Entrevistas

Sônia Rigueira – Entrevista sobre as Libélulas

Libélulas – Os insetos especialistas na arte de voar

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Libélulas – Os insetos especialistas na arte de voar


Silvestre Gorgulho, de Brasília


A natureza em equilíbrio é um complexo jogo de forças, de interesses e de visibilidade. No meio desta complexa luta pela sobrevivência e pelo equilíbrio, reina o Ser humano. É ele que, com sua racionalidade e fantástico poder de intervenção, permite interferir terrivelmente nas condições ambientais, elegendo o que parece ser bom ou ruim para sua supremacia. Por exemplo, quando os pesquisadores publicam uma lista da flora e da fauna ameaçadas de extinção, nem todas as pessoas se dão conta de que existem também pequeníssimos animais e desconhecidas plantas que são fundamentais para manter o equilíbrio da vida na Terra. Isso mostra que nem sempre a importância está no tamanho ou na visibilidade. Assim, existem muitos insetos, como as abelhas e as borboletas, essenciais na reprodução das espécies vegetais pelo milagre da polinização, e que também estão ameaçados de extinção. As libélulas não participam do processo de polinização, pois são insetos predadores e não buscam o pólen e néctar ofertado pelas flores. Mas também estão ameaçadas, apesar da importância que têm para manutenção do equilíbrio ecológico. Enfim, essa erosão genética passa despercebida aos olhos de muita gente. Segundo os biólogos, o Brasil tem umas 680 espécies de libélulas das cerca de 5 mil existentes no mundo. Uma espécie brasileira já é considerada extinta. Daí o esforço de se criar, em Minas Gerais, na serra São José, ao lado do município de Tiradentes, duas unidades de conservação: a Área de Proteção Ambiental São José e o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José. É esse o tema de nossa conversa com a bióloga Sônia Rigueira, presidente do Instituto Terra Brasilis, que atua ainda nas regiões da Serra da Canastra e da Serra do Espinhaço.






Quem é Sônia Rigueira


Mineira de Belo Horizonte, Sônia Rigueira é bióloga e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais. Sua vasta experiência vem de um longo trabalho dedicado às questões ambientais como vice-presidente da UICN-União Internacional para a Conservação da Natureza e a várias outras instituições como o IEF-MG, o WWF-US e a Conservation International. Em 1998, juntamente com outros profissionais, fundou o Instituto Terra Brasilis. Desde, então, se dedica com exclusividade ao trabalho e projetos dessa ONG que tem sede em Belo Horizonte e desenvolve pesquisas na serra de São José, na serra da Canastra e na serra do Espinhaço.


Sônia Rigueira – ENTREVISTA


Folha do Meio – Minas criou duas unidades de conservação que é a APA da serra de São José e o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José. Primeiro vamos falar da serra de São José…
Sônia Rigueira –
A serra de São José está situada na bacia de drenagem do rio das Mortes em terras dos municípios de São João Del Rei, Tiradentes, Santa Cruz de Minas, Prados e Coronel Xavier Chaves. A serra é belíssima e tem um relevo bastante acidentado, afloramentos de arenito quartzítico entremeados pela vegetação nativa. A altitude varia entre 900m e 1.430m.


FMA – Por ali passa a Estrada Real. Qual a história da ocupação desta área?
Sônia –
A história de ocupação desta região data do Brasil Colonial. Início do século XVIII. Em 1702, com a descoberta de veios de ouro junto a serra de São José, começaram a nascer os primeiros arraiais na região. Os vestígios da atividade mineradora ainda podem ser facilmente encontrados. Na região há um acervo histórico-cultural de altíssimo valor e importância. Igrejas, casario colonial, chafarizes, aqueduto, remanescentes da estrada real, fazendas antigas e ruínas de mundéus são também testemunhos da antiga ocupação. Mas o importante, mesmo, o que faz a região da serra de São José única é que existe uma associação muito forte com o valiosíssimo patrimônio natural.







A bacia do rio das Mortes, ao pé da Serra São José, faz parte do Refúgio de Vida Silvestre Libélulas, onde está representado 55,5% das libélulas encontradas em Minas Gerais


FMA – Então explica melhor para gente…
Sônia –
A região tem uma importância inigualável porque a serra encontra-se localizada numa zona de contato entre os domínios da Floresta Atlântica (floresta estacional semidecidual montana) e do Cerrado. Existem aí três ambientes distintos marcadamente importantes: a mata atlântica, o campo rupestre e o cerrado.
Em toda sua face sul, ao longo dos contrafortes da serra de São José, estende-se a mata atlântica, um dos maiores fragmentos remanescentes desta tipologia florestal em toda a região. Na serra propriamente dita, ou na porção de maior altitude, está o campo rupestre, separando os ambientes de Mata Atlântica e Cerrado. Descendo das áreas de maior altitude, formando verdadeiros corredores, temos as matas de galeria que nos levam até as porções mais baixas da face norte, onde está o Cerrado.


