Entrevistas

Klaus Toepfer – Esporte e meio ambiente

O Gol verde da Copa do Mundo

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O Gol Verde da Copa da Alemanha


Klaus Toepfer  – Entrevista exclusiva


Silvestre Gorgulho, de Brasília



A grande indústria da saúde, do prazer e da paz chama-se esporte. O grande formador do caráter, da disciplina, da cooperação e da coragem chama-se esporte. A grande força da educação chama-se prática esportiva, pois desenvolve o corpo, a mente e alimenta o espírito de solidariedade, de respeito e de valores éticos. O esporte favorece a consciência do bem para o indivíduo e para o grupo. A competição sadia e o esforço para ultrapassar limites molduram corpo e espírito.


Nesse partilhar emoções, o esporte favorece as relações entre os povos e é um do mais fortes instrumentos para fortalecer o civismo. Em suma, o esporte significa a inclusão social, promoção da qualidade de vida e do meio ambiente. Por isso, a prática esportiva tem forte relação com o desenvolvimento sustentável. Não só na condução dos eventos e na organização dos jogos, mas também na gestão dos recursos materiais. Se muitos esportes precisam de água pura para suas promoções, todos não podem prescindir de ar puro e de ambiente saudável para o bom desempenho dos atletas e a feliz participação dos torcedores. E mais: a prática esportiva não pode nunca ser motivo de violência ou fonte de poluição.
E há outro dado fundamental. O esporte é uma alavanca econômica fortíssima. Além do segmento turismo, o esporte envolve muitos recursos na produção de equipamentos esportivos, no marketing de vendas, na construção de quadras e de estádios e nos direitos de imagem e de transmissão.


Por fazer ídolos – por sua exposição permanente em todas modalidades de mídia – e por ter poderosos patrocinadores, o esporte não é só uma atividade econômico-financeira de primeira grandeza, é também um gerador de conceitos e um fermento de civilidade e de conscientização ecológica. Tanto a nível de atletas e torcedores, em particular, como da população, em geral. Pelo esporte todas as comunidades e nações podem construir uma sociedade mais justa, mais saudável, mais alegre e mais equilibrada.


Não existe nenhuma outra atividade no mundo que tenha mais implicação na economia, no social, na política, na promoção de bens de consumo e até na segurança do que o esporte. Para se ter uma idéia desta força, é no esporte que as indústrias do mal (cigarro e bebidas alcoólicas) vão buscar parcerias para “encantar” seus produtos. É no esporte dos mais variados que estas indústrias gostam de plantar, pelo marketing, a força do belo, do forte, do alegre e do prazer.


Em tempo da Copa do Mundo, quando bilhões de pessoas se postam para torcer fanaticamente pela seleção de seu país ou para ver o mais importante torneio de futebol do planeta, vale a pena estudar a relação e a força do esporte com a gestão sustentável. A Alemanha montou para a 18a Copa do Mundo um evento de grandes proporções, mas que gere pouca poluição e que seja ecologicamente correto na produção, na organização e no consumo. Esse é um programa que nasceu ainda na década de 90 e se chama Gol Verde! Nomeou até um embaixador especial, em parceria com a Fifa, para o gerenciamento sustentável da Copa: o ambientalista Klaus Toepfer.


O que é o Gol Verde
A Copa da Alemanha implantou o programa Gol Verde [Green Goal] que vai marcar posição em quatro áreas: água, lixo, energia e mobilidade. Jogada de craque. O Gol Verde fará do evento, a Copa do Meio Ambiente. São 32 seleções, com cores variadas nos uniformes e bandeiras, mas todas ostentando uma mesma cor nos seus objetivos: o verde de desenvolvimento sustentável.
“Essa é uma Copa do Mundo que quer ter não apenas um, mas vários campeões ambientais”, explica o Diretor da Divisão de Comunicação e Informação Pública do Pnuma, Eric Falt. “Pela primeira vez os cuidados com o meio ambiente terão prioridade máxima nessa competição, com objetivos claros e mensuráveis, e esperamos que a iniciativa deixe um legado”. Todo o time do Gol Verde, capitaneado por Klaus Toepfer, quer neutralizar todas as 100 mil toneladas de dióxido de carbono geradas pelo sistema de transportes, construção e manutenção dos estádios da Alemanha. E, também, pela presença dos mais de 3,2 milhões de espectadores.


Ingresso: estádio e transporte
Eric Falt explica que como parte de um plano sólido de preservação ambiental, quem comprar os ingressos para qualquer uma das partidas nos 12 estádios da Copa poderá usá-los para ter acesso gratuito ao local do jogo por meio dos transportes públicos durante 24h, de acordo com o plano de ingresso Kombi. O acordo de ingressos Kombi irá custar cerca de 2 milhões de Euros ao Comitê de organização da Copa, mas deverá evitar a emissão de vários gases causadores do efeito estufa ao reduzir o uso de veículos particulares.


Energia elétrica
Outras táticas, como a de economizar energia elétrica, estão centradas nas atividades dos estádios. Por exemplo, sistemas de gerenciamento de energia de última geração foram instalados no estádio de Munique e devem promover uma redução de 20% no consumo de energia todos os dias, sejam eles dias de jogo ou não.


Reuso de água
Além disso, o gramado do Olympiastadion entre outros estádios será irrigado por um sistema especial que capta a água da chuva, e mictórios sem água nos banheiros masculinos serão utilizados em diversos locais selecionados.


Reutilizar
Com a questão de evitar o desperdício como prioridade, os organizadores apresentaram o “Copo da Copa” reutilizável. Os espectadores farão um depósito caução de um Euro pelo copo que utilizarem e poderão adquirir um só copo em cada evento.
Hoje também foi anunciado que 300 voluntários, treinados para educar os espectadores sobre os objetivos do Gol Verde, estarão em cada um dos 12 estádios.

