças como o Decálogo: simples,
didático e direto. Então nesta
linha da simplicidade e da didática,
dei uma de Moisés e escrevi os 10 mandamentos
que devem nortear a relação
entre o jornalista e sua fonte. Acabei gostando
por achá-lo curto e grosso.

Os DEZ MANDAMENTOS
que devem nortear a relação
entre o jornalista e sua fonte

1 – Da responsabilidade
O jornalista é
o grande instrumento para a nobre função
de democratizar a informação.
E a boa informação requer responsabilidade
do profissional de imprensa e da fonte de
informação.

2 – Da reciprocidade
Quanto mais o jornalista
se mostra isento e competente, mais ele ganha
a confiança da fonte; E quanto mais
a fonte se mostra isenta e competente, mais
ela ganha a confiança do jornalista.

3 – Do saber –
Quanto mais complexo for o assunto, mais o
jornalista deve se dedicar ao tema e mais
paciente e didática deve se comportar
sua fonte.

4 – Do bom entendimento
Tanto quanto a fonte
de informação, o jornalista
deve usar linguagem adequada, objetiva e clara.

5 – Do enquadramento
O jornalista e a fonte
de informação devem compreender
as limitações de tempo e de
espaço dos meios de comunicação.

6 – Da humildade
Nem o jornalista em relação
à fonte e nem a fonte em relação
ao jornalista devem assumir atitudes de superioridade
entre si e muito menos em relação
ao leitor e espectador.

7 – Da excelência
O bom profissional de
imprensa e a boa fonte buscam sempre material
de suporte técnico como pesquisas,
clipping, sites e artigos para a construção
de uma reportagem perfeita.

8 – Do diga-me
com quem andas… –
Um
jornalista isento, íntegro e criterioso
terá sempre fontes também isentas,
íntegras e criteriosas.

9 – Da abrangência
A diversidade de opinião
e de fontes assegura a pluralidade da informação
que é fundamental para a qualidade
final da reportagem.

10 – Da Cidadania
O bom profissional de
imprensa e a boa fonte devem seguir e obedecer
sempre as duas linhas mestras que norteiam
toda e qualquer atividade humana: a ética
e a estética de suas ações.

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Palestra e Discursos

Prêmio José Aparecido de Oliveira

Discurso de Silvestre Gorgulho, Secretário de Estado da Cultura do DF, durante entrega do Prêmio José Aparecido de Oliveira, no Museu Nacional de Brasília.

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     Depois da odisséia empreendida por José Aparecido de Oliveira na luta pela preservação de Brasília, conquistando da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade para uma cidade de apenas 27 anos, chegamos a um segundo momento: o governador José Roberto Arruda, ainda pela força e história de vida do ex-governador, marca sua posição pela legalidade e pelo respeito ao tombamento conquistado ao instituir o Prêmio José Aparecido de Oliveira.


 O prêmio será oferecido anualmente em reconhecimento àqueles que tenham ações voltadas para o estudo e preservação de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade.


 Eu pessoalmente – e o próprio governador Arruda,  como seus secretários – acompanhamos de perto toda luta e determinação do Zé Aparecido em defender Brasília.


Não foi fácil. Chego a afirmar que esta luta pela preservação custou-lhe o governo de Brasília e a volta para o Ministério da Cultura.


Por quê?


 Aparecido brigou muito, mas não deixou retalhar o solo do DF em loteamentos irregulares. Abriu o Lago para a ciclovia e derrubou muitas cercas-vivas de poderosos para fazer as calçadas –  sim, no Lago Sul não havia calçadas.


E culminou com a defesa máxima do Plano Piloto ao conseguir da Unesco, em 7 de dezembro de 1987, o seu Tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade.


 Interesses foram contrariados. Zé Aparecido era uma muralha contra a indústria das invasões, os puxadinhos, a mudança de gabarito, troca de destinação de área, contra o sétimo pavimento e o retalhamento das terras públicas.


 


Aparecido promoveu as primeiras eleições no Distrito Federal em 1986. Mas não conseguiu segurar a campanha promovida contra ele para liberar a especulação imobiliária. Uma especulação pelo dinheiro fácil e pela politicagem em busca de votos. 21 anos se passaram.


