Entrevistas

Klaus Toepfer – Esporte e meio ambiente

O Gol verde da Copa do Mundo

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O Gol Verde da Copa da Alemanha


Klaus Toepfer  – Entrevista exclusiva


Silvestre Gorgulho, de Brasília



A grande indústria da saúde, do prazer e da paz chama-se esporte. O grande formador do caráter, da disciplina, da cooperação e da coragem chama-se esporte. A grande força da educação chama-se prática esportiva, pois desenvolve o corpo, a mente e alimenta o espírito de solidariedade, de respeito e de valores éticos. O esporte favorece a consciência do bem para o indivíduo e para o grupo. A competição sadia e o esforço para ultrapassar limites molduram corpo e espírito.


Nesse partilhar emoções, o esporte favorece as relações entre os povos e é um do mais fortes instrumentos para fortalecer o civismo. Em suma, o esporte significa a inclusão social, promoção da qualidade de vida e do meio ambiente. Por isso, a prática esportiva tem forte relação com o desenvolvimento sustentável. Não só na condução dos eventos e na organização dos jogos, mas também na gestão dos recursos materiais. Se muitos esportes precisam de água pura para suas promoções, todos não podem prescindir de ar puro e de ambiente saudável para o bom desempenho dos atletas e a feliz participação dos torcedores. E mais: a prática esportiva não pode nunca ser motivo de violência ou fonte de poluição.
E há outro dado fundamental. O esporte é uma alavanca econômica fortíssima. Além do segmento turismo, o esporte envolve muitos recursos na produção de equipamentos esportivos, no marketing de vendas, na construção de quadras e de estádios e nos direitos de imagem e de transmissão.


Por fazer ídolos – por sua exposição permanente em todas modalidades de mídia – e por ter poderosos patrocinadores, o esporte não é só uma atividade econômico-financeira de primeira grandeza, é também um gerador de conceitos e um fermento de civilidade e de conscientização ecológica. Tanto a nível de atletas e torcedores, em particular, como da população, em geral. Pelo esporte todas as comunidades e nações podem construir uma sociedade mais justa, mais saudável, mais alegre e mais equilibrada.


Não existe nenhuma outra atividade no mundo que tenha mais implicação na economia, no social, na política, na promoção de bens de consumo e até na segurança do que o esporte. Para se ter uma idéia desta força, é no esporte que as indústrias do mal (cigarro e bebidas alcoólicas) vão buscar parcerias para “encantar” seus produtos. É no esporte dos mais variados que estas indústrias gostam de plantar, pelo marketing, a força do belo, do forte, do alegre e do prazer.


Em tempo da Copa do Mundo, quando bilhões de pessoas se postam para torcer fanaticamente pela seleção de seu país ou para ver o mais importante torneio de futebol do planeta, vale a pena estudar a relação e a força do esporte com a gestão sustentável. A Alemanha montou para a 18a Copa do Mundo um evento de grandes proporções, mas que gere pouca poluição e que seja ecologicamente correto na produção, na organização e no consumo. Esse é um programa que nasceu ainda na década de 90 e se chama Gol Verde! Nomeou até um embaixador especial, em parceria com a Fifa, para o gerenciamento sustentável da Copa: o ambientalista Klaus Toepfer.


O que é o Gol Verde
A Copa da Alemanha implantou o programa Gol Verde [Green Goal] que vai marcar posição em quatro áreas: água, lixo, energia e mobilidade. Jogada de craque. O Gol Verde fará do evento, a Copa do Meio Ambiente. São 32 seleções, com cores variadas nos uniformes e bandeiras, mas todas ostentando uma mesma cor nos seus objetivos: o verde de desenvolvimento sustentável.
“Essa é uma Copa do Mundo que quer ter não apenas um, mas vários campeões ambientais”, explica o Diretor da Divisão de Comunicação e Informação Pública do Pnuma, Eric Falt. “Pela primeira vez os cuidados com o meio ambiente terão prioridade máxima nessa competição, com objetivos claros e mensuráveis, e esperamos que a iniciativa deixe um legado”. Todo o time do Gol Verde, capitaneado por Klaus Toepfer, quer neutralizar todas as 100 mil toneladas de dióxido de carbono geradas pelo sistema de transportes, construção e manutenção dos estádios da Alemanha. E, também, pela presença dos mais de 3,2 milhões de espectadores.


Ingresso: estádio e transporte
Eric Falt explica que como parte de um plano sólido de preservação ambiental, quem comprar os ingressos para qualquer uma das partidas nos 12 estádios da Copa poderá usá-los para ter acesso gratuito ao local do jogo por meio dos transportes públicos durante 24h, de acordo com o plano de ingresso Kombi. O acordo de ingressos Kombi irá custar cerca de 2 milhões de Euros ao Comitê de organização da Copa, mas deverá evitar a emissão de vários gases causadores do efeito estufa ao reduzir o uso de veículos particulares.


Energia elétrica
Outras táticas, como a de economizar energia elétrica, estão centradas nas atividades dos estádios. Por exemplo, sistemas de gerenciamento de energia de última geração foram instalados no estádio de Munique e devem promover uma redução de 20% no consumo de energia todos os dias, sejam eles dias de jogo ou não.


Reuso de água
Além disso, o gramado do Olympiastadion entre outros estádios será irrigado por um sistema especial que capta a água da chuva, e mictórios sem água nos banheiros masculinos serão utilizados em diversos locais selecionados.


Reutilizar
Com a questão de evitar o desperdício como prioridade, os organizadores apresentaram o “Copo da Copa” reutilizável. Os espectadores farão um depósito caução de um Euro pelo copo que utilizarem e poderão adquirir um só copo em cada evento.
Hoje também foi anunciado que 300 voluntários, treinados para educar os espectadores sobre os objetivos do Gol Verde, estarão em cada um dos 12 estádios.

Conscientização
Uma brochura sobre o Gol Verde, com os logotipos das organizações que apóiam a iniciativa, que inclui o Pnuma, o Ministério do Meio Ambiente, DBU, FIFA, Deutsche Telekom, Plastics Europe, Coca Cola, Deutsche Bahn, EnBW and Total, já está disponível em estações de trem e metrô nas 12 cidades que abrigarão o torneio. A brochura, elemento chave para a conscientização do público, foi enviada nessa semana para 25.000 jornalistas em todo o mundo.
“Impactos ambientais, inclusive aqueles que causam aumento das taxas de mudanças climáticas, estão sendo cada vez mais levados em consideração em eventos esportivos. O movimento olímpico, do qual o Pnuma é parceiro atuante, já é um desses caminhos”, disse o porta-voz do Pnuma.
“O Comitê Organizador da Copa do Mundo tem sido veemente na busca das mesmas considerações para o futebol. Nós fomos encorajados tanto por seus planos quanto por seu entusiasmo e esperamos ansiosamente trabalhar com o comitê e com a Fifa, bem como esperamos atingir resultados sólidos, confiáveis e aparentes em áreas como eficiência energética, cuidado com o desperdício e economia de água”, salientou Eric Falt.