FMA – E o que torna a serra de São José um local tão especial?
Sônia –
Justamente a grande variedade de ambientes num espaço de área tão pequena. Em apenas um milésimo da área do Estado, a região da serra de São José guarda uma mostra bastante significativa da biodiversidade brasileira. É considerada como uma das áreas prioritárias para a sua conservação. Essa riqueza e diversidade na vegetação são certamente refletidas na fauna. Temos representados ali, por exemplo, 55,5% das libélulas encontradas em toda Minas Gerais, ou seja, 120 espécies. Aí estão também presentes cerca de 80 espécies de orquídeas, 32 espécies de anfíbios anuros, 242 espécies de aves, e pelo menos 9 espécies de mamíferos que ocorrem na área estão ameaçados de extinção. Tudo isso sem falar na beleza cênica que tem atraído turistas do mundo inteiro


FMA – E o Refúgio de Vida Silvestre Libélulas?
Sônia –
Pois é, as libélulas são parte da outra riqueza da serra de São José. Como eu disse, temos ali representados 55,5% das libélulas encontradas no nosso Estado. Isso corresponde a quase 20% das espécies de libélulas encontradas em todo o Brasil! Estamos falando de um lugar relativamente pequeno e muito especial.
Por tudo isso, para preservar esse patrimônio natural, é que o governo de Minas criou o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, que tem apenas uns 3.700 hectares. Vale lembrar que uma das espécies de libélula recém descobertas pelos cientistas ocorre exatamente no córrego do Chafariz, que desde o ano de 1749 fornece água para Tiradentes. Por causa do fornecimento da água aos habitantes, o córrego e sua mata circundante foram mais protegidos que os demais, que sofreram muito com o garimpo durante o Ciclo do Ouro.






Fotos: Werner Piper



Coryphaeshna perrensi



Oxyagrion basale



Telebasis carmesina



Orthemis discolor



Castoraeshna sp


FMA – Existe algum trabalho específico para proteção das libélulas ou simplesmente basta preservar seu habitat?
Sônia –
A nossa principal contribuição é preservar os ambientes aquáticos, como córregos, rios e lagoas naturais. As libélulas são consideradas bons indicadores de qualidade ambiental, o que significa que várias espécies são sensíveis a alterações como represamento de rios, aporte de poluentes, como esgotos domésticos e industriais, assoreamento e desmate das matas galeria, por exemplo. Em alguns casos podemos contribuir com a criação de pequenos ambientes que serão utilizados pelas libélulas, como uma forma de enriquecimento ambiental. Isso pode ser feito em projetos de recuperação de áreas degradadas, por exemplo. Na Europa e no Japão, é comum as pessoas fazerem pequenas lagoas para as libélulas, simplesmente pelo prazer de ter esses insetos por perto.


FMA – Como no caso do turismo de observação de aves, também existem grupos interessados na observação de libélulas?
Sônia –
Vem aumentando o número de estudos científicos, principalmente pelo fato das libélulas serem importantes indicadores da qualidade ambiental.
O brasileiro, em geral, não tem relação cultural em relação às libélulas. No entanto, em países asiáticos, especialmente no Japão, as libélulas têm uma inserção cultural muito forte.
Apenas a título de ilustração, no Japão hoje existem pelo menos 23 unidades de conservação criadas especificamente para a proteção de libélulas.


FMA – O turismo já é uma realidade na região?
Sônia –
Sim, já é uma realidade, por ser tão rico e especial. O turismo é a vocação da região de inserção da serra de São José. O turismo, ou uso público, quando bem planejado, torna-se uma ferramenta importante para as áreas protegidas. Assim, dando início ao processo de implantação das duas unidades de conservação aí presentes, o Instituto Terra Brasilis, que possui uma longa história de trabalho na região, está desenvolvendo, em parceria com o Instituto Estadual de Florestas, um grande projeto visando a implementação de infraestrutura de apoio ao uso público.
Em breve poderemos visitar a região da serra de São José contendo infraestruturas adequadas para receber e informar as pessoas, na forma de núcleos de informação, visitação e apoio à fiscalização, trilhas estruturadas, folhetos e cartilhas educativas. Tudo isso faz parte deste projeto inicial em fase de implementação.


FMA – Fale de seu trabalho no Terra Brasilis e dos projetos mais recentes?
Sônia –
O objetivo institucional do Instituto Terra Brasilis é promover a conservação dos ecossistemas e o uso sustentado e racional dos recursos naturais, conciliados com o desenvolvimento econômico-social equitativo.
Nosso trabalho é organizado em cinco linhas de atuação: conservação da biodiversidade, áreas protegidas, educação ambiental, uso sustentado de recursos naturais e planejamento e políticas públicas.
O Instituto Terra Brasilis possui hoje diversas linhas de trabalho e atua na região da Serra da Canastra, Serra de São José e na Serra do Espinhaço.


As 15 metamorfoses







Castoraeshna-januaria larvai


Quem conta com muita competência a metamorfose das libélulas é o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Ecológico Aqualung.


Segundo Szpilman, as libélulas são larvas que se transformam em avião: duas a três semanas depois de postos os ovos, surgem as larvas das libélulas. Começa então um longo ciclo de vida aquática, que, em algumas espécies, pode durar até cinco anos. Em sua existência submersa, a larva se alimentará de microcrustáceos, filhotes de peixes e outras larvas. Ela atua como ápice de uma importante cadeia alimentar dos ambientes aquáticos dos rios e lagos.


