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MEMÓRIA ENCHARCADA

O esforço para salvar objetos, fotos e documentos cobertos de lama e a construção do percurso da enchente como um antimonumento pela História do Rio Grande do Sul.

 

ENCHENTE RS – A RECONSTRUÇÃO

 

Objetos boiando. Cachorro nadando. Um cavalo no telhado. Prédios públicos inundados. Cenas que vivemos e vimos em 2024, o ano da grande enchente. Objetos e documentos que faziam parte das nossas vidas. A foto da mãe, a foto do aniversário de um ano da criança, a foto da viagem de férias, a foto da avó. Lembranças que contam a nossa história e que não estão mais nos álbuns da família. Documentos que narram a História do Rio Grande do Sul e foram seriamente danificados ou perdidos.

 

MEMÓRIA ENCHARCADA: A maior parte das obras é do acervo em papel (cerca de 300 fotografias, 1.000 desenhos e 2.400 gravuras, além de pinturas, esculturas e técnicas mistas.

 

 

 

O esforço de recuperação da memória coletiva foi apresentado no 6 Seminário Brasileiro de Museologia (SEBRAMUS), realizado em Teresina, Piauí, em março, pela museóloga Doris Couto, diretora do Museu Júlio de Castilhos, doutora em História, Teoria e Crítica de Arte. Doris coordenou o grupo de técnicos, voluntárias e voluntários que se empenhou no resgate da história com o objetivo de salvar acervos e minimizar impactos na administração pública e na vida de cada um de nós.

Ao mesmo tempo, para que não esqueçamos a tragédia e para que ela nunca mais aconteça, também durante o SEBRAMUS, foi apresentado o Museu de Percurso das Enchentes-RS (MUPE), uma iniciativa de professores e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A jornalista e graduanda em Museologia Letícia Heinzelmann, foi quem falou sobre o MUPE no Seminário.

 

A MEMÓRIA DEBAIXO D’ÁGUA

As inundações que assolaram o Rio Grande do Sul, em 2024, não pouparam o patrimônio cultural do estado, relembra a museóloga Doris Couto. Levantamento realizado por técnicos revelou que 58 acervos, entre museus, memoriais e coleções privadas, foram atingidos pela força das águas, deixando um rastro de memórias encharcadas e um futuro incerto para inúmeras peças de valor histórico e afetivo inestimável.

A museóloga explica que nos primeiros dias da tragédia, a dimensão do impacto sobre os acervos ainda era incerta, agravada pela falta de informações e pela dificuldade de acesso às áreas afetadas. Estradas bloqueadas transformaram a urgência do salvamento em um desafio logístico complexo, impedindo o deslocamento de equipes especializadas e de suprimentos essenciais para o tratamento das obras. Além disso, havia o risco da contaminação por lama e esgoto, a fragilidade de documentos e objetos encharcados e a necessidade de ambientes controlados para evitar danos irreversíveis, como o mofo, por exemplo.

Em meio ao caos provocado pela enchente, o Sistema Estadual de Museus (SEM/RS) assumiu a coordenação das ações de voluntárias e voluntários. Primeiro, realizando o cadastro de 570 pessoas interessadas em trabalhar no resgate e no restauro dos itens e, na sequência, encaminhando os voluntários para o trabalho de campo de acordo com sua formação e necessidade das instituições. Cerca de 80 pessoas atuaram nos salvamentos em várias cidades gaúchas.

O SEM/RS centralizou os donativos destinados ao salvamento dos acervos, como os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), papéis absorventes e equipamentos diversos, vindos de outros estados. A logística para receber esses materiais necessitou da articulação do Instituto Brasileiro de Museus com a Força Aérea Brasileira e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

 

 

Foram 58 acervos, entre museus, memoriais e coleções privadas, foram atingidos pela força das águas, deixando um rastro de memórias encharcadas e um futuro incerto para inúmeras peças de valor histórico e afetivo inestimável.

 

A RECONSTRUÇÃO

“A reconstrução dessas memórias encharcadas demandará tempo, investimento e a união de esforços entre instituições públicas, privadas e a sociedade civil”, afirma Doris. E alerta, “é fundamental o estabelecimento de planos de recuperação emergenciais e a longo prazo, que contemplem desde a higienização e restauração das peças até a adequação de espaços para seu acondicionamento seguro”. As inundações de 2024 exibiram a vulnerabilidade do patrimônio cultural diante de eventos climáticos extremos, reforçando a urgência de medidas preventivas e de planos de contingência para proteger a história.