Pnuma

Klaus Toepfer, o embaixador-artilheiro do Gol Verde da Copa

Klaus Toepfer – ENTREVISTA


Silvestre Gorgulho


Um craque ambiental entrou em campo para gerenciar o programa do Gol Verde. É Klaus Toepfer, ex-ministro da Alemanha, ex- diretor executivo do Pnuma e hoje o Embaixador do Gol Verde na Copa do Mundo. Com exclusividade,Toepfer falou à Folha do Meio.


Folha do Meio – Como começou esta história de se fazer a Copa do Mundo Verde?
Klaus Toepfer –
A idéia nasceu no inicio da década de 90, quando a Federação Alemã de Futebol começou a pensar em sediar a Copa do Mundo de 2006. Questões ambientais ainda não faziam parte da lista de deveres da FIFA relacionada aos estádios. No entanto, o Comitê Organizador Local sentiu a necessidade de incluir estas questões em todos os planos desde o começo.


FMA – Como o senhor está encarando este desafio de ser o Embaixador Verde da Copa do Mundo?
Klaus Toepfer –
À medida que a Copa do Mundo se aproxima, o interesse nos objetivos e atividades do Green Goal começa a decolar. Temos uma grande entrevista coletiva (26 de maio) marcada em Berlim com a lenda do futebol alemão Franz Beckenbauer. Estou certo que isso vai impulsionar o programa Gol Verde e elevar o papel do Embaixador.
É bom lembrar que um dos desafios é trazer algum realismo para as expectativas públicas do Gol Verde. Quando se estabele um projeto desse tipo, sempre haverá aqueles que dizem “Não é o suficiente, por que você não vai mais além?!” E isso é bom, nós precisamos ser pressionados pela opinião pública e pelas ONGs. Sabemos que estamos inovando. Essa é a primeira Copa em que o meio ambiente faz parte da agenda. Acho que podemos aprender com a Copa da Alemanha para que futuras Copas do Mundo se tornem mais verdes.


FMA – O senhor jogou futebol?
Klaus Toepfer –
Como qualquer garoto que cresce em ambientes não privilegiados, jogar bola com os amigos foi um dos poucos esportes acessíveis e disponíveis. Joguei até meus 26 anos, quando perdi contato com meu clube amador, localizado perto de Hanover. Quando criança, joguei de ala, pela direita. E era bastante ágil. Com o tempo, passei a jogar no meio de campo pela direita. Finalmente acabei jogando na lateral direita, onde espero ter sido uma boa barreira.


FMA – Quais seriam os principais impactos ambientais em relação ao esporte, em geral, e ao futebol, em particular?
Klaus Toepfer –
Alguns dos principais impactos ambientais vêm na fase de projeto e nas construções.
É vital levar em consideração nessa fase a acústica ambiental como energia solar ativa e passiva, reaproveitamento da água, boas linhas de transporte público etc. Se apenas no final das obras for levado em conta tudo isso, os custos vão ser muito mais elevados. Também é importante que novas estruturas sejam erguidas em locais apropriados, com vistas ao uso sustentável pós-evento.
A operação de grandes estruturas também pode consumir enorme quantidade de eletricidade e isso contribui para a emissão de gases de efeito estufa. Também vale citar a grande quantidade de lixo gerada tanto na construção como durante os eventos.
Os grandes torneios de futebol, em termos ambientais, têm os mesmos desafios das Olimpíadas.


FMA – Como o Pnuma, o governo alemão, a Fifa e os organizadores da Copa vão agir para conseguir incorporar as questões ambientais na preparação e execução de cada jogo?
Klaus Toepfer –
Com a aproximação da Copa, o Comitê Organizador está contente em dizer que o clima de equilíbrio ambiental para todo o torneio foi alcançado pela primeira vez na história das Copas do Mundo da FIFA. É essencial que se alcance todos objetivos que foram estabelecidos: redução de 20% de energia nos estádios, 20% de uso de água e 20% de lixo.
O Comitê Organizador vai trabalhar de perto e em conjunto com os estádios, com o governo alemão, com a FIFA, com as várias industrias e parceiros de negócios, e com a UNEP para alcançar esses objetivos e para comunicar todos os esforços ao público.
Quanto às seleções, como da Alemanha e do Brasil, houve um acordo para que os jogadores e comissão técnica usem o trem para as viagens, sempre que for possível.


FMA – E em relação aos torcedores nos estádios?
Klaus Toepfer –
Folhetos do Gol Verde estão sendo distribuídos aos torcedores nas estações de trens para que eles conheçam nossas metas. Há também o incentivo ao uso dos transportes públicos. Temos um ingresso chamado Kombi. Como parte dos planos de transportes ambientalmente corretos, torcedores que adquirirem esses tickets para qualquer um dos jogos, terão acesso livre ao transporte público por 24 horas.
O compromisso do “ticket Kombi”, isoladamente, vai custar ao Comitê de Organização cerca de 2 milhões de Euros. Mas vai diminuir as grandes quantidade de gases de efeito estufa, por reduzir o uso de carros particulares. Nós esperamos que um em cada dois torcedores usem o transporte público.
Quanto ao lixo, os organizadores introduziram o re-utilizável “Copo da Copa”. Os torcedores vão pagar 1 Euro pelo copo, que vai ser o único vendido e usado para as bebidas nos campos.
Haverá também 300 voluntários, treinados para educar os torcedores em relação aos objetivos do programa Gol Verde. Eles vão estar distribuídos em cada um dos 12 estádios.
Um filmete vai ser apresentado antes de cada partida. Esse filme tem como alvo não só torcedores, mas também os jogadores durante seus exercícios de aquecimento. O filme a ser apresentado pela primeira vez, em Berlim, na semana que vem, tem o slogan “Campeões Mundiais pelo Meio Ambiente – Estamos Trabalhando Nisso”.


FMA – E haverá um programa específico para trabalhar a mídia, os jornalistas e até os patrocinadores da Copa?
Klaus Toepfer –
Essa semana 25 mil folhetos do Gol Verde vão ser entregues aos jornalistas do mundo inteiro. Apesar da grande conferência de imprensa acontecer na semana que vem, o programa vem distribuindo e atualizando as notícias regularmente.