Vai passar por até 15 sucessivas metamorfoses até se transformar em uma naiade, que já se assemelha ao inseto adulto porém se movimenta no meio aquático através de jatos de água que saem pelo reto, como um sifão. Em um dado momento, atendendo aos chamados de um relógio biológico, cujo mecanismo permanece inexplicado, a naiade faz a transição do meio aquático para o terrestre onde fará sua última metamorfose.


A escalada do trampolim para o novo mundo é feita geralmente à noite, para escapar dos predadores. Subindo pela haste de alguma planta, a larva para de se alimentar e se mantém várias horas imóvel se preparando para a mudança.


A libélula rompe seu último exoesqueleto pelo dorso, liberando primeiro a cabeça e o tórax e depois o abdômen (o processo leva de 30 a 40 minutos). Suas asas, úmidas, precisarão de duas a três horas para se solidificarem em contato com o ar, quando a libélula estará, então, aparelhada e pronta para decolar.


Curiosidades sobre as Libélulas


Nome comum: Libélula
Nomes populares: lavadeira, canzil, cavalinho do diabo, pito.
Origem do nome: O nome está ligado ao latim, porque a libélula se parece com um livro aberto. Em latim, libellulus é o diminutivo de livro (liber).


— Seus dois pares de asas funcionam separadamente. Quando precisa voar devagar, o primeiro par bate um pouco antes do segundo. Quando quer voar rápido ou planar, os dois pares de asas batem em uníssono.


— Planar é uma capacidade exclusiva das libélulas, justamente pelo aparelhamento biológico de suas asas. Isso não acontece com os outros insetos.


— Por causa das asas, as libélulas são classificadas em dois grandes grupos: os anisópteros e os zigópteros. O primeiro grupo é da libélula propriamente dita: tem o segundo par de asas mais estreito do que o primeiro. Já os zigópteros apresentam dois pares de asas do mesmo tamanho. Uma curiosidade: o nome para as Anisoptera nos EUA é “dragonfly” (dragão voador), pois algumas espécies são tão exóticas que parecem ser um pequeno dragão voador. Os Zygoptera são chamados por lá de “damselflies” (dançarinas), pelo seu porte delicado e graça dos seus movimentos.


— Uma abelha vibra suas asas 4 vezes por segundo. Outros insetos conseguem bater até 8 vezes as asas por segundo. Já a libélula consegue a incrível marca de bater suas asas até 50 vezes por segundo.


— Foi esse perfeito controle das asas que levou os franceses a chamarem a libélula de “demoiselle” (senhorita). E foi o nome que inspirou Santos Dumont a colocar no seu modelo de avião mais bem sucedido: Demoiselle.


— Os olhos da libélula são os maiores, proporcionalmente, no reino animal. Os olhos dela funcionam como verdadeiro radar para identificar presas, predadores ou até uma parceira ou rival.


— O tempo de vida de uma libélula é muito curto: média de dois meses. Tempo que justifica sua irrequieta vida voando, planando, subindo e descendo. Dois meses é o tempo entre sua última metamorfose para se transformar libélula e sua morte. E ainda tem que acasalar para perpetuar a espécie.


— A libélula é uma ótima caçadora, capaz de comer até 14% de seu peso. Ela se alimenta de outros insetos voadores.


— As libélulas podem ser muito úteis, pois comem mosquitos e pernilongos que, eventualmente, transmitem dengue e malária. Ainda, existem muitas espécies de libélulas que são verdadeiros termômetros ambientais. Elas não vivem onde há poluição. Tem até o teste libélula: “se tem libélula, a água é limpa”. À menor alteração físico-química da água ou nas margens dos corpos d´água, além de impedir sua reprodução expulsa libélulas do local.


summary


Dragon Flies
Insect specialist in the art of flying


Nature is a complex balance of forces, interests and visibility. In the midst of this complex struggle to survive and achieve balance, man reigns. He is the one endowed with rational thought and the fantastic power to intervene, enabled to wreak travel interference in the state of the environment, choosing what appears to be good or bad to maintain his supremacy. For example, when researchers publish a list of flora or fauna threatened by extinction, not everyone takes into account the smallest animals or unknown plants vitally important to preserve the balance of life on Earth. This just goes to show that importance is not always based on size or visibility. Thus, there are many insects, such as bees and butterflies which are essential to the reproduction of vegetable species through the miracle of pollination and which are also threatened with extinction. The dragon flies are not part of the pollination process but are rather predator insects and are not in search of pollen or nectar offered by the flowers. Nevertheless, they are also threatened, despite their importance in sustaining the ecological balance. This genetic erosion has gone unnoticed by many people. According to biologists, Brazil has roughly 680 species of dragon flies out of the approximately 5,000 in existence in the world. One Brazilian species is already regarded as extinct. However, there are efforts to create, in the state of Minas Gerais, in the São José mountain range, along side the town of Tiradentes, two conservation units: The São José Environmental Protection Area and the Dragon Fly State Wildlife Refuge of the Serra de São José. This is the theme of our conversation with biologist, Sonia Rigueira, President of the Terra Brasilis Institute who also works in the regions of the Serra da Canastra and the Serra do Espinhaço.


