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ALYSSON PAOLINELLI, O LEGADO
Os seis tempos de uma História que mudou o Brasil
Tenho comigo a certeza de que, se ganharmos o Nobel, quem ganhará será o Brasil, não é o Alysson Paolinelli. São os pesquisadores brasileiros. São os extensionistas e técnicos que nos ajudaram a montar políticas públicas.
PRIMEITO TEMPO – Em 10 de julho de 1936, nasce em Bambuí-MG, Alysson Paolinelli, filho do agrônomo Antônio Paolinelli. Ainda jovem, estuda e trabalha na fazenda da família. Depois, estudante na ESAL – Escola Superior de Agronomia de Lavras-MG, onde se formou. Tornou-se Diretor da ESAL e fez sua federalização.
SEGUNDO TEMPO – Em 1971, reestruturou a Secretaria da Agricultura de Minas, governo Rondon Pacheco. Em 1974, foi convidado por Ernesto Geisel para assumir o Ministério da Agricultura. Reformulou o Ministério e a agricultura brasileira.
A agricultura no mundo, sim, a Agricultura Tropical se divide em AP E DP –Antes e depois de Paolinelli.
TERCEIRO TEMPO – Por que este divisor de águas? Simples, por dois motivos:
1) Capitaneado por Alysson Paolinelli e sua esquipe o Brasil resolveu assumir um desafio e ser líder mundial nas tecnologias de produção da agricultura e pecuária tropical.
2) Porque o Brasil fez uma revolução verde, deixando de ter a mentalidade de colônia para procurar resolver seus problemas com suas próprias mãos.
QUARTO TEMPO – Alysson Paolinelli comandou uma equipe que fez o dever de casa: fortaleceu do sistema de pesquisa e crédito, incentivou a iniciativa privada a ocupar o espaço empreendedor e mostrou algo essencial: diferente do setor industrial, o trabalho com a terra é diferente de fabricar um produto industrial. Este, paga-se royalties e faz igual. Já fazer alguma tropical requer DNA próprio.
Uma coisa é fazer agricultura no clima temperado, em terras férteis, onde a neve elimina a maioria das pragas e ainda irriga o solo no degelo. Outra coisa é fazer agricultura em terras tropicais que precisa corrigir solo, produzir sementes selecionadas, fixar nitrogênio no solo, ter controle biológico de pragas e adaptar condições de plantio e colheita. Não há como copiar. E Alysson Paolinelli comandou uma equipe que fez isso.
QUINTO TEMPO – Vale lembrar o norte-americano Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz de 1970, ao visitar com o presidente Geisel a Embrapa-Cerrados, em Planaltina, em 1979: “Presidente Geisel, seu governo pelo ministro Paolinelli deu uma lição ao mundo ao fazer a Revolução Verde Tropical. Transformou as terras do Cerrado em polo de produção agropecuária. O Brasil desenvolveu uma tecnologia tropical que vai salvar o mundo”.
SEXTO TEMPO – Em 2006, Alysson Paolinelli foi agraciado com o World Food Prize, nos Estados Unidos. Agora o Brasil apresenta-o para o Nobel da PAZ. A pandemia, que ainda persiste, já deixou uma lição: SEM COMIDA NÃO HÁ PAZ.

Em 1977, o ex-ministro Alysson Paolinelli, junto com a diretoria da Embrapa recebe o Prêmio Nobel da Paz 1970, Norman Borlaug.
O BRASIL, A AGROPECUÁRIA, A CIÊNCIA E O PRÊMIO NOBEL
Alysson Paolinelli: a ciência deve ser o indicador de onde mexer e onde preservar.
Nesta entrevista à jornalista MARIA AMÉLIA ÁVILA, Alysson Paolinelli, 85 anos, fala sobre sua vida profissional ligada à agropecuária e relata a emoção de ter sido indicado ao Nobel da Paz, na condição de protagonista de uma verdadeira revolução agrícola sustentável. Um total de 329 candidatos de todo o mundo concorrem à deferência, e o vencedor será conhecido em 8 de outubro.