FMA – Como é ser a primeira Copa “climaticamente neutra”?
Klaus Toepfer –
O esquema do Clima Neutro vai compensar todas as 100 mil toneladas de dióxido de carbono geradas, na Alemanha, a partir de transportes, construção e manutenção dos estádios, além de 3.2 milhões de torcedores esperados. Parte dessas emissões será compensada por projetos de carbono como a plantação de árvores e produção de energia limpa em países em desenvolvimento.


FMA – Que mensagem o senhor acha que vai ficar para os bilhões de torcedores que verão a Copa?
Klaus Toepfer –
Espero que os torcedores desta Copa lembrem-se do evento como um fantástico espetáculo responsavelmente organizado e também, que se levou muito em conta as questões ambientais. Que as futuras Copas demandem medidas ambientais mais fortes ainda.


FMA – Agora, só para nós aqui: quais seleções vão fazer o final da Copa?
Klaus Toepfer –
Que pergunta! Meu coração espera que a Alemanha chegue lá. Mas, não será surpresa se o outro for esse mágico time do Brasil.


Maio de 2006


 


Summary


Klaus Toepfer – INTERVIEW
Klaus Toepfer is the former Executive Director of the United Nations Environment Programme (UNEP) and Green Goal Ambassador for the FIFA World Football (Soccer) Cup


The Idea
The idea was born in the early 90’s when the German Football Federation first thought about bidding for the 2006 FIFA World Cup. Environmental questions were not a part of the FIFA booklet of duties that is binding for the stadiums, but the Local Organizing Committee felt a need to include this issue in the overall plans from the very start.


The challenges
As the 2006 FIFA World Cup gets ever closer to kick off, the interest in the aims and activities of the Green Goal are really beginning to take off. We have a big press conference scheduled in Berlin (26 May) with German football legend Franz Beckenbauer.
I am sure that this will propel Green Goal and the role of the Ambassador to increasing heights. Let me add that one of the challenges is to bring some realism to the public expectations of the Green Goal. When you establish such a project there will always be those who say “It is not enough, why do you not go further?” And that is good, we need to be pressed by the public and by NGOs. But, you know, we are really breaking new ground here. This is the first World Cup where environment is being put firmly on the agenda.
I think we can learn from the event in Germany so that future World Cups become ever greener.


I played football (soccer Like any small boy growing up in a less than privileged background, kicking a ball around with friends was one of the few sports available and affordable. I played regularly until about aged 26 when I lost touch with my amateur club based in a small village not too far from Hanover. As a child, I played on the right wing and I was pretty fast. As the years progressed I switched first to right midfield and then finely right defense where I hope I was pretty tough and impregnable!


Environmental impacts
Some of the main environmental impacts come in the design and construction phase. It is vital that environmentally sound design, like passive and active solar, water recycling, good public transport links and so on, is factored in at the outset. Otherwise it can become much more expensive if added in at the end. It is also important that new structures are sensitively sited and that there is an eye on their sustainable use post the event they were built and designed for.
The operation of massive structures and buildings can also consume huge amounts of electricity and this adds to greenhouse gas emissions. There are also the large quantities of waste generated both in the construction phase and when large numbers of crowds are gathering to watch events or a match.
I think big football tournaments are really no different in terms of environmental challenges than say the Olympics.


Partners
As we’re approaching the tournament, the Local Organizing Committee is happy to say that climate neutrality for the overall tournament has been achieved – a first in FIFA World Cup history. Now it’s vitally important to reach the goals that were set for the stadiums – 20% less energy in the stadiums, 20% less water use, 20 % less trash The Local Organizing Committee will work in close cooperation with the stadiums, the German government, FIFA, the various industry and business partners and UNEP to reach these goals and to communicate all efforts to the public.
In terms of the teams, some like Germany and Brazil, have committed themselves to using the train as much as possible for traveling to venues.


Cup of the Cup
Our Green Goal brochure is being made available to fans at train stations so they know our aims. Other measures include encouraging fans to travel by public transport. We have a thing called a Kombi ticket. As part of an environmentally sound transport plan, fans purchasing tickets for the matches in the 12 World Cup venues will be able to use them for free access to local public transportation during 24h, as part of the Kombi ticket scheme.
The Kombi ticket commitment alone will cost the World Cup 2006 Organizing Committee some two million Euros, but should save large amounts of greenhouse gases by reducing private car use.
Indeed we hope every second fan will arrive and depart from matches on public transport. With the issue of waste avoidance foremost on their minds, the organizers have also introduced the reusable “Cup of the Cup”. Fans will pay a deposit of one Euro for the cup which will be the only one sold and used for drinks at the grounds. There will also be 300 volunteers, trained to educate fans about the aims and objectives of Green Goal, located inside each of the 12 stadia.


Journalists
This week 25,000 of the Green Goal brochures are being delivered to journalists world-wide and, apart from next week’s big press conference, Green Goal has been issuing regular press releases and updates.


Climate Neutral
The Climate Neutral scheme will offset all 100,000 tonnes of carbon dioxide generated within Germany by transportation, construction and maintenance of the stadia, and the presence of 3.2 million expected spectators.
Part of these emissions will be offset by carbon friendly projects like tree planting and clean energy schemes, in developing countries.


Future Word Cups
I hope the fans watching the 2006 FIFA World Cup will remember the event as a fantastic spectacle that was well and responsibly organized and that part of that responsibility extended to the environment in meaningful and verifiable ways. And that fans at future World Cups will demand ever stronger environmental measures.


Final Match
What a question!! My heart hopes for Germany to be there and my head tells me that, not surprisingly, the other team will be the wizards from Brazil!!


 

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Entrevistas

José Israel Vargas, o cientista ambiental

Vargas analisa Conferência de Kyoto

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José Israel Vargas, um cientista ambiental
Silvestre Gorgulho, de Brasília
José Israel Vargas, 70 anos, é o ministro de maior longevidade na atual Esplanada dos Ministérios: tomou posse com Itamar Franco, em setembro de 1992, e foi o único a continuar no Governo FHC. Segredo deste mineiro de Paracatu para tanto fôlego político: competência no fazer, discrição no atuar e honestidade no agir. Atualmente Vargas preside, além do Ministério da Ciência e Tecnologia, a Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede na Itália, e é o vice-presidente da Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos. É ele que lidera, também, cientistas e personalidades da América Latina para elaboração de um documento que será apresentado como reflexão Não-Governamental à Assembléia da ONU, neste ano, a ser realizada em Lisboa, que vai debater a questão ambiental dos oceanos. Como o ministro Vargas tem sido o chefe da delegação brasileira nos foruns internacionais que vem discutindo o efeito estufa, ninguém melhor do que ele para falar sobre a Conferência de Kyoto, onde teve uma participação importantíssima pelas suas posições firmes e avançadas.