SÔNIA RIGUEIRA – INTERVIEW


Who is she – Sônia Rigueira is a biologist and holds a Masters Degree in Ecology, Conservation and Management of Wild Life from the Universidade Federal de Minas Gerais. Her vast experience is based on her many years devoted to working on environmental issues and she has been involved in entities such as the UICN-International Union for the Conservation of Nature, where she was the vice president, as well as a number of other institutions such as the IEF-MG, the WWF-US and Conservation International. In 1998, working jointly with other professionals, she founded theTerra Brasilis Institute. Since then she has been dedicated exclusively to working with this NGO, which is headquartered in Belo Horizonte, as well as developing research in other regions of the state of Minas Gerais.


SERRA – The São José Serra, or mountain range, is located at the Mortes River mouth basis in the land included in the municipalities of São João Del Rei, Tiradentes, Santa Cruz de Minas, Prados and Coronel Xavier Chaves. The Serra is breathtaking, the terrain is very rough and there are outcroppings of quartzite sandstone, veined with native vegetation. The altitude ranges from 900m to 1,430m.


HISTORY – Occupation of this region dates back to the Brazilian Colonial period, beginning in the 18th century. In 1702, when the veins of gold ore were discovered in the Serra de São José, the first villages in the region began to appear. The remains of mining sites can still be readily found. There are also extremely important historical and cultural heritage landmarks located within the region. Churches, colonial mansions, fountains, aqueducts, remainders of the royal highway, old farms and outbuilding ruins are also witnesses to the former occupants. Most importantly and what makes the region of the Serra de São José unique is its very strong link to the highly inestimable natural heritage.


VARIETY OF ENVIRONMENTS – The São José range harbors within only one thousandth of the State area, a highly significant sample of Brazilian biodiversity. It is regarded as one of the priority conservation areas. This wealth and diversity of plant life is certainly reflected in the wildlife. We can see there for example, 55.5% of dragon flies found throughout the state of Minas Gerais, i.e., 120 species. There are also nearly 80 species of orchids, 34 types of tailless amphibians, 242 species of birds and at least nine species of mammals which live in the area are threatened with extinction, not to mention the scenic panorama that attracts tourists the world over.


DRAGON FLIES – Dragon flies are part of the other riches that the São José Serra offers. As mentioned, there are 55.5% of the dragon flies found in our state there and nearly 20% of the species found within Brazil! In order to preserve this natural heritage, the Minas Gerais state government has created the Serra de São José State Dragon Fly Wildlife Refuge encompassing close to 3,700 hectares.

ENVIRONMENTAL QUALITY – Dragon flies are regarded as good indicators of the quality of the environment, meaning that several species are sensitive to changes such as damming rivers, water borne pollutants, such as household and industrial sewage, river silt accumulation and deforestation of the wooded areas. In Europe and in Japan, people commonly dig small lakes to attract dragon flies, simply for the pleasure of having these fantastic insects nearby. In Japan today there are at least 23 conservation units that have been created specifically for the protection of the dragon fly species.


Instituto Terra Brasilis – The institutional purpose of the Instituto Terra Brasilis is to promote and preserve the ecosystems and the sustained and rational use of the natural resources in line with equitable economic and social development. Our work is organized along five lines of engagement: preservation of the biodiversity, protected areas, environmental education, sustained use of natural resources and public planning and policies. The Instituto Terra Brasilis today conducts ongoing work projects in the regions of the Serra da Canastra, Serra de São José and Serra do Espinhaço.


 

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Entrevistas

MARCOS TERENA

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De filho pródigo à liderança internacional, o índio, piloto e cacique Marcos Terena, tornou-se um líder respeitado e o ponto de equilíbrio entre autoridades brancas e os povos indígenas.

