Entrevistas

Sílvia de Souza Costa – Entrevista sobre administração de pousadas

A sustentabilidade das pousadas

Como bem administrar o lixo de pousadas

A jornalista Sílvia de Souza Costa explica como melhorar o desempenho
de um estabelecimento hoteleiro pela sustentabilidade

“Nada acontece de uma hora para outra, porque a gente precisa primeiro se reeducar, para dar o exemplo, convencer e até treinar as outras pessoas envolvidas nesse processo, como sócios, funcionários, fornecedores e clientes”


Sílvia de Souza Costa é jornalista, escritora e empresária,
em tudo coloca a questão ambiental

Silvestre Gorgulho
Sílvia de Souza Costa é profissionalmente correta. Em todas atividades que exerceu colocou em primeiro lugar a questão socioambiental. Mais: por ser perfeccionista, tudo o que faz procura fazer muito bem feito. Desde escrever ou traduzir um artigo ou um livro, até dar aula ou, mesmo, administrar uma pousada. Trabalhou em vários jornais, tevês e revistas, participou da inédita experiência do Coojornal – um jornal alternativo feito por jornalistas em Porto Alegre, na década de 70, em forma de cooperativa. Influenciada pelos trabalhos de seu conterrâneo José Lutzemberger, Sílvia deu aula na Universidade Estadual do RJ e fez Mestrado de Comunicação na UFRJ e Relações Internacionais na PUC-RJ. Morando no Rio desde 1976, há 20 anos freqüenta como turista Visconde de Mauá (200km do Rio) e há cinco é sócia da Pousada Terras Altas. Portanto, sua experiência e ensinamentos vão além da teoria. São vividos no dia-a-dia da administração de uma pousada. Seu envolvimento com as causas ambientais a levou para uma aproximação com as ONGs da região. Atualmente Sílvia de Souza Costa é diretora de projetos do Cemarp – Centro de Estudos da Micro-bacia do Alto Rio Preto, bacia do rio Paraíba do Sul, onde busca implantar a coleta seletiva de lixo, como um passo à frente no sentido de ampliar a adesão ao Programa Lixo Mínimo. O que é esse programa? Como adaptá-lo para um hotel, pousada ou mesmo condomínio é o que vamos conhecer agora nessa entrevista com Sílvia de Souza Costa. Vale a pena conferir.

Como surgiu a idéia de escrever este livro?
Sílvia –
A idéia de escrever alguma coisa sobre responsabilidade ambiental destinada a pequenos hotéis e pousadas surgiu, na verdade, ao escrever um outro livro, chamado ‘Pousada – como montar e administrar’.
Já havia feito outros trabalhos para a Editora Senac Nacional. Naquela altura, estava iniciando no ramo da hotelaria.
Aí fui convidada a produzir um livro com orientações básicas para quem tem um pequeno estabelecimento hoteleiro e quer melhorar seu desempenho ou para quem deseja se iniciar na atividade. Tratava-se de uma demanda de Senacs regionais, que a editora pretendia atender. Minha experiência era praticamente inexistente. A Pousada Terras Altas de Visconde de Mauá, da qual sou sócia, ainda nem havia sido inaugurada, quando começamos a conversar sobre o assunto. Por isso, poderia, no máximo fazer um livro de jornalista, isto é, pesquisar, propor uma pauta inicial, fazer leituras, buscas na Internet, entrevistas, etc., para depois produzir o texto. Eles aceitaram e comecei o projeto.