Conscientização
Uma brochura sobre o Gol Verde, com os logotipos das organizações que apóiam a iniciativa, que inclui o Pnuma, o Ministério do Meio Ambiente, DBU, FIFA, Deutsche Telekom, Plastics Europe, Coca Cola, Deutsche Bahn, EnBW and Total, já está disponível em estações de trem e metrô nas 12 cidades que abrigarão o torneio. A brochura, elemento chave para a conscientização do público, foi enviada nessa semana para 25.000 jornalistas em todo o mundo.
“Impactos ambientais, inclusive aqueles que causam aumento das taxas de mudanças climáticas, estão sendo cada vez mais levados em consideração em eventos esportivos. O movimento olímpico, do qual o Pnuma é parceiro atuante, já é um desses caminhos”, disse o porta-voz do Pnuma.
“O Comitê Organizador da Copa do Mundo tem sido veemente na busca das mesmas considerações para o futebol. Nós fomos encorajados tanto por seus planos quanto por seu entusiasmo e esperamos ansiosamente trabalhar com o comitê e com a Fifa, bem como esperamos atingir resultados sólidos, confiáveis e aparentes em áreas como eficiência energética, cuidado com o desperdício e economia de água”, salientou Eric Falt.






Pnuma

Klaus Toepfer, o embaixador-artilheiro do Gol Verde da Copa

Klaus Toepfer – ENTREVISTA


Silvestre Gorgulho


Um craque ambiental entrou em campo para gerenciar o programa do Gol Verde. É Klaus Toepfer, ex-ministro da Alemanha, ex- diretor executivo do Pnuma e hoje o Embaixador do Gol Verde na Copa do Mundo. Com exclusividade,Toepfer falou à Folha do Meio.


Folha do Meio – Como começou esta história de se fazer a Copa do Mundo Verde?
Klaus Toepfer –
A idéia nasceu no inicio da década de 90, quando a Federação Alemã de Futebol começou a pensar em sediar a Copa do Mundo de 2006. Questões ambientais ainda não faziam parte da lista de deveres da FIFA relacionada aos estádios. No entanto, o Comitê Organizador Local sentiu a necessidade de incluir estas questões em todos os planos desde o começo.


FMA – Como o senhor está encarando este desafio de ser o Embaixador Verde da Copa do Mundo?
Klaus Toepfer –
À medida que a Copa do Mundo se aproxima, o interesse nos objetivos e atividades do Green Goal começa a decolar. Temos uma grande entrevista coletiva (26 de maio) marcada em Berlim com a lenda do futebol alemão Franz Beckenbauer. Estou certo que isso vai impulsionar o programa Gol Verde e elevar o papel do Embaixador.
É bom lembrar que um dos desafios é trazer algum realismo para as expectativas públicas do Gol Verde. Quando se estabele um projeto desse tipo, sempre haverá aqueles que dizem “Não é o suficiente, por que você não vai mais além?!” E isso é bom, nós precisamos ser pressionados pela opinião pública e pelas ONGs. Sabemos que estamos inovando. Essa é a primeira Copa em que o meio ambiente faz parte da agenda. Acho que podemos aprender com a Copa da Alemanha para que futuras Copas do Mundo se tornem mais verdes.


FMA – O senhor jogou futebol?
Klaus Toepfer –
Como qualquer garoto que cresce em ambientes não privilegiados, jogar bola com os amigos foi um dos poucos esportes acessíveis e disponíveis. Joguei até meus 26 anos, quando perdi contato com meu clube amador, localizado perto de Hanover. Quando criança, joguei de ala, pela direita. E era bastante ágil. Com o tempo, passei a jogar no meio de campo pela direita. Finalmente acabei jogando na lateral direita, onde espero ter sido uma boa barreira.


FMA – Quais seriam os principais impactos ambientais em relação ao esporte, em geral, e ao futebol, em particular?
Klaus Toepfer –
Alguns dos principais impactos ambientais vêm na fase de projeto e nas construções.
É vital levar em consideração nessa fase a acústica ambiental como energia solar ativa e passiva, reaproveitamento da água, boas linhas de transporte público etc. Se apenas no final das obras for levado em conta tudo isso, os custos vão ser muito mais elevados. Também é importante que novas estruturas sejam erguidas em locais apropriados, com vistas ao uso sustentável pós-evento.
A operação de grandes estruturas também pode consumir enorme quantidade de eletricidade e isso contribui para a emissão de gases de efeito estufa. Também vale citar a grande quantidade de lixo gerada tanto na construção como durante os eventos.
Os grandes torneios de futebol, em termos ambientais, têm os mesmos desafios das Olimpíadas.


FMA – Como o Pnuma, o governo alemão, a Fifa e os organizadores da Copa vão agir para conseguir incorporar as questões ambientais na preparação e execução de cada jogo?
Klaus Toepfer –
Com a aproximação da Copa, o Comitê Organizador está contente em dizer que o clima de equilíbrio ambiental para todo o torneio foi alcançado pela primeira vez na história das Copas do Mundo da FIFA. É essencial que se alcance todos objetivos que foram estabelecidos: redução de 20% de energia nos estádios, 20% de uso de água e 20% de lixo.
O Comitê Organizador vai trabalhar de perto e em conjunto com os estádios, com o governo alemão, com a FIFA, com as várias industrias e parceiros de negócios, e com a UNEP para alcançar esses objetivos e para comunicar todos os esforços ao público.
Quanto às seleções, como da Alemanha e do Brasil, houve um acordo para que os jogadores e comissão técnica usem o trem para as viagens, sempre que for possível.


FMA – E em relação aos torcedores nos estádios?
Klaus Toepfer –
Folhetos do Gol Verde estão sendo distribuídos aos torcedores nas estações de trens para que eles conheçam nossas metas. Há também o incentivo ao uso dos transportes públicos. Temos um ingresso chamado Kombi. Como parte dos planos de transportes ambientalmente corretos, torcedores que adquirirem esses tickets para qualquer um dos jogos, terão acesso livre ao transporte público por 24 horas.
O compromisso do “ticket Kombi”, isoladamente, vai custar ao Comitê de Organização cerca de 2 milhões de Euros. Mas vai diminuir as grandes quantidade de gases de efeito estufa, por reduzir o uso de carros particulares. Nós esperamos que um em cada dois torcedores usem o transporte público.
Quanto ao lixo, os organizadores introduziram o re-utilizável “Copo da Copa”. Os torcedores vão pagar 1 Euro pelo copo, que vai ser o único vendido e usado para as bebidas nos campos.
Haverá também 300 voluntários, treinados para educar os torcedores em relação aos objetivos do programa Gol Verde. Eles vão estar distribuídos em cada um dos 12 estádios.
Um filmete vai ser apresentado antes de cada partida. Esse filme tem como alvo não só torcedores, mas também os jogadores durante seus exercícios de aquecimento. O filme a ser apresentado pela primeira vez, em Berlim, na semana que vem, tem o slogan “Campeões Mundiais pelo Meio Ambiente – Estamos Trabalhando Nisso”.