O índio, piloto e cacique Marcos Terena é uma liderança respeitada internacionalmente e o ponto de equilíbrio autoridades brancas e os povos indígenas. Terena tem uma de luta, de diálogos e de fé.
Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se” dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo.
Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio. Escreveu ele ao JB:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.” 
E Terena continua sua carta:
“Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.” 
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. “Expliquei – diz ele – e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”. Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição! Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz.
E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”. 
Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 66 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro – é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.
CINCO BRANCOS E CINCO ÍNDIOS DE VALOR
1 – CINCO HOMENS BRANCOS QUE SOUBERAM OU SABEM VALORIZAR A CULTURA INDIGENISTA?
TERENA – O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.
2 – QUAIS OS CINCO ÍNDIOS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA?
TERENA – Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Txucarramãe, Cacique Quitéria Pankararue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.
3 – A POLÍTICA É UMA ARMA PARA SE FAZER JUSTIÇA OU UM CAMINHO MAIS FÁCIL PARA ENCOBRIR INJUSTIÇAS?
TERENA – O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. Mas a única participação que tivemos foi do Deputado Mario Juruna, eleito pelo voto do RJ. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira “assembleia do povo brasileiro” e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos e poderosos.
POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE
4 – NAS SUAS CONTAS, QUAL A POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE NO BRASIL?
TERENA –  Já fomos mais de 5 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 530 mil em aldeias, e depois dos eventos nacionais e internacionais de afirmação outros 500 mil em centros urbanos, com mais de 300 sociedades e 200 línguas vivas em todo o Brasil.
5 – AS MISSÕES RELIGIOSAS QUE ATUAM NAS ÁREAS INDÍGENAS SÃO BOAS OU RUINS?
TERENA – As missões religiosas sempre foram a parte a abençoar os primeiros contatos com os indígenas. Elas foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores e sem almas por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim pois sempre respeitamos de forma sagrado o Grande Espírito.
6 – OS ÍNDIOS JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA OS PORTUGUESES (MOTIVO DE FINANCIAMENTO DE NOVAS EXPEDIÇÕES, POIS O MUNDO CATÓLICO TINHA QUE SALVAR ALMAS) JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA CANTORES DE ROCK, PARA ONGS, PARA CANDIDATOS E PARA GOVERNOS. ÍNDIO É UM BOM MARKETING?
TERENA – Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de joias, de produtos de beleza, de comida e medicina alternativas. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.
7 – QUEM PENSA GRANDE E QUEM PENSA PEQUENO NA FUNAI?
TERENA – Os índios pensam de forma ampla porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai foram passivos, paternalistas e incompetentes para a promoção dos valores indígenas e da própria instituição como empoderamento étnico, institucional e fonte de respostas para o País e para o mundo.
SONHO: DEMARCAÇÃO E CÁTEDRA ÍNDÍGENA
8 – JURUNA FOI UM LÍDER ELEITO PELO HOMEM BRANCO. VALEU, PARA OS ÍNDIOS, ESSA EXPERIÊNCIA PARLAMENTAR?
TERENA – A lembrança de Mário Juruna é um marco na história dos Povos Indígenas. Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, sendo respeitado pelas autoridades brasileiras por sua forma de ser, mas como Parlamentar não foi bem assim. Houve falta de assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição por exemplo, para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje…
9 – QUAL O GRANDE SONHO DA FAMÍLIA INDIGENISTA PARA O ANO 2020?
TERENA – A demarcação de todas as terras. Cumprir a Constituição e não rasgá-la como querem alguns parlamentares como a bancada ruralista; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; criar uma Cátedra Indígena com um perfil de Universidade Intercultural, e transformar a Funai num Ministério do Índio, e inovar nas relações com os poderes públicos, nomeando indígenas para esses cargos, pois eles existem.
10 – RELIGIÃO: O HOMEM BRANCO NÃO RESOLVEU SEUS PROBLEMAS COM A RELIGIÃO QUE TEM, MAS ACHA QUE DEVE LEVAR SUA RELIGIÃO PARA OS ÍNDIOS. O QUE ACHA DISSO?
TERENA – Os índios creem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.
11 – O QUE O ÍNDIO ESPERA DA CIVILIZAÇÃO, DO HOMEM BRANCO DE HOJE?
TERENA – Na verdade, agora estamos mais especializados em assuntos do branco, percebemos uma grande carência de metas e ideais que não dependem apenas de dinheiro ou poder. A sociedade do novo Milênio se perdeu entre as novas tecnologias e está gerando uma sociedade sem velhos e jovens, onde a Mulher por ser Mulher, poderá ser o equilíbrio, a tábua de salvação dos valores sociais, interétnicos, econômicos e religiosos. Um governo que defende o armamento de sua sociedade não está a favor do bem estar de seu Povo e sim dos interesses das indústrias de armas e guerras. O índio brasileiro não aceita ser parte da pobreza, mas quer mostrar que podemos ajudar, contribuir, mas dentro de um respeito mútuo.
“POSSO SER O QUE VOCÊ É, SEM DEIXAR DE SER QUEM SOU!”
12 – SUA LUTA É PROVAR QUE A DIFERENÇA CULTURAL É FATOR DE DISCRIMINAÇÃO QUANDO DEVERIA SER FATOR DE UNIÃO PELA PLURALIDADE ÉTNICA. VOCÊ CONSEGUE PASSAR ESSA MENSAGEM?
TERENA – Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar sem qualquer apoio ou cotas, e mesmo com a discriminação poder chegar a fazer um curso de aviadores na FAB. Aprendi muito com os valores militares. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram essa oportunidade. Muitos cansados, desiludidos voltaram para suas Aldeias para formar um novo espírito de lideranças tradicionais, religiosas e políticas. Mas no novo Milênio é impossível aceitar quaisquer argumentos que nos isolem das oportunidades, por isso quando começamos o movimento indígena nos anos 80, buscamos aliados para trocas de ideias dos nossos valores e da sociedade como um todo, organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, da SBPC, envolvendo artistas e personalidades – tudo isso ajudou a sermos melhores compreendidos. Ajudou-nos a levar uma nova mensagem aos brasileiros: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”
CULTURA FORTE, MAS ECONOMIA FORTE
13 – OS ÍNDIOS PARECIS SÃO HOJE GRANDE PRODUTORES RURAIS. FAZEM DUAS SAFRAS POR ANO DE SOJA, MILHO, GIRASSOL E OUTROS PRODUTOS. TRÊS MIL ÍNDIOS FAZEM MAIS DE R$ 50 MILHÕES COM O AGRONEGÓCIO. TEM ÍNDIO PILOTO DE COLHEITADEIRA, AGRÔNOMO E TEM ÍNDIO ESPECIALISTA EM MERCADO. FUNAI E IBAMA CRIAM TODAS AS DIFICULDADES BUROCRÁTICAS A ELES. O QUE VOCÊ ACHA DISSO?
TERENA – Temos que olhar com desconfiança tudo que é mágico. Se todos os agricultores fossem plantar soja para ficarem ricos, não haveria pobreza e fazendeiros endividados com bancos e credores. Teríamos condições de plantar soja, mas também seguir os princípios indígenas de gerar a segurança alimentar familiar. O Agronegócio não funciona assim. Por outro lado, os irmãos indígenas estão se empenhando em fazer a sua parte, que é demonstrar sua inteligência no manejo com a terra e sua força de trabalho. Ainda não sabemos como foram feitos os acordos financeiros das partes envolvidas.
14 – VOCÊ ACHA QUE O GOVERNO ESTÁ MEIO INDECISO?
TERENA – O Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro tem demonstrado sua contradição interna. Alguns assessores de alto nível emitem sons de discriminação histórica e até de ódio. Então como acreditar fielmente que esse Ministério é um aliado. Seria um marketing ou seria a reformulação do Anhanguera quando mentiu para os antigos donos dessas terras, ao ameaçar por fogo em todos os rios, ao acender um fogo com aguardente? O mais estranho é que os órgãos de fiscalização e controle e defesa dos povos indígenas como a FUNAI e o IBAMA, estão sendo descontruídos como tais, mas felizmente isso não acontece com o Ministério Público Federal, que certamente dará um norte nos encaminhamentos futuro.
De toda forma, sempre defendo a livre determinação dos Povos Indígenas, a começar pela demarcação territorial, com cultura forte, mas economia forte também.