Iniciado na década de 1970, o projeto de transformar o solo completamente infértil do Cerrado brasileiro em um dos mais produtivos do país foi uma espécie de aposta de vida para o engenheiro agrônomo mineiro Alysson Paolinelli. A iniciativa do ex-secretário de Estado da Agricultura de Minas e ex-ministro da pasta, cujo objetivo era fazer com que o bioma gerasse alimentos não só para o Brasil, mas para o mundo, tornou-se tão importante que concorre hoje ao Prêmio Nobel da Paz de 2021. Atualmente, os 1.102 municípios do Cerrado brasileiro produzem 46% da safra de soja do país, 49% do milho, 93% do algodão e 25% do café. Na pecuária, o bioma é responsável por 32% do rebanho de bovinos, 22% dos frangos e 22% dos suínos, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
ALYSSON PAOLINELLI – ENTREVISTA
Ana Amélia Ávila – Como o senhor recebeu a notícia da indicação para o prêmio?
Alysson Paolinelli – Foi com muita emoção, porque a indicação partiu, principalmente, de velhos companheiros e amigos que trabalhamos juntos há mais de 40, 50 anos. Todos nós tínhamos um pressentimento de que o Brasil merecia o Prêmio Nobel da Paz. Não só porque nunca teve, mas muito mais voltado à alimentação, à garantia de suprimento alimentar ao mundo e, principalmente, que através do alimento nós sempre obtivemos a paz, a concordância e a união entre os povos. Meus companheiros de jornada acreditavam que precisaríamos de um nome e escolheram meu nome. É lógico que a emoção é muito forte. Tenho comigo a certeza que, se ganharmos, quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas; o produtor rural, fundamentalmente, que foi o grande artífice de toda essa revolução.

Livro lançado em São Paulo sobre a vida e obra de Alysson Paolinelli por iniciativa de Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, e com a coordenação de Ivan Wedekin. O livro traz o legado do ex-ministro e mostra o potencial da agropecuária brasileira.
A revolução agrícola sustentável é o grande projeto que representa sua indicação?
Sim, nós conseguimos, em tempo recorde, fazer uma mudança que o mundo não esperava. As regiões produtoras eram em áreas com clima temperado e com as quatro estações bem definidas. Só que a curva da população só crescia. Os estadistas perceberam que haveria um colapso na produção de alimentos. A curva da população crescia em escala geométrica e a da alimentação em escala aritmética. E essas curvas se cruzaram em 1968, quando os Estados Unidos, que eram o país que tinha toda a riqueza, toda capacidade de abastecer o mundo, foi a público dizer que não tinha mais estoques em seus silos e armazéns por mais seis meses, que era o tempo para plantar e colher a nova safra. Aí, a coisa apertou, porque os países tropicais, todos, éramos dependentes de alimentos vindo de lá. Era mais barato comprar lá do que produzir aqui. O mundo não tinha tecnologia para as regiões tropicais. As condições de clima, de solo, de fertilidade eram muito diferentes. Em 1974, O Brasil tentou achar onde existia conhecimento para se produzir uma agricultura tropical, mas não existia no mundo. Nós precisamos desenvolver ciência, tecnologia e conhecimento, e foi isso que procuramos fazer ao desenvolver a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Com condição de governabilidade, com autonomia administrativa, técnica e financeira, onde ela pode mobilizar todas as competências nacionais, ou seja, da Embrapa, das universidades, das instituições estaduais de pesquisa e, principalmente, da iniciativa privada, todas trabalharam unidas para resolver esse problema. Era preciso criar uma nova agricultura.
Quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente.
Por que foi escolhido o Cerrado?
