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MEMÓRIA ENCHARCADA

O esforço para salvar objetos, fotos e documentos cobertos de lama e a construção do percurso da enchente como um antimonumento pela História do Rio Grande do Sul.

 

ENCHENTE RS – A RECONSTRUÇÃO

 

Objetos boiando. Cachorro nadando. Um cavalo no telhado. Prédios públicos inundados. Cenas que vivemos e vimos em 2024, o ano da grande enchente. Objetos e documentos que faziam parte das nossas vidas. A foto da mãe, a foto do aniversário de um ano da criança, a foto da viagem de férias, a foto da avó. Lembranças que contam a nossa história e que não estão mais nos álbuns da família. Documentos que narram a História do Rio Grande do Sul e foram seriamente danificados ou perdidos.

 

MEMÓRIA ENCHARCADA: A maior parte das obras é do acervo em papel (cerca de 300 fotografias, 1.000 desenhos e 2.400 gravuras, além de pinturas, esculturas e técnicas mistas.

 

 

 

O esforço de recuperação da memória coletiva foi apresentado no 6 Seminário Brasileiro de Museologia (SEBRAMUS), realizado em Teresina, Piauí, em março, pela museóloga Doris Couto, diretora do Museu Júlio de Castilhos, doutora em História, Teoria e Crítica de Arte. Doris coordenou o grupo de técnicos, voluntárias e voluntários que se empenhou no resgate da história com o objetivo de salvar acervos e minimizar impactos na administração pública e na vida de cada um de nós.

Ao mesmo tempo, para que não esqueçamos a tragédia e para que ela nunca mais aconteça, também durante o SEBRAMUS, foi apresentado o Museu de Percurso das Enchentes-RS (MUPE), uma iniciativa de professores e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A jornalista e graduanda em Museologia Letícia Heinzelmann, foi quem falou sobre o MUPE no Seminário.

 

A MEMÓRIA DEBAIXO D’ÁGUA

As inundações que assolaram o Rio Grande do Sul, em 2024, não pouparam o patrimônio cultural do estado, relembra a museóloga Doris Couto. Levantamento realizado por técnicos revelou que 58 acervos, entre museus, memoriais e coleções privadas, foram atingidos pela força das águas, deixando um rastro de memórias encharcadas e um futuro incerto para inúmeras peças de valor histórico e afetivo inestimável.

A museóloga explica que nos primeiros dias da tragédia, a dimensão do impacto sobre os acervos ainda era incerta, agravada pela falta de informações e pela dificuldade de acesso às áreas afetadas. Estradas bloqueadas transformaram a urgência do salvamento em um desafio logístico complexo, impedindo o deslocamento de equipes especializadas e de suprimentos essenciais para o tratamento das obras. Além disso, havia o risco da contaminação por lama e esgoto, a fragilidade de documentos e objetos encharcados e a necessidade de ambientes controlados para evitar danos irreversíveis, como o mofo, por exemplo.

Em meio ao caos provocado pela enchente, o Sistema Estadual de Museus (SEM/RS) assumiu a coordenação das ações de voluntárias e voluntários. Primeiro, realizando o cadastro de 570 pessoas interessadas em trabalhar no resgate e no restauro dos itens e, na sequência, encaminhando os voluntários para o trabalho de campo de acordo com sua formação e necessidade das instituições. Cerca de 80 pessoas atuaram nos salvamentos em várias cidades gaúchas.

O SEM/RS centralizou os donativos destinados ao salvamento dos acervos, como os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), papéis absorventes e equipamentos diversos, vindos de outros estados. A logística para receber esses materiais necessitou da articulação do Instituto Brasileiro de Museus com a Força Aérea Brasileira e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

 

 

Foram 58 acervos, entre museus, memoriais e coleções privadas, foram atingidos pela força das águas, deixando um rastro de memórias encharcadas e um futuro incerto para inúmeras peças de valor histórico e afetivo inestimável.

 

A RECONSTRUÇÃO

“A reconstrução dessas memórias encharcadas demandará tempo, investimento e a união de esforços entre instituições públicas, privadas e a sociedade civil”, afirma Doris. E alerta, “é fundamental o estabelecimento de planos de recuperação emergenciais e a longo prazo, que contemplem desde a higienização e restauração das peças até a adequação de espaços para seu acondicionamento seguro”. As inundações de 2024 exibiram a vulnerabilidade do patrimônio cultural diante de eventos climáticos extremos, reforçando a urgência de medidas preventivas e de planos de contingência para proteger a história.

