Entrevistas

Niéde Guidon: uma sertaneja arretada cuida do Parque das Capivaras

Parque da Serra da Capivara

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Parque Nacional da Serra da Capivara


Niéde Guidon fala sobre seus desafios para salvar o Parque da Capivara


Silvestre Gorgulho, de Brasília


Niéde Guidon é paulista de Jaú, se formou em História Natural na USP e há 32 anos pesquisa um dos mais importantes sítios do mundo em arte rupestre. Ela é a verdadeira guardiã dos tesouros arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara. Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho científico, Niéde Guidon é arqueóloga e doutora pela Sorbonne. Foi o seu trabalho, sua luta e sua dedicação que gerou a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara. Niéde tem 72 anos e luta pelo seu ideal de tornar a pobre região do Piauí em grande centro turístico. Ela quer mudar o perfil econômico da área com investimentos em turismo e dar ao Brasil um enorme patrimônio cultural. “É inútil falar em proteção ambiental em regiões como São Raimundo Nonato, onde as pessoas estão morrendo de fome, sem criar alternativas de trabalho. Se algo não for feito imediatamente, os sítios serão destruídos, a paisagem degradada e o ecossistema – único na região – será aniquilado”. É por esta luta para impedir a depredação e para criar condições de preservação do parque que Niéde e sua equipe vêm sofrendo até ameaças de morte. Mas ela não desiste. Niéde Guidon é guerreira e aprendeu a ser uma
legítima sertaneja honorária. É antes de tudo forte.


Folha do Meio – Quando começou o seu trabalho na região?
Niéde Guidon –
Foi em 1973. Dirigia uma equipe franco-brasileira do Piauí e iniciava as pesquisas em São Raimundo Nonato, pequena cidade perdida no sertão, numa das mais pobres regiões do Brasil. Hoje, 32 anos depois, podemos fazer um balanço de tudo o que foi feito e, principalmente, do que resta a fazer. Mas tem trabalho para mais uma geração!


FMA – E qual esse balanço?
Niéde –
Foram 32 anos de muita dedicação. Neste tempo foram descobertos vestígios concretos da presença do primeiro homem americano na região, datados com até 57 mil anos. Quem visitou o parque sabe das milhares de pinturas rupestres, fogueiras, urnas funerárias e ossadas de animais pré-históricos, pois todo esse acervo está reunido no museu da Fumdham (Fundação Museu do Homem Americano). O resultado destes 32 anos de trabalho desvendou para o Brasil e o mundo um patrimônio cultural cuja importância é igual ao das cavernas de Lascaux, na França, ou as da Austrália. Ambas são visitadas anualmente por milhões de turistas.


FMA – Qual é a importância do Parque da Serra da Capivara para a ciência e para a cultura?
Niéde –
Para a ciência a importância do Parque está no fato de que ele preserva áreas de Caatinga primária. Nessa área, há cerca de 9.000 anos, se encontravam dois biomas: a floresta amazônica e a mata atlântica. Até hoje temos espécies animais e vegetais de ambos biomas dentro do Parque. Nele se encontra a maior concentração de sítios rupestres do mundo. A pesquisa nesses sítios arqueológicos permitiu que demonstrássemos a antiguidade das culturas autóctones do Brasil. Sua capacidade tecnológica e sua arte, hoje declaradas Patrimônio Cultural da Humanidade. Este acervo é comparável a qualquer dos mais famosos sítios do velho mundo. É o estudo desses sítios que poderá dizer a verdadeira origem dos primeiros homens que povoaram a região.


FMA – Você e sua equipe têm apoio para esse trabalho?
Niéde –
Vou falar a verdade. Infelizmente temos apoio de parte da população local que entendeu que com o Parque Nacional todos têm a ganhar. Tanto os intelectuais, como os comerciantes e empresários. Mas não temos o apoio daqueles que sempre viveram como parasitas do poder coronelista, daqueles que se sentem acima de todas as leis. Também não temos apoio de pessoas pobres de espírito, de ignorantes que pensam pequeno e, minados pelo vício do álcool profusamente difundido na região, ainda acreditam que para viver terão que ter sempre a esmola dos políticos, que explorar a caça e a venda ilegal da madeira.
Já o governo estadual e o federal nos dão apoio, mas nunca um apoio decisivo. Quer um exemplo? Até hoje não conseguimos ter um orçamento fixo que nos permita retomar os funcionários, com carteira assinada. Não sabemos até quando vamos poder mantê-los. Já tivemos que despedir todos, pagar indenizações, nos separar de pessoas que trabalhavam conosco há quase vinte anos. O que é incrível é que ninguém ainda viu como o turismo cultural pode levar um desenvolvimento sustentável para a região. Parece que o Brasil só acredita no turismo de praia e de Carnaval.


FMA – E essa história de se fazer assentamentos no entorno do Parque?
Niéde –
Olha, você tocou num problema muito grave. Incrível como há total insensibilidade dos ministros da área social, do desenvolvimento agrário, do pessoal do Incra para o problema. Não sei como o governo não intervêem mais firme neste problema. Na verdade, apenas o ministro Walfrido, do Turismo, e Gilberto Gil, da Cultura, tomaram uma atitude firme em defesa do parque.
Estive com o presidente do Incra e ele foi capaz de dizer que não existe outra área para fazer assentamentos. O Brasil deste tamanho! Será que precisa fazer assentamentos no entorno de um parque nacional? Numa área de proteção ambiental? Numa área que é destinada a ser um Corredor Ecológico para a serra das Confusões? Isso por instruções da Unesco e de estudos técnicos. Não posso aceitar esse primarismo de se fazer de uma área nobre para pesquisa antropológica, cultural e do meio ambiente um assentamento qualquer. Um adensamento que vai dilapidar rapidamente um patrimônio mundial. As autoridades brasileiras estão sendo desleixadas com esse tesouro fantástico. Um tesouro único que, pelo turismo, pode dar emprego, renda e melhoria das condições de vida de todo um povo.


FMA – Há alguma denúncia concreta?
Niéde –
Há sim. Além dos assentamentos impedirem o corredor ecológico para a Serra das Confusões, há ainda algo pior: na realidade essas terras todas são do governo do Piauí e deveriam ser anexadas ao Parque ou ser um corredor ecológico. Um Corredor Ecológico exige liberdade de passagem para os bichos e qualquer tipo de assentamento vai criar muros, cercas etc. E pior: vai aumentar o número de caçadores de animais silvestres. Desde que foi feita e asfaltada a estrada PI-140, em sua margem foram se instalando casas de fim de semana de pessoas ricas, em geral comerciantes e políticos de São Raimundo Nonato. Casas com churrasqueiras e piscinas.


FMA – A senhora é contra a reforma agrária?
Niede –
De jeito nenhum! Sou a favor. Mas sou também a favor do bom senso. Não é possível fazer reforma agrária numa área de preservação ou próxima de um Parque Nacional. Em último caso, se não tiver jeito, o Incra deveria fazer exigências tão fortes que vão acabar inviabilizando os projetos. Por exemplo, o Incra deveria colocar no contrato que o assentado perderá os direitos que conseguir com o assentamento, se for pego caçando, se entrar no Parque Nacional, se for flagrado com armas ou armadilhas. E que essa perda é automática, não exigindo abertura de processo. Os assentados deverão assinar no contrato que manterão os animais domésticos dentro de seus terrenos, impedindo que vaguem por todo os lados e que entrem no Parque Nacional. Os animais deverão ser fechados durante a noite, para que não existam alegações de que onças estão matando e os conseqüentes pedidos de indenização. A verdade é que há outros lugares mais apropriados para se fazer assentamentos.


FMA – A senhora acha que o governo investe corretamente no Nordeste?
Niéde –
Tenho lá minhas dúvidas. Vale lembrar que, em 2004, o Dnocs comemorou 95 anos de existência! Quantos anos têm a Sudene? E o Banco do Nordeste? Alguém já contabilizou as somas que os diferentes projetos, inclusive o Pró-Álcool, que ia acabar com a miséria, já levaram para o Nordeste? E qual foi o resultado de todo esse investimento? A resposta está na criação, hoje, de programas assistencialistas. O dinheiro dos grandes investimentos acabou, mesmo, nas mãos dos magnatas do Rio, São Paulo e do próprio Nordeste.
Veja aí a prova dos nove: a miséria continua tão persistente, tão aguda que o governo atual teve que criar o Fome Zero! Será que vamos continuar a utilizar os recursos públicos com programas mal elaborados? Financiar reforma agrária equivocada e distribuir terras degradadas e secas? Isso é eternizar o problema. Não é à toa que os jornais anunciam cá e lá a descobertas de fraudes nesses programas assistencialistas.