FMA – E haverá um programa específico para trabalhar a mídia, os jornalistas e até os patrocinadores da Copa?
Klaus Toepfer –
Essa semana 25 mil folhetos do Gol Verde vão ser entregues aos jornalistas do mundo inteiro. Apesar da grande conferência de imprensa acontecer na semana que vem, o programa vem distribuindo e atualizando as notícias regularmente.


FMA – Como é ser a primeira Copa “climaticamente neutra”?
Klaus Toepfer –
O esquema do Clima Neutro vai compensar todas as 100 mil toneladas de dióxido de carbono geradas, na Alemanha, a partir de transportes, construção e manutenção dos estádios, além de 3.2 milhões de torcedores esperados. Parte dessas emissões será compensada por projetos de carbono como a plantação de árvores e produção de energia limpa em países em desenvolvimento.


FMA – Que mensagem o senhor acha que vai ficar para os bilhões de torcedores que verão a Copa?
Klaus Toepfer –
Espero que os torcedores desta Copa lembrem-se do evento como um fantástico espetáculo responsavelmente organizado e também, que se levou muito em conta as questões ambientais. Que as futuras Copas demandem medidas ambientais mais fortes ainda.


FMA – Agora, só para nós aqui: quais seleções vão fazer o final da Copa?
Klaus Toepfer –
Que pergunta! Meu coração espera que a Alemanha chegue lá. Mas, não será surpresa se o outro for esse mágico time do Brasil.


Maio de 2006


 


Summary


Klaus Toepfer – INTERVIEW
Klaus Toepfer is the former Executive Director of the United Nations Environment Programme (UNEP) and Green Goal Ambassador for the FIFA World Football (Soccer) Cup


The Idea
The idea was born in the early 90’s when the German Football Federation first thought about bidding for the 2006 FIFA World Cup. Environmental questions were not a part of the FIFA booklet of duties that is binding for the stadiums, but the Local Organizing Committee felt a need to include this issue in the overall plans from the very start.


The challenges
As the 2006 FIFA World Cup gets ever closer to kick off, the interest in the aims and activities of the Green Goal are really beginning to take off. We have a big press conference scheduled in Berlin (26 May) with German football legend Franz Beckenbauer.
I am sure that this will propel Green Goal and the role of the Ambassador to increasing heights. Let me add that one of the challenges is to bring some realism to the public expectations of the Green Goal. When you establish such a project there will always be those who say “It is not enough, why do you not go further?” And that is good, we need to be pressed by the public and by NGOs. But, you know, we are really breaking new ground here. This is the first World Cup where environment is being put firmly on the agenda.
I think we can learn from the event in Germany so that future World Cups become ever greener.


I played football (soccer Like any small boy growing up in a less than privileged background, kicking a ball around with friends was one of the few sports available and affordable. I played regularly until about aged 26 when I lost touch with my amateur club based in a small village not too far from Hanover. As a child, I played on the right wing and I was pretty fast. As the years progressed I switched first to right midfield and then finely right defense where I hope I was pretty tough and impregnable!


Environmental impacts
Some of the main environmental impacts come in the design and construction phase. It is vital that environmentally sound design, like passive and active solar, water recycling, good public transport links and so on, is factored in at the outset. Otherwise it can become much more expensive if added in at the end. It is also important that new structures are sensitively sited and that there is an eye on their sustainable use post the event they were built and designed for.
The operation of massive structures and buildings can also consume huge amounts of electricity and this adds to greenhouse gas emissions. There are also the large quantities of waste generated both in the construction phase and when large numbers of crowds are gathering to watch events or a match.
I think big football tournaments are really no different in terms of environmental challenges than say the Olympics.


Partners
As we’re approaching the tournament, the Local Organizing Committee is happy to say that climate neutrality for the overall tournament has been achieved – a first in FIFA World Cup history. Now it’s vitally important to reach the goals that were set for the stadiums – 20% less energy in the stadiums, 20% less water use, 20 % less trash The Local Organizing Committee will work in close cooperation with the stadiums, the German government, FIFA, the various industry and business partners and UNEP to reach these goals and to communicate all efforts to the public.
In terms of the teams, some like Germany and Brazil, have committed themselves to using the train as much as possible for traveling to venues.


Cup of the Cup
Our Green Goal brochure is being made available to fans at train stations so they know our aims. Other measures include encouraging fans to travel by public transport. We have a thing called a Kombi ticket. As part of an environmentally sound transport plan, fans purchasing tickets for the matches in the 12 World Cup venues will be able to use them for free access to local public transportation during 24h, as part of the Kombi ticket scheme.
The Kombi ticket commitment alone will cost the World Cup 2006 Organizing Committee some two million Euros, but should save large amounts of greenhouse gases by reducing private car use.
Indeed we hope every second fan will arrive and depart from matches on public transport. With the issue of waste avoidance foremost on their minds, the organizers have also introduced the reusable “Cup of the Cup”. Fans will pay a deposit of one Euro for the cup which will be the only one sold and used for drinks at the grounds. There will also be 300 volunteers, trained to educate fans about the aims and objectives of Green Goal, located inside each of the 12 stadia.


Journalists
This week 25,000 of the Green Goal brochures are being delivered to journalists world-wide and, apart from next week’s big press conference, Green Goal has been issuing regular press releases and updates.


Climate Neutral
The Climate Neutral scheme will offset all 100,000 tonnes of carbon dioxide generated within Germany by transportation, construction and maintenance of the stadia, and the presence of 3.2 million expected spectators.
Part of these emissions will be offset by carbon friendly projects like tree planting and clean energy schemes, in developing countries.