No âmbito das instituições do governo do estado, o trabalho especializado se deu desde o início da catástrofe e avançou para a contratação de serviços de restauro de aproximadamente 80 mil documentos do Museu do Carvão e das 4.000 obras de arte Museu de Arte do Rio Grande do Sul, além dos prédios destes mesmos museus e ainda da Casa de Cultura Mário Quintana e do Memorial do Rio Grande do Sul.

 

“Lembrar, mesmo que cause desconforto, é um dever de memória para evitar que novas tragédias voltem a acontecer”.

Letícia Heinzelmann

 

 

MUPE – MUSEU DE PERCURSO

DAS ENCHENTES

A jornalista e graduanda Letícia Heinzelmann, que apresentou o projeto do Museu de Percurso das Enchentes-RS (MUPE) no SEBRAMUS em nome de mais dois colegas, explica que “apenas ao lembrar do passado, é possível trabalhar para prevenir novas tragédias”. E recorre ao ensinamento do filósofo francês Paul Ricoeur para dizer que o “trabalho de memória deve ser recorrente e obsessivo e, para tanto, é necessário que haja lembretes permanentes que nos confrontem com o sentimento incômodo da dor e do trauma, por mais que pareça reconfortante esquecer”.

Lembrar, mesmo que cause desconforto, é um dever de memória para evitar que novas tragédias voltem a acontecer.

Partindo da Ponte de Pedra, no Largo dos Açorianos, a caminhada guiada do MUPE passa por pontos simbólicos da enchente de maio de 2024, como a Escola de Administração UFRGS, a Usina do Gasômetro, a Rua dos Andradas e a Praça da Alfândega, terminando próximo ao Mercado Público de Porto Alegre. O primeiro percurso guiado aconteceu no Dia Estadual do Patrimônio, em 17 de agosto de 2024, um sábado, com todos os sinais da tragédia ainda bem visíveis.

Em cada parada, são abordados os impactos das inundações, feitas correlações com outras áreas e setores atingidos, além da rede de solidariedade e cooperação que se seguiu ao desastre. Este roteiro pelo Centro Histórico é o primeiro trajeto mapeado, mas o percurso será ampliado e identificará outros pontos significativos da memória da enchente de 2024.

A ausência de marcos, ou a dificuldade em identificar os poucos existentes, levou a uma falta de cuidado com os sistemas de proteção contra cheias em todo o Rio Grande do Sul, salienta Letícia. O MUPE busca registrar as memórias das enchentes, tanto de forma virtual, ao delimitar em mapa interativo pontos afetados por inundações, quanto físico, ao propor percursos guiados em caminhadas culturais.

 

As museólogas Bárbara Hoch e Doris Couto se dedicaram no resgate, na recuperação e na catalogação dos acervos encharcados.

 

Os lembretes podem ser marcos grafados nas cidades, com a finalidade de servirem de antimonumentos, que cumprem a missão de fazer rememorar tragédias, períodos de exceção e outros momentos de sofrimento coletivo. A ausência de marcos, ou a dificuldade em identificar os poucos existentes, levou a uma falta de cuidado com sistemas de proteção contra cheias em todo o Rio Grande do Sul, salienta Letícia.

O museu de percurso é um dos eixos de atuação do Projeto de Extensão da UFRGS Greenart em Ação pelo Patrimônio Cultural de Porto Alegre, coordenado pelos docentes Henri Schrekker (Instituto de Química) e Jeniffer Cuty (Museologia), e conta com apoio do Sistema Estadual de Museus (SEM-RS).

 

ACERVO ARQUIVÍSTICO

A Fundação Pão dos Pobres, fundada em 1895 e que atende mais de mil crianças e adolescentes, recebeu ajuda de especialistas e voluntários para o salvamento de seu acervo. Lá a prioridade foi o acervo arquivístico. O grupo está trabalhando com 850 itens arquivísticos e 260 itens museológicos.

Em relação ao importante conjunto de acervos Fayet, Araújo e Moojen, que reúne itens da Arquitetura Moderna Brasileira no sul do país, como projetos e obras representativas de Carlos M. Fayet, Cláudio L. G. Araújo e Moacyr Moojen Marques, o tratamento dos itens vai ser retomado com a Rouanet Emergencial. O acervo tem cerca de 2.700 itens e 345 deles já foram tratados.