E tem um dado importante: as pousadas, em geral, estão num santuário ecológico…
Sílvia –
É verdade! A grande parte dos pequenos hotéis e pousadas encontra-se em paraísos ecológicos, áreas de preservação ambiental ou mesmo cidades históricas. Daí me pareceu imprescindível incluir alguma referência, ainda que genérica, sobre cuidados com o meio ambiente e o entorno do estabelecimento.
Para isso, fiz algumas entrevistas específicas e, aos poucos, fui me dando conta de que, para abranger de forma adequada os temas que se colocavam, teria que fazer um outro livro, tratando especificamente desse assunto. Mas, não precisei de muito tempo para perceber que o projeto era excessivamente ambicioso, pois são tantas as especialidades envolvidas, tantas questões a abordar, assuntos tão complexos, que levaria muito tempo e o livro ficaria muito grande.
Pensamos então, as editoras e eu, na possibilidade de fatiar o projeto e tratar de um tema de cada vez, de preferência com o relato de um ou dois casos exemplares. Era preciso apenas encontrar esses casos. Por uma ONG de Visconde de Mauá da qual faço parte (Centro de Estudos da Micro-Bacia do Alto Rio Preto – Cemarp) fiquei sabendo que o Hotel Bühler, com mais de 70 anos de atividade , tinha desenvolvido um programa de redução de lixo. Naquela altura, início de 2003, já havia completado mais de um ano sem colocar um só saco de lixo no caminhão da Prefeitura. Depois de umas duas ou três conversas iniciais com Norma Bühler, sócia-gerente do hotel e principal responsável pelo projeto, encaminhei um projeto editorial que foi aceito pela Editora Senac e demos início ao trabalho.

E como realmente começou esse trabalho?
Sílvia –
Olha, foi praticamente um ano de encontros semanais, em que Norma me relatava sua experiência, eu anotava, tirávamos dúvidas, e eu ia escrevendo.
O resultado desse trabalho foi o ‘Lixo Mínimo – uma proposta ecológica para hotelaria’, lançado na Bienal de São Paulo, em que pretendemos divulgar essa experiência para que outros possam adotá-la, pois é um programa simples, de custo bastante acessível e de ótimos resultados. Mas o que mais me atraiu, para falar a verdade, foi o fato de essa experiência envolver responsabilidade ecológica e também social, pois os recicláveis, papel e papelão, vidros, plásticos e metais, são doados para a Sociedade Pestalozzi, uma instituição de caridade de Resende, que é o principal município da região. A sociedade transforma a renda obtida com esses produtos em benefícios para os que lá buscam atendimento.


Dona Helena Bühler, ao centro, ladeada pela filha Norma e por Sílvia de Souza Costa

Os três R de uma boa gestão ambiental: reduzir, reutilizar e reciclar
Para se implantar um programa desse tipo em pousadas e restaurantes bastam duas coisas: vontade de fazer e um pouquinho de criatividade

Pelo livro, é possível aprender as técnicas de reciclagem?
Sílvia –
O livro apresenta diferentes métodos de reciclagem de lixo orgânico, processos de compostagem, e algumas receitas práticas fornecidas por dona Helena Bühler, a matriarca da família, que continua ativa no hotel, aos 80. Ela recicla latas, velas, sabonetes, cascas de ovo caipira, óleo de cozinha e pequenos objetos metálicos. Mostramos ainda o possível reaproveitamento local de garrafas de vidro, de garrafas PET, de tampinhas, etc. Não abordamos a reciclagem de plástico, papéis e metais, pois esses recicláveis são doados à Pestalozzi.

Como um hotel pode reciclar seu lixo?
Sílvia –
O lixo orgânico (restos de comida, papéis sujos, cascas de fruta, grama cortada, cinzas de lareira, etc.), que constitui em torno de 50% dos resíduos sólidos, pode ser totalmente reciclado, por processos de decompostagem, e transformado em excelente adubo.
Além disso, garrafas tanto de vidro como PET podem ser usadas para preencher blocos de concreto ou formar canteiros na horta. Cascas de ovo caipira viram uma nutritiva farinha de cálcio, sabonetinhos usados são reaproveitados como sabão líquido em máquinas de lavar, óleo de cozinha transforma-se em sabão em barra, velas são recicladas e novamente utilizadas, latas pintadas de várias cores tornam-se charmosos vasos, que podem adornar escadas ou paredes.
Enfim, são muitas as possibilidades de reduzir, reutilizar e reciclar – os famosos 3 R.

