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SETE NOMES PARA CONHECER E ADMIRAR

Dos muitos professores brasileiros e estrangeiros que influenciaram ou participaram da discussão e da implantação da Embrapa, pelo menos sete nomes (além, é lógico, do professor José Pastore – ler sua entrevista) saltam à vista com um efetivo, contínuo e sólido trabalho. Dos oito, apenas três estão vivos e atuantes: ex-ministro Cirne Lima, José Pastore e Eliseu Alves. Os outros cinco são: Theodore Schultz – Aloísio Monteiro Campelo – G. Edward Schuh – Barbara McClintock – Alysson Paolinelli.

 

EMBRAPA: HISTÓRIA BRASILEIRA DE SUCESSO 4

(*1) THEODORE SCHULTZ – (1902-1998)

Theodore Schultz: “O investimento em capital humano é responsável pela prosperidade e pela maior parte do aumento nos ganhos reais por trabalhador”.

 

THEODORE SCHULTZ recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1979 por seu trabalho sobre desenvolvimento econômico, focado na economia agrícola. Ele fez o seu doutorado em economia na University of Wisconsin–Madison, tendo completado em 1930. Ele dedicou sua vida à análise do papel da agricultura na economia e seu trabalho teve profundas repercussões nas políticas públicas de vários países. Após a Grande Guerra, Schultz pesquisou a rápida recuperação da Alemanha e do Japão, comparando a situação desses países à do Reino Unidos, onde houve racionamento de alimentos por muito tempo. Concluiu que a velocidade de recuperação se devia a uma população saudável e altamente educada. Segundo ele, a educação torna as pessoas produtivas e a boa atenção à saúde aumenta o retorno do investimento em educação. Foi o pai das teorias de capital humano.

 

 

(*2) ALOÍSIO CAMPELO (1927-1999)

 

ALOÍSIO MONTEIRO CARNEIRO CAMPELO foi Secretário do Ministro da Agricultura em 1946. Chefe do Departamento Administrativo da ABCAR no período de 1958 a 1966, nesse mesmo ano foi nomeado secretário executivo da ABCAR onde permaneceu até 1973. O prestígio da ABCAR e do secretário Aloísio Campelo era muito grande junto ao ministro Cirne Lima. O sistema ABCAR eram os olhos e os braços do governo, numa expressão do próprio ministro da Fazenda     Delfim Netto. Aloísio Campelo ocupava um cargo importante no ministério. Entretanto, um dos opositores pessoais de Campelo era seu conterrâneo, o pernambucano Moura Cavalcante, na época, presidente do INCRA. Nesse momento histórico, ocorre um desentendimento entre o ministro Cirne Lima e Delfim Netto. O ministro Cirne Lima pede demissão, e o presidente Médici nomeia, em seu lugar, justamente Moura Cavalcanti, que promoveu a exoneração de Aloísio Campelo do cargo de secretário executivo da ABCAR. Depois, Aloisio Campelo foi nomeado presidente da Suframa (2/01/1975 a 15/03/1979).

 

(*3) ELISEU ALVES

Eliseu Alves recebe a comenda Ordem do Sol Nascente, dada pelo Imperador do Japão, entregue pessoalmente pelo embaixador Teiji Hayashi.  A parceria entre a Embrapa e a JICA [Agência de Cooperação Internacional do Japão] resultou na produção de alimentos no Cerrado brasileiro e viabilizou o acesso de produtos agropecuários em quantidade qualidade à população do Brasil e do Japão.

(*3) ELISEU ROBERTO DE ANDRADE ALVES é daqueles brasileiros que tem uma obra muito mais conhecida do que a si próprio. A sua modéstia, simplicidade e pureza de propósitos são contagiantes. O seu papel na consolidação da Embrapa foi crucial, por ter participado de sua criação, ter sido diretor de Recursos Humanos e, presidente da empresa entre 1980-1985. Eliseu Alves foi o único que trabalhou no projeto, na criação e na implantação da Embrapa. É o pioneiro do antes, do durante e do depois. Até os dias atuais. Nenhum outro nome esteve tão envolvido com a Embrapa como ele. Na década de 1970, como diretor de Recursos Humanos, Eliseu enviou para as melhores universidades do mundo cerca de 2.500 jovens agrônomos, economistas rurais e veterinários brasileiros, trazendo-os de volta com títulos de Mestrado e Ph.D. Este foi o segredo de sucesso da Embrapa.