Future Word Cups
I hope the fans watching the 2006 FIFA World Cup will remember the event as a fantastic spectacle that was well and responsibly organized and that part of that responsibility extended to the environment in meaningful and verifiable ways. And that fans at future World Cups will demand ever stronger environmental measures.


Final Match
What a question!! My heart hopes for Germany to be there and my head tells me that, not surprisingly, the other team will be the wizards from Brazil!!


 

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Entrevistas

Johan Dalgas Frisch – Entrevista sobre a ave símbolo do Brasil

O sabiá tem o espírito brasileiro

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Sabiá é a ave símbolo do Brasil
Poetas, escritores e ornitólogos pedem o sabiá como a ave nacional do Brasil

Silvestre Gorgulho, de São Paulo

O engenheiro e ornitólogo Johan Dalgas Frisch, presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem, em nome da diretoria da APVS, veio a Brasília trazer um estudo ao ministro José Carlos Carvalho, do Meio Ambiente, e fazer um pedido muito especial: a indicação do sabiá (Turdus rufiventris) como ave nacional do Brasil. O documento entregue ao ministro era assinado, além de Dalgas Frisch, pelo vice-presidente da APVS, jornalista Ciro Porto, e pelo diretor da entidade, Rogério Marinho, da Rede Globo. Nesta entrevista exclusiva à Folha do Meio Ambiente, Dalgas Frisch explica a importância sócio-cultural do pedido. Antes de conferir a entrevista, vale a pena conhecer esse empresário que faz da vida uma luta em prol dos pássaros.

Quem é Dalgas Frisch
Dalgas limpa o ar e água para proteger as aves O industrial Johan Dalgas Frisch retira do negócio da limpeza de ar e da água o fôlego financeiro para patrocinar sua paixão passarinheira

O brasileiro Johan Dalgas Frisch pertence a uma genuína família de ecologistas. Seu bisavô materno foi influente na Coroa dinamarquesa porque conseguiu transformar uma vasta região desértica daquele país em uma imensa floresta, contando com a única tecnologia disponível na época, os arados puxados por bois. Ele inventou um tipo diferente de arado, puxado não por um, mas por 12 bois. Era o único capaz de quebrar a superfície dura do solo, resultado de muitas queimadas. Rompida a crosta, as raízes das árvores podiam se desenvolver e em poucas décadas uma grande floresta estava de pé. Já seu pai, o pintor Svend Frisch, amigo de Pablo Picasso, não vacilou diante da oportunidade de mudar da Dinamarca para o exótico Brasil. Aqui, formou família e desde que o filho Dalgas, aos seis anos de idade, revelou seu amor pelas aves, o pai não parou mais de pintá-las. Ao longo de quatro décadas, Svend desenhou cerca de dois mil exemplares de aves, coletados pelo próprio Dalgas ou emprestados de algum museu ou colecionador particular. Em 1964, pai e filho publicaram a primeira edição do livro Aves Brasileiras. Obra atualizada em 1981, ainda hoje constitui o mais detalhado manual de identificação das espécies ornitológicas existentes no País.

Ainda nos anos 60, Dalgas Frish estava na divisa dos estados do Paraná e São Paulo fazendo exatamente o mesmo que tem feito desde que se conhece por gente. Mas ao ser avistado por alguns militares com seu “arsenal de passarinheiro” – gravadores, microfones, antena parabólica, máquina fotográfica – foi imediatamente confundido com um espião. Por sorte, sua personalidade cativante logo desfez o mal-entendido e como seus pequenos amigos de asas, pôde continuar livre para alçar novos e mais altos vôos.

Como se vê, a família Dalgas tem muitas histórias para contar, enredos que têm a natureza como pano de fundo e que misturam situações curiosas, comoventes e até engraçadas, mas que ainda não mereceram o devido registro. As aves, ao contrário, estão minuciosamente retratadas em livros e discos, de uma beleza tocante e acabamento impecável, editados pelos próprios Dalgas. Um exemplo é a encantadora obra Jardim dos Beija-Flores (1995), que foi acolhida com entusiasmo até por chefes de estado, como Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos.

Inspirado pela companheira do “passarinheiro”, Birte, o livro sobre os beija-flores proporciona uma grata surpresa, pois ensina como aquelas delicadas criaturas podem ser permanentemente atraídas até para uma humilde sacada de um apartamento situado numa grande cidade. O leitor também se emociona ao tomar contato com as fotos de uma centena de beija-flores, trabalho feito em doses exatas de técnica e paixão pelo filho de Dalgas, Christian, co-autor do Jardim dos beija-flores.

Ainda na década dos 60, foi lançado o disco Cantos das aves do Brasil, trabalho pioneiro na América do Sul e aclamado pela Rádio BBC de Londres. O disco vendeu milhares de cópias e acabou inaugurando uma série que hoje é composta de quase 20 volumes. Na época de lançamento do primeiro disco, Assis Chateaubriand, dono de um império de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, teve a idéia de mostrar o trabalho de Dalgas para Walt Disney.

“Graças ao Chatô, que me tratava como um filho, fui para os Estados Unidos viver mais esse episódio. A parceria não deu certo porque Disney queria os cantos das aves sem mencionar que eram brasileiras. Achei isso um abuso. Também discordávamos quanto a um ponto essencial: Disney queria compor novas músicas a partir do canto dos pássaros. Nos meus discos, eu junto músicas já existentes, que normalmente têm por tema as alegrias e tristezas humanas, com o canto dos pássaros, que são sempre de perpetuação e celebração da vida. É o casamento perfeito entre esses dois reinos”, acredita Dalgas.

A entrevista com DALGAS FRISCH

O que significa uma ave nacional?
Dalgas Frisch –
É justamente o retrato vivo de um país, de sua gente e de sua cultura. Como a logomarca representa uma empresa, os símbolos nacionais representam a nação, seu povo e seus costumes. E para que se mantenham vivos na mente dos cidadãos, é necessário respeitá-los e difundi-los. Uma ave nacional representa a alma, o folcore e a cultura de um país. Mas só tem legitimidade quando for oficializada pelo governo.