Essas experiências das pousadas podem valer também para um restaurantes, lojas ou condomínios?
Sílvia –
Praticamente todas as técnicas podem ser adotadas tanto por hotéis, quanto por restaurantes, lojas, condomínios ou mesmo residências. A reciclagem do lixo orgânico requer pelo menos uma varanda ao ar livre ou um pequeno pátio. Mas para adotar um programa de redução de lixo, em qualquer lugar, basta querer… Depois, é preciso se informar, tomar conhecimento do básico e dar início ao processo.
O que a gente tenta ajudar com o livro. Nada acontece de uma hora para outra, porque a gente precisa em primeiro lugar se reeducar, para dar o exemplo, convencer e até treinar as outras pessoas envolvidas nesse processo, como sócios, funcionários, fornecedores, clientes entre outros.
E também deve-se levar em conta que o que funciona muito bem, de uma determinada maneira, em um local, pode não alcançar os mesmos resultados em outro lugar. Por isso, é preciso observar, adaptar, aperfeiçoar práticas e métodos. É um aprendizado constante.

E os custos para colocar essa experiência em prática?
Sílvia –
O principal fator na implantação de um programa desse tipo é a vontade de fazer e um pouco de criatividade. Aliás. essas duas coisas são fundamentais para qualquer profissional e, especialmente para micro-empresários, como costumam ser os proprietários de pequenos hotéis e pousadas. Não se trata de nada muito complicado, nem muito caro. E o mais interessante: o programa pode ser implantado aos poucos, o que contribui para diluir os custos iniciais.

Qual o primeiro passo?
Sílvia –
Um primeiro passo, que não custa nada, é separar o lixo, para que se possa avaliar o volume que se produz de cada tipo de lixo. A partir daí, buscar um destino adequado para cada tipo. Outra coisa bem simples é incorporar o conceito de pré-ciclar, isto é, reduzir já na hora de abastecer o hotel, dando preferência a produtos com menos embalagens ou a fornecedores comprometidos com práticas sustentáveis. E uma outra coisa que não pode ser esquecida: os turistas são pessoas cada vez mais bem informadas, exigentes e preocupadas com a preservação ambiental.
Por isso, a adoção de um programa desse tipo beneficia, sem dúvida, a imagem do estabelecimento, o que é um benefício adicional para os negócios e para a região onde o hotel está localizado.

Carlos Minc (PT-RJ) determinou, pela Lei dos Resíduos Sólidos, o fim dos lixões a céu aberto. É possível aplicá-la?
Silva –
Essa lei foi aprovada 2003, pela Assembléia do Rio, portanto sua abrangência é estadual. Seu artigo 11º concede o prazo de um ano para que todos os municípios do Rio incluam ‘em seus diagnósticos ambientais e planos diretores’ áreas para ‘destinação final de seus resíduos sólidos urbanos industriais e/ou não industriais’. A gente sabe que, na prática, deve ser necessário mais que um ano para que os municípios coloquem entre suas prioridades a construção de aterros adequados e controlados. E será preciso um pouco mais de tempo para fazer o projeto, obter a verba, até entrar em funcionamento. Mas sem dúvida a aprovação da lei é um importante primeiro passo, uma sinalização, um marco legal. Até porque, ela se baseou muito, como nos disse o próprio Minc, nas experiências do Rio Grande do Sul, um dos estados mais avançados, ao lado do Paraná, em matéria de políticas públicas para resíduos sólidos.
Ou seja, a Lei é um texto que teve como ponto de partida uma outra lei, aplicada com muito sucesso, que foi debatida e analisada por várias ONGs e especialistas do Rio, e que depois foi, naturalmente, discutida e aprovada pela Assembléia fluminense. Não é fácil, mas o fim dos lixões tem que ser prioridade de todos, tanto do ponto de vista ambiental quanto de saúde pública.

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John Elkington: A Vanguarda da Sustentabilidade Empresarial e Global

Explorando a Vida e o Legado do Arquiteto da Tripla Linha de Base e Defensor Incansável da Responsabilidade Corporativa

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Na arena global da sustentabilidade, poucos nomes ressoam com a mesma reverência que o de John Elkington. Conhecido como o arquiteto da “Tripla Linha de Base”, Elkington emergiu como um pioneiro na integração de preocupações ambientais, sociais e financeiras no mundo dos negócios. Sua jornada como defensor incansável de práticas sustentáveis e responsáveis ​​é um testemunho vivo de sua influência e impacto duradouro.