O Cerrado era um solo infértil, velho; 500 mil anos mais velho do que as áreas que o mundo usava para o plantio no hemisfério temperado. Mas o governador Rondon Pacheco (1971/1975) permitiu que a Universidade de Lavras-MG fizesse uma pesquisa em relação ao Cerrado. O cerne do estudo era provar que ele seria produtivo se fosse trabalhado. A principal incógnita era se o custo desse trabalho, dessa modificação, seria viável ou não. Quando eu fui para o governo federal, como ministro da Agricultura, já estava convicto de que tinha solução. A equipe que trabalhou já havia apresentado resultados palpáveis. Com isso, fizemos um planejamento estratégico para o país fazendo a conta inversamente, ou seja, pegamos os valores em relação à importação que o Brasil fazia de alimentos à época e descobrimos que era um terço do que consumíamos.
E qual foi a conclusão?
Chegamos à conclusão de que precisávamos produzir, no mínimo, mais três milhões de hectares, com uma produtividade acima da que nós tínhamos. Esse era o grande problema! Sem profissionais treinados, não poderíamos fazer nada. Abrimos um concurso público para a Embrapa com mil vagas, mas só apareceram 52 com pós-graduação e contratamos o restante. Além disso, trouxemos das instituições estaduais de pesquisa mais 462 e demos às universidades que fizeram convênio conosco mais 100 vagas. Escolhemos os maiores centros de pesquisa do mundo com o objetivo de enviar esses profissionais para aprenderem novas técnicas. Foram para Europa, Japão, Estados Unidos com uma missão importantíssima. Ciência será aprendida lá, agora, tecnologia e inovação vão ser aplicadas no Cerrado brasileiro. Isso deu certo, essa foi a chave! Ao mesmo tempo, fomos obrigados a completar a estratégia. Criamos a Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater) para fazer a transferência do conhecimento gerado para o produtor. Ciência isolada de meios de aplicação não faz desenvolvimento. Com isso, conseguimos do governo federal a garantia de produzir mais três milhões de hectares. Como em Minas Gerais nós já tínhamos feito a experiência e sabíamos que, para recuperar um hectare de Cerrado, custava US$ 1 mil, o recurso que nos foi reservado foi de US$3 bilhões. Aplicamos esse valor em cinco anos. Nesse período, o produtor brasileiro viu a Embrapa, junto com outras instituições de pesquisa, transformar uma área infértil em uma das áreas mais produtivas do país. E os produtores tiveram suporte para cercas, maquinários, sementes, energia elétrica, telefonia e toda a infraestrutura integrada para que ele pudesse exercer o seu papel de produzir eficientemente e comercializar seus produtos. Foi o maior programa de política pública agrícola que já houve no país.
Tenho comigo a certeza de que, se ganharmos o Nobel, quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas.
A revolução agrícola trouxe autossuficiência para o país…
Nós tivemos a grata surpresa de ver em cinco anos o Cerrado produzir como os Estados Unidos. O brasileiro soube recuperar uma área que foi degradada por 500 mil anos. Um projeto nunca visto no mundo anteriormente. O mais interessante é que as vantagens comparativas dos americanos começaram a ser questionadas. Se lá eles fazem uma safra, aqui nós fazemos três por ano. Nós temos hoje tecnologia brasileira reconhecida mundialmente, como, por exemplo, a integração lavoura-pecuária-floresta, onde é feita doze meses por ano, em sucessão, três a quatro culturas, grãos, pasto para boi de corte e para pecuária leiteira e ainda a floresta que reequilibra tudo e absorve a sobra de carbono e incorpora no solo, coisa que os americanos não têm condições de fazer lá.
Agora a proposta é usar esse modelo em outros biomas brasileiros?
Eu quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram toda as suas vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente. O que eu quero aqui é que nós temos área suficiente em seis grandes biomas – Amazônico, Mata Atlântica, Caatinga, Pampas, Pantanal e o Cerrado – e, antes de entrarmos com a produção, como fizemos no Cerrado, vamos entrar com a ciência para que ela seja um indicador de limitação de onde mexer e onde não mexer, onde vamos preservar.