Em relação aos compromissos assumidos na Rio 92 e não cumpridos, Kyoto foi um divisor de água?
Ministro –
Sim. Em 92, os países desenvolvidos assumiram o compromisso voluntário de buscar atingir, por volta do ano 2000, os mesmos níveis de emissões de 1990 de gases de efeito estufa. O que não será cumprido por muitos dos países industrializados. Em Kyoto os países assumem o compromisso legal, e não mais voluntário, de redução de suas emissões. Neste aspecto, a Conferência de Kyoto marca o início de um processo irreversível, com a inclusão de um novo fator no ordenamento jurídico das relações internacionais, ou seja, o da necessidade de limitar as emissões dos chamados gases de efeito estufa, em especial gás carbônico, pelas atividades humanas sob pena de mudarmos o clima do planeta.

Os países em desenvolvimento vão ter acesso às tecnologias para um desenvolvimento limpo?
Ministro –
A Convenção já estipula que os países em desenvolvimento devem procurar buscar trajetórias “mais limpas” de desenvolvimento social e econômico, ou seja, seguir desenvolvendo o país com menor emissão de gases de efeito estufa. A construção desta trajetória menos intensiva em gases de efeito estufa, entretanto, considerando que a maior prioridade dos países em desenvolvimento é o desenvolvimento sócio-econômico e, em especial, a erradicação da pobreza, está condicionada à obtenção de ajuda dos países desenvolvidos em termos de provisão de recursos e tecnologias adequados para este fim. A experiência obtida após 5 anos de implementação da Convenção nos mostra que esta ajuda não se materializou quer por dificuldades econômicas dos países desenvolvidos, quer pela falta de um mecanismo que acelerasse este processo. O Protocolo de Kyoto adotou como um de seus artigos, uma proposta, com modificações, que foi originalmente apresentada pelo Brasil e adotada por todo o bloco de países em desenvolvimento. Segundo esta proposta, será criado um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo em que recursos dos países desenvolvidos poderão ser aplicados como “oportunidades para auxiliar no cumprimento dos seus tetos de emissão” em projetos que visem a redução de emissões de gases de efeito estufa em países em desenvolvimento. A entidade que operar este mecanismo também se encarregará de certificar que as reduções alcançadas por cada projeto produzam benefícios reais. Este mecanismo poderá ser uma maneira efetiva de produzir a necessária transferência de recursos e tecnologias para os países em desenvolvimento.

Quais os compromissos do Brasil?
Ministro –
O Protocolo não estabelece metas de limitação de emissões para os países em desenvolvimento e, portanto, para o Brasil, porque estes países ainda se encontram em um estágio inicial de desenvolvimento com emissões crescentes. O compromisso do Brasil é o de avançar na implementação do compromisso inicial na Convenção, assumido na Conferência do Rio de Janeiro, em 92, por todos os países em desenvolvimento, ou seja, elaborar um diagnóstico da situação atual para apresentar às Nações Unidas. Neste diagnóstico serão estimadas nossas emissões dos principais gases de efeito estufa (em especial, gás carbônico, metano e óxido nitroso) em todos os setores de atividade humana que geram estes gases. É um esforço enorme se lembrarmos que as atividades humanas que geram gases de efeito estufa abrangem produção e uso de energia (termelétricas, refinarias, transporte, consumo nas residências etc.), produção de gases na indústria (cimento, química, papel e celulose, alumínio, uso de solventes, lubrificantes, vernizes e tintas etc.), uso da terra (desflorestamento, queimadas do cerrado, florestas plantadas), agricultura (pecuária, cultivo de arroz, uso de fertilizantes) e tratamento de lixo e esgoto. Neste esforço estamos envolvendo cerca de 60 instituições no Brasil dos diferentes níveis de governos, empresas públicas e privadas, universidades e organizações não-governamentais, com a ajuda dos maiores especialistas do assunto no país em cada um dos setores envolvidos.

Além do inventário de emissões, vamos apresentar o que o Brasil está fazendo no sentido de combater a mudança do clima. O Brasil tem feito muito em termos de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Iniciativas como o Pró-álcool, maior programa de energia renovável do mundo, o potencial instalado de 60 GW de hidrelétricas, os programas nacionais de conservação de energia, Procel (setor elétrico) e Conpet (setor petróleo e gás natural), o Prodeem (Programa de Desenvolvimento Energético de Estados e Municípios) são programas no setor energético que permitem que o Brasil apresente um dos menores índices, no mundo, de emissão de gases de efeito estufa por unidade de energia gerada. Na área de uso da terra, vamos apresentar o trabalho de combate e prevenção de queimadas, o Projeto Prevfogo. Também no combate ao desmatamento da floresta amazônica, o Brasil foi pioneiro em utilização de sensoreamento remoto por satélite para avaliar a área anual desmatada e as emissões de gases, e recente legislação busca retirar todos os incentivos que existiam no passado que originaram o quadro atual de desmatamento.

Pessoalmente, o senhor acha que a Conferência de Kyoto foi um avanço?
Ministro –
Estou convencido de que a Conferência de Kyoto representa um novo passo no sentido de enfrentar o problema. A Convenção sobre Mudança do Clima, em 1992, estabeleceu o início do processo de discussão técnica, científica e política do problema de aquecimento global, um problema de longo prazo, assinado e ratificado por mais de 160 países. Em 1995, na 1º Conferência das Partes em Berlim, se verificou que os compromissos de estabilização das emissões contidos na Convenção não seriam atingidos e foi estabelecido o Mandato de Berlim para a elaboração de um protocolo que transformasse os compromissos voluntários em obrigação legais.

Berlim, depois Kyoto. O protocolo será cumprido?
Ministro –
O Protocolo estabelecido em Kyoto em dezembro de 1997 é o fim do processo iniciado em Berlim. Mediante o Protocolo de Kyoto a Convenção segue aprofundando os compromissos dos países e, em especial, dos países desenvolvidos que agora se comprometem, em um documento com vínculos legais, a reduzirem seus níveis de emissões entre 2008 e 2012 em cerca de 5%, tomando como base as emissões de gases de efeito estufa realizadas em 1990. Apesar de ser considerada uma meta modesta por algumas entidades, deve-se reconhecer que alguns países, como os Estados Unidos, por exemplo, emitem atualmente gases de efeito estufa em níveis superiores a 10% acima dos níveis de 1990, o que mostra, por um lado, a dificuldade de definição de políticas voluntárias, como proposto originalmente na Convenção, que efetivamente controlem o nível de emissões geradas pelas atividades econômicas. Por outro lado, o esforço para o cumprimento das metas de Kyoto implica importantes mudanças nas sociedades daqueles países.