As Raízes da Visão de Elkington

Nascido com uma consciência intrínseca do poder transformador da sustentabilidade, John Elkington começou sua jornada na Universidade de Londres, onde se formou em Economia e Estudos de Engenharia. Desde o início, seu interesse abrangente pelas interseções entre o mundo dos negócios e as questões ambientais e sociais o levou a explorar novos paradigmas de desenvolvimento econômico que priorizassem não apenas o lucro, mas também o bem-estar coletivo.

A Tripla Linha de Base e Seu Legado Duradouro

É inegável que o maior legado de John Elkington é a popularização do conceito de “Tripla Linha de Base”. Sua inovadora abordagem de avaliação de desempenho empresarial não apenas com base em lucros financeiros, mas também em impactos ambientais e sociais, foi revolucionária. Essa estrutura conceitual permitiu que as empresas repensassem suas práticas e redefinissem o sucesso empresarial, levando em consideração não apenas os resultados financeiros, mas também o impacto em comunidades e ecossistemas.

O Compromisso Contínuo com a Mudança Sistêmica

Além de suas contribuições teóricas, Elkington é conhecido por seu compromisso contínuo com a mudança sistêmica. Ele trabalhou incansavelmente para influenciar políticas e práticas corporativas, promovendo a sustentabilidade como um imperativo central para o crescimento econômico e o bem-estar social. Sua atuação como autor prolífico e palestrante renomado ampliou ainda mais o alcance de suas ideias e inspirou uma geração de líderes a repensar o papel das empresas na sociedade.

O Legado Duradouro e o Caminho à Frente

À medida que o mundo enfrenta desafios cada vez mais complexos, o legado de Elkington permanece como um farol de esperança e um lembrete constante de que a sustentabilidade não é apenas uma opção, mas uma necessidade urgente. Sua visão e dedicação incansável continuam a orientar não apenas empresas, mas também formuladores de políticas e defensores da sustentabilidade em direção a um futuro mais equitativo e próspero.

John Elkington personifica a noção de que a sustentabilidade não é apenas um conceito acadêmico, mas uma filosofia de vida e uma abordagem essencial para moldar um mundo mais resiliente e sustentável. Sua jornada continua a inspirar e a moldar a narrativa global da responsabilidade empresarial e do ativismo sustentável.

 

Entrevista

John Elkington: Bem, ao longo das últimas décadas, testemunhamos um crescente reconhecimento da importância da sustentabilidade, tanto a nível empresarial quanto global. As empresas estão percebendo que devem abordar não apenas suas operações, mas também sua cadeia de suprimentos e impacto social. Vemos um movimento contínuo em direção a práticas mais responsáveis e transparentes, mas ainda há muito trabalho a ser feito.

Com certeza. Quais são os principais desafios que você identifica atualmente em termos de implementação de práticas sustentáveis em larga escala?

John Elkington: Um dos principais desafios é a integração da sustentabilidade no cerne dos modelos de negócios. Muitas empresas ainda veem a sustentabilidade como uma iniciativa isolada, em vez de uma parte fundamental de sua estratégia. Além disso, a falta de regulamentações e políticas sólidas em muitas partes do mundo dificulta a adoção generalizada de práticas sustentáveis. Também é fundamental envolver os consumidores e criar uma demanda por produtos e serviços mais sustentáveis.

Concordo plenamente. Considerando o cenário atual, como você visualiza a importância da inovação e da tecnologia na promoção da sustentabilidade?

John Elkington: A inovação e a tecnologia desempenham um papel crucial na transição para práticas mais sustentáveis. Novas tecnologias podem aumentar a eficiência, reduzir desperdícios e permitir o uso mais inteligente dos recursos. Da energia renovável aos avanços na agricultura sustentável e na gestão de resíduos, a tecnologia tem o potencial de impulsionar mudanças positivas significativas. No entanto, é importante garantir que essas inovações sejam acessíveis e amplamente adotadas, especialmente em comunidades com recursos limitados.