Em 1985, Eliseu recebeu o título de Doutor Honoris Causa conferido pela Universidade de Purdue, onde fizera o doutorado. Em maio de 2017, a Universidade de Viçosa lhe conferiu o mesmo título. 

Em 1987, a Associação das Universidades Públicas Americanas, que reúne 238 instituições, 5,7 milhões de estudantes (graduação e pós-graduação), 1,2 milhões de empregados e investe cerca de 40 bilhões de dólares em pesquisas, reconheceu Eliseu Alves como um dos mais destacados estudantes estrangeiros que já passaram por suas salas de aula. Até então, apenas cinco outros brasileiros haviam merecido tal honraria, entre eles o sociólogo José Pastore.

O jornalista Sebastião Nery deixou registrado em livro que “Eliseu Alves foi um dos responsáveis pela Revolução Verde Tropical, pelas tecnologias agropecuárias desenvolvidas para a região tropical e fez do AGRO brasileiro uma ‘siderúrgica’ para matar a fome do mundo. Eliseu passou a vida formando técnicos e tendo disponibilidade de recursos públicos para gerir e aplicar na formação de capital humano. Tanto na Embrapa como na Codevasf.

Hoje, aos 94 anos, Eliseu Alves se afastou da vida pública de forma honrada. Como os profetas, Eliseu Alves entrou e saiu da cidade do poder de mãos limpas”.

 

 

(*4) MINISTRO CIRNE LIMA

Para professor Cirne Lima, ex-ministro da Agricultura “investir na educação de jovens é investir na transformação da sociedade”.

 

(*4) MINISTRO LUIZ FERNANDO CIRNE LIMA (Porto Alegre, 01/janeiro/1933) é um educador e empreendedor brasileiro dos bons. Entrou para a Faculdade Federal de Agronomia do Rio Grande do Sul em 1951 e se formou em 1954. Com dois anos de formado, fez concurso para professor e ocupou a cadeira de Zootecnia. Foi ministro da Agricultura no governo Emílio Garrastazu Médici, de 30 de outubro de 1969 a 9 de maio de 1973. Cirne Lima é referência como gestor, consultor e teve participação política destacada não só no setor agrícola como, também, o industrial. Foi presidente da Copesul (Companhia Petroquímica do Sul) sempre investindo na infraestrutura de escolas da região, com o melhoramento dos laboratórios de informática, quadras esportivas e bibliotecas. Para Cirne Lima, “investir na educação de jovens é investir na transformação da sociedade”.

Cirne Lima foi o primeiro brasileiro a julgar bovinos de raça na Inglaterra, no ‘Royal Show’, berço da genética. Cirne deu impulso à pecuária do Sul. Em 1968, ele era presidente da Farsul (Federação da Agricultura do RS) quando a Secretaria da Agricultura decidiu fazer a primeira Expointer em Esteio.

Aos 92 anos, até hoje o ex-ministro cobra investimentos em pesquisa e na infraestrutura para escoamento da safra agrícola. Para ele, o que cabe ao setor público constitui o grande drama do agronegócio brasileiro. ‘Não temos logística de infraestrutura para a agricultura. É inadmissível que caminhões carregados com soja deixem Rondonópolis, em Mato Grosso, em direção ao porto de Santos que, muito congestionado, obriga os caminhões a seguirem viagem para outros portos”. E diz mais: “Claro que temos que aumentar a produtividade nas lavouras, mas o governo precisa cumprir um pouco a sua parte. Nossa produtividade média é superior à dos Estados Unidos em soja e algodão, somos inferiores somente em milho. Mas a infraestrutura norte-americana faz a diferença.” O fato é que o ministro Cirne Lima fez, faz e fará sempre a diferença na gestão da agropecuária brasileira.

 

 

(*5) G. EDWARD SCHUH (1931-2008)

Edward Schuh: “Durante muito tempo o Brasil procurou sua expansão agrícola incorporando novas terras. Essa política foi de baixa produtividade.  A partir da Embrapa, o Brasil optou por uma política de alta produtividade. Decisão acertada que promete ter ainda maiores e melhores resultados”.