FMA – A senhora acha que o assistencialismo puro e simples pode prejudicar o progresso pessoal das pessoas?
Niéde –
Só prejudica. É só ver como aumentam as filas das pessoas assistidas. Quem quiser fazer uma pesquisa, uma análise mais profunda é só ir lá se postar na frente de uma instituição pagadora. Não se forma um povo transformando-o em dependente, em mendigo.


FMA – E as queimadas em volta do parque…
Niéde –
Foi bom você tocar no caso das queimadas. Qual a origem delas? Os agricultores. O maior incêndio que tivemos em 2004 foi o que os assentados da Fazenda Lagoa atearam à floresta da reserva legal que deveria ser mantida intacta. O fogo somente parou nos paredões da serra, destruindo tudo. Os assentamentos só vão aumentar o risco de queimadas.


FMA – E o problema com os caçadores?
Niéde –
Esse é outro gravíssimo problema. Quem insiste em dizimar a fauna do Parque são justamente as pessoas que caçam por encomenda. Muitos caçadores vêm de assentamentos e receberam recursos para construir sua casa e para comprar sementes e plantar. A maioria tem carro e armas. Muitos deles trabalham para pessoas ricas, acostumadas a comer caça. Os caçadores parecem ser miseráveis, mas não são. Em todos os acampamentos de caçadores que encontramos dentro do Parque e em sua vizinhança recolhemos pilhas de lanternas, garrafas vazias de pinga, de cervejas, refrigerantes, envelopes de temperos industrializados, maços vazios de cigarros e muitos plásticos de embalagens de produtos diversos.


FMA – E qual sua proposta para resolver tantos problemas, inclusive dos assentamentos que lá existem?
Niéde –
Olha, quem quiser fazer a coisa bem feita vai encontrar fórmulas e formas. O próprio Incra, a Embrapa e outros órgãos regionais se quiserem ajudar podem fazê-lo e muito bem. Vamos a alguns exemplos. No caso do turismo, estudos indicam que, com a realização de uma boa infra-estrutura, escolas e formação e guias, há potencial para receber 3 milhões de turistas. O Parque Nacional da Serra da Capivara pode ser uma atração internacional fortíssima. Tem a mesma importância das cavernas de Lascaux, na França, ou as da Austrália. São destinos que recebem turistas de primeira linha. Que gastam, que dão emprego, que melhoram a renda da população local. Essa é uma atividade que muda a realidade local. Quantos brasileiros já foram à Disney e nunca foram a um parque nacional no Brasil? Quantos brasileiros conhecem esse patrimônio chamado Parque Nacional da Serra da Capivara? A maioria nem sabe que existe. Mas como fomentar a ida de brasileiros para lá se não tem como chegar, não tem como se hospedar confortavelmente, não tem como fazer de uma viagem cultural uma viagem agradável? Sabe por que o governo não faz isso? Simples, porque não é um projeto político. Compare com a transposição do rio São Francisco, que é um projeto político, vai gastar muito mais e deve dar muito menos emprego.


FMA – E existem outras alternativas econômicas?
Niéde –
Existem muitas. O próprio Incra, o Banco do Nordeste e a Embrapa poderiam estudar o incremento da apicultura, o fomento à produção de flores, plantas ornamentais, cactos etc. O mercado nacional e internacional é ávido e paga caro por esses produtos. Outro investimento de retorno certo é na educação, na profissionalização das pessoas dentro do que a região precisa. Não precisa nada sofisticado, tipo o lema que anda por aí “universidade para todos”. É o tipo da coisa idiota porque muitas pessoas são geniais fora da área acadêmica. Pode-se ser um grande técnico, um grande agricultor, um artesão, um empresário fantástico, um guia turístico, um artista, um empreendedor sem ter que fazer a universidade. Por que não criar muitas escolas técnicas de nível superior? E por que não oferecer a todos uma escola básica e secundária que garantam, para aqueles que assim o desejarem, a entrada na universidade pública? Quando eu entrei na USP, vinda de uma escola básica e secundária públicas, tinha colegas negros e colegas de classes pobres. Todos saídos da escola pública como eu e que tinham, como eu, passado no vestibular! Todos iguais pelo conhecimento e não por decreto!


FMA – Sua luta é forte. Será que a política não está minando seu trabalho científico?
Niéde –
Olha, eu sou cientista. Nunca tive e não tenho nenhuma vocação política. Minha geração nasceu sob a ditadura Getúlio Vargas e, desde pequena via, como todos tinham medo do famoso Dops. Como estudante participei das manifestações contra Vargas e as de maio de 1968, em Paris. Como profissional sempre vi, com lucidez, os problemas do Brasil e sempre procurei trabalhar para dar minha contribuição visando saná-los. Deixei a USP em 64 e fui embora para a França porque detesto regimes absolutistas. Sejam eles de esquerda ou de direita. Refiz minha carreira lá e hoje sou aposentada pelo governo francês. Mas, mesmo ensinando em Paris, minha pesquisa foi sempre sobre o Brasil. No Piauí. Desde 1973, durante minhas férias, vinha ao Brasil, com meus alunos, em uma missão oficial francesa.
Em 1991, o governo brasileiro solicitou ao governo francês que eu fosse cedida para coordenar os trabalhos de manejo e proteção do Parque Nacional Serra da Capivara. Deixei Paris e me instalei em São Raimundo Nonato. Conheço, portanto, muito bem o sertão do Nordeste e seus problemas. Mas penso que certos aspectos devam ser lembrados para que a politicagem brasileira não cometa mais um erro.


FMA – O que fazer, por exemplo?
Niéde –
Para começar, exigir que a escola pública tenha a mais alta qualidade, desde o ensino básico, que é fundamental. Criar escolas técnicas de nível superior em todos os estados. Analisar as diferentes regiões, determinar quais as potencialidades que oferece cada uma para financiar somente atividades que sejam realmente adaptadas a cada região e que tenham um real potencial econômico. Que sejam auto-sustentáveis.
Permitir que cada jovem possa trabalhar, viver dignamente em sua terra natal, sem ter que migrar para poder sobreviver nos grandes centros urbanos. O sonho dos jovens da região do Parque Nacional da Serra da Capivara é ter um trabalho lá, perto de sua família, de seus amigos. E o turismo pode fazer esse milagre!
E também é hora do Brasil fazer uma reforma política. Ninguém mais agüenta a história de se arrumar recursos para um programa, para um projeto e esse dinheiro seguir a velha trajetória de passar por tantos políticos como deputado, governador, prefeito, vereador e quando chega no programa ele desaparece nas mãos dos mesmo empreiteiros que bancaram as campanhas políticas. O Brasil tem que mudar é aí.


FMA – A vocação ali é o ecoturismo…
Niéde –
Evidente! Por que temos que aceitar que o Brasil somente pode ser agrícola no interior, industrial somente nas cidades do sul e do litoral, e turístico somente nas praias e no Carnaval? Vamos nos mirar, no exemplo, da participação da receita turística no PIB da França, da Itália, da Espanha, da África do Sul, do México, da Jamaica, da Costa Rica? E qual é essa participação no Brasil? Em 2003, o número total de turistas de todo o Brasil foi de pouco mais de 4 milhões. Atrás até da Costa Rica, que é menor do que o Piauí.
Olha, apesar de aposentada, continuo trabalhando duro. O que já foi feito na Serra da Capivara é colossal. É preciso que os tomadores de decisão, que todo brasileiro, saibam que ali temos um dos maiores patrimônios arqueológico, artístico e cultural do mundo! Me revolta ver como essas obras de arte não são aproveitadas para atrair milhões de turistas/ano de alto poder aquisitivo. Como? Apenas criando ali um pólo turístico, com infra-estrutura. Um pólo que vai trazer o desenvolvimento, renda e o fim da miséria. Me revolta ver todo esse acervo fantástico ser abandonado, negligenciado e até destruído pela imbecilidade humana.
Com esses assentamentos querem transformar todo o entorno do Parque em um imenso favelão rural. Como desenvolver um centro turístico nessas condições? Um dos maiores atrativos do Parque era a maravilhosa paisagem que se via lá de cima. Quem virá para ver favelas? As favelas vão acabar com o Parque, como estão acabando com o Rio de Janeiro. Até quando vão continuar utilizando os nossos impostos para financiar esse tipo de desenvolvimento às avessas? Até quando nossas lideranças vão ter apenas essa visão política, eleitoreira e assistencialista? Até quando nossos governantes vão pensar pequeno?