 Coube ao governador José Roberto Arruda dar uma freada de arrumação. Teve a coragem de abrir feridas expostas pela omissão e pelo populismo: implodiu prédios irregulares e abandonados, combateu a ocupação irregular do solo de ricos e pobres, regularizou condomínios, colocou fim no transporte pirata e, agora, dá uma lição eterna: pelo Prêmio José Aparecido de Oliveira valoriza as ações anuais em defesa de Brasília.


 A verdade é que Brasília, como diz Maria Elisa Costa, não é capital nem da Suécia e nem da Finlândia. É capital do Brasil, com todos os nossos problemas de distribuição de renda, de educação, de pobreza e de migração.


E todos estes problemas estão no âmago de uma cidade de apenas 48 anos. São 48 anos de muitos sonhos, de alguns pesadelos, imensas esperanças, mas com uma realidade mais forte em ações positivas do que negativas.


 Se Brasília fosse, ainda, a bucólica aldeia dos anos 60, a pequena cidade dos anos 70 sem semáforos e engarrafamentos, se fosse apenas uma cidade de funcionários públicos, embaixadas e serviços especializados, estaria hoje com os seus 500 mil habitantes programados. Com certeza, seria um oásis dinamarquês na imensidão de tantos Brasis pobres e esquecidos.  


Não! Brasília é Brasil com todos seus problemas, violências, lutas, diversidades, riquezas e pobrezas, alegrias e tristezas. Não são os 500 mil programados, mas 2 milhões e meio a pedir oportunidades. Muitos a pedir moradia e emprego. Alguns pão e água.


 O Prêmio José Aparecido de Oliveira é a oportunidade de uma reflexão: se Brasília significou a interiorização da economia, a ocupação do Centro-Oeste e a produção de mais de 50%  da colheita de alimentos do Brasil, Brasília como metrópole também significou o adensamento como porto seguro e inseguro de brasileiros de todos os cantos.


 Esta é nossa missão: harmonizar o desenvolvimento, a migração e a oportunidade de ocupação com qualidade de vida e bem estar.


 Para terminar, até em homenagem a Oscar Niemeyer que acaba de nos visitar e que hoje completa 101 anos, deixo nas palavras do Mestre a ultima homenagem a Zé Aparecido:


 “Quando soube da morte do Zé Aparecido, passou diante de mim um filme-relâmpago. E me lembrava do Aparecido a declarar, quando tomou posse: – Vou governar com os olhos do Oscar. Durante todo seu governo, mantive o prazer de conhecê-lo melhor. Lembro-se que até meu medo de avião consegui controlar. Vinha a Brasília de 15 em 15 dias para colaborar um pouco.


Um dia, visitando seu sítio em Miguel Pereira, ele me disse: – Oscar, eu tinha vontade de construir uma capela. Um presente para minha filha Maria Cecília. Ali mesmo desenhei a igrejinha, toda branca com um pequena cruz na cobertura. E, para agradá-lo, eu mesmo fiz o altar. Não sei por quê, estudei a iluminação da capelinha de forma que de noite apenas a cruz aparecia sozinha a flutuar entre as árvores do jardim…”


 Pois é, Oscar, dona Leonor, Maria Cecília, Zé Fernando, Virgínia, Fernandinho e todos os premiados…


Pois é, governador Arruda, Dr. Bigonha, Evelise Longhi, Carlos Magalhães, Paulo Castelo Branco e Fernando Andrade…


Pois é, Beto Sales, Elaine Ruas, Rosa Coimbra, Luiz Mendonça e toda equipe da Secretaria de Cultura que com tanto carinho preparou esta celebração… Pois é, Alfredo Gastal, Vincent Defourny, Jurema e todos os amigos aqui presentes…


 Nós aqui estamos como a cruz da Igrejinha Santa Cecília, lá do sítio do Aparecido, em Miguel Pereira.


Estamos sozinhos a flutuar entre as árvores e jardins desta fantástica cidade-parque que só precisa de nós mesmos para ser defendida, preservada e amada.


 

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Palestra e Discursos

Minha primeira professora

Saudação à Dona Maria Penha Sacramento, minha primeira professora.

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A homenagem hoje é para a professora dona Maria da Penha Sacramento Silveira.
Dona Penha, filha da professora dona Nhá Nhá, que no início do século ensinava graciosamente as crianças de sua terra.
Dona Penha, irmã das professoras dona Antônia, dona Eunice e dona Ída.
Dona Penha, tia das professoras Ângela e Aurinha (Aurinha minha colega de primário no Colégio Santa Úrsula) e tia das professoras Vera, Regina, Maria Lúcia, Dina e Ída.
Dona Penha, mãe da professora Flávia.