No entanto, o problema é de longo prazo e existem incertezas sobre os efeitos do aquecimento global ao nível regional e local. Os cenários do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, que estimam aumentos da temperatura média da superfície terrestre entre 1 e 3,5 graus Celsius até o ano 2100; a dificuldade de separar os efeitos decorrentes da acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera daqueles decorrentes da variabilidade natural do clima; os custos envolvidos ou o tempo necessário para a introdução de inovação tecnológica ou mudança de padrões de consumo são fatores que nos obrigam a planejar em um ambiente de incerteza e adotarmos a precaução como diretriz. A meta estabelecida em Kyoto, se cumprida, representa um primeiro passo na direção do desenvolvimento sustentável e na tentativa de combater o aquecimento global, ao mudarmos a tendência de interferência crescente das atividades humanas no sistema do clima.

Os países ricos vão cumprir o pouco que prometeram?
Ministro –
As dificuldades da solução do problema de aquecimento global decorre basicamente do fato de que os gases de efeito estufa permanecem por longos períodos na atmosfera, sendo que o dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa, permanece por mais de um século na atmosfera. A proposta do Brasil, apresentada nas discussões preliminares para a elaboração do Protocolo, mostra que o problema do aquecimento global foi originado principalmente pelas emissões dos países industrializados após a revolução industrial. Cabe aos países industrializados tomarem a iniciativa de liderança no processo de combater a mudança de clima. Nesse sentido, todos esperamos o cumprimento do Protocolo e certamente haverá uma fiscalização e uma cobrança permanente das promessas feitas em Kyoto. Os países em desenvolvimento que tanto vêm fazendo, apesar de restrições financeiras e tecnológicas, continuarão na busca do desenvolvimento sustentado e estarão prontos para assumirem suas responsabilidades em relação a um regime universal e justo de repartição do ônus de evitar a mudança do clima no momento em que os países industrializados mostrarem que estão efetivamente reduzindo suas emissões em níveis inferiores aos de 1990.

SUMMARY

José Israel Vargas, 70 years of age, in addition to serving at the head of the Ministry of Science and Technology, presides over the Academy of Third World Sciences, with headquarters in Italy, and is vice-president of the World Independent Commission on the Oceans. He also lead the group of scientists and leaders of thought from Latin America in the elaboration of a document to be presented as a non-governmental proposal to the United Nations Assembly to be held this year in Lisbon to debate the question of the ocean environment. In his role of Minister, Vargas also headed the Brazilian delegation in international forums discussing the greenhouse effect. So who better than he to speak about the Kyoto Conference, where he played a most important part by virtue of his forthright and progressive positions.

In terms of the unfulfilled commitments made at Rio’92, was a watershed achieved at Kyoto?
Minister Vargas:
Yes. In ’92, the developed countries made a voluntary commitment to seek, by the year 2000, to bring their emission of greenhouse gases back down to the same level as their 1990 emissions. Most of them have not fulfilled this promise. But in Kyoto these countries made a legally binding commitment, not a voluntary one, to reduce their emissions.

Do you personally feel that the Kyoto Conference was a move forward?
Minister Vargas:
I am convinced that it represents a new step in the way we are confronting the problem. The Convention on Climate Change, signed and ratified in 1992 by over 160 countries, established the beginnings of the process of a technical, scientific and political discussion of the problem of global warming, a long-term problem. In 1995 the First Conference of the Parties in Berlin, it was verified that the commitment made in the Convention to stabilize emissions was not being met, leading to the formulation of the Berlin Mandate establishing the protocol for transforming the voluntary commitments into legal obligations.

Berlin, then Kyoto. Will these obligations be met?

Minister Vargas: The Protocol established in Kyoto in December of 1997 is the culmination of a process begun in Berlin. By means of the Protocol of Kyoto, the Convention has deepened the commitments of the participating countries, and in particular, the developed countries, which now are committed, in a legally binding document, to reducing their level of emissions between 2008 and 2012 by approximately 5%, using the 1990 levels of greenhouse emissions as a base line reference. Although considered by some as a modest goal, it must be recognized that some countries, such as the United States for example, are now emitting greenhouse gases at a level more than 10% above those of the 1990 levels, indicating, on the one hand, the difficulty of defining policies voluntarily, as originally proposed in the Convention, that can effectively control the levels of emissions produced by economic activity. On the other hand, the efforts made to achieve the Kyoto targets imply important changes in the societies of these countries. The goal established in Kyoto, if achieved, represents a first step in the direction of sustainable development and in the fight to control global warming, in changing the tendency of human activities to interfere more and more in the global climate system.

 

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Entrevistas

Luciano Cordoval – Entrevista sobre Barraginhas

As águas vão rolar

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Barraginhas: a salvação das lavouras

A solução para os desertos de Gilbués

Silvestre Gorgulho

Desde a primeira reportagem da Folha do Meio Ambiente sobre o deserto vermelho de Gilbués, em outubro de 2005, o tema não saiu mais da mídia. Depois vieram as matérias sobre as barraginhas. Primeiro em Minas Gerais, depois as experiências feitas pelo técnico da Embrapa, Luciano Cordoval, no Piauí. Mais precisamente na região do entorno do Parque da Serra da Capivara. Cordoval, coordenador do projeto, preparou 30 técnicos da Emater-PI e da COOTAPI – Cooperativa de Técnicos Agrícolas do Piauí que treinaram outros multiplicadores das comunidades locais. Todos foram responsáveis pela implantação de mais de 300 das 3.600 barraginhas programadas na zona rural de 12 municípios: São Raimundo Nonato, Guariba, Paes Landim, Oeiras, São Lourenço, Caracol, Jurema, Acauã, Paulistana, Santa Luz, Coronel José Dias e Aniz de Abreu. E agora as barraginhas chegaram ao município de João Costa, que tem desertos vermelhos à semelhança de Gilbués. Se a iniciativa salvar as terras de João Costa, com certeza Gilbués, também, estará salva. Graças às barraginhas e ao trabalho incansável de um técnico persistente e sonhador: Luciano Cordoval.