No âmbito das instituições do governo do estado, o trabalho especializado se deu desde o início da catástrofe e avançou para a contratação de serviços de restauro de aproximadamente 80 mil documentos do Museu do Carvão e das 4.000 obras de arte Museu de Arte do Rio Grande do Sul, além dos prédios destes mesmos museus e ainda da Casa de Cultura Mário Quintana e do Memorial do Rio Grande do Sul.

 

“Lembrar, mesmo que cause desconforto, é um dever de memória para evitar que novas tragédias voltem a acontecer”.

Letícia Heinzelmann

 

 

MUPE – MUSEU DE PERCURSO

DAS ENCHENTES

A jornalista e graduanda Letícia Heinzelmann, que apresentou o projeto do Museu de Percurso das Enchentes-RS (MUPE) no SEBRAMUS em nome de mais dois colegas, explica que “apenas ao lembrar do passado, é possível trabalhar para prevenir novas tragédias”. E recorre ao ensinamento do filósofo francês Paul Ricoeur para dizer que o “trabalho de memória deve ser recorrente e obsessivo e, para tanto, é necessário que haja lembretes permanentes que nos confrontem com o sentimento incômodo da dor e do trauma, por mais que pareça reconfortante esquecer”.

Lembrar, mesmo que cause desconforto, é um dever de memória para evitar que novas tragédias voltem a acontecer.

Partindo da Ponte de Pedra, no Largo dos Açorianos, a caminhada guiada do MUPE passa por pontos simbólicos da enchente de maio de 2024, como a Escola de Administração UFRGS, a Usina do Gasômetro, a Rua dos Andradas e a Praça da Alfândega, terminando próximo ao Mercado Público de Porto Alegre. O primeiro percurso guiado aconteceu no Dia Estadual do Patrimônio, em 17 de agosto de 2024, um sábado, com todos os sinais da tragédia ainda bem visíveis.

Em cada parada, são abordados os impactos das inundações, feitas correlações com outras áreas e setores atingidos, além da rede de solidariedade e cooperação que se seguiu ao desastre. Este roteiro pelo Centro Histórico é o primeiro trajeto mapeado, mas o percurso será ampliado e identificará outros pontos significativos da memória da enchente de 2024.

A ausência de marcos, ou a dificuldade em identificar os poucos existentes, levou a uma falta de cuidado com os sistemas de proteção contra cheias em todo o Rio Grande do Sul, salienta Letícia. O MUPE busca registrar as memórias das enchentes, tanto de forma virtual, ao delimitar em mapa interativo pontos afetados por inundações, quanto físico, ao propor percursos guiados em caminhadas culturais.

 

As museólogas Bárbara Hoch e Doris Couto se dedicaram no resgate, na recuperação e na catalogação dos acervos encharcados.

 

Os lembretes podem ser marcos grafados nas cidades, com a finalidade de servirem de antimonumentos, que cumprem a missão de fazer rememorar tragédias, períodos de exceção e outros momentos de sofrimento coletivo. A ausência de marcos, ou a dificuldade em identificar os poucos existentes, levou a uma falta de cuidado com sistemas de proteção contra cheias em todo o Rio Grande do Sul, salienta Letícia.

O museu de percurso é um dos eixos de atuação do Projeto de Extensão da UFRGS Greenart em Ação pelo Patrimônio Cultural de Porto Alegre, coordenado pelos docentes Henri Schrekker (Instituto de Química) e Jeniffer Cuty (Museologia), e conta com apoio do Sistema Estadual de Museus (SEM-RS).

 

ACERVO ARQUIVÍSTICO

A Fundação Pão dos Pobres, fundada em 1895 e que atende mais de mil crianças e adolescentes, recebeu ajuda de especialistas e voluntários para o salvamento de seu acervo. Lá a prioridade foi o acervo arquivístico. O grupo está trabalhando com 850 itens arquivísticos e 260 itens museológicos.