O acervo do grupo multicultural ‘ÓI NÓIS’ recebeu tratamento até dezembro de 2024. Logo depois, o grupo mudou de sede e agora está negociando um prédio com o Ministério da Cultura (MINC) e a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). Por esta razão o trabalho de recuperação do material foi suspenso. Do acervo do ‘ÓI NÓS’, 835 itens foram recuperados, ou seja, foram estabilizados, mas 50% deles necessitam de restauração.

Em Porto Alegre, o diagnóstico realizado pelos especialistas aponta que cerca de 4.000 itens, de mais de 700 artistas, foram de algum modo afetados durante a inundação, pelo alcance da água ou pelo prolongado efeito da umidade no interior dos prédios. A maior parte das obras é do acervo em papel (cerca de 300 fotografias, 1.000 desenhos e 2.400 gravuras, além de pinturas, esculturas e técnicas mistas.

Em relação ao acervo arquivístico, cerca de oito milhões de documentos ainda estão em processo de secagem. Nem tudo pode ser congelado, que é uma técnica empregada para depois entrar em cena o trabalho de restauro. No interior do estado, um grande volume de peças ainda necessita de restauração, com destaque para mobiliário, órgãos e pianos, totalizando cerca de 250 peças nos municípios de Igrejinha e Montenegro. Outros municípios também foram fortemente afetados.

As consequências da enchente, o número de itens recuperados e perdidos e o que fazer para impedir que a catástrofe se repita, mobilizou profissionais da área do patrimônio. Os especialistas participaram do 15º Fórum Estadual de Museus, realizado de 8 a 11 de abril, e elencaram as ações que necessitam ser implementadas para a prevenção de eventos futuros, entre eles a urgência da elaboração do plano de gestão de riscos e planos de emergências nas instituições com acervos, a articulação permanente de voluntários e sua capacitação e a qualificação geral dos museus, memoriais e locais de guarda de acervos.

 

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Rolê Cultural promove “Dia de Rolê” especial no CCBB Brasília

Em clima de férias, o Rolê Cultural – CCBB Educativo amplia a experiência do público com o Dia de Rolê: Grafite no CCBB, que convida o grafiteiro surdo Odrus para criar, junto com o público, um mural coletivo em três encontros performáticos. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados pelo site ingressos.ccbb.com.br ou presencialmente na bilheteria do CCBB Brasília.

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O evento acontece em 12, 13 e 14/12 sempre das 15h30 às 18h30 e leva a linguagem da arte urbana para a área externa do centro cultural. Em uma oficina performática conduzida por Odrus, o público acompanha e participa da criação de um mural coletivo e interativo. Ao longo de três dias, crianças, jovens e adultos podem experimentar técnicas de grafite com tinta spray atóxica à base de água, aprender truques diretamente com o artista e vivenciar o grafite como expressão de presença, escuta e ocupação poética do espaço público.

O Dia de Rolê integra a programação gratuita de férias do Rolê Cultural – CCBB Educativo, com atividades pensadas para famílias, grupos de amigos e visitantes de diferentes idades, sujeitas à lotação dos espaços. O projeto é patrocinado pelo Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

Sobre o CCBB Brasília

O Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB Brasília) foi inaugurado em 12 de outubro de 2000. Sediado no Edifício Tancredo Neves, uma obra arquitetônica de Oscar Niemeyer, tem o objetivo de reunir, em um só lugar, todas as formas de arte e criatividade possíveis.

 Com projeto paisagístico assinado por Alda Rabello Cunha, dispõe de amplos espaços de convivência, galerias de artes, sala de cinema, teatro, praça central e jardins, onde são realizados exposições, shows musicais, espetáculos, exibições de filmes e performances.

 Além disso, oferece o Programa Educativo CCBB Brasília, projeto contínuo de arte-educação, que desenvolve ações educativas e culturais para aproximar o visitante da programação em cartaz, acolhendo o público espontâneo e, especialmente, estudantes de escolas públicas e particulares, universitários e instituições, por meio de visitas mediadas agendadas.