A foto mostra o estado avançado de degradação. As casinhas, ao fundo, é a prova
de que já houve um apogeu, onde tudo era verde coberto de matas, mas a ação do homem foi tornando o cenário desertico

 

Folha do Meio – O que o motivou a trabalhar para tentar reverter a degradação das terras de Gilbués?
Luciano Cordoval
– Quando vimos pela primeira vez, na Folha do Meio Ambiente, a reportagem sobre o deserto vermelho de Gilbués, em outubro de 2005, ficamos extremamente estarrecidos.
Olha, foi impressionante  ver aquelas imagens publicadas. Mas, imediatamente, este estarrecimento deu origem a uma empolgação. Sim, porque comecei a buscar uma solução. Queria enfrentar aquele desafio. Queria montar uma equipe para desenvolver tecnologias sociais de conservação de solos e água. Não é fácil trabalhar à distância. Mas este problemão de Gilbués é uma questão humanitária e de solidariedade.

FMA – Você tem acompanhado na mídia o desdobramento da questão dos desertos de Gilbués?
Luciano 
– Sim, estou acompanhando tudo desde aquela primeira matéria que saiu na Folha do Meio. Depois vieram os desdobramentos como no Globo Rural – que até mostrou o jornal de vocês – Globo Repórter, novamente a Folha do Meio Ambiente, com as cartas dos leitores, e muitas citações na Internet.
E o tempo foi passando. Iniciamos nossos trabalhos de captação de águas superficiais de chuvas, pelas barraginhas, para conservação dos solos e água e revitalização de mananciais e córregos, no Semi-Árido e Sub-Úmido piauienses.
Dentre os municípios abrangidos pelo projeto, destacamos o de João Costa, pelo elevado grau de degradação de seus latossolos vermelhos, sob vegetação de Cerrado, após desmatamentos, o que o torna muito parecido ao deserto de Gilbués.

FMA – João Costa está longe de Gilbués. Como você descobriu o deserto vermelho de João Costa ?
Luciano –
O avanço das barraginhas, no Piauí, foi planejado para contemplar doze municípios, sendo oito do Semi-Árido e quatro na transição para o Sub-úmido. Em março e abril de 2007, após caminhada pelos sete municípios vizinhos, para implantar o sistema, chegamos a João Costa.
Eles já tinham ouvido falar do projeto e tiveram o privilégio de assistir recentemente, por meio de suas parabólicas, a uma reportagem da TVE, no programa Mobilizando o Brasil, mostrando o avanço das barraginhas no Semi-Árido piauiense e já estavam ansiosos. Isso porque 60 a 70% dos solos do município encontram-se em elevado grau de degradação. Essa situação criou um am-
biente contagiante, favorável, que está contagiando a todos.

“O que for bom para a região de João Costa será bom para Gilbués. João Costa será uma vitrine demonstrativa para a solução dos desertos vermelhos”

FMA – Por que esses municípios piauienses foram contemplados?
Luciano –
Porque as barraginhas, ao serem premiadas e certificadas como tecnologia social da Fundação Banco do Brasil, em 2003, receberam um aval para serem disseminadas pelo país, e o estado escolhido foi o Piauí. Mais especificamente a região de seu Semi-Árido e um pouco da transição ao Sub-Úmido.
Na verdade foi pela repercussão do sucesso de nossas experiências em Minas Gerais, nos últimos dez anos. Além de nove municípios do Semi-Árido, foram escolhidos três do Sub-Úmido, sob vegetação de Cerrado. Guaribas, Santa Luz e João Costa se enquadram nessa categoria e são mais parecidos com as regiões de Minas onde já vimos desenvolvendo nosso trabalho com as barraginhas. Desde o início, esperávamos muito desses municípios e eles estão correspondendo.

“É preocupante tendência atual de converter enormes áreas em cultivos para a
produção de etanol. O homem avança, come o filé e deixa os ossos: os desertos vermelhos
”.

FMA – Você acredita que João Costa possibilitará o desenvolvimento de um protótipo para Gilbués?
Luciano
– Mesmo estando a 400km de distância, João Costa tem muita similaridade com a região degradada de Gilbués, quanto a solos, predominando os latossolos vermelhos, muito frágeis frente à erosão, além de um regime de chuvas parecido, acima de 1.000 mm. E como nós já estamos familiarizados com a região, as  pessoas  já  estão mobilizadas e motivadas.
Também já foram implantadas as primeiras 300 barraginhas. Agora, nós também estamos motivados e encantados, principalmente com o clima favorável instalado. E também com  todo esse envolvimento que está nos motivando buscar mais recursos para complementar nossa experiência. Estamos  utilizando esse município como nossa base para introduzir uma cultura de plantios em nível, terraceamentos, plantio direto e trabalhar a educação ambiental sustentável.
Assim, queremos mais e mais barraginhas nas fissuras/erosões maiores e milhares de microbarraginhas, não dispersas, mas coladas umas às outras, como alvéolos no “favo de mel”, nas microenxurradas capilares, nas encostas degradadas.

FMA – Como é mesmo esse sistema “favos de mel”?
Luciano
– As barraginhas tradicionais serão feitas nas grandes enxurradas, que já apresentam os sulcos feitos pela erosão. Os milhares de alvéolos (microbarraginhas) serão nas enxurradas minúsculas, capilares, quase imperceptíveis, serão como guarda-chuvas invertidos e dentro de cada alvéolo será plantada uma árvore leguminosa nitrificadora, como leucena e algaroba, que deixará suas folhas caírem, para recuperar o solo.
Enquanto se gasta uma hora de máquina para uma barragi-nha, fazem-se de 8 a 12 microbarraginhas nesse mesmo tempo.

FMA – Então, João Costa será o laboratório?
Luciano
– Justamente, será o laboratório que pensávamos ter na própria região de Gilbués. Já nos encantamos com a região, com o povo, com a problemática, há reciprocidade, é tudo que necessitávamos.
O que for bom para a região de João Costa será bom para Gilbués. Assim, pretendemos tornar João Costa uma vitrine demonstrativa para a solução desse problema de desertos vermelhos de regiões com solos sob vegetação de Cerrado. Domados os solos-problemas, daí a levar para regiões similares, é questão de arranjos adaptativos, ajustes, sintonia fina.
O importante é o homem, o envolvimento com o povo e esse já é nosso parceiro em João Costa, é meio caminho andado. O mais, é correr atrás dos recursos e trabalhar, trabalhar, estamos otimistas.

FMA – Você acredita que outros desertos poderão surgir?
Luciano
– Creio que isso é inevitável, em face do avanço dos desmatamentos e a introdução de pastagens e lavouras sem a aplicação dos cuidados necessários e das técnicas conservacionistas e, principalmente, sem reposição de nutrientes.
Nesse sentido, é preocupante a apressada tendência atual de converter enormes áreas em cultivos para a produção de etanol. O homem avança, come o filé e deixa os ossos, os desertos vermelhos. O Brasil Central está cheio disso.