FMA – Mas não há esperança?
Niéde –
Evidente que tem que haver esperança. Só ela move nossos sonhos. Mas, confesso que estou cansada. Me desculpe se fui muito cáustica nesta entrevista. Mas tenho um peso muito grande dentro de mim e, hoje, não sei se vale a pena continuar nessa luta ou é melhor me declarar vencida e, mais uma vez, deixar meu país natal.


Parque Nacional da Serra da Capivara


Maior patrimônio arqueológico brasileiro corre perigo


Niéde Guidon: “O Brasil não tem direito de ignorar um patrimônio cultural da humanidade e fazer assentamentos no seu entorno”


A pesquisa, o trabalho científico e o esforço de alguns estudiosos sempre estão derrubando teorias. Por exemplo, a gente aprende que os primeiros homens chegaram às Américas pelo Estreito de Bhering, no Alasca, vindos da Sibéria. Pois pesquisadores descobriram que não é bem assim. E a contestação para essa teoria está em pleno sertão brasileiro. Sítios arqueológicos no Nordeste guardam indícios de que a ocupação humana se deu cerca de 50 mil anos antes dos homens vindos da Sibéria. Pinturas rupestres mostram como era a vida em um passado distante: caçadas, orgias, animais desconhecidos e baleias sugerem que a paisagem e os costumes eram bem diferentes do que conhecemos hoje. Todos estes estudos foram feitos a 530 quilômetros de Teresina, capital do Piauí, próximo às cidades de Coronel José Dias e São Raimundo Nonato. É ali que está um dos parques nacionais mais importantes do Brasil: o Parque Nacional da Serra da Capivara. Criado em junho de 1979, o Parque tem 129.140 hectares e seu perímetro é de 214 Km. A criação do Parque Nacional Serra da Capivara teve múltiplas motivações ligadas à preservação de um meio ambiente específico e de um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos. Em 1991, a Unesco inscreveu o Parque Nacional da Capivara na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade. E quem está à frente destas pesquisas? Niéde Guidon, o anjo da guarda de tantos tesouros. É justamente com ela que vamos conversar.


FATO 1: a denúncia
Uma área essencial para o equilíbrio ecológico de dois Parques, da Serra da Capivara e da Serra das Confusões, está sofrendo dois graves problemas: assentamentos desordenados e invasões. Justamente uma região onde já foram investidos mais de 20 milhões de dólares para que fosse criado um centro internacional de turismo ecológico e cultural, com capacidade de atrair 3 milhões de turistas/ano. Todo o programa educacional que foi mantido até agora pode não ter servido para nada: os cursos que foram dados para formar guias, pessoal técnico para manutenção das pinturas, para os trabalhos de pesquisa em arqueologia, desde a escavação até a análise em laboratório e preparo de publicações, especialistas em informática, parece ter sido em vão.


FATO 2: sentimento de culpa
A arqueóloga Niéde Guidon, diretora do Parque, está preocupadíssima. Veio a Brasília conversar com os ministros Walfrido dos Mares Guia, do Turismo, Gilberto Gil, da Cultura, e Miguel Rossetto, da Reforma Agrária, e com Marina Silva, do Meio Ambiente. Com todos ela deixou um recado: “Estou preocupada com o parque, com as queimadas e a destruição de sítios arqueológicos. Também com os nossos funcionários. Tenho, até, um sentimento de culpa muito grande, pois tive uma funcionária assassinada pelo irmão. Eu dizia sempre a ela para não deixar o irmão caçar no parque, senão ela perderia o emprego. Ela não deixou o irmão caçar e o irmão a matou”.


FATO 2: audiências em Brasília
Dois ministros mostraram mais sensibilidade para o problema e tomaram atitudes imediatas: o do Turismo, Mares Guia, e o da Cultura, Gilberto Gil: O ministro Walfrido já visitou o parque e até deu o dinheiro para construção do aeroporto. Ele defendeu o fantástico valor do acervo cultural ali guardado. O ministro Walfrido ligou imediatamente para o governador Welington Dias, do Piauí, para o ministro Rosseto e se propôs a defender o Parque Nacional da Serra da Capivara, o Corredor Ecológico e o Parque da Serra das Confusões. O ministro Gilberto Gil é de parecer que a região não pode ser utilizada para assentamentos. De acordo com o presidente do IPHAN, decidiu que será preparado um pedido ao Presidente Lula para que se crie uma comissão técnica dos quatro ministérios envolvidos para buscar uma saída única e definitiva.


FATO 4: processada por caçadores
A questão está tão tensa e os valores tão invertidos, que Niéde Guidon, diretora e defensora do Parque Nacional da Serra da Capivara, está sendo processada até por caçadores da fauna das duas unidades de conservação. O nome deles: Aroldo de Andrade Silva, Ronaldo Adriano dos Santos Ramos, Fabrício Paes Landim e Junivaldo Pereira dos Santos.

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Entrevistas

MARCOS TERENA

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De filho pródigo à liderança internacional, o índio, piloto e cacique Marcos Terena, tornou-se um líder respeitado e o ponto de equilíbrio entre autoridades brancas e os povos indígenas.