Por que existe o Dia da Ave no Brasil e até hoje não tem nenhuma ave nacional?
Dalgas –
Foi uma falha no decreto 63.234, publicado no Diário Oficial de 12 de setembro de 1968 e assinado pelo presidente Arthur da Costa e Silva. Durante reunião que tivemos no Palácio do Planalto, o presidente Costa e Silva falou com veemência sobre o sabiá, um pássaro que deu muitas emoções a ele, na sua infância no Rio Grande do Sul.
Todos os jornais da época noticiaram o sabiá como ave nacional, tanto que o sabiá foi festejado durante décadas. Em todas as solenidades, governadores, prefeitos e diretores de escolas soltavam um sabiá de uma gaiola como símbolo de liberdade e de poesia, para motivar os jovens estudantes.
Foram feitos todos anos diplomas comemorativos ao Dia da Ave e as crianças que faziam os melhores trabalhos sobre o tema recebiam de presente passagens aéreas com todas despesas pagas para diversos lugares do Brasil como Foz de Iguaçu, Bahia, Rio de Janeiro. Tudo financiado pela Associação de Preservação da Vida Selvagem.
Há pouco tempo, um jornalista descobriu que o Diário Oficial, que publicou o decreto do Dia da Ave no Brasil, não trouxe o nome da ave. Quando o senador Jorge Borhausen foi ministro da Educação, tentou-se corrigir a falha. Bornhausen fez um ofício ao então presidente José Sarney para retificar o Decreto número 63.234 que criou o Dia da Ave. O objetivo era fazer do sabiá a ave nacional. Mas um novo erro foi cometido, pois esqueceu-se de dar o nome científico do sabiá e acabou que a correção nunca foi publicada. A verdade é que até hoje este lamentável engano ainda permanece “em berço esplêndido”.

Todos países têm uma ave nacional?
Dalgas –
Praticamente todos tem! E é muito bonito ver ave típica como símbolo de uma nação. Tal qual o hino nacional, a bandeira e os brazões. A ave nacional acaba por ser um símbolo vivo de um país.

Por que a maioria dos ornitólogos e intelectuais defendem o sabiá como ave nacional brasileira?
Dalgas –
A resposta é simples! É só fazer uma consulta nos registros do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais) sobre as músicas e letras referentes a aves no Brasil. A ave mais cantada, disparado, é o sabiá, por ser a ave mais conhecida de toda população brasileira. O sabiá vive junto às casas e até mesmo nas cidades, desde que haja um pé de laranjeira, jabuticabeira, amoreira, goiabeira, pitangueira. Na primavera, o sabiá é a primeira ave a cantar, ainda no escuro, antes do raiar do dia. Seu canto é sem dúvida nenhuma o que mais motivou poetas, músicos e escritores no Brasil.
O sabiá é uma maravilha de despertador vivo nas fazendas, nas roças e nas cidades bem arborizadas. Pelo seu canto, imagem, docilidade em viver junto às casas dos caboclos, o sabiá passou a fazer parte da vida, do sentimento dos brasileiros.

Gravar cantos de pássaros em CD é comercialmente rentável?
Dalgas –
Olha, Gorgulho, o canto de um pássaro é a perfeição da espécie. Aquele que canta mais bonito, mais melodioso vai atrair a fêmea. Mas é preciso entender que o sentimento humano é diferente.
Para que o CD seja comercialmente um sucesso é importante que, além da beleza da música, que a letra também mexa com o sentimento. Que reflita uma profunda sensibilidade. Algo nostálgico, do amor não correspondido, da dor de cotovelo, da conquista e da paixão.
Então o que funciona comercialmente é mesclar, é interagir o canto dos pássaros acompanhando as músicas dos homens. Misturar ritmos, trinados, melodias e gorgeios. Comercialmente correto, pois passarinho não compra CD…

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Dener Giovanini – Entrevista sobre tráfico de animais

Tráfico de Animais Silvestres – Um problema maior do que se imagina

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O tráfico de animais é um problema muito maior e muito mais grave do que se imagina

O terceiro maior negócio do mundo: tráfico

de Animais Silvestres

Silvestre Gorgulho – de Brasília

Tudo começou com a Sociedade Mata Viva, em 1995, no Rio de Janeiro. E tudo começou, também, com o ambientalista Dener Giovanini, formado em Letras pela UFRJ e com curso de Biologia (incompleto) pela Faculdade de Vassouras. Giovanini foi o fundador e presidente da Sociedade Mata Viva. Em 1998, fez um projeto audacioso criando uma Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres. O projeto foi tão bem estruturado, tão bem aceito e trouxe tantos resultados positivos para a sociedade que deixou de ser criatura e ficou maior que o próprio criador. O projeto ficou maior do que a própria Socidade Mata Viva e se transformou na Renctas, uma das ONGs mais citadas pela mídia mundial. Em 2001, foram mais 17 horas de mídia espontânea nas tevês e 400 matérias nos mais importantes jornais brasileiros e internacionais. Para falar desta rede que conta com a participação de 580 organizações filiadas, ninguém melhor do que Dener Giovanini, seu primeiro e único dirigente.

FMA – O tráfico continua aumentando?
Dener –
Eu acredito que hoje, no Brasil, ninguém tem condições de afirmar se o tráfico está crescendo ou diminuindo. Nem a sociedade, nem o governo. Simplesmente porque nós nunca possuímos dados estatísticos que permitisse uma comparação e que nos fornecesse um resultado confiável a respeito desse tema.

FMA – Não existe um levantamento?
Dener –
Olha, o primeiro documento sobre tráfico de animais silvestres foi produzido pela Renctas e lançado no ano passado. Somente quando fizermos a segunda versão é que vamos ter parâmetros para avaliar a verdadeira dimensão desse comércio ilegal.
Hoje isso é impossível, exatamente pela inexistência de dados anteriores ao relatório da Renctas. Podemos afirmar então, que esse relatório foi o marco zero no Brasil. Somente a partir dos próximos relatórios vamos ter condições de fazer comparações. O tráfico de animais é um problema muito maior do que se imagina. É uma situação vivenciada pelo Brasil desde a sua descoberta.