Ensinar é missão de líderes e de deuses. Jesus só fez ensinar. Sócrates, Platão, Confúcio, Aristóteles, os Apóstolos, Ghandi, Padre Anchieta, Padre Antônio Vieira, Madre Thereza de Calcutá, todos ensinaram. Todos eram um pouco deuses. E minha primeira professora também era um pouco deusa. Deusa e mãe.


Fiz absoluta questão estar aqui em São Lourenço, hoje, para homenagear a minha primeira professora, dona Maria da Penha, de cujas aulas, no antigo Colégio Santa Úrsula, me lembro em detalhes.


No dia 28 de fevereiro de 1998 aconteceu a formatura dos cursos de Administração e Pedagogia da Faculdade Santa Marta. Não pude comparecer, mas enviei uma mensagem aos formandos bem simples que dizia:


Deus é três: Padre, Filho e Espírito Santo.
O diabo é dois: a televisão e a preguiça.
O futuro é uma coisa só: a educação.


Quando deixou a presidência dos Estados Unidos, Lindon Johnson disse no discurso de despedida:


É mais fácil governar uma nação do que educar duas filhas.


Mas muito mais difícil ainda deve ser educar os filhos que não são seus filhos.


Por isso o magistério é uma segunda maternidade. E, neste aspecto, a família Sacramento, é um exemplo. Desde dona Nhá Nhá, passando pela mais nova sobrinha-professora de dona Penha, Ída, até a filha-professora, Flávia, a família Sacramento vem promovendo essa corrente de ensino, fazendo da grande maioria da população de São Lourenço seus filhos.


E eu me considero um deles.


O segundo instante mais importante da vida, depois do nascimento, é quando a mãe deixa o filho na porta da escola, do pré-escolar, do jardim de infância, e o entrega à primeira professora. Começa a preparação para a difícil disputa na arena da vida.


Aquele adeus é um segundo parto. Daí as lágrimas escondidas da mãe e o choro desamparado do filho.


A partir dali, a criança fica logo sabendo que o mundo é muito maior. Aquela mulher, que a criança vê pela primeira vez, é outra mãe. A mãe da aula. A mãe do recreio. A mãe do lanche. A mãe do dia e, às vezes, a mãe da semana inteira.


A criança só não percebe ainda uma coisa: que aquela outra mãe, quanto mais o tempo passar, mais ela será lembrada.


Por mais que a vida dê voltas e saltos, aquele primeiro sorriso no rosto, aquele primeiro pegar nas mãos com paciência e ternura, aquelas primeiras palavras de afeto e de consolo são para a vida inteira.


É por isso que a literatura e as artes, os livros e as músicas, estão cheios de lembranças e saudades, carinho e gratidão, depoimentos e homenagens comovidas à primeira professora. Ela se torna inesquecível.


E nem sempre é lembrança de lição. Quase sempre é a lembrança de emoção. Mais do que a lembrança do que aprendeu, fica é a lembrança do que comoveu.


Foi um conselho, uma advertência, às vezes um castigo, um texto para estudar, um poema para decorar, um livro para ler. Sempre um gesto além da lição que ficou pendurado na alma, como um sino eterno.


Apesar de aos doze anos ter deixado São Lourenço para estudar fora, tenho muitos sinos pendurados em minha alma. Sinos que badalam e trazem sempre ecos felizes da imagem, do sorriso e dos ensinamentos que recebi de minha primeira professora.


Verinha Bittencourt, Aurinha Jardim, Maria Cecília, Felipe Gannam, Elizabete, Ana Maria (Nina), Nelson, Guido, Luis Antônio, todos meus ex-colegas aqui presentes devem sentir a mesma coisa. Por ter ficado ausente desde 1958, minha emoção é maior ao saudar, nesta noite, minha querida e inesquecível primeira professora Dona Maria da Penha. Foi ela quem me abriu as primeiras portas para a vida.


Como na propaganda, posso garantir de cadeira: a primeira professora a gente nunca esquece. Sobretudo quando ela é dona Maria da Penha Sacramento, irmã de minha segunda professora, dona Eunice Sacramento, filhas de dona Nhá Nhá, cuja alma de mestra, de professora e de deusa é o gen do ensinar e do saber de uma família passando de geração em geração.

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