O índio, piloto e cacique Marcos Terena é uma liderança respeitada internacionalmente e o ponto de equilíbrio autoridades brancas e os povos indígenas. Terena tem uma de luta, de diálogos e de fé.
Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se” dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo.
Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio. Escreveu ele ao JB:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.” 
E Terena continua sua carta:
“Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.” 
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. “Expliquei – diz ele – e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”. Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição! Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz.
E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”. 
Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 66 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro – é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.
CINCO BRANCOS E CINCO ÍNDIOS DE VALOR
1 – CINCO HOMENS BRANCOS QUE SOUBERAM OU SABEM VALORIZAR A CULTURA INDIGENISTA?
TERENA – O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.
2 – QUAIS OS CINCO ÍNDIOS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA?
TERENA – Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Txucarramãe, Cacique Quitéria Pankararue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.
3 – A POLÍTICA É UMA ARMA PARA SE FAZER JUSTIÇA OU UM CAMINHO MAIS FÁCIL PARA ENCOBRIR INJUSTIÇAS?
TERENA – O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. Mas a única participação que tivemos foi do Deputado Mario Juruna, eleito pelo voto do RJ. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira “assembleia do povo brasileiro” e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos e poderosos.
POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE
4 – NAS SUAS CONTAS, QUAL A POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE NO BRASIL?
TERENA –  Já fomos mais de 5 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 530 mil em aldeias, e depois dos eventos nacionais e internacionais de afirmação outros 500 mil em centros urbanos, com mais de 300 sociedades e 200 línguas vivas em todo o Brasil.
5 – AS MISSÕES RELIGIOSAS QUE ATUAM NAS ÁREAS INDÍGENAS SÃO BOAS OU RUINS?
TERENA – As missões religiosas sempre foram a parte a abençoar os primeiros contatos com os indígenas. Elas foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores e sem almas por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim pois sempre respeitamos de forma sagrado o Grande Espírito.
6 – OS ÍNDIOS JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA OS PORTUGUESES (MOTIVO DE FINANCIAMENTO DE NOVAS EXPEDIÇÕES, POIS O MUNDO CATÓLICO TINHA QUE SALVAR ALMAS) JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA CANTORES DE ROCK, PARA ONGS, PARA CANDIDATOS E PARA GOVERNOS. ÍNDIO É UM BOM MARKETING?
TERENA – Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de joias, de produtos de beleza, de comida e medicina alternativas. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.
7 – QUEM PENSA GRANDE E QUEM PENSA PEQUENO NA FUNAI?
TERENA – Os índios pensam de forma ampla porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai foram passivos, paternalistas e incompetentes para a promoção dos valores indígenas e da própria instituição como empoderamento étnico, institucional e fonte de respostas para o País e para o mundo.
SONHO: DEMARCAÇÃO E CÁTEDRA ÍNDÍGENA
8 – JURUNA FOI UM LÍDER ELEITO PELO HOMEM BRANCO. VALEU, PARA OS ÍNDIOS, ESSA EXPERIÊNCIA PARLAMENTAR?
TERENA – A lembrança de Mário Juruna é um marco na história dos Povos Indígenas. Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, sendo respeitado pelas autoridades brasileiras por sua forma de ser, mas como Parlamentar não foi bem assim. Houve falta de assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição por exemplo, para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje…
9 – QUAL O GRANDE SONHO DA FAMÍLIA INDIGENISTA PARA O ANO 2020?
TERENA – A demarcação de todas as terras. Cumprir a Constituição e não rasgá-la como querem alguns parlamentares como a bancada ruralista; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; criar uma Cátedra Indígena com um perfil de Universidade Intercultural, e transformar a Funai num Ministério do Índio, e inovar nas relações com os poderes públicos, nomeando indígenas para esses cargos, pois eles existem.
10 – RELIGIÃO: O HOMEM BRANCO NÃO RESOLVEU SEUS PROBLEMAS COM A RELIGIÃO QUE TEM, MAS ACHA QUE DEVE LEVAR SUA RELIGIÃO PARA OS ÍNDIOS. O QUE ACHA DISSO?
TERENA – Os índios creem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.
11 – O QUE O ÍNDIO ESPERA DA CIVILIZAÇÃO, DO HOMEM BRANCO DE HOJE?
TERENA – Na verdade, agora estamos mais especializados em assuntos do branco, percebemos uma grande carência de metas e ideais que não dependem apenas de dinheiro ou poder. A sociedade do novo Milênio se perdeu entre as novas tecnologias e está gerando uma sociedade sem velhos e jovens, onde a Mulher por ser Mulher, poderá ser o equilíbrio, a tábua de salvação dos valores sociais, interétnicos, econômicos e religiosos. Um governo que defende o armamento de sua sociedade não está a favor do bem estar de seu Povo e sim dos interesses das indústrias de armas e guerras. O índio brasileiro não aceita ser parte da pobreza, mas quer mostrar que podemos ajudar, contribuir, mas dentro de um respeito mútuo.
“POSSO SER O QUE VOCÊ É, SEM DEIXAR DE SER QUEM SOU!”
12 – SUA LUTA É PROVAR QUE A DIFERENÇA CULTURAL É FATOR DE DISCRIMINAÇÃO QUANDO DEVERIA SER FATOR DE UNIÃO PELA PLURALIDADE ÉTNICA. VOCÊ CONSEGUE PASSAR ESSA MENSAGEM?
TERENA – Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar sem qualquer apoio ou cotas, e mesmo com a discriminação poder chegar a fazer um curso de aviadores na FAB. Aprendi muito com os valores militares. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram essa oportunidade. Muitos cansados, desiludidos voltaram para suas Aldeias para formar um novo espírito de lideranças tradicionais, religiosas e políticas. Mas no novo Milênio é impossível aceitar quaisquer argumentos que nos isolem das oportunidades, por isso quando começamos o movimento indígena nos anos 80, buscamos aliados para trocas de ideias dos nossos valores e da sociedade como um todo, organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, da SBPC, envolvendo artistas e personalidades – tudo isso ajudou a sermos melhores compreendidos. Ajudou-nos a levar uma nova mensagem aos brasileiros: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”
CULTURA FORTE, MAS ECONOMIA FORTE
13 – OS ÍNDIOS PARECIS SÃO HOJE GRANDE PRODUTORES RURAIS. FAZEM DUAS SAFRAS POR ANO DE SOJA, MILHO, GIRASSOL E OUTROS PRODUTOS. TRÊS MIL ÍNDIOS FAZEM MAIS DE R$ 50 MILHÕES COM O AGRONEGÓCIO. TEM ÍNDIO PILOTO DE COLHEITADEIRA, AGRÔNOMO E TEM ÍNDIO ESPECIALISTA EM MERCADO. FUNAI E IBAMA CRIAM TODAS AS DIFICULDADES BUROCRÁTICAS A ELES. O QUE VOCÊ ACHA DISSO?
TERENA – Temos que olhar com desconfiança tudo que é mágico. Se todos os agricultores fossem plantar soja para ficarem ricos, não haveria pobreza e fazendeiros endividados com bancos e credores. Teríamos condições de plantar soja, mas também seguir os princípios indígenas de gerar a segurança alimentar familiar. O Agronegócio não funciona assim. Por outro lado, os irmãos indígenas estão se empenhando em fazer a sua parte, que é demonstrar sua inteligência no manejo com a terra e sua força de trabalho. Ainda não sabemos como foram feitos os acordos financeiros das partes envolvidas.
14 – VOCÊ ACHA QUE O GOVERNO ESTÁ MEIO INDECISO?
TERENA – O Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro tem demonstrado sua contradição interna. Alguns assessores de alto nível emitem sons de discriminação histórica e até de ódio. Então como acreditar fielmente que esse Ministério é um aliado. Seria um marketing ou seria a reformulação do Anhanguera quando mentiu para os antigos donos dessas terras, ao ameaçar por fogo em todos os rios, ao acender um fogo com aguardente? O mais estranho é que os órgãos de fiscalização e controle e defesa dos povos indígenas como a FUNAI e o IBAMA, estão sendo descontruídos como tais, mas felizmente isso não acontece com o Ministério Público Federal, que certamente dará um norte nos encaminhamentos futuro.
De toda forma, sempre defendo a livre determinação dos Povos Indígenas, a começar pela demarcação territorial, com cultura forte, mas economia forte também.
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Entrevistas

José Carlos Pinheiro Neto – Acelerando na Anfavea

Pinheiro Neto entra em campo e acelera fundo na Anfavea

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Acelerando na Anfavea
Silvestre Gorgulho, de Brasília
Várias revoluções estão acontecendo neste final de século no Brasil: na educação, na economia, nas ciências, nas telecomunicações, no comportamento das pessoas, na vida política e, até, quem diria, no trânsito nosso de cada dia. Essas revoluções são frutos da globalização? Talvez. São frutos de uma tomada de consciência da população? Talvez. O que não tem talvez, é pura certeza, é que no centro de tantas revoluções está um produto que virou extensão do próprio homem: o automóvel. Para entender a importância do carro na economia, veja só estes dados: o setor automobilístico responde por 12% do PIB industrial, significa 9% do valor agregado e absorve 110 mil empregos diretos e mais de hum milhão de empregos indiretos, se agregar ao setor industrial os serviços das concessionárias, dos postos de gasolina e de autopeças; na ciência e tecnologia, é bom lembrar desta única observação: nunca um setor conseguiu, em tão pouco tempo, assimilar tantas e novas teorias de produção enxuta, ISO, just-in-time, fast-to-market e tecnologias de ponta; para entender a importância do automóvel no comportamento humano e na política, basta estudar melhor a ação do Congresso Nacional na aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro, um instrumento legal que tornou o motorista e o pedestre mais responsáveis e obrigou os carros a serem melhor conservados.

Mas, se o mundo do automóvel está ocupando todo este espaço na vida de cada cidadão, o mundo do business conhece, desde o dia 13 de abril, um novo técnico da seleção brasileira de dirigentes e negociadores internacionais. O setor automobilístico brasileiro colocou em campo um nome que vai dar o que falar: José Carlos Pinheiro Neto, Diretor de Assuntos Corporativos e de Exportação da General Motors, que acaba de assumir a presidência da ANFAVEA.

Conhecido no meio como um executivo que faz acontecer, Pinheiro Neto, advogado, pai de 2 filhos, começou na GM em 1970, ocupou vários cargos na montadora, inclusive no exterior.

Antes de sua posse, Pinheiro Neto esteve, na sexta-feira, dia três de abril, com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto. E neste encontro três assuntos foram abordados com o maior interesse de parte a parte: primeiro, o setor automobilístico é um setor que serviu de base para análises e projetos para os principais investidores internacionais sobre as potencialidades econômicas do Brasil; segundo, a ANFAVEA deverá ter mais sinergia com o Governo porque hoje já não se discute mais só mercado interno, pois o filão são as exportações e o maior ou menor sucesso lá fora será uma resultante direta deste relacionamento; e, terceiro, no ano 2.000 o Brasil deverá estar produzindo cerca de 3 milhões de veículos/ano, ou seja, será o quarto maior produtor de automóveis do mundo, logo depois dos EUA, Japão e Alemanha.