FMA – E quais as principais dificuldades para combater esse crime?
Dener –
Infelizmente as dificuldades são muitas. A começar pela nossa legislação ambiental, que precisa ser revista e alterada para que tenha uma ação realmente efetiva quanto à proteção do nosso patrimônio ambiental.
Também existem problemas com relação ao setor judiciário, principalmente no que diz respeito à aplicação das leis. Infelizmente esse crime é considerado de menor conseqüência, de menor poder ofensivo, o que provoca um certo desestímulo para a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental.

FMA – E as dificuldades operacionais?
Dener –
Essas também são grandes. A principal delas está na falta de recursos para a fiscalização. Soma-se a isso a quase inexistência de locais para destinação dos animais apreendidos. Desta forma, quando um agente ambiental apreende um animal, ele fica com um grande problema nas mãos, por não ter para onde levá-lo.
Os problemas são macros, e necessitam de soluções rápidas e eficazes. Para isso é preciso que tenhamos políticas públicas que englobem a participação de todos os setores da sociedade brasileira para resolvê-los. E é isso que a Renctas está buscando através das parcerias que vem estabelecendo.

FMA – Qual o papel do Governo nesse processo e qual o papel do cidadão?
Dener –
O governo já deu um passo extremamente importante ao reconhecer a existência desse problema. É verdade que ainda há muito a ser feito, mas nós já vemos uma mobilização por parte do Ibama, por exemplo, quando aumenta a sua fiscalização em locais historicamente conhecidos pela atuação de traficantes, como é o caso do Raso da Catarina, local onde vive a Arara Azul de Lear. Ou nas feiras livres espalhadas por todo o Brasil. Isso é um ponto bastante positivo.

FMA – A repressão é suficiente para acabar com o tráfico?
Dener –
Evidente que não. Não vamos resolver o problema do tráfico de animais silvestres somente com a repressão, porque esse é um problema basicamente cultural. Infelizmente faz parte da cultura brasileira enxergar os animais silvestres como passíveis de serem utilizados como mascote, como animais domésticos. Isso é uma herança do nosso processo colonial. Naqueles tempos os nossos índios viviam em estreito relacionamento com a fauna e esse comportamento foi absorvido pelos colonizadores.

FMA – Vamos falar do futuro. Quais as perspectivas do trabalho?
Dener –
Estamos atuando em diversas frentes. Eu gostaria de citar algumas que considero muito importantes, como o trabalho de educação ambiental que temos realizado.
Lançamos uma campanha nacional contra o tráfico de animais silvestres, que teve uma grande repercussão e foi vencedora do prêmio Ford e Conservation Internacional em reconhecimento aos resultados alcançados.
Agora estamos fazendo a segunda versão da campanha, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e Ministério do Meio Ambiente. Estamos trabalhando com órgãos do governo no sentido de estabelecer parcerias para a criação de políticas públicas, discutindo alternativas viáveis para o combate ao tráfico de animais silvestres.

FMA – Destaque alguns desses trabalhos.
Dener –
Posso destacar a realização de workshops de treinamento e capacitação para os agentes responsáveis pela fiscalização ambiental no Brasil. Nós já realizamos esse evento em 16 estados, e vamos cobrir todo país.
Esses workshops têm sido importantes por reunir todos os agentes responsáveis pela fiscalização ambiental, como o Ibama, Polícia Ambiental, Polícia Civil, Polícia Federal e a sociedade, representada pelas ONGs e pelas universidades. Em cada estado nós estamos presentes fisicamente, plantando uma semente de conscientização e criando oportunidade para uma atuação conjunta, harmoniosa e eficiente entre os órgãos responsáveis pelo controle ambiental.

FMA – É possível alguém possuir um animal silvestre legalmente?
Dener –
A lei brasileira não proíbe que você tenha um animal silvestre. Basta que ele seja oriundo de um criadouro autorizado pelo Ibama. A exigência é que este animal seja adquirido com toda a documentação e que seja nascido em cativeiro e não retirado da natureza.
Eu acredito que a criação comercial da fauna silvestre é uma boa idéia para se combater o tráfico, porém, hoje nós temos uma dificuldade muito grande nesse aspecto, por dois motivos: primeiro o governo ainda não dispõe das condições necessárias para efetuar uma fiscalização eficiente nos criadouros autorizados a funcionar pelo Ibama. São poucos fiscais e alguns desses criadouros não respeitam a lei e acabam vendendo animais retirados da natureza.
Existem muitas pessoas sérias e honestas, mas como em toda área, há aqueles que prejudicam a boa intenção dos demais. A segunda dificuldade que eu identifico na criação comercial é o altíssimo preço dos animais que estão disponíveis no mercado.

FMA – Como funciona esses preços?
Dener –
Simples, uma arara brasileira de origem legal custa em um criadouro autorizado cerca de R$ 3.500,00 a R$ 4.000,00, enquanto no comércio clandestino a mesma ave é comercializada por cerca de R$ 600,00. Isso é um desestímulo para que as pessoas possam ter acesso aos recursos naturais. Eu vejo a criação comercial ainda como uma criação extremamente elitista, ou seja, a fauna só está disponível para aqueles que tem muitos recursos para adquiri-la legalmente. Enquanto os problemas de fiscalização e de acesso a essas espécies não forem resolvidos, nós ainda teremos muita dificuldade para combater esse comércio ilegal.

FMA – A maior parte dos nossos animais é retirada da natureza para atender ao tráfico internacional. Como é possível resolver essa situação?
Dener –
A questão do tráfico de animais silvestres é um problema mundial. É evidente que o Brasil, por possuir uma das biodiversidades mais ricas do planeta, torna-se um dos países mais visados por essa atividade criminosa. Mas no mundo inteiro há espécies que são procuradas para os mais diversos fins pelos traficantes de animais silvestres, seja na África, na Europa ou nos EUA.