Definitivamente. Quais conselhos você daria para os líderes empresariais e os formuladores de políticas que desejam impulsionar práticas mais sustentáveis?

John Elkington: Para os líderes empresariais, eu enfatizaria a importância de incorporar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor, desde a concepção do produto até o descarte responsável. Isso não apenas beneficia o planeta, mas também pode gerar eficiências operacionais e melhorar a reputação da marca. Para os formuladores de políticas, é fundamental criar um ambiente regulatório favorável e incentivar a inovação e o investimento em práticas sustentáveis. Além disso, é crucial promover a conscientização e a educação sobre a importância da sustentabilidade em todas as esferas da sociedade.

 

 

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Kátia Queiroz Fenyves fala a respeito de sustentabilidade e meio ambiente

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Kátia Fenyves é Mestre em Políticas Públicas e Governança pela Sciences Po Paris e formada em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo. Ao longo de sua trajetória profissional, acumulou experiências em cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável no terceiro setor e na filantropia. Atualmente é Gerente do Programa de Finanças Verdes da Missão Diplomática do Reino Unido no Brasil.

 

1. Você estudou e tem trabalhado com a questão de sustentabilidade e o meio ambiente. Pode nos falar um pouco a respeito desses temas?
Meio ambiente é um tema basilar. Toda a vida do planeta depende de seu equilíbrio. A economia, da mesma forma, só se sustenta a partir dos recursos naturais e de como são utilizados. Sustentabilidade, portanto, foi o conceito que integrou as considerações aos aspectos ambientais, sociais e econômicos, revelando de forma mais sistêmica esta inter-relação e, sobretudo, colocando o meio ambiente como eixo estratégico do desenvolvimento, para além de seu valor intrínseco.

2. Quando se fala em sustentabilidade, pensa-se no tripé social, ambiental e econômico. Como você definiria esses princípios? Qual deles merece maior atenção, ou todos são interligados e afetam nossa qualidade de vida integralmente?
Exatamente, sustentabilidade é o conceito que revela as interligações entre os três pilares – social, ambiental e econômico e, portanto, são princípios interdependentes e insuficientes se tomados individualmente. Talvez, o ambiental seja realmente o único que escapa a isso. A natureza não depende da economia ou da sociedade para subsistir, mas, por outro lado, é impactada por ambos. Por isso, sustentabilidade é um conceito antrópico, ou seja, é uma noção que tem como referencial a presença humana no planeta.

3. Questões relacionadas à sustentabilidade, preservação do meio ambiente e consumo consciente são discutidas nas escolas e universidades?
Há entre as Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, que são normas obrigatórias, as específicas para Educação Ambiental que devem ser observadas pelos sistemas de ensino e suas instituições de Educação Básica e de Educação Superior a partir da Política Nacional de Educação Ambiental. Estas contemplam todos os temas citados na pergunta. Não sou especialista na área então é mais difícil avaliar a implementação, mas em termos de marco institucional o Brasil está bem posicionado.

4. Quando se fala em preservação do meio ambiente, pensa-se também nos modelos de descarte que causam tantos danos ao meio ambiente. Existe alguma política de incentivo ao descarte consciente?
Mais uma vez, o Brasil tem um marco legal bastante consistente para o incentivo ao descarte consciente que é a Política Nacional de Resíduos Sólidos de 2010, que é inclusive uma referência internacionalmente. Na verdade, mais que um incentivo ela é um desincentivo ao descarte inconsciente por meio do estabelecimento da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a logística reversa. Isso significa que a PNRS obriga as empresas a aceitarem o retorno de seus produtos descartados, além de as responsabilizar pelo destino ambientalmente adequado destes. A inovação fica sobretudo na inclusão de catadoras e catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis tanto na logística reversa como na coleta seletiva, algo essencial para um país com nosso contexto social.