 

(*5) G. EDWARD SCHUH (1931-2008) Se existe algum brasilianista de cara e coração ele se chama Edward Schuh, ou Ed Schuh, como gostava de ser chamado. Além de vários estudos e publicações sobre o Brasil, como “O desenvolvimento da agricultura no Brasil/G. Edward Schuh, em colaboração com Eliseu Roberto Alves”, o professor Schuh foi um mestre que mudou a economia nos Estados Unidos, onde nasceu, e no Brasil, onde lecionou e trabalhou, como afirma o professor Terry Roe, da Universidade de Minnsota, Ed Schuh valorizou a agricultura no contexto macroeconômico e fez com suas aulas e estudos uma enorme diferença em todas as dimensões da vida.

Formou-se em Agricultural Education na Purdue University em 1952. Obteve o título de Master of Science em Agricultural Economics na Michigan State University em 1954. Após dois anos servindo ao Exército Americano na Coréia do Sul e no Japão, ingressou na University of Chicago em 1956, onde obteve os títulos de Master of Arts em 1958 e de Ph.D em 1961.

Na Purdue University, realizou brilhante carreira de professor entre 1961 e 1979. Atraiu um bom número de brasileiros para realizar programas de Ph.D em economia rural. Eliseu Alves, Antônio Salazar Pessoa Brandão, Alberto Veiga, Mauro Lopes, Ignez Lopes, José Ramalho, Andrés Villas, Túlio Barbosa, Teotônio Teixeira, Antônio Jorge de Oliveira, Guilherme Dias (em pesquisa sobre agricultura de baixa renda) são bons exemplos de uma sólida convivência acadêmica com o professor-amigo Ed Schuh. Entre 1984 e 1987, foi diretor do Departamento de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Banco Mundial, em Washington-DC. Em seguida, retorna à University of Minnesota, como dean do Humphrey Institute of Public Affairs (1987-1997) e, depois, como coordenador de International Fellowship Programs desse Instituto (1997-2003).

Tal como acontecera na Purdue University, outros brasileiros – como Geraldo Calegar, Carlos Santana, Ana Lucia Kassouf, Afonso Negri Neto, Geraldo de Camargo Barros, Vitor Hoeflich, Carlos Ayres, Petrônio Vilela Filho e o próprio Salazar Brandão – realizaram seus programas de Ph.D, de pós-doutorado ou de professor visitante na University of Minnesota.

Em sua aposentadoria foi homenageado, em maio de 2007, com a realização do chamado Schuh Symposium sobre o tema “Toward a Global Food and Agricultural for an Open International Economy” em Minneapolis. 

Na academia, vale dizer, Schuc orientou pelo menos 150 dissertações e teses de mestrado e doutorado. Desse total, 40 foram sobre problemas brasileiros.

 

(*6) BARBARA McCLINTOCK (*1902-+1992)

Barbara McClintock, doutora em Botânica, é considerada uma das três figuras mais importantes da história da genética. McClintock, nasceu em Hartford, capital do estado de Connecticut, estudou na Faculdade de Agricultura de Cornell-Nova York e venceu o Prêmio Nobel de Medicina em 1983.

O foco principal da pesquisa de Barbara McClintock era na citogenética do milho e em formas de visualizar e caracterizar os cromossomos da planta. Ela foi a responsável por publicar o primeiro mapa genético do cereal. Descobriu ainda que a informação genética não é imóvel e que os genes podem ligar ou desligar a manifestação de certos fenótipos. Também é dela uma das maiores revelações da genética: os genes saltadores que causam o fenômeno conhecido como transposição genética. Esses genes têm a capacidade de se inserirem dentro de outros genes e podem causar doenças, assim como modificar a informação genética do organismo — em humanos, o fenômeno é aplicado em terapias gênicas, por exemplo, com a inserção de mecanismos que podem consertar ou regular defeitos genéticos.

 

(*7) ALYSSON PAOLINELLI (10/julho/1936 – 29/junho/2023)

A chegada de Alysson Paolinelli ao Ministério, em 1974, desanuviou tudo. Ele também era da cepa acadêmica e acompanhava de perto, como secretário da Agricultura de Minas Gerais, tudo o que vinha acontecendo no setor. Como era amigo do grupo como o Eliseu, Renato Simplício, do Irineu, do Cirne Lima e meu, os tempos de entusiasmo voltaram”.