FMA – E o tráfico internacional?
Dener –
É bom ressaltar que a comunidade internacional também é responsável pela perda da biodiversidade brasileira, uma vez que ela é uma fomentadora desse tráfico.
As pessoas quando entram em um pet shop nos EUA, na Inglaterra ou na França, precisam saber que aquele animal que está disponível para a venda pode ter sido retirado ilegalmente do Brasil e se elas não tiverem essa consciência, a demanda vai continuar existindo e o nosso país vai continuar a perder sua riqueza biológica.
Nós temos uma fronteira enorme, é praticamente impossível impedir a saída desses animais, visto que grande parte do comércio é feito através das fronteiras secas. No Norte existe um tráfico muito grande nas fronteiras com a Venezuela, Bolívia e Peru. No Sul do país temos muita saída de animais através do Cone-Sul, como a Argentina, Uruguai, Paraguai.
Então é necessário que a comunidade internacional esteja ciente da sua responsabilidade nesse processo. Por isso, a Renctas está desenvolvendo com o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério das Relações Exteriores uma campanha com o intuito de sensibilizar e chamar a atenção da comunidade internacional sobre sua responsabilidade.

FMA – Quais são os valores envolvidos nesta atividade criminosa?
Dener –
Os números são absurdos. Nós temos espécies brasileiras, como a Arara azul de lear, que chega a ser comercializada por U$ 60 mil no mercado internacional.
Algumas serpentes raras chegam facilmente a U$25 mil no mercado de Singapura. É sempre bom atentarmos para o fato de que a lógica do tráfico é extremamente cruel: quanto mais raro for o animal, mais caro será seu valor no mercado ilegal e conseqüentemente, mais procurado. Temos o tráfico para fins científicos, conhecido como biopirataria, o tráfico para pet-shops, para criadores e colecionadores particulares. Tem até o tráfico que utiliza pedaços de animais e nesse tipo de tráfico entra o uso do animal para a indústria do artesanato ou fins medicinais.
Enfim, as variantes e os tipos de tráficos são muitos, e isso torna todas as espécies de alguma maneira passíveis de interesse para os traficantes. Um só traficante atende diversos seguimentos, ele tanto pode fornecer serpentes e escorpiões para pesquisadores estrangeiros, quanto borboletas para atender a indústria do artesanato na China.

FMA – Como todo esse lucro é distribuído na cadeia do tráfico?
Dener –
O fato é que temos um componente social muito importante. A chamada linha de frente é composta pelos apanhadores, que são as pessoas com condições sócioeconômicas muito desfavoráveis. Essa camada da sociedade é a primeira a ser arregimentada pelos traficantes. É bom ressaltar que nenhuma atividade criminosa pode ser usada para justificar um aumento de renda.

FMA – Uns são explorados e quem ganha são os intermediários?
Dener –
Isso mesmo. Os apanhadores são humildes, ganham muito pouco, mas têm papel fundamental. Êles que conhecem a região. É fácil encontrar pessoas que ganham R$0,20, R$0,50 por uma borboleta que ela captura e entrega na mão do traficante. Ou seja, ela não vai resolver o seu problema de renda e em seguida vai acabar tendo problemas ambientais, porque as espécies vão desaparecer.
Existem os intermediários, que são as pessoas que fazem o transporte da região de apanha para a região de venda, esses tem um lucro melhor. Mas o maior lucro é o do vendedor final. Principalmente das quadrilhas internacionais que atuam no Brasil, que são em torno de 350 a 400.
Assim, o grande lucro do tráfico fica nas mãos dos traficantes que têm conexões internacionais. Estamos falando de muito dinheiro. Da terceira maior atividade ilegal do mundo, perdendo só para o tráfico de drogas e armas. É um negócio que movimenta só no Brasil um bilhão e quinhentos milhões de dólares todos os anos.

FMA – E em termos de perda de biodiversidade?
Dener –
A perda é incalculável, pois uma vez que uma espécie desaparece do seu habitat, nós nunca mais teremos a chance de recriá-la, e sabemos que todos os dias nós temos muitas espécies correndo o risco de desaparecer sem que nós tenhamos sequer conhecimento da sua existência.
Toda vez que perdemos um patrimônio genético, poderemos estar perdendo a única oportunidade de encontrar a cura para várias doenças. Hoje por exemplo, produtos para hipertensão arterial são feitos com o principio ativo de serpentes brasileiras. Toda espécie tem um papel extremamente importante no equilíbrio ambiental.

FMA – Existe risco para a saúde ter animal em casa?
Dener –
Os riscos são muito grandes. Qualquer espécie possui microorganismos dentro de si. Uma vez que ela é retirada do seu habitat, a mesma passa por um processo de estresse muito grande e pode transmitir uma série de doenças ao ser humano, como a febre amarela, doença de chagas, leishimaniose, etc. Inclusive doenças desconhecidas da medicina, que são chamados de vírus emergentes.
No Brasil, nós já tivemos vários casos de hantavírus transmitidos por animais silvestres. Assim, quando uma pessoa leva para casa um animal de origem ilegal, ela está expondo sua família a um risco muito grande. Mais do que se pensa .

 

 

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Entrevistas

Maria Reis: o alimento melhor e mais barato não está só no supermercado

A fome e a doença no Brasil têm jeito

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em

MARIA REIS – ENTREVISTA

O que o pobre tem que entender é que o alimento não está
apenas no supermercado e o remédio não está só na farmácia

Silvestre Gorgulho, de Brasília

Há alguns ano s, entrevistei a professora Maria Reis(a direita na foto) para uma matéria sobre alimentação na Folha do Meio Ambiente. E essa educadora me chamou muita atenção pelo seu trabalho nas salas de aula e no campo. Por onde passa, ela mostra que a fome e a doença no Brasil têm jeito, pois a natureza dá tudo o que precisamos. Só tem um senão: o povo é orientado a ir buscar alimento apenas no supermercado e remédio só na farmácia, sem saber que brota do chão uma variedade enorme de produtos para os seus males. Principalmente para o pior deles: a fome. E a professora Maria Reis é sempre uma inconformada, pois ela não aceita que um País que tem a maior diversidade de plantas do planeta, essa imensa extensão de terras férteis, a maior reserva de água doce do mundo, condições naturais favoráveis à agricultura pode ainda ter gente que padece de fome. Não basta o governo virar um supermercado dos miseráveis, colocando-se paternalisticamente à disposição de quem tem fome. É fundamental que o governo seja um agente que possa levar as condições para que essas pessoas possam matar a fome dignamente. Por suas próprias mãos. Vale a pena conferir esta entrevista com a professora Maria Reis, uma candanga que nasceu aqui perto de Brasília. Ela é de Morrinhos, em Goiás, e autora de dois livros: “Educação Alimentar” e “As Plantas Medicinais”.