5. Você acha que os modelos de descarte atuais serão substituídos por novos modelos no pós-pandemia? O que fazer, por exemplo, para incentivar as pessoas a descartar de forma consciente as máscaras antivírus?
Sempre é preciso se repensar e certamente a pandemia deu destaque a certas fragilidades da implementação da PNRS. Grande parte dos hospitais brasileiros ainda não praticam efetivamente a separação e adequada destinação de seus resíduos e, na pandemia, este problema é agravado tanto pela maior quantidade de resíduos de serviços de saúde gerados como por uma maior quantidade de geradores, uma vez que a população também começa a produzir este tipo de resíduo em escala. Falta ainda muita circulação da informação, então talvez este seja o primeiro passo: uma campanha de conscientização séria que jogue luz nesta questão.

6. Na sua opinião, o mundo está mais consciente das necessidades de preservação do meio ambiente e dos recursos naturais para que gerações futuras possam deles usufruir?
Acredito que tenhamos passado do ponto em que estas necessidades de preservação eram uma questão de consciência e chegamos a um patamar de sobrevivência. Também não se trata apenas das gerações futuras, já estamos sofrendo as consequências do desequilíbrio ambiental provocado pela ação humana e do esgotamento dos recursos naturais desde já. A própria pandemia é resultado de relações danosas entre o ser humano e o meio ambiente e os conflitos por fontes de água, por exemplo, são uma realidade.

7. Quais as ações que mais comprometem e degradam o meio ambiente?
Nosso modelo produtivo e de consumo como um todo é baseado em uma relação predatória com o meio ambiente: retiramos mais do que necessitamos, sem respeitar os ciclos naturais de reposição e, além disso, quando descartamos os resíduos e rejeitos não cumprimos com os padrões adequados estabelecidos. Já temos conhecimento suficiente para evitar grande parte dos problemas, mas ainda não conseguimos integrá-lo nas nossas práticas efetiva e definitivamente.

8. O que na sua opinião precisa ser feito para que as sociedades conheçam mais a respeito de sustentabilidade, preservação do meio ambiente e consumo consciente?
Acredito que para avançarmos como sociedade precisamos tratar a questão das desigualdades socioeconômicas que estão intrinsicamente relacionadas a desigualdades ambientais, inclusive no que diz respeito às informações, ao conhecimento. A educação é, portanto, um componente estratégico para este avanço, mas é preciso ter um entendimento amplo que traga também os saberes tradicionais para esta equação. Além disso é preciso cada dia mais abordar o tema da perspectiva das oportunidades, pois a transição para modos de vida mais sustentáveis, que preservam o meio ambiente e que se baseiem em consumo conscientes alavancam inúmeras delas; por exemplo, um maior potencial de geração de empregos de qualidade e menos gastos com saúde.

9. A questão climática está relacionada com a sustentabilidade? Como?
A mudança do clima intensificada pela ação antrópica tem relação com nossos padrões de produção e consumo em desequilíbrio com o meio ambiente: por um lado, vimos emitindo uma quantidade de gases de efeito estufa muito significativa e, por outro, vimos degradando ecossistemas que absorvem estes gases, diminuindo a capacidade natural do planeta de equilibrar as emissões. Assim, a questão climática está relacionada com um modo de vida insustentável. A notícia boa é que práticas sustentáveis geram diretamente um impacto positivo no equilíbrio climático do planeta. Por exemplo, o Brasil tem potencial para gerar mais de 25 mil gigawatts em energia solar, aproveitando sua excelente localização geográfica com abundância de luz solar, uma medida sustentável que, ao mesmo tempo, é considerada uma das melhores alternativas para a diminuição das emissões de CO2 na atmosfera, que é um dos principais gases intensificadores do efeito estufa.

 

 

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MARCOS TERENA

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De filho pródigo à liderança internacional, o índio, piloto e cacique Marcos Terena, tornou-se um líder respeitado e o ponto de equilíbrio entre autoridades brancas e os povos indígenas.