Em relação ao importante conjunto de acervos Fayet, Araújo e Moojen, que reúne itens da Arquitetura Moderna Brasileira no sul do país, como projetos e obras representativas de Carlos M. Fayet, Cláudio L. G. Araújo e Moacyr Moojen Marques, o tratamento dos itens vai ser retomado com a Rouanet Emergencial. O acervo tem cerca de 2.700 itens e 345 deles já foram tratados.

O acervo do grupo multicultural ‘ÓI NÓIS’ recebeu tratamento até dezembro de 2024. Logo depois, o grupo mudou de sede e agora está negociando um prédio com o Ministério da Cultura (MINC) e a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). Por esta razão o trabalho de recuperação do material foi suspenso. Do acervo do ‘ÓI NÓS’, 835 itens foram recuperados, ou seja, foram estabilizados, mas 50% deles necessitam de restauração.

Em Porto Alegre, o diagnóstico realizado pelos especialistas aponta que cerca de 4.000 itens, de mais de 700 artistas, foram de algum modo afetados durante a inundação, pelo alcance da água ou pelo prolongado efeito da umidade no interior dos prédios. A maior parte das obras é do acervo em papel (cerca de 300 fotografias, 1.000 desenhos e 2.400 gravuras, além de pinturas, esculturas e técnicas mistas.

Em relação ao acervo arquivístico, cerca de oito milhões de documentos ainda estão em processo de secagem. Nem tudo pode ser congelado, que é uma técnica empregada para depois entrar em cena o trabalho de restauro. No interior do estado, um grande volume de peças ainda necessita de restauração, com destaque para mobiliário, órgãos e pianos, totalizando cerca de 250 peças nos municípios de Igrejinha e Montenegro. Outros municípios também foram fortemente afetados.

As consequências da enchente, o número de itens recuperados e perdidos e o que fazer para impedir que a catástrofe se repita, mobilizou profissionais da área do patrimônio. Os especialistas participaram do 15º Fórum Estadual de Museus, realizado de 8 a 11 de abril, e elencaram as ações que necessitam ser implementadas para a prevenção de eventos futuros, entre eles a urgência da elaboração do plano de gestão de riscos e planos de emergências nas instituições com acervos, a articulação permanente de voluntários e sua capacitação e a qualificação geral dos museus, memoriais e locais de guarda de acervos.

 

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VALE DOS DINOSSAUROS

Pegadas de dinossauros: a descoberta do engenheiro Luciano Jacques de Moraes, do DNOCS que revolucionou a história do sertão da Paraíba’

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O fato é histórico e a história é um verdadeiro tesouro. O ‘site “Nossas Histórias” mostra que um elo entre o passado e o presente, os icnofósseis são registros de vestígios geológicos de atividades biológicas que ficaram preservados. Um verdadeiro tesouro da jornada de vida em nosso Planeta, muito tempo antes do homem se fazer presente aqui. É como um vislumbre do que veio antes de nós.

 

Nesse caminhar, o ‘Nossas Histórias’ conta a história da jornada de animais pré-históricos que viveram no Nordeste e tiveram suas passagens descobertas por um engenheiro do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Como isso ocorreu? Conheça os detalhes.

 

Segundo estudos de Ismar de Sousa Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizados nos anos 2000, no início da década de 1920, o engenheiro Luciano Jacques de Moraes. mineiro de Itabirito, formado em minas e geologia pela Escola de Engenharia de Ouro Preto, trabalhava para o DNOCS, na Paraíba. Luciano pouco conhecia sobre paleontologia até o momento que ele descobriu duas pistas de animais pré-históricos. Essas pistas estavam em rochas no leito do rio do Peixe, na localidade de Fazenda Ilha. As pistas eram justamente as pegadas de dinossauros, que tinham passado por ali há milhares de anos.

 

A importância das bacias do Rio do Peixe é dada por seu numeroso registro de pegadas de dinossauros, além de icnofósseis de invertebrados, palinomorfos, fragmentos de vegetais, ostracodes, conchostráceos, escamas de peixes e ossos de crocodilomorfos.

 

LUCIANO JACQUES DE MORAES:

O ENGENHEIRO DO DNOCS

 

Na época, aparentemente, o engenheiro do DNOCS enviou uma laje com uma pegada original escavada e um molde de uma pegada da pista para os Estados Unidos, para que pudessem ser estudadas por paleontólogos norte-americanos. No entanto, nunca recebeu qualquer resposta sobre o material enviado.