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Entrevistas

Rosalía Arteaga Serrano – Entrevista sobre a OTCA e a Amazônia

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“Temos que cuidar da Amazônia”
A cobiça despertada pelas riquezas amazônicas é real

Rosalía Arteaga Serrado (foto) assumiu, em 2004, o desafio de fazer da Organização do Tratado de Cooperação Amazônico – OTCA um instrumento efetivo para o desenvolvimento sustentável e integrado da região. Jornalista, escritora, Rosalía foi ministra da Educação do Equador e chegou a ocupar a Presidência da República de seu país por três dias, em fevereiro de 97, após a destituição do presidente Abdala Bucaram. Antes de deixar agora a OTCA, Rosalía falou de seu trabalho e do futuro da Amazônia.

Folha do Meio – Como foi dirigir a OTCA desde 2004?
Rosalía
– Desde que assumi a Secretaria Geral, a OTCA se posicionou como o único organismo regional que representa os governos dos oito países da região Amazônica. Creio que nós conseguimos dar visibilidade à Organização, construímos institucionalidade, tanto dentro do Brasil, que é o País-sede, como também nos outros sete países.
Além disso, foi possível cimentar os fundamentos da OTCA do ponto de vista econômico, mobilizando recursos da
cooperação internacional, de organismos financeiros e da ONU, entre outros, para desenvolver importantes projetos regionais. Também foram estabelecidas bases de um fundo para a Amazônia, que deve ser administrado pela OTCA com a cooperação internacional. Temos hoje 19 projetos em andamento.

FMA – Quais os principais desafios e obstáculos enfrentados durante seu mandato?
Rosalía –
Devo dizer que os desafios são tão vastos quanto a imensidão da Amazônia Continental, que abrange um território de cerca de 7,5 milhões de km² e é integrada por países assimétricos – desde nações extensas e desenvolvidas, como o Brasil, a países menores, que precisam de maior apoio.

FMA – Por que a Amazônia Continental é importante para o planeta?
Rosalía –
A Amazônia representa cerca de 40% do território da América do Sul e abriga a maior biodiversidade do planeta, sendo responsável por 20% das reservas de água doce do mundo.
A região também é um espaço extremamente rico. Deve-se observar que boa parte do PIB dos países que integram a OTCA provém de recursos loca-lizados na região, como petróleo, gás, diversidade de fauna e flora, recursos genéticos, conhecimentos tradicionais, entre outros.
E hoje, quando o problema das mudanças climáticas está na pauta da opinião pública mundial e preocupa os países desenvolvidos, como se pôde observar na recente reunião dos países do G-8 na Alemanha, a Amazônia assume um papel de destaque.

FMA – Qual o significado e a importância do rio Amazonas?
Rosalía
– Eu nasci em uma pequena cidade andina chamada Cuenca, no Equador. Uma característica importante da minha cidade era a água. Quando eu era pequena, lembro que falávamos que aquela água com que brincávamos chegava ao rio Amazonas. Sempre me senti muito orgu-lhosa de dizer que a água da minha cidade, a quase três mil metros de altura, chegava à Amazônia.
São muitas as lembranças que guardo de nossos rios, o Tarqui, o Yanuncay, o Machángara e o Tomebamba. Essa li-gação entre os Andes e a Amazônia é muito importante para mim e acredito que jamais deva ser esquecida pela
OTCA. Ela tem a ver com água e biodiversidade, mas também com cultura.