 Em 2022, o CCBB Brasília se tornou o terceiro prédio do Banco do Brasil a receber a certificação ISO 14001, cuja renovação anual ratifica o compromisso da instituição com a gestão ambiental e a sustentabilidade.

 Acessibilidade
A ação “Vem pro CCBB” conta com uma van que leva o público, gratuitamente, para o CCBB Brasília, de quinta-feira a domingo. A iniciativa reforça o compromisso com a democratização do acesso e a experiência cultural dos visitantes. A van fica estacionada próxima ao ponto de ônibus da Biblioteca Nacional. O acesso é gratuito, mediante retirada de ingresso no site, na bilheteria do CCBB ou ainda pelo QR Code da van. Lembrando que o ingresso garante o lugar na van, que está sujeita à lotação, mas a ausência de ingresso não impede sua utilização. Uma pesquisa de satisfação do usuário pode ser respondida pelo QR Code que consta do vídeo de divulgação exibido no interior do veículo.

Horários da van – De quinta a domingo: Biblioteca Nacional – CCBB: 13h, 14h, 15h, 16h, 17h, 18h, 19h e 20h | CCBB – Biblioteca Nacional: 13h30, 14h30, 15h30, 16h30, 17h30, 18h30, 19h30, 20h30 e 21h30.

Programação:

Dia de Rolê: Grafite no CCBB

O Rolê Cultural recebe o grafiteiro surdo Odrus para uma oficina performática de grafite. Nessa ação que mistura diferentes linguagens artísticas, o público é convidado a assistir e participar da criação de um mural coletivo e interativo. Ao longo de três dias, os participantes poderão experimentar técnicas e truques da arte urbana com tinta spray atóxica à base de água, aprendendo diretamente com o artista enquanto contribuem para a composição da obra.
Data: 12, 13 e 14/12 sempre das 15h30 às 18h30

Duração: 3h
Classificação: A partir de 6 anos

Ponto de encontro: Área externa

 

Serviço:

Rolê Cultural – Educativo do Centro Cultural Banco do Brasil

Centro Cultural Banco do Brasil – Distrito Federal

Endereço: SCES Trecho 2 – Brasília/DF  Tel.: 61 3108-7600

Programação completa em ccbb.com.br/brasilia/programacao/ccbb-educativo 

Ingressos: ingressos.ccbb.com.br     
Agendamento para grupos e escolas: conecta.mediato.art.br

Acesso: gratuito

Classificação Indicativa: livre

CCBB Brasília

Aberto de terça a domingo, das 9h às 21h.

SCES Trecho 2 – Brasília/DF

Tel: (61) 3108-7600

E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Site/ bb.com.br/cultura

Instagram/ccbbbrasilia

Tiktok/@ccbbcultura

Youtube/ Bancodobrasil

Fonte: Camila Maxi

Foto: Tati Reis.

 

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Os protagonistas de Brasília são homenageados no Prêmio JK

Evento do Correio Braziliense celebra talentos de várias áreas e eterniza o legado cultural de Guilherme Reis.

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Os vencedores da primeira edição do Prêmio JK, promovido pelo Correio Braziliense, serão anunciados amanhã. A premiação destaca personalidades que contribuem para o desenvolvimento da capital em áreas como esporte, direito e justiça, saúde e gestão pública. Na categoria In Memoriam, o homenageado é o ator, diretor, produtor e ex-secretário de Cultura Guilherme Reis, que morreu em setembro, aos 70 anos.

A cerimônia será realizada nesta terça-feira (9/12), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas da União (TCU). Os premiados foram escolhidos por uma comissão formada por jornalistas do Correio, profissionais que acompanham de perto o cotidiano da cidade e identificam, com olhar crítico, quem realmente ajuda a construir Brasília.

Uma homenagem ao fundador da capital

O nome do prêmio celebra o legado do ex-presidente Juscelino Kubitschek, idealizador de Brasília e responsável por transformar em realidade o sonho da nova capital. Assim como JK fez o país olhar para o futuro, o Correio Braziliense também faz parte dessa história: ambos completaram 65 anos em abril. Em 2024, os Diários Associados comemoraram ainda o centenário do grupo criado por Assis Chateaubriand.

Movido por paixão e dedicação ao teatro

Homenageado na categoria In Memoriam, Guilherme Reis deixou uma marca profunda no cenário cultural do Distrito Federal. Diretor do Teatro Dulcina de Moraes, atuou tanto na vanguarda teatral quanto no desenvolvimento de eventos culturais que se tornaram referência para Brasília.