A Princesa Isabel foi uma das figuras femininas mais relevantes na história do país. Com D. Pedro II, participou da transição institucional responsável pela modernização da agropecuária nacional. Em 13 de maio comemora-se a abolição da escravatura, a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Primeira mulher a administrar o Brasil, assumiu o trono várias vezes durante viagens ao exterior de D. Pedro II. Foi a primeira mulher senadora por ter assento constitucional no Senado do Império.
O primeiro ato público de fé abolicionista da Princesa Isabel se deu por ocasião de seu matrimônio, em 1864. Ela pediu ao pai, como presente de casamento, a alforria de todos os escravos do Estado. Com o incentivo de D. Pedro II, por meio de suas regências, ela foi levada a comandar o processo de aprovação da legislação pré-abolição, após a Lei Eusébio de Queirós, sobre a proibição da entrada de africanos escravizados no Brasil.
Sua primeira marca na história foi a Lei do Ventre Livre. Ela participou ativamente do movimento abolicionista. Pagou do bolso a liberdade de escravos em cerimônia no Palácio de Cristal e libertou os últimos escravizados de Petrópolis. Ela frequentou quilombos, sobretudo o do Leblon, onde se cultivavam camélias. Essas flores viraram um símbolo do abolicionismo. A Princesa Imperial fazia questão de portá-las sempre consigo. Enfeitavam sua mesa de trabalho e sua capela particular. Em 1886, impediu a destruição do Quilombo do Leblon. Quando assinou a Lei Áurea, foram-lhe entregues dois buquês de camélias, um, artificial, pela Confederação Abolicionista, em nome do movimento vitorioso, e outro, de flores naturais, vindas do Quilombo do Leblon, por gente do povo. Rui Barbosa definiu o gesto como a mais mimosa das oferendas populares.
Após a Lei Áurea, abolicionistas procuraram a Princesa com proposta de eternizá-la, no alto do Corcovado, numa estátua da “Redentora”, como fora apelidada pelo jornalista negro José do Patrocínio. Ela recusou. Ordenou construir uma imagem de Cristo, o verdadeiro redentor dos homens. Essa é a origem do santuário do Cristo Redentor, por obra de Isabel, a Redentora:
Manda Sua Alteza a Princesa Imperial Regente em Nome de Sua Magestade o Imperador agradecer a oferta da Commição Organizadora (…) para erguer huma estátua em sua honra pela extinção da escravidão no Brasil, e faz mudar a dita homenagem e o projecto, (…), por huma estátua do Sagrado Coração de Nosso Senhor Jezus Christo, verdadeiro redentor dos homens, que se fará erguer no alto do morro do Corcovado.
Defendia o acesso à terra aos escravos libertos. Em repetidas manifestações a Coroa defendeu a cessão de terras a colonos europeus como caminho para uma nova agricultura, ao lado de grandes fazendas de cana de açúcar, tabaco e café. Surgiriam muitas pequenas propriedades, dedicadas a novos cultivos em regiões pioneiras. Assim foi no Sul e Sudeste. Graças aos acordos com monarquias europeias (Espanha, Portugal, Alemanha, Itália e Rússia) e do Japão, fomentou a vinda de trabalhadores livres para ocupar o lugar da mão de obra escrava. Isso começou a modernizar o campo, antes mesmo da abolição. Abriu perspectivas de capitalização e novas formas de acesso à terra.
Agricultores, “filhos e netos” da Princesa Isabel, seguiram a história e o empreendedorismo de seus pais, avós e bisavós. Conquistaram o Centro Oeste, os Cerrados, o MATOPIBA, renovaram a agropecuária no Sudeste e Nordeste e ainda expandem o agronegócio moderno e tecnificado no país.
Após a proclamação da Lei Áurea, no Legislativo, o Barão de Cotegipe advertiu: – A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono. Ela rebateu: – Barão, se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para pôr fim à escravidão no Brasil. Nenhuma revisão ideológica da história conseguirá apagar o papel da Princesa Isabel na abolição da escravidão e na transição para uma nova organização do trabalho. Não há como retirar da história a autora de uma Lei chamada de Áurea.