FMA  – Você é otimista mesmo assim?
Luciano
– Essa é a minha missão, tentar regenerar solos degradados, veredas e matas ci-liares, revitalizar mananciais, nascentes e córregos, implantar capões no entorno das barragi-nhas e nos eixos úmidos formados por elas.Com a umidade readquirida e o sol, vêm o verde, as nascentes, volta a vida, volta a esperança, somos geradores de esperanças e temos conseguido isoo, o que nós torna otimistas.

FMA  – Então,você mudou de estratégia?
Luciano –
Sim, pois desco-brimos nosso sítio de trabalho, tropeçamos no nosso tesouro. Numa região em que a mídia não está fazendo pressão, pode-remos gradativamente, e sem as tensões e cobranças externas, apenas as nossas, ter tranqüilidade para desenvolver nossos planos, não será uma corrida contra o tempo, mas um avanço natural. Penso que nada é por acaso, há momentos em que, como se diz em Minas Gerais, o cavalo está passando arreado à nossa frente…

Os desertos vermelhos de Gilbués estão à espera dos resultados dos experimentos com as barraginhas de João Costa. Uma esperança a caminho.      (Foto: André Pessoa)

 

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Entrevistas

Guillermo Planas Roca – Entrevista sobre a energia eólica

Brasil começa a diversificar sua matriz energética e busca a sustentabilidade

Publicado

em

Energia: a força dos ventos

Silvestre Gorgulho

Os moinhos de ventos são conhecidíssimos. Desde o século V eles eram usados para bombear água e moer grãos. E agora, também, para gerar eletricidade. O sonho ambiental é ambicioso e o jogo, daqui para frente, vai ser pesado. Segundo técnicos do Greenpeace, a energia do vento, ou eólica, pode garantir 10 por cento das necessidades mundiais de eletricidade até o ano 2020. Mais ainda: deve criar 1,7 milhão de novos empregos e reduzir a emissão global de dióxido de carbono na atmosfera em mais de 10 bilhões de toneladas. Hoje, há uma convicção generalizada: o Protocolo de Kioto decretou o fim do uso dos combustíveis fósseis. Agora, governos e empresas não têm outra alternativa do que investir em tecnologias limpas e fontes energéticas renováveis. Está aí a força da energia do vento e dos biocombustíveis.

O Brasil tem sua matriz energética baseada nas hidroelétricas. As barragens brasileiras produzem cerca de 70 mil MV. Mas tem que diversificar esta matriz, para evitar o fantasma do apagão e caminhar em direção à sustentabilidade. Para a construção de novas hidroelétricas, como as do rio Madeira e do Xingu, a polêmica aumenta. Para a energia proveniente de termoelétricas de petróleo, carvão, gás ou nuclear, nem se fala. O jeito é contemplar fontes renováveis, mais atraentes para os ambientalistas, como a eólica e a energia solar.
O Rio Grande do Sul acaba de ganhar uma central de produção de energia do vento, com a mais avançada tecnologia: os Parques Eólicos de Osório. Este é o maior projeto de energia eólica da América Latina, que coloca o Brasil no mapa mun-dial do desenvolvimento sustentável. Subdividido em três parques – Osório, Sangradouro e Índios – o empreendimento, que passou a operar em sua integralidade em janeiro de 2007, tem um total de 75 aeroge-radores e uma potência instalada de 150 MW, capaz de produzir 425 milhões de kw/h por ano de energia – o suficiente para abastecer anualmente o consumo residencial de cerca de 650 mil pessoas. É metade de Porto Alegre.
O projeto gaúcho de R$ 670 milhões começou há cinco anos e tem como sócio majoritário o grupo espanhol Elecnor, através de sua subsidiária Enerfin Enervento, responsável por cerca de 1500 MW de energia eólica no mundo.
Para falar sobre o projeto e o futuro da energia dos ventos, no mundo, entrevistamos o diretor-geral da Enerfin Enervento, o espanhol Guillermo Planas Roca.

A energia eólica é produzida pela transformação
da energia cinética dos ventos em energia elétrica,
que é realizada através de um aerogerador.

GUILLERMO PLANAS ROCA – ENTREVISTA

Guilhermo Roca: “Estudamos  outros investimentos

tanto  na área de energia eólica como, também,

na área dos biocombustíveis”.

Folha do Meio – O que levou o grupo espanhol Elecnor implantar o maior parque eólico da América Latina no Brasil?
Guilhermo Roca
– Foram vários fatores. Primeiro, o incentivo do governo através do Proinfa [Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia]. Depois, acreditamos no trabalho desenvolvido pela ministra Dilma Roussef na re-gulamentação do programa, aliado à demonstração de solidez dos governos federal e gaúcho. O então governador Germano Rigotto passou para os investidores muita segurança e seriedade. Tem ainda um componente técnico importante: O Rio Grande do Sul comprovou que possui boas condições de vento para produção de energia eólica, principalmente nas regiões litorâneas. Foram estas conjunções de  fatores, inclusive uma parceria com o município de Osório, que abriu condições para a implantação do projeto. Tornamos realidade um empreendimento do porte do Parque de Osório, com 150 MW
instalados.

FMA – A energia eólica tem suas vantagens ecológicas? Mas, no Brasil, dada a força das hidroelétricas, ela tem vantagens no custo benefício de implantação?
Guilhermo –
De fato é uma energia limpa que respeita o meio ambiente. No caso do Brasil, devido ao comportamento dos regimes de vento e chuvas anuais, esta energia é complementar com a energia hídrica, o que permite poupar reservatórios de água em épocas de seca, como o
acontecido no ano passado na região sul.
O recurso eólico está espa-lhado por uma infinidade de regiões no mundo e isto facilita a diversificação geográfica da geração onde for necessária. Na verdade, é uma excelente alternativa às energias não-re-nováveis e às grandes centrais hidroelétricas.

FMA – Mesmo assim, existe um impacto ambiental?
Guilhermo –
O impacto ambiental de um projeto de
energia eólica é praticamente nulo, se comparado à implantação de uma usina hidrelétrica ou termelétrica. E tem mais. Sua instalação é completamente reversível. Os Parques Eólicos de Osório respeitam a fauna e a flora dos campos onde foram instalados, preservando, ainda, as atividades produtivas da região. O processo de ge-ração de energia eólica é inteiramente limpo, isento de contaminações e de resíduos radioativos. Não emite gases poluentes, causadores do chamado efeito estufa, responsável pelo aquecimento global. A energia gerada através do vento evita o consumo de ou-tros recursos naturais não re-nováveis e mais poluentes.