Sua esposa por 20 anos, Carmem Moretzsohn, 63, emociona-se ao recordar o companheiro:
“Generoso, afetuoso, com uma empatia rara e um humor inabalável.”
Ela lembra que Guilherme era movido por uma paixão incondicional pelo teatro e dominava todas as funções da cena.
“Se faltasse alguém, ele mesmo resolvia. Era ator, diretor, iluminador, cenógrafo, figurinista e, sobretudo, um grande produtor. Estar presente neste prêmio o deixaria profundamente feliz.”

Melina Sales dos Santos, 46, atriz e arte-educadora, casada com o filho de Guilherme, também guarda lembranças afetivas.
“Era um avô muito generoso para a Zilah, sempre presente com carinho, brincadeiras e memórias inesquecíveis. Somos muito gratos por essa convivência.”

Uma tradição que nasce

A primeira edição do Prêmio JK marca o início de uma nova tradição do Correio Braziliense, que pretende transformar o evento em parte fixa do calendário cultural e institucional do Distrito Federal — assim como outras iniciativas históricas do jornal.

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AS ÁRVORES LUNARES

As sementes que orbitaram a Lua são hoje árvores em Brasília e outras cidades. O plantio das mudas ocorreu há 45 anos e as arvores já estão na segunda geração.

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A Apollo 14, operada pelos astronautas Alan Shepard, Edgar Mitchell e Stuart Roosa, fez a terceira missão lunar da NASA. A nave espacial decolou no final da tarde de 31 de janeiro de 1971 e retornou em 9 de fevereiro.  A missão foi tão especial que rende frutos até hoje por um experimento científico inédito: a expedição levou para o espaço 500 sementes de árvores de várias espécies, que deram 14 voltas na lua. No retorno à Terra, as sementes foram plantadas, germinadas e renderam mudas que foram distribuídas nos Estados Unidos e em alguns países amigos. O objetivo era estudar a ação da microgravidade sobre as plantas. No Brasil, quatro cidades receberam mudas: Brasília, Rio de Janeiro e, no Rio Grande do Sul, Santa Rosa e Cambará do Sul.

 

Na volta à Terra, as sementes foram plantadas e germinaram em uma unidade do Serviço Florestal no estado do Mississippi. Renderam 450 mudas. Como parte das comemorações do bicentenário dos Estados Unidos, as mudas foram distribuídas por vários locais, entre 1975 e 1976. Para a NASA, a árvore representa a ligação da cidade com a história da exploração espacial e a união entre ciência, meio ambiente e inovação.

No Brasil, segundo a Agência Espacial norte-americana, quatro localidades receberam mudas da Árvore da Lua:
1) Brasília, na sede do Ibama, onde existe um bosque, foi plantado um carvalho canadense ‘Liquidambar styraciflua’, conhecido popularmente como liquidâmbar), em 14 de dezembro de 1980.

2) Outra, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

3) No Parque de Exposições de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, foi plantada uma muda de plátano (Platanus occidentalis) como atração pela 5ª Feira Nacional da Soja em agosto de 1981. O evento foi celebrado para comemorar os 50 anos de Santa Rosa.

4) Outra sequoia foi plantada em Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, em 26 de setembro de 1982, na Praça Central São José.

Apollo 14: as árvores da lua e os cosmonautas Suart Roosa, Alan Shepard e Edgar Mitchel (foto: NASA)

 

A HISTÓRIA

O experimento científico foi realizado em conjunto entre o Serviço Florestal dos Estados Unidos e a NASA, com o objetivo de estudar a ação da microgravidade sobre as plantas. O Serviço Florestal dos EUA indicou Stuart Roosa para comandar o projeto e selecionou as sementes de cinco espécies para o experimento. Stuart Roosa levou as sementes em seu kit pessoal e ficou com ele enquanto orbitou a Lua.

As sementes que orbitaram o satélite natural da Terra durante o voo tripulado foram germinadas e plantadas em solo terrestre. O experimento recebeu o nome de árvores lunares ou árvores-da-lua, mas ficou claro que não houve germinação ou plantio na superfície lunar.

Na volta à Terra, as sementes germinaram em uma unidade do Serviço Florestal no estado do Mississippi. Elas renderam 450 mudas.