 

ALYSSON PAOLINELLI – Com a posse da primeira diretoria no dia 26 de abril de 1973, marco inicial da sua fundação, a Embrapa passou a se dedicar à organização e à estruturação da empresa. Começou com a incorporação do patrimônio do extinto DNPEA. As transformações mais impactantes, no entanto, só foram acontecer em 1974, durante o governo Ernesto Geisel, tendo à frente, como ministro da Agricultura, o engenheiro agrônomo mineiro e professor da ESAL, Alysson Paolinelli. Bem diz José Pastore: “A chegada de Alysson Paolinelli ao Ministério desanuviou tudo. Ele também é da cepa acadêmica e acompanhava de perto, como secretário da Agricultura de Minas Gerais, tudo o que vinha acontecendo no setor. Como era amigo do grupo como o Eliseu, Renato Simplício, do Irineu, do Cirne Lima e meu, os tempos de entusiasmo voltaram”.

Quando assumiu o Ministério da Agricultura, em 15 de março de 1974, Paolinelli continuou o programa que tinha no governo de Minas que era a ocupação do Cerrado. “Naquela época, dizia ele, a região do Cerrado era mais para mineração e pastagem extensiva. Era terra de fazer longe… Só herdada ou dada. Foi a Embrapa e os investimentos na busca de novas tecnologias que mudaram este quadro. Hoje o Cerrado é um celeiro, um centro produtor de soja, trigo, milho, café, algodão, frutas e hortaliças com produtividade altíssima.

Filho do engenheiro agrônomo Antônio Paolinelli, Alysson deixou Bambuí, sua cidade natal, aos 15 anos, para estudar na ESAL, hoje Universidade Federal de Lavras. Formou-se em 1959.  No mesmo ano tornou-se professor na instituição, onde mais tarde ocuparia o cargo de diretor. No governo Rondon Pacheco, em 1971, assumiu a Secretaria de Agricultura de MG e criou incentivos e inovações tecnológicas que colaboraram para que o Estado se tornasse o maior produtor de café do Brasil.

Em 2006, Alysson Paolinelli ganhou o prêmio World Food Prize, equivalente ao Nobel da alimentação, dado a pessoas que ajudaram consideravelmente a população a melhorar a qualidade, quantidade ou disponibilidade de alimentos no mundo.

 

SAIBA MAIS:
https://folhadomeio.com/2025/02/jose-pastore-conta-a-a-historia-da-embrapa-que-ninguem-contou/

 

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BRASÍLIA NA ROTA 66

E A FALTA
DE UM PARABÉNS PRÁ VOCÊ

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Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.

 

Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.

Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.

Parece que Brasília está em depressão.

Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.

Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.

À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam.  Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.

Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.

– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Foi uma apoteose!

A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.

Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.

E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:

– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.

Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.

BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.

Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.

A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.

Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.

Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:

– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.

– Eu sei, mas qual a solução?

– Dr. Gullar, não tem solução!

Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:

Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.

Não adianta Carnaval na Esplanada.

Não adianta Catedral de perna fina

Não adianta rebolado de menina

Que o problema é viatura e gasolina.

Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:

– O problema é viatura e gasolina.

Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

 

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Inhotim celebra 20 anos com inauguração de três novas obras

Instituto articula natureza, arte e educação em Brumadinho

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Ana Cristina Campos – repórter da Agência Brasil

 

O Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, abriu neste sábado (25) as comemorações dos seus 20 anos com a inauguração de três obras: Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Considerado o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim reúne trabalhos de artistas nacionais e internacionais e uma rica flora. 

Para a diretora artística, Júlia Rebouças, as três obras se conectam em algo que é também a vocação do instituto: articular arte, natureza e educação.

“Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”,  disse.

Júlia destaca que os novos trabalhos conversam com o acervo reunido ao longo da história do instituto.

“São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim”, completa a diretora artística.

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças durante abertura de exposições em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças, durante abertura de exposições em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Contraplano

Sobre um dos pontos mais altos de Inhotim, a escultura monumental Contraplano faz referência ao prédio projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Feita de lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais usados na arquitetura moderna, a obra se descortina sobre áreas do jardim do museu e da mata no entorno e sobre fragmentos de cavas de mineração nas regiões próximas.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação Contraplano, de Lais Myrrha em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A instalação Contraplano, de Lais Myrrha, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O título da obra remete a um espelhamento dessa paisagem modificada pela mineração. A artista mineira Lais Myrrha conta que gostaria de propor uma reflexão em torno da relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, a montanha e a mineração.

“Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, afirmou a artista à Agência Brasil.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A artista Lais Myrrha durante abertura de sua instalação, Contraplano, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A artista Lais Myrrha durante abertura de sua instalação, Contraplano, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A psicóloga belo-horizontina Paola Prates, de 29 anos, estava em sua quarta visita ao Inhotim e entrou em contato pela primeira vez com o trabalho de Lais.

“Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer”, ponderou a visitante.

Dupla Cura

Abrigada na Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton de Paula, inclui cerca de 120 obras do artista brasiliense que mora e trabalha em Goiânia.

A mostra reúne o mais amplo conjunto de suas obras já exibido no Brasil, com pinturas, fotografias, vídeos e instalações que remetem à ancestralidade, à memória e à valorização da cultura afro-brasileira. 

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação, Dupla Cura de Dalton Paula, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
 A instalação Dupla Cura, de Dalton Paula, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A curadora Beatriz Lemos explica que o título da exposição é uma referência “ao pacto espiritual que a permeia”. Segundo ela, o aspecto dual, ligado à devoção a São Cosme e São Damião, “manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário”.

Dalton de Paula conta que umas das questões que mais lhe atrai é a reflexão sobre a memória.

“Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante”, disse à Agência Brasil.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – O artista Dalton Paula durante abertura de sua instalação, Dupla Cura, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O artista Dalton Paula durante abertura de sua instalação, Dupla Cura, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

Morador da capital mineira, o engenheiro de som Marcos Soares, de 40 anos, já esteve seis vezes no Inhotim e foi conhecer o trabalho de Dalton.

“Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton”.

Tororama

A poucos passos do Contraplano, está a Galeria Nascente, que abriga a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento, que nasceu e mora em Pirapora, no norte mineiro.

O espaço reúne três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação conta ainda com carrancas feitas pelo Mestre Expedito, importante figura da arte popular, que não produzia peças novas há dez anos.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação Tororoma do artista davi de jesus do nascimento durante abertura comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A instalação Tororoma, do artista Davi de Jesus do Nascimento, durante abertura comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo o curador Deri Andrade, o nome da instalação aparece como uma expressão no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, “que aborda a relação do protagonista com um curso d’água”.

“O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora”, destacou o curador.

Davi conta que vem de uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.

“A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, disse o artista. “Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador”.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – O artista davi de jesus do nascimento durante abertura de sua instalação, Tororoma, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O artista Davi de Jesus do Nascimento durante abertura de sua instalação, Tororoma, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Irmã de Davi, Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, visitou a obra que lhe remeteu a tudo o que a família vivenciou desde a infância.

“Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição”.

Instituto Inhotim

O museu do Inhotim fica no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. É uma organização sem fins lucrativos, mantida com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas – diretas ou por meio das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura – , pela bilheteria e realização de eventos.

Foi idealizado desde a década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz. No solo ferroso de uma fazenda da região, surgiu em 2006.

Sua localização, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens exuberantes ao longo dos 140 hectares de visitação proporcionam uma experiência única que mistura arte e natureza.

Cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, compõem o acervo e são exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.

*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.

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Museu do Catetinho estreia experiência em realidade virtual com inspiração em Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Temporada do filme ‘Água de Beber’ começa neste sábado (25) e segue até setembro, com acesso gratuito aos visitantes

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Agência Brasília* | Edição: Chico Neto

O Museu do Catetinho, espaço gerido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), inaugura neste sábado (25) a exibição do curta-metragem Água de Beber em realidade virtual. A experiência estará disponível ao público até setembro, com seis óculos instalados em pontos fixos do museu para uso dos visitantes.

Com oito minutos de duração, o filme recria a inspiração da canção homônima de Tom Jobim e Vinicius de Moraes a partir da fonte localizada no próprio Catetinho. Dirigido por Filipe Gontijo e Henrique Siqueira, o curta propõe uma imersão sensorial que conecta memória, música e patrimônio histórico em um dos espaços simbólicos da capital federal.

A iniciativa conta com o Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), instrumento público de fomento que viabiliza projetos culturais em diferentes linguagens e territórios. No caso da produção audiovisual, o recurso permite ampliar o acesso da população a novas formas de fruição cultural, incorporando tecnologias como a realidade virtual ao circuito de visitação.

 

Para o secretário interino de Cultura e Economia Criativa do DF, Fernando Modesto, a ação evidencia o papel das políticas públicas no fortalecimento da cultura e na valorização dos espaços históricos. “Ao ocupar o Museu do Catetinho com uma experiência que dialoga com a história da música brasileira e com a identidade do espaço, ampliamos as possibilidades de fruição cultural e reforçamos o compromisso do poder público com a democratização da cultura”, afirma.

*Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa

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