 

Luciano Jacques de Moraes (1896-1968) descobriu duas importantes trilhas de passagem de dinossauros na Bacia do Rio Peixe, enquanto trabalhava a serviço do DNOCS.

 

O engenheiro do DNOCS, Luciano Jacques de Moraes, enviou fotografias para F. von Huene, da Universidade de Tübingen (Alemanha), o qual publicou em seu livro, datado de 1931, os desenhos. Huene (1931) descreveu a primeira pista como a de um quadrúpede com total sobreposição dos pés, o qual atribuiu aos ceratopsídeos, e a segunda pista, como a de um bípede, os ornitópodes. A classificação de Huene baseou-se nos desenhos de Moraes. Huene trabalhou no Brasil nos anos 1920, mas nunca visitou a Paraíba.

 

Estudos de Rodrigo da Rocha Machado, da Universidade Estácio e Sá, de 2011, às bacias do Rio do Peixe estão localizadas no oeste do Estado da Paraíba e podem ser divididas em quatro bacias denominadas Vertentes, Pombal, Sousa e Uiraúna-Brejo das Freiras.

 

Segundo os estudos de Rodrigo da Rocha Machado, elas fazem parte do conjunto chamado de bacias interiores do Nordeste do Brasil que tiveram sua origem e evolução como consequência de reflexos de eventos tectônicos responsáveis pela abertura do Oceano Atlântico Sul.

As descobertas das pegadas de dinossauros dessas bacias, relatadas pela primeira vez pelo engenheiro Luciano Jacques de Morais, em 1924, foram de grande importância para estudos que vieram depois sobre a temática. Vários outros trabalhos foram feitos sobre essas pegadas, entre eles podem ser destacados os de Carvalho, 1989; 1996; 2000; Leonardi, 1984; 1985; 1987; 1989; Leonardi & Carvalho, 2002; 2007.

Pode-se considerar que após um esforço de mais de 20 anos, a bacia do Rio do Peixe é atualmente um dos melhores sítios paleontológicos preservados no Brasil. A região é agora um complexo turístico – Vale dos Dinossauros – e oferece uma grande infraestrutura turística, bem como pessoal treinado para o turismo ecológico e para a proteção do sítio paleontológico.

 

Segundo o Governo da Paraíba, o Vale dos Dinossauros, localizado em Sousa, no sertão paraibano, é um dos sítios paleontológicos mais conhecidos do mundo inteiro. Contém pegadas de cerca de 80 espécies de dinossauros que habitavam uma área de 704 quilômetros na Bacia do Rio do Peixe, do período pré-histórico.

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BRASÍLIA E SUAS CALÇADAS

As calçadas das cidades brasileiras revelam negligência com o pedestre e um espaço sem dono

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Mobilidade urbana para pedestres

 

A Lei é clara: o transporte não motorizado tem prioridade sobre o transporte motorizado. Sim, a Lei 12.587/2012 fala do deslocamento a pé  e aponta qual deve ser o foco do Plano de Mobilidade Urbana. Nas cidades brasileiras, um terço dos deslocamentos é feito a pé. E cidadãos, às vezes cegos ou com outras deficiências, usam as próprias pernas, e até cadeira de rodas, em seus trajetos. Nunca são tratados com prioridade. O problema se multiplica quando os municípios não têm transporte público coletivo eficiente.

 

A estimativa mostra que um terço dos deslocamentos nas cidades brasileiras é feito a pé. Os cidadãos que usam as próprias pernas ou uma cadeira de rodas em seus trajetos não são tratados com respeito. E as palavras “pedestre” e “calçada”, aliás, nem aparecem na Lei 12.587/2012 que estabelece as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, sinal de um quadro de inconsistência jurídica em nível federal e municipal.

Todos sabem que caminhar é a forma mais natural, antiga e econômica de o ser humano se deslocar. Ainda assim, a avaliação média dos equipamentos necessários a uma jornada confortável e segura nas capitais brasileiras (de 1 a 10) é de 5,71, quando deveria ser pelo menos 8. Isso quer dizer que a caminhabilidade, medida quantitativa e qualitativa dos espaços para a circulação de pedestres, está longe de ser considerada aceitável.