O que tudo isto significa para a imagem do Brasil e para sua economia? Como tudo isto vai influir na vida de cada brasileiro?
Fácil saber, basta ir de carona nesta entrevista de José Carlos Pinheiro Neto. Mas, atenção: fique atento às curvas dos preços, às subidas e descidas das importações e exportações e à disparada competitiva com que chegam ao Brasil os seis novos associados pesos-pesados da ANFAVEA, Honda, Mercedez Automóveis, Chrysler, Toyota, Pegeuot e Renault. Afinal de contas, está todo mundo querendo saber qual o “pulo do gato” que o Brasil está dando para enfrentar os grandes mundiais do setor automobilístico.

A ENTREVISTA

A Anfavea já teve cinco presidentes. O carro vai rodar como sempre rodou ou tem idéia nova por aí?
JCPN –
Num certo sentido vai rodar como sempre, ou seja, congregando os fabricantes de automóveis na defesa dos seus interesses. Mas, em outro, inovará. Será a luta para reduzir impostos. Não podemos, também, mais conviver com uma frota tão ultrapassada como a nossa. Dos quase 20 milhões de veículos que circulam no país, com certeza pelo menos 25% não têm mais condições de trafegabilidade.

A administração da Anfavea que terminou agora em abril, vamos assim dizer, foi muito discreta. Qual será o estilo da administração Pinheiro Neto: estará mais para André Beer ou para Silvano Valentino?
JCPN –
Cada dirigente tem sua marca. A gestão André Beer, meu querido amigo e professor, foi muito marcante. Já a do Silvano Valentino foi discreta, mas caracterizada por um crescimento impressionante do setor, com recordes em cima de recordes. Como presidente da Anfavea, vou buscar a união de todos associados para enfrentar as adversidades e buscar maior sinergia com o Governo e outras entidades representativas do setor. O filão são as exportações e já não se discute mais só mercado interno. O maior ou menor sucesso lá fora será uma resultante direta do relacionamento iniciativa privada e Governo.

Qual o equilíbrio ético entre ser o presidente da Anfavea e ser, também, executivo de uma montadora específica? Existe algum conflito?
JCPN –
Um dos sucessos da Anfavea é justamente a rotatividade de seus dirigentes. Não há “peleguismo”. O importante é saber separar bem nossas atividades. Vou defender sempre os interesses dos setor e de nossas associadas. Fazendo isto estarei defendendo os interesses da GM.

Eu sinto que vários setores da economia organizada do Brasil chegam a invejar o trabalho institucional da Anfavea. Qual é o segredo?
JCPN –
Segredo? Se existe algum é a união dos associados em torno dos objetivos da entidade. E também porque a Anfavea além de representar um setor muito forte e bem estruturado, adquiriu credibilidade para as posições que defende.

Todo país almeja ter uma indústria automobilística e uma construção civil fortes. São os grandes empregadores. Como o senhor vê a participação da indústria automobilística na economia do Brasil?
JCPN –
Nosso setor é um dos maiores geradores do PIB nacional e também um forte empregador de trabalho qualificado. A indústria automobilística é o “carro-chefe” da economia de qualquer país, trazendo atrás de si uma enorme engrenagem. Começa pela matéria prima, passa pelos fabricantes de autopeças, usa tecnologia de ponta, forte setor de serviços com as concessionárias e oficinas, tem empresas financeiras, é grande fonte de arrecadação de impostos municipais, estaduais e federais. E mais: tem uma interação muito forte com o ser humano, pois o carro é extensão do homem ao dar-lhe liberdade, status, comodidade e ajuda no aprendizado de uma melhor convivência, pela educação, pela solidariedade e pelos sonhos. É mola mestra do desenvolvimento.

Com a abertura do mercado feita no Governo Collor, todas as grandes marcas mundiais vieram para o Brasil, estimuladas pela barreira tarifária de 20%. Grandes investimentos foram realizados, sobretudo em concessionárias de carros importados. Valeu a pena a abertura?
JCPN –
A abertura econômica viria mais cedo ou mais tarde. O Brasil não poderia ficar isolado do mundo, sob pena, também, de perder mercado. Foi a abertura que possibilitou a evolução da indústria automobilística que, até então, sequer podia introduzir uma injeção eletrônica de combustível, devido a reserva de mercado na área de informática. Sem abertura não haveria modernização.

O ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, hoje candidato a Presidente da República, elevou a alíquota de 20% para 70%. Quebrou mais da metade das empresas instaladas. O Real de FHC tem regras mais fixas do que o Real de Ciro Gomes?
JCPN –
É verdade. As empresas finalmente contam com um regime automotivo estável, praticamente sem grandes mudanças na regra do jogo. A estabilidade possibilitou a fixação de metas, tanto no que diz a investimentos como para as exportações.

Uma pergunta de consumidor: por que o mesmo carro nos EUA, Alemanha e Japão é mais bonito, mais barato e melhor? Tem globalização nisto?
JCPN –
Vamos por parte: temos carros fabricados no Brasil que estão entre os melhores e mais vendidos no mundo. Veja, por exemplo, o magnífico resultado de nossas exportações. Agora o que precisamos fazer é lutar pela redução de impostos, pois a carga tributária diminuindo vai ampliar a nossa escala de produção. Produzindo e vendendo mais, mesmo com os impostos menores, aumentaria a arrecadação final.

Vamos falar agora de Carro Popular. A indústria automobilística conseguiu a proeza de convencer Itamar Franco a aprovar o carro popular. Provou até que reduzindo os impostos é possível aumentar a arrecadação e aquecer a economia. O presidente FHC aprendeu a lição? Cadê o carro popular de US$ 7 mil?
JCPN –
O carro popular de 7 mil dólares existiu porque o IPI naquela época era simbólico, ou seja, 0,1%. Hoje é 13%. Com acabamento simples, o carro popular também evoluiu muito e hoje tem injeção eletrônica, proteção laterais e outras benfeitorias tecnológicas. Resumindo, deixou de ser popular.

Uma curiosidade: os presidentes da Anfavea sempre foram executivos brasileiros e nunca presidente das montadoras. Exceção para o último presidente da entidade, o italiano Silvano Valentino, presidente da Fiat. Valeu a experiência?
JCPN –
Valeu, por que não? O fato dele ser presidente de uma montadora só o credenciou mais ainda para o cargo.

Na sua opinião, a inspeção veicular é mais útil aos operadores ou aos donos dos veículos?
JCPN –
A inspeção veicular é importante, pois vai diminuir acidentes e poluir menos a atmosfera. E terá todo o apoio da Anfavea.

Será que a inspeção veicular, aprovada por lei, não corre o risco de ser o último cartório criado pelo Governo?
JCPN –
Não acredito que isto não aconteça.

Outra curiosidade: quantas montadoras são hoje filiadas à Anfavea?
JCPN –
Temos 23 associadas, incluindo montadoras de veículos, tratores e máquinas agrícolas.

A indústria automobilística é o setor econômico mais forte do país. A Anfavea tende também a ser a associação patronal mais influente?
JCPN –
O setor automobilístico é forte e organizado. Quando convocado, ele comparece. Seja em negociações com o Governo, seja em negociações com os metalúrgicos. É um setor vivo, dinâmico e que ajuda a fazer a riqueza do Brasil.

Qual o peso político e econômico, dentro da Anfavea, entre o setor automobilístico e o setor de tratores? Há algum tipo de discriminação?
JCPN –
Não há e nunca houve discriminação. É tudo questão de volume de produção.

Qual a chance do Brasil desenvolver uma nova “Gurgel” – ou seja – uma montadora genuinamente nacional?
JCPN –
É muito difícil. Para se acompanhar as atualizações tecnológicas se requer elevados investimentos de retorno, nem sempre de curto prazo.

Os carros modernos são incrivelmente mais tolerantes aos abusos de seus proprietários: pegam fácil, têm pouca manutenção, serviço de socorro em meia hora pelo programa Road Service, air-bags inteligentes, têm computadores e até mapas de bordo. Isso deixa os motoristas mais relaxados. Pergunto: as atitudes dos motoristas têm mudado com os avanços tecnológicos dos veículos?
JCPN –
É interessante notar, mas evidente que o conforto proporcionado pelos veículos pode significar menos estresse e mais segurança. Um motorista tranqüilo nunca vai enfrentar o trânsito na base do sai da frente, do eu primeiro e outras coisas bem piores. Mas à tecnologia dos carros tem que ser agregada a melhoria das estradas e melhor concepção da engenharia de trânsito das cidades.