Além de uma árvore plantada no jardim da Casa Branca, em Washington-DC, a maioria das mudas seguiu para capitais estaduais dos Estados Unidos, para instituições de pesquisas espaciais e, até onde se sabe, para alguns países amigos, como o Brasil, Inglaterra, Suíça e Japão.

 

 

BRASÍLIA – Há 45 anos, em 14 de dezembro de 1980, autoridades da Embaixada dos Estados Unidos, do  Ibama e do Ministério do Meio Ambiente plantaram a ‘Liquidambar styraciflua’, conhecida como Árvore da Lua.

 

Placa que lembra o plantio do carvalho canadense – liquidâmbar – em 14 de dezembro de 1980. (foto: Silvestre Gorgulho)

 

BRASÍLIA – A muda de um carvalho canadense – liquidâmbar  – é hoje uma árvore frondosa. Foto de Silvestre Gorgulho em 04 de novembro de 2025.

 

 

 

A ARVORE DA LUA EM SANTA ROSA-RS

A árvore lunar de Santa Rosa serve não apenas como um marco de curiosidade científica, mas também como um símbolo de esperança, perseverança e inovação, associando a cidade a uma parte da história da humanidade. Além disso, ela se tornou um ponto de interesse para moradores e visitantes que se fascinam com o legado da exploração espacial dos Estados Unidos e seu impacto no mundo inteiro.

 

Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, foi uma das cidades brasileiras agraciadas com uma dessas árvores lunares. A espécie plantada na cidade é um *plátano* (Platanus occidentalis), que é uma das cinco variedades levadas ao espaço. Essa árvore foi plantada em um local público, e sua presença simboliza a ligação de Santa Rosa com um evento histórico significativo: a exploração espacial.

 

Placa que lembra o plantio da Árvore da Lua, em Santa Rosa (RS)  em 13 de agosto de 1981, com a presença do presidente João Baptista Figueiredo.

 

A árvore lunar de Santa Rosa serve não apenas como um marco de curiosidade científica, mas também como um símbolo de esperança, perseverança e inovação, associando a cidade a uma parte da história da humanidade. Além disso, ela se tornou um ponto de interesse para moradores e visitantes que se fascinam com o legado da exploração espacial dos Estados Unidos e seu impacto no mundo inteiro.

 

A sequoia plantada em Cambará do Sul, em 1982, entre dois cambarás, na Praça São José, consta na lista da NASA.

 

 

SEGUNDA GERAÇÃO DA ÁRVORE DA LUA

Detalhe interessante é que uma segunda geração da sequoia lunar foi doada à Prefeitura de Caxias do Sul. Essa muda é derivada de árvore cultivada em Santa Rosa na década de 1980 e passou por um período de adaptação antes de ser plantada no Jardim Botânico Armando Alexandre Biazus, de Caxias do Sul-RS.

Segundo engenheiro agrônomo Ramon Sirtoli, da SEMMA, a muda com cerca de 30cm de altura foi obtida por meio do processo de multiplicação a partir da planta-mãe. “Antes de ir para o Jardim Botânico, a muda foi levada para o Horto Municipal, em Ana Rech, onde passou por um período de adaptação, em estufa, para ter condições favoráveis para o desenvolvimento ser mais rápido”.

 

FUNDAÇÃO MOON TREE

 

Natural de Durango, Colorado, o norte-americano Stuart Roosa nasceu em 16 de agosto de 1933. Ele trabalhou para o Serviço Florestal dos EUA no início dos anos 1950, combatendo incêndios e, mais tarde, juntou-se à Força Aérea dos EEUU e se tornou um piloto de teste. A Nasa selecionou Roosa para o curso de formação de astronauta de 1966. Ele começou a carreira na Nasa como integrante da equipe de apoio da Apollo 9. Após a missão em que ele levou as sementes à órbita da Lua, Roosa foi piloto reserva de comando das Apollos 16 e 17.

Hoje existe uma entidade, a Fundação Moon Tree, que é dirigida pela filha de Roosa, Rosemary, com o objetivo de mapear e plantar mais árvores da Lua em regiões ao redor do mundo. A fundação patrocina e realiza cerimônias para plantar novas árvores, com sementes produzidas pela geração original de árvores que cresceram a partir das sementes carregadas pelo seu pai Stuart Roosa.

 

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