A realidade está à vista: buracos, rachaduras, degraus, desníveis, lixo, poças e outros obstáculos fazem do trajeto dos pedestres um calvário. Acidentes acontecem aos montes com lesões muitas vezes graves, sobretudo para pessoas idosas.

 

A REALIDADE DE BRASÍLIA

Brasília, cidade planejada, moderna e revolucionária em termos de mobilidade, não foge à regra. A realidade das calçadas da Capital está muito aquém do que determina a lei. Apesar de avanços normativos como o Estatuto do Pedestre (Lei 7.542/2024), Brasília ainda convive com um cenário de riscos e negligência que afeta diretamente a segurança e a qualidade de vida de pedestres, em especial idosos, cegos, cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Para fazer uma radiografia e buscar problemas e soluções, no caso de Brasília, conversamos com o arquiteto, ambientalista e fotógrafo Maurício Andrés Ribeiro.

 

 

Calçada em Brasília, na Comercial da 406 Sul, onde existem vários restaurantes: degraua e desníveis continuam sendo uma sentença de risco para os mais vulneráveis como cegos, idosos e cadeirantes. (Foto: Silvestre Gorgulho)

 

 

MAURÍCIO ANDRÉS RIBEIRO – ENTREVISTA

 

Autor de vários livros sobre Águas, sobre Ecologia e sobre a Índia, Maurício Andrés é um gestor ambiental consagrado em Minas Gerais e Brasília. Foi diretor do CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente e assessor especial da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.

 

Silvestre Gorgulho – As calçadas brasileiras, especialmente em Brasília, são mesmo um labirinto de obstáculos?

Maurício Andrés Ribeiro – Olha, são um perigo diário e constante. Basta uma breve caminhada por regiões como Samambaia, Ceilândia ou Plano Piloto para constatar os problemas. Buracos, rachaduras, desníveis e degraus são a paisagem mais comum. Faltam passeios contínuos e acessíveis. Em Samambaia, por exemplo, moradores denunciam que calçadas recém-construídas já apresentam rachaduras e que o acesso à UPA – Unidade de Pronto Atendimento é tão esburacado que cadeirantes não conseguem transitar. A crescente população idosa também é um grupo bastante vulnerável a quedas e acidentes.

 

Silvestre – No Plano Piloto e nas cidades satélites?

Maurício – Sim, situações semelhantes são relatadas em todo o Distrito Federal, onde mais de 80% das pessoas que vivem em vias com calçadas relatam buracos, obstáculos e descontinuidade. Mas não são apenas os buracos que ameaçam os pedestres. As travessias subterrâneas do Eixão, por exemplo, são frequentemente descritas como “sujas, inacessíveis, escuras, esvaziadas e perigosas”. Ainda são comuns faixas de pedestres apagadas, semáforos com tempo insuficiente para travessia e meio-fio sem rebaixamento, impedindo a circulação segura de idosos, cadeirantes, cegos e de pessoas com carrinhos de bebê.

 

 

Algumas das passagens subterrâneas sob o Eixão são sujas e inacessíveis. Mas não é culpa apens do governo, os pedestres também precisam cuidar do espaço…

 

… a manutenção e limpeza das passagens subterrâneas estão no programa diário da Novacap. Mas há que ter o cuidados dos usuários.

 

Silvestre – Quem é o responsável? Onde está o nó da incompetência?

Maurício – A responsabilidade pela construção e manutenção das calçadas no Distrito Federal é um emaranhado que, muitas vezes, exime a todos. Em tese, o Poder Executivo é o responsável pela edição de normas, projeto, execução e manutenção, podendo delegar a execução, mas mantendo a fiscalização pública. Na prática, a Novacap atua na execução de obras de manutenção e construção, geralmente em parceria com as Administrações Regionais. No entanto, a responsabilidade pela calçada em frente ao lote ou à loja é, frequentemente, atribuída ao proprietário do imóvel.

 

Silvestre – Acho que aí que está um dos nós. E a fiscalização?

Maurício – Isso é bem verdade. Essa divisão de competências, somada à falta de fiscalização, resulta em calçadas que ora são negligenciadas pelo poder público, ora não atendem aos padrões exigidos quando construídas por particulares. A fiscalização, por sua vez, é mesmo um ponto crítico. O Estatuto do Pedestre determina que o descumprimento da lei pode acarretar advertência e multa de meio salário mínimo por dia.