A indústria automobilística no Brasil nasceu na coragem do ministro da Viação e Obras Públicas, Almirante Lúcio Meira, que criou em 1956, no Governo JK, o GEIA – Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Sei que o senhor pensa em resgatar um pouco da história da indústria automobilística no Brasil? Como será isso?
JCPN –
Você tocou num ponto que me fascina: a história da implantação da indústria automobilística no Brasil. Citando Nelson Palma Travassos em seu livro “Quando eu era menino…” vale lembrar a sociologia do automóvel. Dizia ele que o automóvel foi um intruso que alterou o panorama físico do País, com a abertura de estradas. Dizia mais: o motor eleva o homem no conceito social, dá-lhe importância e exige conhecimentos. Travassos chegava mais longe: “O automóvel abriu o caminho da democracia.” Isto está bem colocado. O carro trouxe independência, criou profissões, ampliou horizontes e o brasileiro começou a ter pressa. Pressa de carregar sua safra, pressa de ganhar dinheiro, pressa de ocupar esse país continental.

Outra pergunta de consumidor. Vamos falar das concessionárias. Não tem muita gente por aí vendendo gato por lebre nos serviços de assistência técnica?
JCPN –
Essa é uma questão muito importante. As concessionárias estão se reestruturando porque o consumidor está mais exigente, quer serviço bem feito e nada melhor do que a concorrência. O Código de Defesa do Consumidor é uma realidade, aliás, uma boa realidade no Brasil. Quem não se profissionalizar, vai perder mercado.

Qual foi o melhor momento da indústria automobilística no Brasil?
JCPN –
Temos tido bons e maus momentos, mas o importante é que o Brasil, em 97, bateu a cifra de 2 milhões de veículos produzidos. Já somos um país respeitado no mercado internacional. No ano 2.000 estaremos entre os cinco maiores produtores mundiais. Não é brincadeira!

Para terminar: qual o futuro do carro importado no Brasil?
JCPN –
Os importados terão uma participação de 15% do mercado. Um bom tamanho. Vai sempre complementar a linha produzida aqui mesmo no Brasil, pois eles têm nichos especiais do mercado. O Brasil está ficando adulto e aprendeu a conviver com tigres, águias e outros bichos mais. Silvestre, pode escrever aí: o Brasil vai entrar o século 21 com maioridade. Temos problemas a resolver, mas estamos colocando o dedo na ferida: mais educação, preocupações reais com o meio ambiente, comportamento de primeiro mundo no trânsito. Essa é a autoridade de quem sabe fazer e quer melhorar as condições de vida de seu povo. Vamos emergir com força total.

 

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Entrevistas

Maurício Andrés Ribeiro – Tesouros ambientais da Índia

A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema,

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Tesouros ambientais da Índia para o Brasil

Maurício Andrés Ribeiro – ENTREVISTA

O Fórum Social Mundial de 2004 será na Índia. Mais uma boa oportunidade para os brasileiros tomarem conhecimento dos avanços para uma civilização sustentável

“A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema, a reduzir desperdícios e a trabalhar eficazmente sem muitos capitais ou recursos financeiros”.

O escritor e ambientalista Maurício Andrés Ribeiro

Silvestre Gorgulho, de Brasília

O arquiteto mineiro Maurício Andrés Ribeiro é muito conhecido do mundo ambiental: ecologista, escritor e gestor ambiental com uma característica interessante: é especialista em administrar conflitos. Gosta de ouvir todas as partes, de digerir problemas e tomar decisões de consenso. Em Minas Gerais, Andrés foi secretário de Meio Ambiente de Belo Horizonte (90-92) e presidente da Fundação de Meio Ambiente (95-98). Em Brasília, foi diretor do Programa de Gestão da Secretaria de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (1999), diretor do Conama (2001-2002) e agora é assessor especial da ANA. Autor de “Ecologizar – Pensando o Ambiente Humano”, Maurício Andrés acaba de lançar seu novo livro: “Tesouros da Índia para a Civilização Sustentável”. Vale a pena saber mais sobre o livro e também conhecer mais as experiências e lições que este país tropical pode passar ao nosso “Patropi”. Vamos à entrevista.

Escrever sobre a Índia não é muito comum, no Brasil. Como se iniciou seu interesse por aquele país?
Maurício Andrés –
Na década de 70, comecei a me interessar pelas questões ambientais. Trabalhava no Centro Tecnológico, em Belo Horizonte, e candidatei-me, no CNPq, a bolsa de estudo no exterior. Enquanto vários de meus colegas optaram por fazer doutorado na Europa e nos Estados Unidos, escolhi realizar um estudo comparativo Brasil-Índia, no Instituto Indiano de Administração, em Bangalore. Ignacy Sachs, economista que se formara em São Paulo e fez seu doutorado na Índia, me forneceu informações valiosas para aproveitar bem aquela experiência.

Como foi viver e estudar na Índia?
Maurício –
São muitos os benefícios de estudar na Índia, em termos de desenvolvimento humano e intelectual, pois vivenciamos uma cultura milenar, com valores distintos dos ocidentais. Além disso, em geral os estudantes brasileiros vivem no exterior de forma modesta, mas na Índia, o custo de vida é baixo e permite bom conforto com poucos recursos. Estabeleci ampla rede de contatos com os quais ainda mantenho relações. O economista dr. Vinod Vyasulu, por exemplo, que foi meu orientador à época, é meu amigo até hoje.

E a situação social da Índia, não impressiona muito os brasileiros?
Maurício –
Em geral temos impressões negativas sobre os aspectos sócioeconômicos da Índia. Circula a idéia de que a pobreza é extrema. No entanto, é pouco conhecido o fato de que a Índia tem índices de violência urbana e rural muito mais baixos do que aqueles que ocorrem no Brasil, e tem reduzido gradualmente suas desigualdades. A apropriação pelos indianos mais ricos da riqueza nacional vem decrescendo nas últimas décadas, enquanto os mais pobres têm aumentado a sua participação nessa riqueza, processo inverso ao que ocorreu no Brasil. A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema, a reduzir desperdícios, a trabalhar eficazmente sem muitos capitais ou recursos financeiros. O Fórum Social Mundial, que ocorrerá na Índia em 2004, será uma oportunidade para os brasileiros que lá comparecerem, tomarem conhecimento desses avanços.

Quais são as principais personalidades indianas que merecem destaque?
Maurício –
A civilização indiana tem uma quantidade impressionante de pessoas que contribuíram para construí-la ao longo de cinco milênios: no século 20, admiro o poeta Rabindranath Tagore, prêmio Nobel, que tem uma percepção muito clara sobre o papel de sua terra-mãe. Krishnamurti, Vivekananda, Rajneesh, Ramakrishna, Dayananda, e muitos outros mestres também tem um trabalho admirável, que se nutre da Vedanta, o conhecimento das escrituras sagradas, escrita há milhares de anos.

No campo do pensamento e ação política e social, quem se destaca, na Índia?
Maurício –
Além do Mahatma Gandhi, que aplicou a não-violência e a satyagraha – experiência com a verdade – na luta pela independência da Índia, me impressiona o trabalho de Sri Aurobindo. Seu pensamento político e social mostra visão prospectiva, lucidez. Muito antes da independência indiana em 1947, ele já a considerava um fato inexorável e passou a trabalhar sobre as questões globais e planetárias. Quando tomei contato com sua obra, em Pondicherry, onde está estabelecida sua comunidade ou ashram, tive a sensação de que seria necessária mais do que uma vida para dominar todo aquele conhecimento. Também existe na Índia uma vasta experiência de ativismo social, para minorar as condições de pobreza e há grandes especialistas nesse campo, como o prêmio Nobel, economista Amartya Sen, e a ativista sócioecológica Vandana Shiva. Satyajit Ray é um cineasta com uma obra admirável. Deepak Chopra e V.S. Naipaul, são escritores indianos atuais, conhecidos no ocidente.