O índio, piloto e cacique Marcos Terena é uma liderança respeitada internacionalmente e o ponto de equilíbrio autoridades brancas e os povos indígenas. Terena tem uma de luta, de diálogos e de fé.
Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se” dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo.
Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio. Escreveu ele ao JB:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.” 
E Terena continua sua carta:
“Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.” 
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. “Expliquei – diz ele – e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”. Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição! Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz.
E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”. 
Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 66 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro – é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.
CINCO BRANCOS E CINCO ÍNDIOS DE VALOR
1 – CINCO HOMENS BRANCOS QUE SOUBERAM OU SABEM VALORIZAR A CULTURA INDIGENISTA?
TERENA – O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.
2 – QUAIS OS CINCO ÍNDIOS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA?
TERENA – Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Txucarramãe, Cacique Quitéria Pankararue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.
3 – A POLÍTICA É UMA ARMA PARA SE FAZER JUSTIÇA OU UM CAMINHO MAIS FÁCIL PARA ENCOBRIR INJUSTIÇAS?
TERENA – O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. Mas a única participação que tivemos foi do Deputado Mario Juruna, eleito pelo voto do RJ. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira “assembleia do povo brasileiro” e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos e poderosos.
POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE
4 – NAS SUAS CONTAS, QUAL A POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE NO BRASIL?
TERENA –  Já fomos mais de 5 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 530 mil em aldeias, e depois dos eventos nacionais e internacionais de afirmação outros 500 mil em centros urbanos, com mais de 300 sociedades e 200 línguas vivas em todo o Brasil.
5 – AS MISSÕES RELIGIOSAS QUE ATUAM NAS ÁREAS INDÍGENAS SÃO BOAS OU RUINS?
TERENA – As missões religiosas sempre foram a parte a abençoar os primeiros contatos com os indígenas. Elas foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores e sem almas por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim pois sempre respeitamos de forma sagrado o Grande Espírito.
6 – OS ÍNDIOS JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA OS PORTUGUESES (MOTIVO DE FINANCIAMENTO DE NOVAS EXPEDIÇÕES, POIS O MUNDO CATÓLICO TINHA QUE SALVAR ALMAS) JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA CANTORES DE ROCK, PARA ONGS, PARA CANDIDATOS E PARA GOVERNOS. ÍNDIO É UM BOM MARKETING?
TERENA – Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de joias, de produtos de beleza, de comida e medicina alternativas. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.
7 – QUEM PENSA GRANDE E QUEM PENSA PEQUENO NA FUNAI?
TERENA – Os índios pensam de forma ampla porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai foram passivos, paternalistas e incompetentes para a promoção dos valores indígenas e da própria instituição como empoderamento étnico, institucional e fonte de respostas para o País e para o mundo.
SONHO: DEMARCAÇÃO E CÁTEDRA ÍNDÍGENA
8 – JURUNA FOI UM LÍDER ELEITO PELO HOMEM BRANCO. VALEU, PARA OS ÍNDIOS, ESSA EXPERIÊNCIA PARLAMENTAR?
TERENA – A lembrança de Mário Juruna é um marco na história dos Povos Indígenas. Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, sendo respeitado pelas autoridades brasileiras por sua forma de ser, mas como Parlamentar não foi bem assim. Houve falta de assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição por exemplo, para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje…
9 – QUAL O GRANDE SONHO DA FAMÍLIA INDIGENISTA PARA O ANO 2020?
TERENA – A demarcação de todas as terras. Cumprir a Constituição e não rasgá-la como querem alguns parlamentares como a bancada ruralista; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; criar uma Cátedra Indígena com um perfil de Universidade Intercultural, e transformar a Funai num Ministério do Índio, e inovar nas relações com os poderes públicos, nomeando indígenas para esses cargos, pois eles existem.