»Entrevista | MARCO AURÉLIO BRAGA | ORGANIZADOR DO LIVRO O ASSASSINATO DE JK PELA DITADURA
SILVESTRE GORGULHO
Especial para o Correio
Qual foi a força que levou à tona o que mostram JK foi assassinado na Via Dutra?
Porque o trabalho acumulou ao longo de uma década finalmente encontrou caminho institucional adequado. Hoje o caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pela primeira vez na democracia e de verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio in dubio pro victimae e declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado. O mesmo tempo, a Resolução nº 50/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e em janeiro de 2025, a certidão de Rubens Paiva foi retificada nesses termos. No caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.
O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?
O MPF fez um trabalho muito relevante, pois o trabalho também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista José Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com Opala. Além disso, realizou perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível.
Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é da sua competência: apuração de busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da responsabilidade das vítimas.
Qual é a importância do princípio in dubio pro victimae para o desfecho do caso?
É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta pode admitir: é próprio para o processo de reconstrução histórica para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. E fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes. No caso JK, os elementos são avassaladores para a atuação: por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos e serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos e ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras alterações do motorista do ônibus foi incoerente. Tudo isso, avaliado pelo in dubio pro victimae, aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político.
O que a decisão da comissão significa para o Brasil?
Significa que o Estado, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica para a memória, para a reparação, para a história. Significa também que a democracia tem memória longa e suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou. E tem um significado que vai além do caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz “essa morte foi política, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática”, ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítimas, teve responsáveis — e teve consequências. O caso JK não é sobre o passado: é sobre o futuro do país — um país que não conta mentiras e diz que suas verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.
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TORRE DIGITAL DE BRASILIA
Uma epopeia no céu da capital em noite de lua cheia.
Trem bonito demais.
(foto: Leo Caldas)
Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a Torre Digital de Brasília é um dos marcos mais contemporâneos da capital federal. Inaugurada em 2012, a estrutura se destaca pela forma futurista e pela função estratégica: centralizar a transmissão de sinais de rádio e televisão para o Distrito Federal e região.
Com aproximadamente 182 metros de altura, a torre combina tecnologia e estética. Seu design remete a uma flor do Cerrado — referência direta ao bioma predominante na região — com duas cúpulas de vidro que funcionam como mirantes. Do alto, é possível contemplar uma vista privilegiada de Brasília, evidenciando o planejamento urbano característico da cidade.
Mais do que um equipamento técnico, a Torre Digital representa a evolução da comunicação no Brasil e reafirma a vocação de Brasília como cidade símbolo de inovação arquitetônica.
No campo da literatura, o livro A Flor do Cerrado, de Silvestre Gorgulho, oferece uma leitura sensível e profunda sobre o Cerrado brasileiro. A obra reúne crônicas, reflexões e narrativas que valorizam a biodiversidade e a riqueza cultural desse bioma, frequentemente subestimado.
Silvestre Gorgulho constrói, ao longo do livro, uma homenagem à natureza resiliente do Cerrado. Suas palavras revelam a beleza escondida nas paisagens aparentemente áridas, destacando a força das flores que resistem ao clima seco e às queimadas naturais. Ao mesmo tempo, o autor chama atenção para a necessidade de preservação ambiental e para os impactos da ação humana.
Conexões entre arquitetura e literatura
A Torre Digital e A Flor do Cerrado dialogam de maneira simbólica. Enquanto a torre traduz em concreto e vidro a inspiração nas formas orgânicas do bioma, o livro transforma essa mesma essência em linguagem poética.
Ambos representam diferentes formas de enxergar o Cerrado: uma pela inovação arquitetônica, outra pela sensibilidade literária. Juntas, essas expressões reforçam a identidade cultural de Brasília e destacam a importância de valorizar o patrimônio natural brasileiro.
Assim, seja pela imponência da Torre Digital ou pela delicadeza das palavras de Silvestre Gorgulho, o Cerrado se revela não apenas como cenário, mas como protagonista da história e da cultura do país.
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