 

Silvestre – Mas quem fiscaliza?

Maurício – A resposta é vaga: os órgãos responsáveis pelo trânsito e pela Política de Mobilidade e Transporte do DF. Na prática, a Secretaria DF Legal tem atuado nas fiscalizações de acessibilidade, principalmente por meio de vistorias e denúncias. No entanto, a dependência de denúncias e a falta de ações sistemáticas de fiscalização tornam o cumprimento da lei uma exceção, não a regra.

 

Silvestre –  Como você vê a atuação da sociedade civil?

Maurício –  Olha, acho que a sociedade civil tem voz e tem participado. Em Brasília tem ONGs que defendem o pedestre, diante da inércia do poder público. Vejo que a sociedade civil tem se organizado para defender o direito de caminhar. A principal referência em Brasília é a Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente, uma ONG com sede no DF que atua pela humanização das ruas e pelo direito básico das pessoas caminharem de forma plena, saudável, segura e confortável. A “Andar a Pé” promove ações de advocacia, realiza caminhadas guiadas e cobra do poder público o cumprimento das leis de acessibilidade.

 

Silvestre –  Existem outras iniciativas?

Maurício – Existem sim. Outra iniciativa importante é o “Brasília para Pessoas”, um movimento que realiza intervenções urbanas e caminhadas como o Jane’s Walk, inspirado na ativista Jane Jacobs. O grupo promove a “Multa Cidadã”, uma ação lúdica e educativa em que crianças deixam recados em carros estacionados sobre calçadas, além de organizar caminhadas com vendas e cadeiras de rodas para simular as dificuldades enfrentadas por cegos e cadeirantes.

 

Silvestre –  Maurício, com sua experiência, você tem alguma fórmula, alguma ideia que deva ser implementada?

Maurício – Acho que o poder público e a sociedade e os habitantes devem fazer um forte chamado à ação. O Estatuto do Pedestre estabelece que todos têm direito a circular livremente a pé, com carrinhos de bebê ou em cadeiras de rodas, nos passeios públicos, calçadas, praças e áreas públicas, sem obstáculos de qualquer natureza. No entanto, a distância entre a letra da lei e a realidade das ruas é enorme.

 

Silvestre –  O que fazer para que Brasília, que é o caso que estamos abordando, e também outras cidades se tornem verdadeiramente cidades para as pessoas?

Maurício – Primeiro, seguir o Estatuto do Pedestre. Como? Buscar formar de trabalhar em quatro pontos: Unificar a responsabilidade pela construção e manutenção das calçadas, com um órgão central que coordene as ações. Fortalecer a fiscalização, com ações sistemáticas e punições efetivas para os infratores. Incluir a sociedade civil nas discussões e decisões sobre o planejamento urbano, valorizando a expertise de organizações como a Andar a Pé e o Brasília para Pessoas. E investir em campanhas educativas que valorizem o pedestre e conscientizem motoristas e proprietários de imóveis sobre sua responsabilidade na conservação das calçadas.

Enquanto isso não acontece, V. É hora de colocar o pé no chão e exigir calçadas que sejam, de fato, espaços de encontro, saúde e cidadania.

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LENÇÓIS MARANHENSES

NASA DEITA E ROLA SOBRE OS LENÇÓIS E CHAMA O PARQUE DE “DESERTO DE ÁGUA”.

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Depois de integrar a lista de destinos recomendados pelo ‘The Guardian’ e o ‘The New York Times’, de chegar à  telona pelo filme “Vingadores: Guerra Infinita” e de ser cenário de muitas novelas, como O Clone, da TV Globo, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses – Patrimônio Natural da Humanidade –  recebeu um tratamento especial do espaço sideral. A NASA – National Aeronautics and Space Administration – publicou imagem do Parque dos Lençóis dia 21 de agosto, feita pelo satélite Landsat 9. A imagem, chamada pela Agencia Espacial dos Estados Unidos de “deserto de água”,  mostra o contraste entre as dunas de quartzo branco e as lagoas de água doce que se formam entre elas.