Índia e Brasil no cenário internacional
A Índia tem uma classe média de 200 milhões de
pessoas e níveis educacionais de excelência

Qual a importância da Índia no atual cenário internacional?
Maurício –
A Índia tem forte inserção na política mundial por sua peculiaridade histórica. Trata-se de um país que, apesar de ter sido invadido por vários povos, não se deixou destruir nem perdeu seus valores e tradições. Ressalta também a sua posição geográfica privilegiada. As grandes navegações do século 15 e 16 tinham por objetivo descobrir uma rota marítima para as Índias, riquíssima em especiarias e na produção de tecidos e de seda, bens muito valiosos à época. Nos dias atuais, constitui um pólo regional, na Ásia, com forte presença política, demográfica e econômica. A Índia tem uma classe média de 200 milhões de pessoas e níveis educacionais de excelência, o que lhe permite, por exemplo, ser um dos maiores exportadores mundiais de softwares, os quais alimentam a atividade central no século 21 e da era do conhecimento, que é a informática.

E quanto às relações da Índia com o Brasil?
Maurício –
Vejo a aproximação consciente do Brasil à Índia como um componente necessário para completar uma construção ainda inacabada e em processo, que é a sociedade brasileira. A Índia é um parceiro valioso ao qual o Brasil poderia se aliar. Muitos brasileiros já têm, por iniciativa própria, procurado estabelecer tais vínculos. Mas esse filão é muito rico, pode trazer muitos benefícios e pode ser explorado de forma mais organizada, institucionalmente, envolvendo governos e empresas. O Brasil é uma nova civilização emergente que poderia ter maior autonomia em relação à órbita da sociedade ocidental insustentável e co-evoluir com a civilização indiana, que soube ser sustentável e que adotou valores humanos como a tolerância e o respeito à diferença. É preciso abrir a agenda de reflexão e ação sobre essa cooperação sul-sul e valorizá-la. Trata-se, ainda, de um tema periférico, sobre o qual se desenvolve muito pouca atenção e pesquisa.

No contexto atual da globalização, a intensificação de relações Brasil-Índia tem alguma importância?
Maurício –
O Brasil é uma civilização emergente com muita energia vital. A Índia é ancestral, com um patrimônio acumulado de sabedoria impressionante. O velho e o novo podem se complementar. Aloísio Magalhães, o grande designer brasileiro, dizia que quanto mais se puxa para trás o elástico do estilingue, mais longe a pedra é arremessada. A perspectiva histórica vista a partir de uma civilização milenar pode ajudar a fazer uma prospecção de longo prazo, em direção à sustentabilidade da civilização do século 21. A contribuição de pensadores indianos, como Sri Aurobindo, é fundamental nesse contexto.

Por que estreitar relações com a Índia e como se pode fazer isto?
Maurício –
Em primeiro lugar é preciso mudar a percepção e a consciência. Enxergar a existência dessas duas civilizações, numa visão a partir do ângulo sul do planeta, fato que nem sempre é visualizado. Assim, por exemplo, Samuel Huntington, em seu conhecido livro O Choque de Civilizações, não destaca a civilização brasileira, incluindo-a como parte da latino-americana. Isso reflete a falta de percepção de um fenômeno novo, a civilização tropical emergente, já ressaltada por autores como Darcy Ribeiro.

Até mesmo Fritjof Capra, quando fala da ascensão e queda das antigas civilizações e da curva rápida de ascensão e queda da atual era do combustível fóssil, mostra a Grécia e o Egito, mas se esquece da Índia. São percepções a partir do ângulo de visão do norte. Sendo os dois maiores países tropicais do mundo, há muitas similaridades climáticas e ecológicas que facilitam o intercâmbio de espécies animais e vegetais. Há muitas diferenças no processo histórico e cultural de desenvolvimento dessas duas sociedades e nesse fato reside uma potencialidade de fertilização mútua. Na Índia se faz um aproveitamento muito mais integral dos recursos naturais, reduzindo os desperdícios. Isto é fundamental num país como o nosso, que vive um paradoxo: o desperdício de alimentos é tão grande quanto a fome entre os mais pobres…

Dá para dar algum exemplo?
Maurício –
Claro. Veja, por exemplo, que o coco da Bahia, que temos em abundância, e que é originário da Índia, tem, em Kerala, estado do sul indiano, todos os seus subprodutos aproveitados e não apenas a polpa ou a água. O mesmo se pode verificar com o rebanho bovino. A tão decantada expressão “vaca sagrada” tem sua razão de ser num fato objetivo: na Índia, aproveita-se tudo do gado vivo, até mesmo as fezes, que servem de combustível para cozinhar… Por que, então, matar a “galinha dos ovos de ouro?”.

A sacralização dos animais tem relação com uma visão de mundo sustentável?
Maurício –
Com relação às espécies animais, faz-se na Índia um uso intenso dos animais vivos – para o transporte, o arado e o adubo. As vacas foram sacralizadas e o vegetarianismo é um hábito alimentar com conseqüências positivas do ponto de vista da ecologia energética. Já no Brasil o animal morto é que tem maior valor econômico. Os fazendeiros de gado zebu trouxeram da Índia espécies que se aclimataram muito bem no Brasil, mas que precisam de choque de sangue, para melhorar a sua qualidade, o que é feito pela importação, muitas vezes clandestina, de sêmen bovino. Uma vez encontrei na Índia um juiz de concursos de gado de Uberaba, Sr. Pylades Prata Tibery, já nos seus 80 anos, embrenhando-se no interior do país em busca de matrizes de touros que pudessem fornecer o sêmen necessário para esse choque de sangue.

O senhor quer dizer que o Brasil pode aprender muito com a Índia?
Maurício –
Sim, é isso. Penso que o Brasil pode aprender com a Índia a aproveitar mais integralmente os recursos naturais, a implantar políticas que reduzam as desigualdades sem sacrificar a liberdade, a reduzir a violência e a criminalidade por meio do desenvolvimento de valores espirituais, a valorizar mais seus bens, hábitos e tradições culturais.

Em que pontos essa aproximação pode beneficiar a política ambiental?
Maurício –
Essa aproximação pode ensinar sobre a reverência, o cuidado e o respeito para com a natureza e os valores humanos desenvolvidos na civilização indiana, que facilitaram com que ela perdurasse durante milênios de história, com baixa degradação ambiental. A sociedade contemporânea e especialmente o Brasil, precisam desenvolver valores que ultrapassem o mercantilismo, a coisificação da natureza e sua transformação predatória em mercadoria. Na Índia, podemos buscar modelo alternativo para fazer mais com menos recursos. Com um bilhão de pessoas e muita pobreza, existe na Índia um conhecimento de como viver com pouco capital e o desenvolvimento de práticas, de experiências e de conhecimento que constitui uma riqueza cultural, civilizatória. Além da mudança de percepção e consciência, é necessário traduzi-las em palavras e em ações. Tomar iniciativas – individuais e coletivas – no campo da cultura, artes, filosofia, também no campo comercial, científico e tecnológico. A intensificação dessas relações pode ser induzida e impulsionada de forma consciente.

“Quem perdeu a paciência,
perdeu a batalha”

Pode-se dizer que a Índia é uma civilização sustentável?
Maurício –
O conceito de dharma, que é essencial para compreender a Índia, tem raiz no sânscrito e significa sustentar, manter. Esse é um conceito instigante, com muitos significados, pouco conhecido no ocidente e faz parte de uma matriz cultural diferente. A dharmacracia seria a forma de governo baseada na aplicação do dharma, e difere da democracia de direitos que se persegue nos regimes políticos ocidentais mais abertos. Direitos e deveres são conceitos ocidentais e realizar um esforço de compreensão transcultural é uma das tarefas para promover real aproximação.

O pensamento prospectivo e livre desenvolvido naquela sociedade pode oferecer pistas para superar e transcender os impasses civilizatórios contemporâneos, que nos levam a guerras e destruições. Baseada no seu dharma, aquela civilização soube sustentar-se por milênios e pode oferecer contribuições valiosas para um mundo que enfrenta alguns impasses da viabilidade da sobrevivência de nossa espécie. Seu lema é a Unidade na Diversidade, pois é um país extremamente variado culturalmente. Seu símbolo é a flor de lótus, pura e bela nascendo do lodo. A relação com o tempo é diferente da nossa e um ensinamento achado na rua dizia que “quem perdeu a paciência, perdeu a batalha”. Paciência, neste sentido, é a ciência da paz.