FMA – O que ameaça a Amazônia?
Rosalía –
As ameaças são inúmeras: o desmatamento, as queimadas e atos ilegais como a biopirataria, o tráfico de drogas e as guerrilhas. No entanto, acredito que, em primeiro lugar, as maiores ameaças são a cobiça sobre a região e a falta de consciência sobre o significado da Amazônia para os próprios países, para a região e para o planeta.
O mundo inteiro ainda vive uma etapa em que não percebe o que está para acontecer em um futuro bem imediato. A Amazônia é uma grande vítima do aquecimento global e das agressões ambientais.

FMA – Os países estão encontrando o caminho da sustentabilidade?
Rosalía
– Existe uma evolução, di-gamos assim, em relação às décadas passadas, quando as políticas passavam pela colonização da Amazônia. Agora, o discurso mudou. Todos defendem o desenvolvimento sustentável. Mas encontramos situações complexas, como o conflito entre interesses econômicos e proteção dos recursos naturais. Vemos, então, que existe uma grande diversidade de posicionamentos na região. Alguns países têm desenvolvido políticas melhores para a Amazônia, outros não. Alguns, como o Brasil, têm leis para a gestão das florestas, outros não. Os países estão tentando encontrar o caminho do desenvolvimento sustentável, mas ainda não conseguiram alcançar respostas satisfatórias.

FMA – Há iniciativas que mostram o caminho certo?
Rosalía
–  Há sim. Gosto de destacar o Programa Zona Franca Verde do Amazonas, que é um plano de desenvolvimento sustentável muito inte-ressante. Também são importantes avanços a validação dos indicadores de sustentabilidade da floresta, parte do Projeto de Tarapoto que realizamos com a FAO, e iniciativas de compartilhamento de conhecimentos sobre questões florestais com os países da América Central e do Cone Sul, o diálogo chamado Puembo II.
Outro espaço importante que estamos construindo é a formação do grupo dos países amazônicos no Foro das Nações Unidas sobre Florestas. Espero que possamos fazer o mesmo nas áreas de mudanças climáticas e biodiversidade.

FMA – Qual a sua opinião sobre a internacionalização da Amazônia?
Rosalía –
Desde que o TCA foi as-sinado, em 1978, um dos pontos em questão para os países membros é a defesa da soberania. A cobiça despertada pelas riquezas amazônicas é real. Vários grupos transnacionais estão interes-
sados – de maneira negativa – na região.
Nós e os países precisamos ser muito cuidadosos na proteção da Amazônia e temos que encontrar nossos caminhos para desenvolver a região de forma sustentável. Existem informações que circulam pela internet e em outros espaços expondo situações que não podem ser aceitas pelos países amazônicos. Há necessidade de preservar a soberania de nossos países.

FMA – A senhora recebeu apoio efetivo dos países membros?
Rosalía
– Os países têm contribuído por meio do pagamento de suas cotas e pelo apoio na organização de atividades como as reuniões de ministros das Relações Exteriores, de Defesa, de Propriedade Intelectual e todas as outras que promovemos durante estes três anos. Os governos também são responsáveis por designar funcionários para trabalhar na sede da Secretaria Permanente, onde temos representantes dos oito países membros.

FMA – A  OTCA passou a ser me-lhor entendida na sua gestão?
Rosalía
– Vejo sim e digo o porquê. A verdade é que a OTCA vem assumindo importância cada vez maior para os países. E isso é recíproco.
Hoje, quando convocamos uma
reunião, despertamos mais expectativa do que quando começamos. Apesar disso, acredito que os países precisam dar ainda mais atenção a OTCA. Às vezes, esse interesse é maior por parte da
cooperação internacional.

FMA –  Quais são os próximos grandes desafios?
Rosalía –
Nossa floresta é vital e tem de assumir um papel relevante nas discussões sobre o futuro da América do Sul. Além disso, existem temas como o estabelecimento de uma sede própria para a OTCA em Brasília, pois ainda não temos, aqui, um terreno e uma residência. A Organização deve continuar crescendo e facilitando iniciativas e parcerias com outras instituições.

FMA – Que lembranças pessoais vai levar da OTCA?
Rosalía
– Desde a serpente que a prefeita de Napo e os amigos da Amazônia Equatoriana colocaram no meu pescoço, passando por todas as comidas maravilhosas das quais eu aprendi a gostar – como o pato no tucupi no Pará e todas as variedades de peixes amazônicos que não havia experimentado – até a maravilhosa floresta amazônica que conheci na reserva ecológica de Tingana, no Peru. E meus amigos daqui da OTCA e do Brasil.

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Entrevistas

Luiz Simões Lopes – Entrevista sobre o início do ambientalismo

O precursor do ambientalismo no Brasil

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LUIZ SIMÕES LOPES, o precursor do ambientalismo no Brasil

 Silvestre Gorgulho, FGV Rio de Janeiro

“…Todos os povos precisam dedicar atenção às suas reservas florestais. As florestas, nas suas múltiplas utilidades, têm posto de alto relevo na vida das nações, sob o ponto de vista econômico, sanitário e social”.

“… Sob todas as latitudes campeia, infrene, um sinistro espírito de destruição e os homens, tomados de uma demência coletiva que lhes acende diabolicamente as órbitas, lançam-se contra a árvore, sua benfeitora, na ânsia de desnudar a Terra. Por toda parte precisam surgir medidas de proteção.”