Em primeiro lugar, por que essa sua ligação com o campo?
Maria Reis –
A origem está na minha infância em Morrinhos, interior de Goiás. Sempre quando terminava as aulas na escola, começava o aprendizado da terra. Era assim que, desde muito cedo, eu e meus 8 irmãos aprendíamos com meu pai os segredos da natureza e o amor e o respeito por ela. Ele jamais admitiu que destruíssemos uma planta. Também nos ensinou a aproveitar todas as sementes. Com minha mãe aprendi a aproveitar as dádivas da terra, que tem muito mais para oferecer do que muita gente pode imaginar. Foi ela quem me ensinou a cozinhar, a preparar alimentos alternativos, aproveitar integralmente os vegetais, utilizar as plantas medicinais. Isso que atualmente as pessoas chamam de alternativo, que parece moderno, na realidade é toda uma cultura desenvolvida pela sabedoria dos antigos, que infelizmente foi se perdendo com o tempo e que é preciso resgatar e difundir. Principalmente entre a população carente. Trago ainda outra herança importante de meus pais: a curiosidade.

Como a senhora pesquisa suas receitas?
Maria Reis –
Até hoje ando pelo cerrado, na reserva que mantenho no meu sítio em Alexânia e descubro novas plantas medicinais e alimentícias. Também aprendo com as pessoas do lugar, pesquiso em livros os valores nutritivos e terapêuticos das plantas, descubro espécies de outros países que se adaptam bem ao nosso solo, planto, invento receitas, procurando sempre aproveitar o melhor dos vegetais. Esse “melhor” não tem nada a ver com o que se costuma chamar de “partes nobres” dos alimentos. Utilizo cascas, flores, sementes, raízes, brotos, talos, farelos e folhas que normalmente vão para o lixo das casas brasileiras, inclusive as mais pobres. Muitos destes alimentos oferecem bem mais nutrientes que os convencionais.

Quando falávamos a estas pessoas
sobre a importância de se utilizar farelos,
cascas e outras alternativas alimentares,
muitas delas se aborreciam, diziam que eram pobres,
mas não comiam comida de porco

O que a senhora pode dizer sobre a cultura do desperdício?
Maria Reis –
O desperdício nasce no preconceito, na falta de informação. A fome no Brasil não é só um problema econômico, é também um problema de educação. Durante muito tempo atuei em programas sociais, direcionados a comunidades carentes, junto à Pastoral da Criança, Pastoral da Saúde, LBA. O trabalho era essencialmente educativo, no sentido de melhorar a qualidade de vida das populações de baixa renda. Nós ensinávamos às comunidades hábitos de higiene, saúde, novos conceitos alimentares, como aproveitar os alimentos, orientávamos gestantes, lactentes. Quando falávamos a estas pessoas sobre a importância de se utilizar farelos, cascas e outras alternativas alimentares, muitas delas se aborreciam, diziam que eram pobres, mas não comiam comida de porco. Não é nada fácil.
É necessário um trabalho amplo, intenso para mudar, melhorar os hábitos alimentares, a qualidade de vida do brasileiro. É preciso vontade política, não só no sentido de buscar uma sociedade mais justa, com melhor distribuição de renda, como o apoio dos órgãos governamentais em ações visando resultados a curto e médio prazo. Ações educativas que ajudem as pessoas a viverem melhor. Nessas minhas experiências em trabalhos comunitários pude constatar pessoalmente muitas das coisas que vêm a reboque da escassez econômica. Desnutrição, condições sanitárias mais do que precárias, um grave desperdício de alimentos. Tudo perpetuado pela ignorância e pela falta de informação.

Porque esses ensinamentos não chegam ao povo?
Maria Reis –
Porque o povo é orientado para buscar remédios na farmácia, sem saber que brota do chão a cura para os seus males, principalmente para o pior deles: a fome. Não posso me conformar com um país que tem a maior diversidade de plantas do planeta, uma imensa extensão de terras férteis, condições naturais favoráveis à agricultura e padece de fome. Preconceitos contra o aproveitamento dos vegetais causam a perda constante de poderosas fontes de alimento. É uma verdadeira afronta à fome, que no nosso país mata mais do que muitas guerras. E mata principalmente crianças.

Qual a recomendação que a senhora daria aos nossos leitores?
Maria Reis –
Acho que nunca é demais lembrar às pessoas o que aprendi bem cedo com meu pai. A natureza dá tudo o que precisamos. Em troca ela só precisa de respeito e cuidado. Preservar a natureza é preservar a nossa própria vida, a vida das próximas gerações. Como podemos dizer que amamos nossos filhos, nossos netos, se não cuidamos do mundo que estamos deixando para eles? Ensino às pessoas uma alimentação mais natural, a se tratarem com plantas medicinais. É um trabalho que gosto muito, mas por incrível que pareça isto, às vezes, tem me deixado triste.
Na comunidade próxima ao meu sítio em Alexânia, por exemplo, oriento as pessoas para a utilização de vegetais do cerrado que antes elas ignoravam. E agora observo estas plantas sendo devastadas, até na reserva que mantenho no sítio e que vem sendo invadida, depredada. Essas pessoas não têm sequer o cuidado de extrair o fruto sem danificar os galhos. Às vezes até arrancam a planta pela raiz por pura displicência, tiram a proteção dos troncos sem a menor necessidade. E quando sofrem com as consequências da devastação do meio dizem que é castigo de Deus. Mas é claro que Deus não tem culpa nenhuma de nada disso. Temos que fazer a nossa parte, respeitar todas as formas de vida, preservar a integridade das plantas, não poluir, replantar, tratar com amor, com reverência o que temos de melhor, de mais bonito no nosso planeta. Temos principalmente que ensinar, dar o exemplo para as novas gerações. É uma missão que cabe aos pais, aos educadores, a todos os adultos. Ninguém pode se omitir.

 

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