Por que o seu novo livro se intitula Tesouros da Índia?
Maurício –
Aquela civilização desenvolveu uma filosofia e estilos de vida amigáveis e pouco agressivos em relação à natureza. Essa sabedoria é um tesouro valioso para o mundo contemporâneo ameaçado de tornar-se insustentável pela falta de tais valores e dos correspondentes estilos de vida. A Índia desenvolveu a inteligência espiritual.

Por que o senhor diz, no livro, que a Índia pratica a inteligência espiritual?
Maurício –
Hoje, além do quociente intelectual (QI) e da inteligência intelectual, estudam-se vários tipos de inteligência, como, por exemplo, a inteligência emocional. A inteligência espiritual é um tipo de inteligência que faz uso não só das capacidades racionais, mas também das capacidades intuitivas, emocionais, da sensibilidade.
Entre os sinais de inteligência espiritual estão o elevado grau de auto-conhecimento, a independência e autonomia para seguir as próprias idéias, flexibilidade, a relutância em causar danos aos outros, a capacidade de enfrentar a dor e de aprender com o sofrimento, de se inspirar em ideais elevados, de aplicar princípios espirituais no dia-a-dia, de estabelecer conexões entre realidades distintas. É a inteligência espiritual que ajuda a encontrar sentido na vida, paz e tranqüilidade. A Índia foi a sociedade que mais desenvolveu a inteligência espiritual, que constitui um patrimônio de valor inestimável para a sobrevivência e evolução da espécie humana.

Como foi o método de trabalho para elaborar o livro Tesouros da Índia?
Maurício –
Na primeira parte do livro procuro traçar um retrato aberto da Índia. Na segunda parte, desenvolvi o estudo comparativo. Procurei trabalhar no nível micro, de uma aldeia e um município, considerando-os como células básicas de suas sociedades. Foi como trabalhar numa célula, cujo DNA contém elementos do todo do organismo ao qual pertence. Complementarmente, trabalhei as possibilidades de intercâmbio na escala nacional e, em termos futuristas, quais as convergências necessárias na escala global.

Quais as semelhanças entre a sua obra anterior, o livro Ecologizar, e os Tesouros da Índia?
Maurício –
Ambos foram escritos a partir de vivências práticas, do trabalho cotidiano, de imersão cultural e estudos de campo, aliados a reflexões teóricas, leituras… Ecologizar foi um livro escrito para facilitar a ação ecológica, organizando princípios, métodos e instrumentos de ação de forma clara, para facilitar seu uso e aplicação por quem se interesse em ecologizar a sociedade ou sua própria vida. Tesouros da Índia procura organizar conhecimentos que facilitem àqueles que se interessem em estabelecer tais vínculos e em explorar o desconhecido de outros universos civilizatórios. Uma mesma energia os move: procurar organizar uma visão de mundo que dê maior efetividade à ação prática ecologizadora, seja individual ou coletiva.

Como Tesouros da Índia se encaixa na proposta de ecologizar a sociedade?
Maurício –
Ecologizar a sociedade é mudar a matriz cultural e de valores, mudar a qualidade da energia que impulsiona as ações individuais ou sociais, num sentido de maior integração e menor agressividade ou destrutividade em relação ao ambiente e também entre as pessoas. Garimpar e trazer à luz os tesouros culturais de uma civilização que perdurou por milênios é uma das formas de facilitar e impulsionar essa ecologização da sociedade brasileira. As guerras envolvendo o ocidente e o oriente, o novo governo brasileiro com uma postura de inserção internacional mais ativa, a perspectiva de realização do Fórum Social Mundial na Índia em 2004, são alguns fatores conjunturais que tornam oportuna a expressão de tais idéias e a proposição de novas ações de intercâmbio.

O que o senhor espera que sejam os benefícios desse novo trabalho?
Maurício –
Esse trabalho é um pequeno componente na construção de uma ponte entre duas culturas e civilizações ainda bastante isoladas entre si e que têm potencialmente muito a se beneficiar da cooperação e do intercâmbio. Ao mesmo tempo, ele procura ter uma visão propositiva de uma terceira geração de instituições internacionais, que substituam as de segunda geração (a ONU), que por sua vez substituiu as de primeira geração (a Liga das Nações). Esse é o tema tratado na terceira parte do livro.

A terceira parte do livro fala de cenários para o futuro. Como o senhor os vê?
Maurício –
A terceira parte do livro trata de uma visão futurista, baseada no federalismo mundial, na necessidade de evolução política da humanidade. A matriz da civilização ocidental que dominou o século 20 não é sustentável a longo prazo, porque se baseia na exploração sem limites de recursos materiais e energéticos, e porque precisou dominar pela força e colonizar outros territórios, sugando e parasitando seus recursos.

A dominação pela força e pela violência não é sustentável, produz ressentimentos, ódios, sede de vingança pelas mortes e sofrimento. A partir de um certo momento, os novos problemas e questões não podem mais ser resolvidos por estruturas e concepções políticas e filosóficas que se adequavam a situações anteriores. É preciso, a partir da idéia de repensar as instituições globais, e de promover aprimoramentos incrementais numa estrutura, substituí-la por outra com arquitetura mais adequada. Esse é o ponto de partida para conceber e construir instituições internacionais de terceira geração. Já existem exercícios de formular o futuro em laboratórios de pensamento político e um deles – aliás, dos mais interessantes – consiste numa minuta de Constituição para a Federação do planeta Terra, elaborada por movimentos não-governamentais que se interessam pelo Federalismo Mundial.

A globalização exige uma Constituição Planetária
A dominação pela força e pela violência não é sustentável, pois produz
ressentimentos, ódios, sede de vingança pelas mortes e sofrimentos

Quais são as principais características dessa Constituição Planetária?
Maurício –
A Constituição Planetária é um exercício de imaginar e projetar em escala mundial o que será essa arquitetura política global. Antes de construir uma nova cidade ou edificação, é sempre bom ter um projeto claro, para evitar custos e para proporcionar ao final maior funcionalidade e beleza.

Há um exemplo histórico disso na elaboração da Constituição dos Estados Unidos. Quando as treze colônias norte-americanas se tornaram independentes da Inglaterra, precisaram elaborar uma constituição comum. As discussões eram difíceis, até que o representante de uma delas, Charles Pinckney, da Carolina do Sul, trouxe uma minuta de proposta de Constituição. A partir daí ela se tornou a referência e catalisou as demais propostas, resultando então no que veio a ser a Constituição dos Estados Unidos.

Isso é o que se propõe com a Constituição Planetária: um exercício de liberdade de imaginação e pensamento, que explore a possibilidade de novos modelos políticos e jurídicos e de organização institucional mundial. Por enquanto, esse exercício não teve apoio de qualquer governo e é visto com desconfiança por eles, porque significa uma mudança de paradigma em relação aos estados-nação, mas tem a simpatia de organizações da sociedade civil mundial que praticam a ação global.

Entre os dispositivos centrais dessa Constituição estão a criação de uma agência para a prevenção das guerras e o desarmamento, bem como a criação de uma Câmara dos Povos ao lado da Câmara das Nações, que corresponde ao atual plenário da ONU, no qual as Nações Unidas são representadas formalmente pelos governos nacionais.

Hoje, tornou-se necessária uma instituição dos povos unidos, com representação mais forte da sociedade civil, se quisermos de fato trabalhar por um futuro com redução dos riscos de guerras e com maior sustentabilidade.

O LIVRO

O livro é estruturado em três partes. Na primeira, é traçado um retrato aberto e plural da Índia, destacando-se aspectos ligados à cultura e ao meio ambiente. Na segunda parte o autor faz uma analise comparativa entre o Brasil e a Índia, que são os dois maiores países tropicais do mundo e que apresentam muitos pontos de afinidades, a começar pelas climáticas e ecológicas. Na terceira parte, baseado na reflexão e na visão prospectiva de pensadores e filósofos indianos exploram-se possibilidades para a aplicação do princípio da unidade na diversidade em escala planetária, dentro de uma visão de ecologia política.

“Tesouros da Índia para a civilização sustentável” é um livro dedicado a todas as pessoas que constroem pontes para facilitar o entendimento entre as diferentes civilizações.

Mais informações:
Santa Rosa Bureau Cultural, BH-MG – 244 páginas
www.ecologizar.com.brmandrib@uol.com.br

 

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