“As matas estão cada dia fugindo mais das aglomerações humanas e muitos de vós terão recordação de matas das quais não existem nem vestígios hoje em dia… No Brasil, grande parte dos brasileiros não conhece sequer a árvore que deu nome à Pátria – o Pau Brasil.”

Mais atual, difícil. Mais oportuno, nunca. Quando vemos hoje a ONU e outras entidades propondo estratégias para se obter um desenvolvimento sustentável, recomendando maneiras e ajudando a definir noções comuns relativas a questões ambientais, não podemos imaginar que, neste mesmo Brasil, tão alvo de agressões do exterior, há 59 anos, precisamente em março de 1930, um brasileiro reformista, inconformado, empreendedor e sonhador já estava lutando pela nossa natureza. E fantástico ver que, este brasileiro, com 86 anos, despachando oito horas por dia em seu gabinete, ainda propõe soluções para o hoje e para o amanhã, com a mesma serenidade, lucidez e competência com que, em julho de 1938, por exemplo, promoveu o divisor de águas da administração pública brasileira com a criação do DASP, ou quando assinou a Exposição de Motivos ao presidente da República, para a criação da Fundação Getúlio Vargas.

O professor Luiz Simões Lopes, gaúcho, agrônomo formado em Belo Horizonte, um dos criadores da FBCN – Fundação Brasileira para Conservação da Natureza, mentor e primeiro Diretor Geral do Serviço Florestal, lançador de revistas sobre cultura e educação, como a Revista Florestal, de onde foram tiradas estas citações, desde a década de 20 sinalizava, pela primeira vez no País, “que a Terra era uma bola frágil e pequena, dominada não pela ação e pela obra do homem, mas por um conjunto ordenado de nuvens, oceanos, vegetação e solos” (Comissão Brundtland-1988) Simões Lopes vislumbrou, desde então, a grandiosidade desta tarefa. A humanidade precisava agir conforme essa ordenação natural. Há mais de meio século, este brasileiro – único na sua medida do País – deu seu grito de alerta. Viva a vida !
Silvestre Gorgulho foi até sua sala na FGV, no Rio, e conversou com o professor. Eis a entrevista publicada na primeira edição da Folha do Meio Ambiente, em 1989:

Seu pai, Idelfonso Simões Lopes, foi ministro da Agricultura de Epitácio Pessoa. Este fato influenciou sua formação de agrônomo?
Simões Lopes –
Não, talvez tenha me interessado por agronomia, porque meu irmão mais velho estudou agronomia na Argentina. Numa escola famosa. E, também, porque nós tínhamos fazenda. Formei-me em Belo Horizonte, mais fui aluno da Escola Agrícola Luiz de Queiroz, em Piracicaba, lá fui presidente de uma associação de classe, que estava parada e que incluía também professores da escola. Consegui uma coisa muito importante que foi reviver a revista da associação que se chamava “O Solo”. Sou um criador de revistas. Em Niterói, trabalhei na revista “A Rama” e, no Ministério da Agricultura, criei a “Revista Florestal”, que passou a ser publicada pelo serviço Florestal do Ministério.

Todos os movimentos de saúde, de educação, de cultura e de valorizado do patrimônio têm seu apoio. Há 31 anos o senhor foi o fermento na criação da FBCN. Como foi?
Simões Lopes –
Não, eu não fui o criador. Fui um dos que tomou parte naquele movimento. Havia muito. A fundação foi criada por um grupo grande. Nesta época, eu trabalhava com e presidente Juscelino Kubitschek.

Quando o senhor começou a trabalhar com floresta?
Simões Lopes –
Eu já era funcionário do Ministério da Agricultura, em 1925, como oficial do Gabinete do ministro Miguel Calmon, e fui convidado para ser uma espécie de secretário da Comissão, que ele tinha designado para preparar a legislação inicial do Serviço Florestal.

O senhor também foi o criador de várias revistas.
Simões Lopes –
É que eu já tinha um interesse muito grande pelo assunto. Em 1930, eu já tinha a “Revista Florestal”. Este aqui é um número bonito que consegui fazer (mostrando o exemplar). Eu era o diretor técnico; o Francisco Rodrigues de Alencar, diretor – gerente. Foi em julho e agosto de 1930. Impressa no Rio de Janeiro e à minha custa. Não havia dinheiro do governo, apenas de publicidade.

Como compatibilizar ecologia e desenvolvimento?
Simões Lopes –
Não há incompatibilidade. O território onde está situado Berlim, uma das grandes cidades do mundo, tem 75% de sua área coberta de florestas.

Como o senhor vê a ocupação da Amazônia?
Simões Lopes –
Considero uma destruição. Ela deveria ser ocupada, mas de maneira racional. A tecnologia tem que ir na frente. Cientificamente. Conservando as matas densas, explorando, de maneira racional, as florestas. As nossas florestas, inclusive, são muito ricas até em remédios. Tirar uma floresta nativa e substituí-la por uma floresta produtiva é perfeitamente justificável. Poderá fazer um manejo. As árvores também têm vida, elas não vivem para sempre. Há uma certa época em que elas podem ser cortadas, desde que sejam replantadas ou que as filhas delas continuam nascendo. Mas não fazem isso, porque as queimam.

 

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