 

RECONHECIMENTO MUNDIAL

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses recebeu, em julho de 2024,  durante uma reunião do Comitê do Patrimônio Mundial realizada em Nova Déli, na Índia, o título de Patrimônio Mundial da Unesco. Este é um reconhecimento internacional que coloca os Lençóis entre os sítios naturais mais importantes do planeta, ao lado de destinos como as Cataratas do Iguaçu e o Pantanal.

A conquista do título da Unesco representou um marco histórico para o Brasil, mas  reforça a importância da conservação da área, de aproximadamente 156 mil hectares, situada no litoral maranhense. Para que um bem seja inscrito na Lista do Patrimônio Mundial, é necessário passar por uma rigorosa avaliação que comprova seu Valor Universal Excepcional e condições adequadas de proteção e gestão.

É importante saber que as unidades de conservação cumprem um papel fundamental, resguardando riquezas naturais únicas, protegendo a biodiversidade e contribuindo decisivamente para a captura de carbono da atmosfera. Ao ter este reconhecimento internacional da Unesco e agora, também, da NASA, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses amplia sua visibilidade e o interesse pela visitação, mas também aumenta em muito a responsabilidade por suas preservação.

 

O DESERTO DE ÁGUA – A NASA fotografa o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses do espaço e explica: “O Parque dos Lençóis recebe cerca de 125 centímetros de chuva por ano, volume ligeiramente superior ao registrado em Seattle, nos Estados Unidos, e aproximadamente o dobro do observado em Londres, na Inglaterra”.

A beleza do Parque dos Lençóis Maranhenses provoca uma pressão cada vez maior do turismo, o que traz desafios para a conservação. Os municípios do entorno do parque – Barreirinhas, Santo Amaro do Maranhão, Atins e Primeira Cruz – somam mais de 100 mil habitantes, enquanto o interior da unidade abriga 68 núcleos populacionais com cerca de 1.500 famílias.

 

LENÇÓIS MARANHENSES, LUGAR DE VER DEUS

O Parque dos Lençóis é um convite à contemplação e à aventura

O Parque dos Lençóis Maranhenses é um santuário onde um deserto de areia convive com muita água azul e transparente. É um paraíso escondido no Maranhão e um dos mais belos cartões postais da América. Criado em 1981, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses tem área total de 156,5 mil hectares e integra a Rota das Emoções do estado maranhense. As dunas – comuns nessa região do país – são formadas pela força dos ventos, que criam uma paisagem única e tem um dos rios mais lindos da região: o rio Preguiças.

Vale a pena conhecer, admirar e contemplar, mas é muito importante respeitar e preservar os Lençóis Maranhenses.  (foto: Silvestre Gorgulho)

 

O Parque dos Lençóis Maranhenses é um santuário onde um deserto de areia convive com muita água azul e transparente. É um paraíso escondido no Maranhão e um dos mais belos cartões postais da América. Criado em 1981, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses tem área total de 156,5 mil hectares e integra a Rota das Emoções do estado maranhense. As dunas – comuns nessa região do país – são formadas pela força dos ventos, que criam uma paisagem única e tem um dos rios mais lindos da região: o rio Preguiças.

 

AÇÕES DE EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE

LIXO – A primeira coisa é o lixo. Tudo que se leva, tem que trazer de volta. É preciso ter essa consciência ambiental. Mas é importante lembrar que venta muito nas dunas. Então qualquer saco plástico, guardanapo, papel, se ficar solto, com o vento vai tudo parar muito longe e aí tem que sair correndo para pegar. É importante guardar tudo que levar bem próximo.

SILÊNCIO – A segunda coisa é o silêncio. Qualquer tipo de algazarra, festa, música alta deve ser feita em Barreirinhas. O silêncio é importante porque permite cada visitante admirar e contemplar melhor essa beleza que são os Lençóis. Sem poluição sonora.

PROTEÇÃO SOLAR –  A terceira recomendação é se proteger do sol. Quem não tiver um guarda-sol, use protetor e fique mais dentro d’água.

SEGURANÇA – O quarto recado é importante para sua segurança: não dispersem muito do grupo, principalmente as crianças, porque o ambiente das dunas é muito parecido. Há casos de gente que se perdeu e demorou muito para ser encontrada.

PRESERVAÇÃO – A última coisa é entender que carros não são  bem vindos. O primeiro motivo é cênico, porque se vai aos Lençóis para se contemplar e não para ver carros na beira das lagoas.

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Reportagens

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