10 – RELIGIÃO: O HOMEM BRANCO NÃO RESOLVEU SEUS PROBLEMAS COM A RELIGIÃO QUE TEM, MAS ACHA QUE DEVE LEVAR SUA RELIGIÃO PARA OS ÍNDIOS. O QUE ACHA DISSO?
TERENA – Os índios creem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.
11 – O QUE O ÍNDIO ESPERA DA CIVILIZAÇÃO, DO HOMEM BRANCO DE HOJE?
TERENA – Na verdade, agora estamos mais especializados em assuntos do branco, percebemos uma grande carência de metas e ideais que não dependem apenas de dinheiro ou poder. A sociedade do novo Milênio se perdeu entre as novas tecnologias e está gerando uma sociedade sem velhos e jovens, onde a Mulher por ser Mulher, poderá ser o equilíbrio, a tábua de salvação dos valores sociais, interétnicos, econômicos e religiosos. Um governo que defende o armamento de sua sociedade não está a favor do bem estar de seu Povo e sim dos interesses das indústrias de armas e guerras. O índio brasileiro não aceita ser parte da pobreza, mas quer mostrar que podemos ajudar, contribuir, mas dentro de um respeito mútuo.
“POSSO SER O QUE VOCÊ É, SEM DEIXAR DE SER QUEM SOU!”
12 – SUA LUTA É PROVAR QUE A DIFERENÇA CULTURAL É FATOR DE DISCRIMINAÇÃO QUANDO DEVERIA SER FATOR DE UNIÃO PELA PLURALIDADE ÉTNICA. VOCÊ CONSEGUE PASSAR ESSA MENSAGEM?
TERENA – Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar sem qualquer apoio ou cotas, e mesmo com a discriminação poder chegar a fazer um curso de aviadores na FAB. Aprendi muito com os valores militares. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram essa oportunidade. Muitos cansados, desiludidos voltaram para suas Aldeias para formar um novo espírito de lideranças tradicionais, religiosas e políticas. Mas no novo Milênio é impossível aceitar quaisquer argumentos que nos isolem das oportunidades, por isso quando começamos o movimento indígena nos anos 80, buscamos aliados para trocas de ideias dos nossos valores e da sociedade como um todo, organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, da SBPC, envolvendo artistas e personalidades – tudo isso ajudou a sermos melhores compreendidos. Ajudou-nos a levar uma nova mensagem aos brasileiros: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”
CULTURA FORTE, MAS ECONOMIA FORTE
13 – OS ÍNDIOS PARECIS SÃO HOJE GRANDE PRODUTORES RURAIS. FAZEM DUAS SAFRAS POR ANO DE SOJA, MILHO, GIRASSOL E OUTROS PRODUTOS. TRÊS MIL ÍNDIOS FAZEM MAIS DE R$ 50 MILHÕES COM O AGRONEGÓCIO. TEM ÍNDIO PILOTO DE COLHEITADEIRA, AGRÔNOMO E TEM ÍNDIO ESPECIALISTA EM MERCADO. FUNAI E IBAMA CRIAM TODAS AS DIFICULDADES BUROCRÁTICAS A ELES. O QUE VOCÊ ACHA DISSO?
TERENA – Temos que olhar com desconfiança tudo que é mágico. Se todos os agricultores fossem plantar soja para ficarem ricos, não haveria pobreza e fazendeiros endividados com bancos e credores. Teríamos condições de plantar soja, mas também seguir os princípios indígenas de gerar a segurança alimentar familiar. O Agronegócio não funciona assim. Por outro lado, os irmãos indígenas estão se empenhando em fazer a sua parte, que é demonstrar sua inteligência no manejo com a terra e sua força de trabalho. Ainda não sabemos como foram feitos os acordos financeiros das partes envolvidas.
14 – VOCÊ ACHA QUE O GOVERNO ESTÁ MEIO INDECISO?
TERENA – O Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro tem demonstrado sua contradição interna. Alguns assessores de alto nível emitem sons de discriminação histórica e até de ódio. Então como acreditar fielmente que esse Ministério é um aliado. Seria um marketing ou seria a reformulação do Anhanguera quando mentiu para os antigos donos dessas terras, ao ameaçar por fogo em todos os rios, ao acender um fogo com aguardente? O mais estranho é que os órgãos de fiscalização e controle e defesa dos povos indígenas como a FUNAI e o IBAMA, estão sendo descontruídos como tais, mas felizmente isso não acontece com o Ministério Público Federal, que certamente dará um norte nos encaminhamentos futuro.
De toda forma, sempre defendo a livre determinação dos Povos Indígenas, a começar pela demarcação territorial, com cultura forte, mas economia forte também.
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