FMA – Em tempos tão difíceis para o licenciamento ambiental, como os Parques Eólicos de
Osório conseguiram atender a todas as exigências ambientais?
Guilhermo
– O projeto, que foi pioneiro na obtenção das respectivas licenças junto à FEPAM que é o órgão responsável pelo licenciamento am-
biental no Rio Grande do Sul,  teve sua implantação precedida de quatro anos de rigorosos estudos ambientais. Foi inclusive precursor, no Brasil, com estudos desta profundidade e complexidade.
Os resultados estão servindo de fonte de consulta para a FEPAM e para novos projetos na área eólica. Uma equipe de oito mestres e doutores em meio ambiente trabalhou continuamente, desde 2002, tendo o monitoramento ambiental prosseguido durante o período de implantação do parque eólico, ocorrida entre outubro de 2005 a dezembro de 2006.

FMA – Depois da entrada em operação dos parques, há cinco meses, o monitoramento ambiental continua?
Guilhermo
– Continua sim. E continua sempre muito rigoroso. Agora com ênfase no estudo do comportamento das aves e morcegos e análise do ruído na região após a implantação dos aerogeradores. E isto é muito importante para nós, como  empresa,  para  o  estado do Rio Grande do Sul e, evidentemente, para o Brasil. É sempre uma referência para novos projetos.

O modelo E-70 mede 135 metros de altura,  pesa quase 1.000 ton e produz 2MW de potência.

 No chão, o tamanho de uma hélice: só a pá mede 35 metros

FMA – Os parques foram enquadrados no processo MDL para obterem créditos de carbono?
Guilhermo
– Olha, a  ONU registrou o projeto dos parques eólicos como Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, em dezembro de 2006. Isto porque é um projeto bem caracterizado por ser dirigido por empresas européias e que demonstra contribuir para o desenvolvimento sustentável. O projeto vai evitar a emissão na atmosfera de 148.325 toneladas de CO2 anuais e evitará a queima de uns 236.000 barris de petróleo ao ano.

FMA – Em matéria de tecnologia, o projeto de Osório tem tecnologia de ponta ou é uma média?
Guilhermo
– Ah, isso é importante dizer. Os Parques Eólicos de Osório foram um dos primeiros no mundo a implantar aerogeradores de 2MW de potência, fabricados no Brasil. Fabricados e instalados pela empresa alemã Enercon GmbH, atraves da sua subsidiária Wobben Windpower, com sede em Sorocaba, São Paulo.
A Enercon é um dos líderes mundiais em tecnologia eólica de ponta, e os aerogeradores instalados em Osório, o modelo E-70, são reconhecidos internacionalmente como um dos mais avançados na atualidade.
Tecnicamente eu poderia dizer que o modelo E-70 mede 135 metros de altura e pesa quase 1.000 toneladas. Os aerogeradores de Osório contam com gerador síncrono e um gabinete de eletrônica para manter em cada instante a relação entre a velocidade de giro das pás e a velocidade do gerador. Isto os diferencia de outros modelos convencionais que precisam de um sistema de engrenagens.
Um detalhe importante é que a pá utilizada no empreendimento mede 35 metros e é ângulo de passo variável, o que permite melhorar automaticamente o ângulo de incidência do vento sobre o rotor e aproveitar ao máximo a intensidade dos ventos da região.

FMA – Podemos dizer que o Brasil entrou de vez, no mapa mundial do desenvolvimento de energia renovável?
Guilhermo
– Podemos ir até além, porque a matriz brasileira de energia já é renovável com as hidroelétricas. Agora o Brasil dá outro passo importante, pois usa a energia eólica que é renovável e causa muito menos impacto ambiental. Assim caminham as nações desenvolvidas.
Queria destacar outra coisa. O Rio Grande do Sul, pelo que aprendi, tem forte história no movimento ambientalista brasileiro. E agora, ele se apresenta como o primeiro estado a investir forte na energia eólica, mostrando mais sensibilidade social e de sustentabilidade. Ou seja, o Rio Grande avança nesta linha do desenvolvimento sustentável, pois este empreendimento traz largos benefícios nas áreas de infra-estrutura, com a diversificação da matriz energética brasileira. Traz benefícios tecnológicos, sociais e ambientais. Acima de tudo, benefícios ambientais globais, por ser um processo limpo de produção de energia renovável sem emissão de ga-ses do efeito estufa.

FMA – Este projeto tem algum significado especial para seu grupo?
Guilhermo
– Em âmbito internacional, o projeto de Osório é um dos mais importantes para nosso grupo. Veja que aqui temos 150 MW instalados. Isto equivale a uma hidroelétrica maior do que Corumbá 4, recentemente inaugurada.
Como lhe disse, a Elecnor é hoje um dos principais grupos espanhóis na área de promoção e gestão integral de projetos e desenvolvimento de infra-estrutura. A Elecnor é sócia majoritária dos Parques Eólicos de Osório, através de sua subsidiária Enerfin Enervento, que tem como objeto impulsionar a atividade na área de energias renováveis.
Podemos dizer que durante seus quase 10 anos de trajetória, a Enerfin adquiriu grande experiência em promoção e exploração de parques eólicos. Atualmente, possui 650 MW em operação e mais de 1.500 MW em desenvolvimento pelo mundo. Isto é igual a uma Hidroelétrica do tama-nho de Paulo Afonso.

FMA – O investimento é integralmente privado?
Guilhermo
– Posso lhe di-zer que trata-se de um investimento de capital inteiramente privado. R mais ainda: não especulativo, gerador de infra-estrutura e que veio para ficar. Ele está enquadrado nas exigências do Proinfa [Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de
Energia]. O investimento total é de R$ 670 milhões, tendo o
BNDES financiado R$ 465 mi-lhões, através de um consórcio entre o ABN Amro Real, Banco do Brasil, Banrisul, BRDE, Caixa RS e Santander. O restante foi investido pelo Grupo Elecnor.

FMA – Há planos para novos parques eólicos? Existe vontade de investir em bio-combustíveis?
Guilhermo
– A área de Osório permite a possibilidade de ampliar a capacidade instalada destes parques. Mas esta é uma ação a ser desenvolvida no futuro. Mas, quando a gente entra com um empreendimento deste tamanho num país, não pode ficar alheio a outras oportunidades. Evidente que a empresa estuda outros investimentos tanto  na área de energia como nos biocombustíveis.

FMA – Qual a próxima ação?
Guilhermo
–  Já estamos estudando uma próxima ação. O Grupo Elecnor prevê, ainda no setor eólico, a construção de um Parque Eólico em Palmares do Sul, também no Rio Grande, até 2008.

O processo de geração de energia eólica é inteiramente limpo,

isento de contaminações. Não emite gases poluentes,

 causadores do chamado efeito estufa, responsável pelo aquecimento global.

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